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O forno da minha aldeia. Há muitos anos, claro. Melhor: os fornos do Casteleiro. Fornos de cozer o pão, evidentemente (havia os outros «fornos», muitas vezes designados só assim: eram os do volfrâmio, de que já falei aqui). O do pão era um forno de uso colectivo, embora de propriedade particular. Um cheirinho a pão e bolos, que, meu Deus…

José Carlos MendesEstaremos aí por meados da década de 50 do século XX, no Casteleiro. O forno é um equipamento social indispensável e mesmo essencial de uma aldeia naqueles anos.
Da minha lembrança, o forno mais importante era o da t’ Mari’ Bárb’la (Maria Bárbara). Quer dizer: o forno não era dela. Ela era como que a gestora daquilo. E de que modo o geria! Havia dois fornos. Mas este é que era o mais castiço. E a forneira era de facto um cromo. Escrevi sobre esta questão há muito tempo noutro local da net. Chegou a hora de o partilhar com os leitores do ‘Capeia’, com umas fotos arrancadas ao satélite, que podem dar uma vaga ideia das imagens que nesta matéria me povoam as sinapses estabelecidas pela massa encefálica…

Ordem para «tinder»
No processo de fabrico do pão (centeio, escuro), há vários momentos. Estão aqui, claro, a lembrar-me isso. Tudo começa em casa com a amassadura. Depois, fica em repouso. Mas só podem ser moldados os pães um a um e colocados direitinhos no tabuleiro (chama-se a isso «tender») quando a forneira dá essa ordem à aldeia – ou melhor, à parte da aldeia que coze nesse dia.
É um mecanismo simples para a época: a t’ Mari’ Bárb’la percorre as ruas onde moram as pessoas da lista do dia e vai de gritar a grandes pulmões (era uma matrona razoável, como tinha de ser):
– Ó ti’ Vesitação!!! Já pode tinder!!!
Isto, bem berrado, como convinha.

(Até se conta que um dia uma das da lista, com os copos a sério, não quis saber dessa ordem de «tinder» da forneira e, sem pudor, porque o cérebro estava noutra, terá respondido:
– O pão logo se tende amanhã…
É preciso que se perceba o absurdo desta resposta: o processo de fermentação do pão é imparável, como é evidente… Mas a cabeça da senhora, com a vinhaça, não estava nessa…).

A tarefa de tender tinha um ritual muito específico. Lembro-me muito bem. Primeiro passo: espalhar uma camada de farinha ao de leve, semeando com a mão, de modo a forrar o tabuleiro todo. Segundo passo: fazer os pães, um a um, muito bem arrumadinhos, bonitos, arredondados ou mais sobre o oval, à vontade da dona.
«Intermezzo».
Já agora recordo a quem ande distraído que isto eram tarefas só das mulheres…
Seguindo: depois de arrumadinhos os pães, era sagrado que entrava o momento da fé: cada pão era religiosamente marcado com uma cruz desenhada em cima espetando a pá de ferro, já preta, nos sentidos Norte/Sul e Este/Oeste…
E com cada cruz a mesma «reza»:
Deus, Nosso Senhor,
Te acrescente
E os Anjos, no Céu,
Para sempre.

A seguir todos os pãezinhos (sei que pela norma não devia pôr o til, mas «paezinhos» nem me parece português…) eram cuidadosamente tapados com um pano tipo lençol branco.

Ir ao forno
Depois disso, era só ir até ao forno.
Tabuleiro à cabeça, rua abaixo.
Por grupos, os tabuleiros iam dando entrada no forno.
Cada fornada, eram despachadas sete ou oito freguesas.
O pão cozia.
Enquanto isso, as mulheres conversavam, conviviam.
A vida da aldeia, evidentemente, passava toda por aquele telejornal colectivo da altura.
Por vezes iam também uns bolos pequenos. De vez em quando, com esses bolos, ia também um «pão-leve» (pão-de-ló) ou, em ocasiões especiais, até talvez um tabuleiro de «doces», pequenos montes redondos de massa doce e fofa, com algum açúcar queimado no cocuruto, quase caramelizado: uma delícia de que me lembro a lamber os «bêços» até hoje.
Tarefa concluída, ala que se faz tarde: tabuleiros de madeira com o pão para toda a semana e mais as eventuais guloseimas.
E ninguém pagava em dinheiro – que era coisa que não abundava por ali. Pagavam, sim, em espécie: um pão, uns bolos… Era, também nesta actividade, uma espécie de maquia: deixar lá parte do produto – algo como troca directa para pagar serviços. Como acontecia com a maquia do azeite no lagar até há um par de anos atrás.

