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A Comissão Municipal para a Celebração do Centenário da República incluiu no seu programa uma visita de estudo à Casa-Museu dos Patudos, em Alpiarça, destinada aos alunos do Curso Profissional de Conservação e Restauro, da Escola Secundária do Sabugal.

(Clique nas imagens para ampliar)

Adérito Tavares - Na Raia da MemóriaAcompanhados por um grupo de professores, pelo Director da Escola, Dr. Jaime Vieira, pelo Presidente da Câmara Municipal do Sabugal, Eng.º António Robalo, e por mim próprio, esta visita efectuou-se no dia 26 de Outubro.
Porquê, no âmbito do Centenário da República, uma visita à Casa dos Patudos? Porque esta extraordinária mansão, recheada com uma também extraordinária colecção de obras de arte, foi residência de um dos maiores vultos da I República, aquele que a proclamou em 5 de Outubro de 1910 a partir da varanda da Câmara Municipal de Lisboa: José Relvas.
Lembremos, em breves palavras, José Relvas, essa notabilíssima figura de cidadão exemplar, político competente e mecenas generoso.
José de Mascarenhas Relvas nasceu na Golegã, em 1858 (curiosamente, no mesmo ano em que nasceu, na Ruvina, o «nosso» Dr. Joaquim Manuel Correia), no seio de uma abastada família. Era filho de Carlos Relvas, que se notabilizou, entre outras e muito diversificadas actividades, como pioneiro da fotografia em Portugal (merece uma visita a sua Casa-Estúdio na Golegã).
José Relvas licenciou-se em Direito na Universidade de Coimbra, no ano de 1880, mas só tardiamente se interessaria pela vida política. Sendo um democrata convicto, demonstrou abertamente a sua discordância em relação ao governo ditatorial de João Franco e aderiu ao Partido Republicano, em 1908. A partir de então, dedicou-se de alma e coração à propagação e defesa dos ideais do republicanismo, tendo-se tornado um dos elementos mais activos do Directório Republicano.
Em 1882, o jovem José Relvas, então com 24 anos, mudou a sua residência para Alpiarça. Quando, em 1887, morreu a sua mãe, D. Margarida Amália de Azevedo Relvas, reclamou a respectiva herança, dispondo assim de capitais suficientes para desenvolver os seus negócios agrícolas, sobretudo a produção vinícola. Foi a prosperidade resultante desses negócios que lhe permitiu construir a Casa dos Patudos.
Esta enorme casa familiar foi projectada, em 1904, por Raul Lino, nesta altura um jovem arquitecto, com apenas 25 anos. Sendo embora uma das suas primeiras obras, a Casa dos Patudos possui já as características fundamentais da obra de Raul Lino, que haveriam de marcar indelevelmente a arquitectura portuguesa da primeira metade do século XX: um sábio doseamento de tradição revivalista e de modernidade.
Inaugurada em 1909, a Casa de José Relvas e da sua família tornar-se-ia simultaneamente uma casa-museu, que, pouco a pouco, viria a albergar uma impressionante colecção de pintura, escultura e artes decorativas, e uma mansão cultural, onde Relvas reunia habitualmente numerosos amigos, sobretudo músicos e artistas plásticos. Ele próprio era um bom violinista (teve um Stradivarius) e o seu filho mais velho, Carlos, tocava piano. Eram, portanto, muito frequentes os serões musicais na Casa dos Patudos.
Sendo por natureza um homem sensível, amante das artes, dedicou boa parte da sua vida à «nobre arte da amizade»: teve a sorte de viver numa das épocas mais fecundas da cultura portuguesa e contava entre os seus amigos artistas como José Malhoa, Columbano, Silva Porto, Tomás da Anunciação, João Vaz, António Ramalho, Rafael Bordalo Pinheiro, Soares dos Reis e Teixeira Lopes, aos quais encomendou ou adquiriu numerosas obras. Nas suas estadias e viagens ao estrangeiro foi também adquirindo quadros de alguns dos mais notáveis pintores europeus de todos os tempos, como Zurbarán e Delacroix. Para além de pintura de grande qualidade, Relvas coleccionou também preciosas obras de escultura, cerâmica, azulejaria, joalharia, tapeçaria, mobiliário, etc.
A partir de 5 de Outubro de 1910, a vida de José Relvas sofreu uma transformação radical: passou a viver muito mais tempo fora de Alpiarça, longe dos seus quadros, do seu violino e dos seus livros. Foi nomeado ministro das Finanças do Governo Provisório, em substituição de Basílio Teles. Exerceu o cargo com grande empenho, competência e escrupulosa dedicação. Algo desiludido, porém, com os rumos da instabilidade política, aceitou o cargo de embaixador de Portugal em Madrid, onde permaneceu entre 1911 e 1914. Regressado ao país, foi depois senador e, em 1919, Presidente do Conselho de Ministros, num breve governo de apenas três meses, formado na sequência do assassinato de Sidónio Pais. Este foi um tempo particularmente funesto na vida de José Relvas: já anteriormente lhe haviam morrido dois filhos e, no ano devastador de 1919, suicida-se o filho mais velho (agora único), Carlos Relvas. Entre 1919 e 1929, ano da sua morte, José Relvas abandona definitivamente a política, refugiando-se na sua actividade de agricultor e na fruição da sua imensa e preciosa colecção artística.
Foi essa vasta e maravilhosa colecção que, de sala em sala, foi encantando os alunos e professores da Escola Secundária do Sabugal.
«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares

