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A camioneta da carreira. O seu motorista. Eis mais duas marcas de água daqueles idos de 1950/60. O Casteleiro, situado na estrada nacional, era ainda assim beneficiado por viagens diárias deste meio de transporte.

Posso garantir que as estradas mais usadas – embora muito pouco usadas, de facto – pelos habitantes do Casteleiro à época seriam, por esta ordem:
– 18-3 (EN 18-3): Teixoso, Caria, Casteleiro, Terreiro das Bruxas;
– EN 233: Terreiro das Bruxas, Santo Estêvão, Sabugal, Pega, Barracão;
– Ramal Quintas do Espinhal-Belmonte.
Ou seja. Os trajectos Casteleiro-Sabugal, Casteleiro-Caria, Casteleiro-Belmonte.
De resto, uma ou outra pessoa, uma vez ou outra ia até à Covilhã ou à Guarda, pouquíssimos iam uma ou duas vezes na vida a Lisboa, talvez apanhando o comboio em Caria ou em Belmonte. E era tudo.
Isso, repito sempre, antes da emigração. Aí as coisas mudaram bastante.
Estou a falar de um tempo em que a acessibilidade das pessoas do Casteleiro às terras próximas era muito, mas muito reduzida e em que a sua capacidade de locomoção era ainda mais limitada.
Exemplo: hoje em 80% das famílias haverá alguém com um carro. As deslocações pareceriam assim mais simples. Mas hoje o problema é outro: é que os idosos estão na terra sozinhos e as famílias, muitas delas, vivem fora. O problema é esse. Naquela altura (anos 50 e 60), ninguém, quase ninguém, tinha carro.
Por isso, a viagem pendular da camioneta da carreira ganhava importância especial.
Trata-se pois de uma época em que para se ir de casa aos terrenos, perto ou longe, os meios ao dispor eram: a caminhada (hoje já quase só com uma dimensão de desporto e saúde, mas, à data, algo bem mais usual e diário, por necessidade mesmo), às vezes em cima da burra, ou, para quem tinha, o carro de vacas. E era tudo.
Para se ir à Vila (hoje Cidade do Sabugal), onde se ia às feiras e onde se tinha mesmo de ir para lidar com o Estado, em sentido lato (a Câmara, as Conservatórias e as Finanças), em geral ia-se na camioneta da carreira:
– Vou na carreira.
A mesma carreira servia para se ir a Caria ou a Belmonte.
Raramente, ia-se de carro de aluguer (táxi).
Nos anos 60 começam a aparecer os carros dos emigrantes e tudo muda a partir daí.

Camioneta Viúva Monteiro - Foto Empresa Viúva Monteiro

O ícon da carreira
Mas este meio de deslocação, a carreira, foi uma marca de água daquelas terras naqueles tempos. Antes de mais, por ser um dos poucos sinais de que havia mais mundo. Mas mais ainda por ser o meio de se poder ir a algum sítio. Por necessidade. O motor de 90% das deslocações, estou convicto, era a necessidade: pagar as contribuições, comprar os remédios nas farmácias – coisas assim obrigatórias.
O mundo terminava onde terminava o circuito da carreira: Belmonte para um lado, Sabugal para o outro.
A carreira passava às tantas, para um lado e para o outro, como um pêndulo, devagar, longas horas de trajecto, de e para o Sabugal, de e para Belmonte.
A viatura, parecida com a da foto, se bem me lembro, era muito antiga, mas raramente avariava.
Era da Empresa de Transportes do Zêzere, creio.
O condutor (motorista) merece aqui uma referência específica: era o Ti’ Saraiva, gordo, de todos conhecido, bonacheirão, simpático, sempre na calma.
O Sr. Saraiva não tinha aquecimento no inverno nem arrefecimento no verão. Quando estavam 2 ou 3 graus era um drama naquelas viagens; quando estavam aqueles dias do diabo do pino do verão, era outro sarilho.
Como era é que era: tudo ao natural.
A hora de chegada da carreira era um momento alto no Terreiro de São Francisco (hoje Largo): muitos de nós, se não estávamos na escola, íamos dar de comer aos olhos – mesmo sabendo que pouco haveria para variar as vistas…
A camioneta da carreira dava para os mais velhitos irem espreitar alguma beldade e para para nós, os pequenitos, treinarmos o skate da época, que funcionava assim: estávamos ali três ou quatro à espreita nos bancos do largo de São Francisco, ninguém se aproximava da viatura, não fosse o Ti’ Saraiva dar conta e estragar a festa. Mal ele arrancava, devagar, devagarinho, zás: corríamos para a escada que a carreira tinha lá atrás e pendurávamo-nos nos banços (degraus). Depois, a camioneta andava um pouco mais depressa e vai de pôr os pezitos na estrada, a arrastar, para tentar saltar antes da curva do Largo do Chafariz, lá em baixo… era cá uma adrenalina…
Ou seja: apanhávamos boleia, pendurando-nos lá atrás e indo uns minutos pendurados, com os pés mais ou menos a arrastar pelo chão. Aliás, não era só com a carreira que apanhávamos essa boleia. Fazíamos isso também com a camioneta do peixe e um ou outro caso de camionistas que por ali paravam.

