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Tal como ao redor da lareira, a ouvir o crepitar de um lume vivo, assim nós nos encontrávamos todos satisfeitos, em volta de um Bucho Raiano, algures, no começo de uma longa noite, em Bruxelas, entre meados de Janeiro e o Carnaval.

Joaquim Tenreira MartinsAqueles três homens e três mulheres estavam ali a festejar uma tradição que se transmitiu durante séculos e tenho a impressão de que só o olhar suave de um Bucho Raiano gorducho e redondinho, mas por demais astuto e vivaço, nos poderia fazer a contagem dos anos que o têm contemplado ao largo de tantas gerações.
Também não sabemos quantas lendas nos poderiam ter enfeitiçado para nos sentirmos como que endemoninhados perante um quase deus que ao mesmo tempo veneramos, nos encanta e alimenta. De que miragem fascinante andaríamos nós à procura?
Já cheirava a infância e a ternura, e repassavam pela nossa mente os gestos rituais das nossas mães e avós, quando o bucho nos activou as papilas gustativas, ao vê-lo todo rosado em cima da mesa. Parecia ter já bebido alguns copos de um clarete sorrateiro. Mesmo com as faces e as maçãs do rosto afogueadas, ainda não tinha perdido a sensatez ancestral de quem nos traz o sustento, a tradição, o encanto e a emoção de estarmos juntos.
Com o religioso silêncio, interrompido apenas pelo tilintar dos talheres e apressados para principiar um ritual iniciático, já estava preparado o ambiente para a evocação de lendas e tradições imemoriais ao redor de um Bucho Raiano. O anfitrião e confrade privar-se-ia de repetir os contos romanescos da sua infância e também nada diria sobre as múltiplas viagens ao interior de si próprio. Procuraria proporcionar uma atmosfera condigna, própria de um ritual legendário para favorecer o enlevo que brotaria espontaneamente das raízes e da memória.
Ambiente estranho este de estar em frente, melhor dito, em redor de um bucho. Todas as crenças, contos, lendas e produtos capitosos de uma terra se entremisturam para dar lugar ao dialogo amistoso e criativo que nos avivava o prazer de estarmos juntos. As histórias que cada um de nós tinha vivido ao longo da vida cruzavam-se com o olhar atento de um bucho que sabia observar, ouvir e interpelar para que a comunicação não se esgotasse num simples acto de levar à boca e que iria ter lugar dali a instantes. Este genuíno raiano de bucho pretendia assumir-se como uma caixa de ressonância, a transmitir-nos os ecos que evocavam a nostalgia e a saudade.
Mas este não era qualquer bucho. Era o Bucho Raiano! E já estávamos a esquecer este predicado distintivo e alusivo a culturas destinadas por natureza à ameaça e à extinção, simplesmente por estarem na fronteira e no interior. Porém, entre os convivas alguém as teria considerado ainda mais fecundas por terem resistido corajosamente entre dois mundos. A tradição teve a oportunidade de se afirmar ao longo dos séculos, mas não deixou de estar à escuta e com a porta aberta a outras culturas que nos alargavam os horizontes. Pudemos comparar, pudemos provar outros gostos, mas nem o rodar do tempo, nem as constantes passagens de forasteiros pela fronteira conseguiram destruir a tradição que se enraizou na nossa memória réptil, deixando-nos ficar um sabor constante e indelével que faz parte da nossa tradição cultural e gastronómica.
Este instinto de ir ao encontro e de observar tivemos o privilégio de o experimentar do cimo das serranias da nossa Serra da Malcata e dos vários montes que a constituem e a circundam. Das suas alturas pudemos olhar para mais longe, para outros mundos e não ficámos limitados aos horizontes que nos rodeavam, nem tão pouco asfixiados com o que tínhamos e comíamos.
E, a propósito do Bucho Raiano, já estávamos longe demais. É quando acordámos do nosso enlevo, já o professor Carvalho Rodrigues nos tinha conduzido para bem mais longe. Tínhamos passado várias fronteiras e estávamos já no Egipto, em companhia do Santo Antão. Este sim era um valente raiano e amigo dos buchos, das chouriças, dos porcos, dos presuntos, dos salpicões, das farinheiras e das farinhatas e de todas as tentações que de dia e de noite o assediavam. Não admira pois que também os grandes pintores como Jerónimo Bosch se tenham lembrado dele para o imortalizar numa pintura denominada as Tentações de Santo Antão, cujo belíssimo quadro, antes de chegar a Lisboa teria passado certamente pela raia sabugalense, itinerário fronteiriço obrigatório para chegar à capital do Reino.
O saco do bucho é um verdadeiro ninho de tentações. É o topo da raia humana atiçado por todas as seduções que nos assolam. A umas resistimos, mas a outras abrimos as portas, saboreando-as gostosamente até à medula dos ossos, inebriados com o prazer exacerbado da gula pecaminosa.
Que mistura esta da natureza tórrida, da concupiscência endiabrada e da ascética salamanquina ou avilena que se entrelaçam em vésperas de um tempo quaresmal, de deserto e de privações como se o mundo aqui terminasse!
Todo o saber acumulado num bucho raiano não caberá certamente na Livraria Orfeu, do Joaquim Pinto da Silva, observador atento aos sabores literários escondidos na raia beirã e que não deixava de manifestar a sua admiração pelos saberes acumulados numa peça de arte e tradição que se ia consumindo em cima de uma mesa à volta da qual não arredávamos pé. A sua Foz do Douro estava por um momento esquecida!
Eram os preparativos de um terceiro capítulo que se aproximava a passos largos. Tínhamos feito naquela noite uma longa viagem em companhia do fiel e solidário amigo Bucho Raiano. Agora, familiarizados com a sua amizade, iríamos com mais confiança ao seu encontro, em romagem peregrina, à escuta de um bom momento de inspiração e abertura a uma cultura e gastronomia ancestrais.
Joaquim Tenreira Martins