ad.tavares@netcabo.pt

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É necessário um acto de desagravo à Senhora da Póvoa.

Pinharanda Gomes - Carta DominicalEstão frescas na nossa memória as notícias de dois graves sacrilégios: com uma serra de serrar rocha, alguém cortou e roubou as cruzes manuelinas (do século XVI) que desde há séculos estavam implantadas no adro da Matriz de Loures e nos Quatro Caminhos de Frielas. Inacreditável! Para que irão e para que servirão essas cruzes, emblemas do património nacional, acerca de cujo destino não vemos as autoridades em acção. É pedra… Se fossem notas!
Somos agora feridos com uma punhada no peito, quando soubemos que a veneranda e antiga imagem de Nossa Senhora da Póvoa de Vale de Lobo tinha sido roubada do seu santuário.
Nossa Senhora da Póvoa é, desde dos fins do século XVIII, o santuário mariano da Beira Baixa e de Ribacoa. Os mais novos não sabem, mas os da minha geração, jovens nos meados do século XX, ainda nos lembramos das filas de carros de tracção animal (bois, burros ou cavalos) enfeitados com festões e colchas de seda, transportando famílias inteiras, para a Senhora da Póvoa, logo na segunda-feira de Pentecostes. Romagem para dois dias, levava-se de comer o bastante e, à ida e à volta, era costume parar no sítio do Castanheiro das Merendas, já muito depois do Sabugal, para alimentar os animais e as pessoas.
Senhora da PóvoaRomaria de piedade, de promessas e também das folias que vinham de Monsanto e de Penamacor, com os seus estandartes, descantes e bombos; e, algumas vezes, toldados pelo vinho, moços que acabavam em lutas de vida e de morte. Leiam o «Maria Mim» de Nuno de Montemor e a «Celestina» de Joaquim Manuel Correia.
O ladrão deve ter-se arrependido, e abandonou a secular e sagrada imagem, debaixo de uma árvore, onde gente do povo a encontrou. Já devolvida à sua santa casa, falta agora que os povos da Beira-Côa e da Beira da Malcata e do Meimão, procedam a uma cerimónia de desagravo, na presença de todas as autoridades civis, militares e políticas da região. Não é possível que nada se faça como se nada tivesse acontecido:

«Nossa Senhora da Póvoa
Tem um galo no andor,
Cada vez que o galo canta
Acorda Nosso Senhor»

«Carta Dominical», opinião de Pinharanda Gomes
pinharandagomes@gmail.com

JOAQUIM SAPINHO

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Em exibição nos cinemas UCI

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