Recorde as «carreiras» da Viúva Monteiro. Aqui.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

No «Crónicas do Rochedo» do tanguero Carlos Barbosa de Oliveira foi aberta uma discussão sobre a reportagem televisiva do fenómeno «Tony Carreira». Há quem goste, há quem não goste mas… o mais importante é que ninguém consegue ficar indiferente.

Tony CarreiraO percurso do cantor Tony Carreira desde a sua aldeia na Beira Interior até ao Pavilhão Atlântico, passando pelo Olympia de Paris e pelos Coliseus de Lisboa e do Porto já não consegue deixar ninguém indiferente.
Com tudo o que isso significa não tenho qualquer prurido em considerá-lo no panorama português ao nível de Julio Eglesias em Espanha e no Mundo.
Há quem goste, há quem não goste mas já ninguém consegue ficar indiferente. Nem os homens que têm de conviver com as fotografias do cantor da guitarra que as suas mulheres espalham pelas molduras e paredes lá de casa.
Vem isto a propósito do artigo no «Crónicas do Rochedo» sobre a reportagem televisiva que passou esta quarta-feira, na RTP1, sobre o percurso profissional do cantor que nos autógrafos que dá aos fãs assina como Tony Carreira.
Até eu já meti a minha colherada…
Podem espreitar… aqui e aqui.
jcl

«Terra-Vida-Alma, Valongo do Côa», é um livro escrito por uma família ilustre, de pedagogos e investigadores, fiéis ás berças, que lançaram mão a uma profunda e nobre tarefa: a elaboração de um rigoroso estudo sobre a história e a cultura da terra natal.

O livro de Valongo do CôaOs autores, unidos por laços de sangue, são: Francisco Carreira Tomé, Alice Tomé, Teresa Pires Carreira, Nuno Rafael Tomé e Filipe Alexandre Carreira. São professores nascidos em Valongo, mas que residem e trabalham longe da aldeia natal. Porém Valongo está-lhes no coração e o livro, editado no ano 2000, espelha a saudade dos tempos idos, da altura em que o povo sentia mais o pulsar da vida, com as casas habitadas e os campos em permanente cultivo.
Valongo é terra de gente sofredora, porque, no longo tempo, sujeita a muitas contrariedades: o clima agreste (nove meses de Inverno e três de inferno), a pobreza crónica das suas terras de cultivo, a sujeição histórica a invasões e a refregas fronteiriças. Só que a aldeia teve também os seus mimos, sobretudo visíveis nos excelentes produtos que a terra produz, e, ainda mais, na vivência quotidiana de antigamente, em que as tradições e os aspectos etnográficos das actividades desenvolvidas lhe deram um forte manancial de cultura popular que urge preservar. E este livro de fortes sentimentos, de exaltação de um povo, traz à liça os elementos que lhe podem consagrar o futuro, como sejam: o aproveitamento da beleza natural, a reposição de tradições, a dinamização do convívio entre os naturais espalhados pelas quatro partidas do mundo.
Interessante, quando não perspicaz, é a teoria da escassez populacional de Valongo, que assenta na tese de que foi a consequência da constante sujeição de Riba Côa, à administração militar, que era impessoal e se revelou efémera. De um dia para o outro os militares abandonaram as zonas de fronteira, recuando os aquartelamentos para junto do litoral, e com isso se desfez a sociologia local.
Na sua maior parte o texto é solto, correndo livre e folgazão, muito ao jeito das falas populares, recriadas com realismo. Noutras partes há uma linguagem coloquial, de tom afectuoso, só possível aos pedagogos, que, como estes, sabem ensinar cativando o discípulo. Notam-se sentimentos de nostalgia, como na descrição da vida e do ambiente familiar de outros tempos, quando os seus maiores irradiavam alegria e amor, mau grado as regras austeras da antiga vida em comunidade.
plb

JOAQUIM SAPINHO

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