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O Sabugal e as Invasões Francesas anda agora de terra em terra. Depois de ter estado no Auditório Municipal do Sabugal, a quando das comemorações da Batalha do Sabugal, no dia 2 de Abril, passou pela Casa do Concelho do Sabugal, em Lisboa, no dia 19 Maio, onde estiveram os três autores e, no dia 31 de Maio, foi apresentado na Livraria Orfeu, em Bruxelas.

Para a apresentação deste livro, a Orfeu, na pessoa do seu director, Dr. Joaquim Pinto da Silva, escolheu duas altas personalidades que vivem em Bruxelas: o General Artur Pina Monteiro e o cientista, bem conhecido do povo português, o Professor Fernando Carvalho Rodrigues.
Tanto um como o outro se entusiasmaram pela leitura deste livro, reconhecendo o seu valor no domínio da história militar e sobretudo afirmando que vem preencher uma lacuna nestas disciplinas, tanto mais que os três autores apresentam três sensibilidades da mesma realidade, o que é raro e altamente enriquecedor.
Esteve presente apenas um dos co-autores – o Joaquim Tenreira Martins – que vive em Bruxelas, o qual se sentiu deveras honrado com as palavras elogiosas (reencaminha-as também para os outros escritores) que foram ditas a propósito desta obra escrita a três mãos.
Caso quase inédito no lançamento de um livro foi o facto de ter sido apresentado por duas eminentes personalidades que conhecem muito bem o Sabugal, o tema das invasões francesas e a importância estratégica que representava nessa altura o rio Côa.
Após a apresentação, Joaquim Tenreira Martins quis transmitir ao público aquilo que normalmente não se sabe quando se lê um livro, isto é, a história do seu nascimento ou aquilo que motivou a sua feitura.
«Se me permitem, gostaria de vos dar algumas informações sobre as razões desta aventura e sobretudo acerca da maneira como é que três pessoas, três autores, sem se conhecerem, e podem acreditar que foi mesmo assim, sem se conhecerem, e ainda por cima, longe uns dos outros, como é que puderam escrever este livro?
Através das várias leituras sobre este período das invasões francesas, um dia descobri que a batalha do Sabugal, Sabugal’s Battle, como dizem os ingleses, tinha sido a última batalha travada em território português. Foi com esta batalha que os portugueses e os ingleses enxotaram de uma vez para sempre os franceses do nosso país.
E eu comecei a escrever sobre este tempo nos jornais da região – o Cinco Quinas, A Guarda e outros.
À medida que ia lendo e escrevendo começava a ter ideia que as terras de Ribacoa tinham sido palco de batalhas, combates, escaramuças e de encontros guerreiros, de que ainda quase ninguém tinha falado. Sobre Almeida, Buçaco, Torres Vedras já muito se tinha escrito, mas sobre o Sabugal, quase nada.
Lembro-me que esta preocupação era partilhada também por um dos autores do Livro – o Paulo Leitao Batista – que nessa altura ainda não conhecia – e ia lendo também os seus artigos que inseria no blogue Capeia Arraiana. Aquele que mais me alertou foi o que escreveu há uns três anos, intitulado: falta comemorar a batalha do Sabugal, indignando-se por nem sequer haver um monumento a assinalar a última batalha que ali se tinha travado havia quase 200 anos.
Para mim foi quase um apelo. Já tinha muita coisa escrita sobre as batalhas travadas naquela região e um dia ao dar uma conferência nos Fóios, que tinha por título as batalhas de Ribacoa na 3ª invasão francesa, os meus colegas e amigos escritores do concelho de Sabugal abriram os olhos, ou como diria o autor do prefácio deste livro – o J. Pinharanda Gomes – ficaram arrelampados, ao tomarem conhecimento destes acontecimentos ocorridos tão perto de nós, realidade desconhecida ou esquecida durante várias gerações.
Pesava-me na consciência ver aproximar-se a data do bicentenário e não celebrar a memória deste tão importante acontecimento. Contactada a Câmara parecia não haver vontade de nada, apesar de se saber que o exército tinha verbas para este género de acontecimentos.