Pão e batatas: a base da alimentação de muitas famílias, quase todas, por aqueles dias.
As batatas, semeadas com base familiar.
O pão, o forno, a cozedura, com um colorido de tarefa colectiva, social.

Nota
Para quem gosta, eis um filmezinho de 8 minutos com as crias de uma mãe especial e de grande significado também para a nossa região: são as crias de lince ibérico em Silves. Pode ver aqui. Aliás, se deixar o vídeo ir até ao fim, fica com várias opções para se deliciar.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

«Haja saúde e coza o forno», sentenciava o nosso povo, querendo afirmar a importância maior que tinha a saúde e o pão, alimento de todos os dias. Em verdade, a alimentação nas aldeias baseava-se no pão, que se embutia só ou com peguilho. Mas para que houvesse pão na mesa, tinha que funcionar o forno, onde era confeccionado.

Forno ComunitárioNa aldeia o forno era comunitário e no seu uso valia o sistema da adua, com regras ancestrais religiosamente cumpridas, para que ninguém se visse privado de usufruir de um bem essencial.
O forno era construção sóbria, normalmente dentro de uma choupana ou casebre, no meio da povoação, para que todos lhe tivessem fácil acesso. Tinha, por regra, uma arquitectura circular, em forma de cúpula, erguida em tijolo-burro. A cobrir a cúpula era colocada uma camada de terra barrenta, o que ajudava a preservar o calor. A parede exterior, que envolvia a cúpula, era edificada em granito ou em xisto, conforme a morfologia do terreno em que assentava a aldeia. O forno tinha apenas uma boca, por onde entrava a lenha, se retirava a cinza, assim como entrava e saía o pão no acto da cozedura. Ao redor tinha pousos de pedra, para aí se colocarem as masseiras, que traziam a massa tendida e levavam o pão no final da operação. Também ao redor existia sempre uma grande pia de pedra, que se mantinha cheia de água, para nela se embeber o trapo com que se varria o forno.
Para cada fornada era necessário aquecer o forno, metendo-lhe dentro mato seco, a que se apichava lume, cabendo ao forneiro voltear o fogo com a ajuda do ranhadouro, ou bulidor, que não era mais que um varapau comprido, manejado com habilidade para rapidamente espalhar o braseiro por todo o espaço interior. Depois de bem aquecido, era preciso retirar os restos da combustão, o que se fazia com o manejo do mesmo ranhadouro. No fim, para limpar os restos de cinza, usava-se o varredouro, ou vasculho, outro varapau, com um trapo atado na ponta, que, encharcado na água da pia, lavava o solo do forno.
Meter o pão no fornoEntretanto, já a forneira amassara e tendera o pão, dando-lhe a forma devida, e trouxe-o para junto da boca do forno, dentro de um tabuleiro. O forneiro, com o manejo da pá, ia acomodando o pão, no soalho do forno, chispando depois a porta de ferro, para manter a alta temperatura.
Dado que em muitas ocasiões uma fornada levava pão de mais de uma pessoa, era uso colocar-lhe um sinal identificativo, para não houver enganos. Ao fim de cerca de uma hora, a porta era franqueada, e verificava-se o estado da cozedura. Se dado por apto, o pão era retirado com a pá e colocado no tabuleiro, onde a dona o transportaria para casa.
Em muitas terras, os fornos comunitários tinham proprietário, estando aqui designado um forneiro, que tinha por responsabilidade manusear o equipamento e ainda um joineiro, que era quem tinha a incumbência de arranjar e transportar lenha para uso do forno. Também aqui era livre o acesso ao forno, tendo porém os utilizadores que deixar a «poia», no fim de cada cozedura. Isso era a paga ao proprietário, ao forneiro e ao joineiro e consistia num pão para cada um dos intervenientes referidos.
Geralmente os fornos eram também o local onde a rapaziada se juntava nas noites inverniças, aproveitando o ar quente que ali se sentia. Os fornos eram, assim, um equipamento essencial das aldeias, onde o povo se juntava periodicamente, não apenas para cozer o pão, mas também para falar da vida, conviver, propagar e recolher todas as novidades da terra.
Paulo Leitão Batista

JOAQUIM SAPINHO

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