A certa altura já não havia tempo a perder. E aquela ideia que deve ser sempre o estado, as câmaras a fazerem tudo, poderia também ser substituída por uma iniciativa cívica de cidadãos que, venha o que vier, poderiam contribuir com aquilo que têm e de que são capazes, a fim de celebrarem tão importantes acontecimentos.
Lembro-me que acordei um dia, precisamente no dia 17 de Janeiro de 2011 e tive vontade de enviar um mail ao Coronel Manuel Mourão, também co-autor, que conhecia apenas através das leituras que fazia dos seus bons artigos na Wikipédia, e a quem enviava de vez em quando também os meus escritos para corrigir, dada a minha deficiência em organização militar. Nesse mail convidava-o a escrevermos um livro, que era possível que tivesse de ser pago por nós, sobre a Batalha do Sabugal. Ele tinha precisamente um artigo na Wikipédia sobre a Batalha do Sabugal, e remodelando-o e aprofundando-o um pouco, poderia trazer ao livro a descrição da parte técnica da batalha. Respondeu-me logo a dizer que sim, mas que não queria gastar dinheiro. Já tinha o seu acordo, já não estava mal. Telefonei no dia seguinte ao Paulo Leitão Batista encorajando-o para a mesma tarefa, pois com aquilo que já tinha escrito sobre as invasões francesas no blogue Capeia Arraiana, poderia dar um bom contributo para o livro. Sobre os custos veríamos depois. Na posse das duas confirmações, convidei o editor Joaquim Pinto da Silva que se entusiasmou ainda mais do que eu com a ideia e devo dizê-lo sem rodeios que nos prestou, desde a primeira hora, todo o seu apoio, dedicação e saber, tendo custeado a edição que tem a chancela da Orfeu.
De fins de Janeiro a 3 de Abril o livro tinha de estar pronto. Os textos mais acabados eram os do Paulo Leitão Bastista, pois já os tinha publicado no blogue de que ele é director. Era necessário dar-lhe uma unidade e um título aglutinador e sugestivo. O Coronel Manuel Mourão tinha de trabalhar o seu texto do Wikipédia, consultar a bibliografia e refazer os croquis. E eu tinha de trabalhar os meus escritos que tinham sido redigidos numa outra óptica, a pensar num livro que se pretendia designar as batalhas de Ribacoa na 3ª. invasão francesa.
O tempo que restava do mês de Janeiro e de Fevereiro foi trabalhar de dia e de noite com os nossos textos, com o editor, com o grafista, com as correcções de cada um. Foi um mês de árduo labor. Mails, telefonemas todos os dias. Tudo devia ser visto ao pormenor. Foi uma autêntica epopeia.
Devo dizer que um livro de batalhas sem um militar, não poderia ser um livro sério. Foi precisamente através do contributo do nosso amigo coronel Manuel Mourão que este livro poderá ser considerado uma referência nesta importante batalha. Com ele adquirimos mais confiança. Ele confortou a nossa visão inicial. Proveniente das altas escolas militares de Portugal, continua ainda a dar o seu contributo no domínio histórico militar, escrevendo para a Wikipédia (e foi por aqui que eu o encontrei). É também no seu blogue (A Guerra Peninsular para além das Invasões Francesas) bem documentado e cheio de referências que nos continua a transmitir o seu saber sobre este tão importante tema.
Por fim, devo ainda referir o primeiro encontro com os autores, que ocorreu apenas no próprio dia das comemorações da Batalha do Sabugal, precisamente em frente da Casa do Castelo (Sabugal), no dia 2 de Abril. Nunca nos tínhamos visto. Foi deveras emocionante o nosso primeiro encontro real. O livro já estava feito, tinha acabado de chegar do Porto, que o tinha trazido o editor Joaquim Pinto da Silva. Ainda estava quentinho. O abraço que nos demos foi um abraço de amizade, depois de um intenso trabalho, na preocupação de fazer um livro dedicado a uma batalha que estava esquecida na rota das invasões francesas, mas que foi a última a ser travada em território português. Só depois da Batalha do Sabugal é que Portugal começou a ser um país livre, fora da alçada do jugo dos militares franceses que tanto dano causaram ao nosso país.»
Joaquim Tenreira Martins

Quando os grandes espíritos se encontram é um verdadeiro acontecimento. Mas quando os grandes espíritos se encontram à volta de uma boa mesa, onde o Bucho Raiano é senhor e rei, então é uma autêntica festa. Por natureza, o bucho é todo vaidoso. Vai da sua fisionomia. Aproveita a barriga para se ufanar e se mostrar todo pimpão.

o anfitrião apresenta o Senhor Bucho da esquerda para a direita: Pinto da Silva, Carvalho Rodrigues, Anfitrião, Pina Monteiro, Lopes da Silva e respectivas esposas, e ainda Alice e Guilherme conversando com o Gen. Pina Monteiro

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– À mesa não há melhor do que eu, pretende ele dizer.
– Cala-te, diria o anfitrião. Não fales muito depressa porque ainda vamos ver. Tens de convencer os convivas e, sobretudo, as senhoras e as crianças, porque, isto já não é como dantes. A variedade é tanta que já não estamos condenados a comer-te por tradição. Tens de te impor pelo sabor e pelo bom gosto para superares a tradição, porque, se assim fosse, então ficarias reduzido ao teu interior beirão raiano e só os que lá iam, no Inverno, é que teriam a coragem de te comer.
O Senhor Bucho compreendeu a observação e ficou calado, até porque à mesa do anfitrião se encontravam personalidades que não se compadeceriam do seu carácter anarquista e impulsivo, ás vezes quase sem educação. Se tudo aquilo é porco, o que é que se poderá esperar?
Pois é, mas ele é também muito inteligente. No centro da mesa, a sensibilidade intuitiva permite-lhe usar da sua argúcia para observar cada um dos convivas à sua volta. É o único que percebe quem gosta ou quem não gosta.
Já agora, Senhor Chanceler, permita-me que introduza algumas inovações na confecção do Senhor Bucho, pois temos de acompanhar a evolução dos tempos, à luz de novos conhecimentos científicos. Para evitar que se martirize durante 3 ou 4 horas a cozer dentro do molho inicial, o anfitrião decidiu espetar numerosos palitos à volta da barriga. Deste modo, o Bucho não corre o risco de rebentar e todo o molho gordurento sai pelos orifícios dos palitos. Evita-se aquela antiga receita de o envolver numa meia ou num saco de plástico. Que horror! O Prof. Carvalho Rodrigues, com o seu olho científico-clínico, e que se encontrava ao meu lado, confirmou que se tratava de um verdadeiro método para tirar as gorduras ao bucho.
Ficamos com vontade de saber se haveria alguma relação entre o Bucho e as invasões francesas. Teríamos de investigar se os franceses ou os ingleses teriam saboreado esta iguaria nas nossas terras raianas. E o editor Joaquim Pinto da Silva achava que poderia ser matéria para um próximo livro. O Tenente-Coronel Lopes da Silva, que já escreveu sobre a cavalaria no tempo das invasões francesas, prometeu-nos a sua preciosa ajuda.
E o Bucho continuava atento, a ouvir histórias de Casal de Cinza, do austero e míope Cónego Messias Coelho (não se podia dizer tudo por respeito pela sobrinha ali presente, e que bela coincidência!), grande teólogo da Guarda, venerador de cães por serem mais inteligentes que os homens e sobretudo as mulheres que considerava desprezíveis se não tivessem um mínimo de argúcia.
Já íamos fazer a reconstituição da Batalha do Sabugal, mas o General Artur Pina Monteiro achou por bem reservá-la para o próximo dia 31 de Maio, na Livraria Orfeu, onde ele próprio se propõe apresentar o livro “O Sabugal e as Invasões Francesas”. Mas que honra! Talvez por culpa do Bucho, divagou-se até à Flandres, para evocar a comemoração da batalha de La Lys, onde quase todos os presentes tinham acompanhado o General Pina Monteiro que ali representou, com a maior dignidade, as Forças Armadas Portuguesas. Recuámos até à guerra da restauração da independência de Portugal, às constantes escaramuças, ainda por escrever, (os historiadores estão muito preguiçosos, dizia o Prof. Carvalho Rodrigues!) entre os espanhóis e os portugueses da raia beirã.
O Bucho já mal ouvia, tinha quase desaparecido no interior de cada um de nós. Perante as qualidades inigualáveis do seu sabor, já todos pretendiam ter origens nas terras do Bucho, nem que fosse por um cabelo. Claro que quanto ao General Pina Monteiro e ao cientista Prof. Carvalho Rodrigues não restavam dúvidas. O Bucho reconheceu-os logo. Também não se fez rogado em reconhecer o historiador militar que já tinha percorrido em pensamento, em estudo e na realidade as nossas boas terras beirãs, e igualmente o editor que, por portas e travessas, recebe, na sua mansão da Foz, as cristalinas águas do Côa, indispensáveis na confecção do famoso Bucho Raiano.
Não admira, pois, que um jantar de Bucho Raiano, tão longe das nossas terras, possa torná-las tão presentes como se estivéssemos ali ao pé.
Joaquim Tenreira Martins

Comer Bucho Raiano fora do tempo, fora de Portugal, e com colegas e amigos fora da região onde o bucho nasceu, poderá ser uma ousadia gastronómica um tanto ou quanto aventureira.

Joaquim Tenreira Martins

Joaquim Tenreira MartinsNão é que eu tenha algum receio de servir bucho a qualquer altura do ano. Não. É mais por respeito pelo Senhor Bucho, pois nunca se sabe como é que este poderá reagir. Não pensem que não dá conta que, de um momento para o outro, não se encontra no seu meio natural. Ele é deveras inteligente! Mesmo que não se observem as suas reações, percebe bem as reações dos seus comensais. Observa mesmo quem o aprecia ou não. Claro que quem não o conhece, olha para aquela peça enorme, arredondada, fumegante e de cor acastanhada com muita curiosidade e apreensão. E quando o confrade o começa a esventrar, meu deus, que cheiro se espalha pelos ares! Os olhos dos convivas centram-se no Senhor Bucho. Mas, todo vaidoso, não lhe apetece dizer nada. Observa e regala-se todo, ao sentir que é o centro de todas as atenções. Ele é o Senhor Bucho! E, quando já esventrado, começa a pingar de untuosidade, então começa a olhar mais compenetradamente para os seus comensais. Constata que as narinas já estão repletas do delicioso cheiro bem característico que exala do seu corpo, e que os lábios não param de mexer de ansiedade, e que a saliva não tem mais paciência para se privar do famoso dito cujo, não cessando de engolir em seco.
Claro que o anfitrião e confrade, quando pega no bucho para o começar a cortar, não perde a oportunidade para dar algumas informações acerca do Senhor Bucho, sobretudo de o situar no contexto da tradição do calendário litúrgico e aldeão das nossas terras raianas beirãs; de dizer como era fabricado; em que altura se comia; o que normalmente contem, sem se privar de fazer uma pequena aula de anatomia porcina que acaba sempre, sem se dar por isso, por ferir as susceptibilidades das pessoas mais sensíveis
– Já chega de comentários, já chega de observações e de discursos sobre a especialidade raiana, meu caro anfitrião. Deixe-se de vaidosices. É o Senhor Bucho que nos vai convencer e não o senhor do bucho.
As minhas mãos caíram de pasmo. O garfo não entrou logo à primeira, e notei que a faca não encontrava o melhor sítio para começar a dividir o bucho, ou talvez este mesmo tenha hesitado, por um momento, em se dar a comer. Tive de me concentrar, não fosse o bucho apresentar um protesto por ter perdido a necessária atenção que lhe é devida. Olhei para ele mais uma vez. Não, não tinha vontade de protestar. Sentia um feliz ambiente, sereno, com vontade de se entregar, rendido à curiosidade de ser provado pela primeira vez.
O bucho deixou de se ouvir e ficou silencioso. Já estava nos pratos, ao lado das batatas belgas e dos grelos italianos, e olhava em contre-plongée para a cara de cada um dos comensais. Iam-no levando à boca, mastigavam-no e saboreavam-no com espanto e admiração, quase religiosamente. Mas, curioso, este mesmo bucho quis logo interromper o silencio e não resistiu à pergunta:
– E então? Que tal? Gostam, meus citadinos europeus?
E começaram logo todos a desembuchar.
– Que excelente iguaria! Que delicioso sabor!
E a curiosidade levou-os a escarafunchar com o garfo e a faca, à procura de descobertas anatomias do porco. Ouvem-se comentários: há focinho, há ossinhos, há pimentão e colorau, há poucos coiros e poucas gorduras.
E o bucho ouvia com satisfação, sobretudo o comentário daquelas senhoras que se preocupam em manter a linha.
– Afinal não é tão gordo como a gente pensava!
Também o bucho estava satisfeito. Depois de lhe terem extirpado a barriga já não podia colocar a mão em cima da mesma, para a acariciar e a rodear, em sinal de satisfação. Agora começava uma outra viagem na barriga dos outros. Sentia-os repletos e alegres com o delicioso manjar de bucho que pouco a pouco ia desaparecendo.
Todos estavam satisfeitos: o bucho, o anfitrião e os convivas.
Mas não sei se o Chanceler da Confraria teria ficaria satisfeito ao ver um confrade apenas com as insígnias e sem a farda apropriada numa cerimónia fora de muros e com um certo alcance mediático.
Promovido a confrade neste recente segundo capitulo, o autor destas linhas, ao organizar um jantar em sua casa, neste fim de mês de Abril, com os seus colegas da Embaixada, constatou que o Senhor Bucho, primeiro discreto e observador, depois satisfeito e efusivo, convenceu e não deixou de ouvir constantes elogios às suas qualidades: bom paladar, excelente cheiro, iguaria com sabor impar!
No dia seguinte, todos partilhavam de um momento inédito e ninguém se queixou de efeitos secundários. Apenas o anfitrião, se apresentou com as suas olheiras um pouco mais salientes que o habitual, mas desta vez com o motivo de ter passado a noite a lavar a louça, porque com o Senhor Bucho é sempre uma festa, antes, no próprio momento e depois de ser servido.
Joaquim Tenreira Martins

A «Commune» de São Gil, em Bruxelas, organiza, nesta sexta-feira, dia 28 de Janeiro, um Percurso de Poesia à volta da praça mais central, aquela onde está o belíssimo edifício da Câmara. A poesia portuguesa também marcará presença.

Será um non-stop de acontecimentos poéticos, saltitando entre instituições, edifícios públicos e estabelecimentos comerciais, em que se farão leituras e cantos de poemas do mundo.
A Orfeu, livraria portuguesa e galega, há 25 anos em Bruxelas, foi convidada para se ocupar da poesia portuguesa. Tratamos de seleccionar textos de poetas que passaram, que foram lidos ou que foram editados ou vão ser por nós (por vezes em 3 línguas: além da nossa o neerlandês e o francês) e estamos na finalização concreta do que se vai ler e cantar (sim, porque vamos ter dois guitarristas/cantores) e a respectiva «dramatização».
Como o trabalho de selecção foi largo, resolvemos acompanhar esta sessão de uma edição em livro de essa larga escolha. Nela figura, João Valente Martins, homem do Sabugal e das terras do Côa, com dois poemas (como todos os outros), retirados do livro Raiz, a ser editado por nós também e a ser apresentado no Sabugal, em Agosto deste ano.
Podem ver, sobre o Percurso de Poesia: aqui. Sobre a Orfeu: aqui.
Joaquim Pinto da Silva

Capeia Arraiana saúda o seu colaborador João Valente pela sua inclusão, enquanto poeta, na colectânea que vai ser editada em Bruxelas.
plb

JOAQUIM SAPINHO

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