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Foram descobertas no Carvalhal, freguesia de Badamalos, no concelho do Sabugal, duas pinturas murais a fresco do século XV, no decorrer de obras de conservação e restauro da capela de S. Marcos.

Segundo a agência Ecclesia, o pároco local, padre Helder Lopes, revelou que «os frescos encontrados são um elemento muito interessante, que vem valorizar o património histórico desta pequena capela e desta comunidade quase desconhecida».
«São, no entanto, também uma responsabilidade pastoral, porque é necessário preservar pinturas tão antigas e valiosas e ao mesmo tempo ensinar aos povos a sua importância», alertou ainda o pároco.
As duas pinturas, que representam a «Santíssima Trindade» e o «padroeiro da capela», o evangelista S. Marcos, foram encontradas durante uma acção de tratamento e conservação da talha da capela.
Para o responsável pelas obras, Carlos Costa, «as pinturas encontram-se em bom estado de conservação», apesar de estarem «há largos séculos escondidas debaixo das estruturas retabulares».
Numa região «onde escasseiam vestígios» da técnica de pintura a fresco, importa agora definir a forma como se pretende conjugar a preservação das descobertas com a recuperação dos retábulos.
«Recuperar e manter à vista é sempre problemático», admitiu Carlos Costa, já que isso implicaria uma alteração da estrutura actual da capela.
A pequena comunidade local – cerca de 18 pessoas, na sua maioria idosos – acolheu o achado «com alegria», reconhecendo tratar-se de «uma mais-valia para o lugar e para o concelho».
O Gabinete de Arte Sacra da diocese da Guarda, em parceria com a empresa de conservação e restauro, está agora a fazer um primeiro levantamento do estado dos murais, que poderá contar com a colaboração de «historiadores e pessoas entendidas no assunto».
plb (com Ecclesia)

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José Saramago passou pelo Sabugal nos finais da década de 1970, tomando as notas que dariam origem ao seu livro Viagem a Portugal. Junto à capela da Senhora da Graça tentou ver os afamados ex-votos que ali existem, mas prosseguiu o seu roteiro sem que lhes tenha colocado a vista em cima.

Quando chegou às «brandas Beiras», pernoitou na Guarda, e de lá rumou a Belmonte, depois a Sortelha, chegando ao Sabugal ao fim da manhã. Veio, como ele mesmo afirma, na mira dos ex-votos populares do Século XVIII, buscando-os na ermida de Nossa Senhora da Graça. Contudo o Ti Simão, de todos conhecido por Ratinho, guarda do santuário, não lhe soube dizer onde estavam, contentando-se o viajante com uma breve visita à capela nova, que achou de «espectacular mau gosto».
Os gostos não se discutem, que cada um tem seu quadro de sainetes, que devemos respeitar. Ainda assim se lamenta que o nosso Nobel não tenha reparado na planta pentagonal da igreja, com forte simbolismo, ao imitar a forma da torre de menagem do castelo. O viajante almoçou no Sabugal, não referindo em que restaurante, Contudo foi em local central, porque deixou a nota de reparo: «nada mais viu que o geral aspecto duma vila ruidosa que vai para a feira ou vem de feirar». Desiludido com o Sabugal retornou à Guarda, e dali foi a Cidadelhe, no concelho de Pinhel, onde andou muito animoso e mais demorado.
Dos afamados ex-votos que José Saramago procurou e não viu, nos apraz agora escrever. De facto, a capela da Senhora da Graça, tem depositadas essas esplêndidas ofertas à Virgem. Quando Saramago veio ao santuário, não revelando a conselho de quem, as peças de arte que procurava estariam depositadas na sacristia da capela velha, degradadas e amontoadas a um canto. De pouco lhe valeria tê-las examinado, e talvez fosse isso que levou o guardião a dizer que desconhecia o seu paradeiro.
Os painéis dedicados à Senhora da Graça, existentes no Sabugal, hoje recuperados e restaurados, foram elaborados com perícia e aptidão, sendo autênticas obras-primas. Encontram-se devidamente catalogados e são considerados da maior importância no campo da arte sacra.
Analisemos um deles, que no presente se encontra exposto na capela do santuário. Trata-se de uma tela pintada a óleo, datada de 25 de Maio de 1760. Por ela se agradece o milagre que Nossa Senhora da Graça concedeu a uma religiosa, afectada com um cancro num peito, despedida pelos médicos, mas que foi salva pela intervenção divina.
A representação é obra de artista, desenhada com primor, contendo, em pormenor, todos os elementos que devem constituir este tipo de obras de arte. Em baixo representa-se a paciente, amparada e consolada pelas enfermeiras que dela cuidam. Ao lado os médicos com ar de desalento, seguros de que nada mais pode fazer a ciência para salvar a doente. Numa mesa coberta com vistosa toalha, repousam os frascos de remédios e demais instrumentos da medicina. Fixadas na parede do quarto estão representações da Virgem e do Sagrado Coração, um espelho e um ramo de flores. Em cima, do lado esquerdo, sob um claustro gradeado representa-se um grupo de sete religiosas rezando à Virgem pela salvação da irmã doente. No canto superior direito está uma nuvem contendo no interior uma comovente representação de Nossa Senhora da Graça, de túnica branca e manto azul ferrete, com o Menino Deus no regaço. À sua volta seis querubins fazem-lhe escolta, concedendo-lhe especial encanto. Em rodapé a legenda em português vernáculo, explicando o milagre que Nossa Senhora concedeu à religiosa. A moldura de madeira, dum vivo azul celeste, dá ao quadro um magnífico efeito, ajudando a tecer o jogo das tonalidades que o compõem.
Os ex-votos de Nossa Senhora da Graça estão agora expostos na capela do santuário, graças à acção de uma mordomia, que decidiu recuperar estes importantes testemunhos da fé popular, autênticas obras-mestras da arte sacra.
Paulo Leitão Batista

Quando alguém está em perigo, na iminência de um drama, logo há quem dê lugar a orações e invocações, apelando à intervenção divina. Em situações limite a fé apresenta-se como único recurso para obviar uma aflição. Foi assim ao longo dos tempos, e um dos testemunhos dessa realidade são os ex-votos, que constituem um património popular de grande valor.

As populações que viviam em pequenas comunidades, estavam entregues a si mesmas, isoladas do mundo, sem meios de socorro, e muitas vezes, perante o desespero, nada mais restava que rezar, apelando a Deus, por intermédio dos santos predilectos e da Senhora Sua Mãe, uma intervenção miraculosa.
Quando havia sinais que as preces foram ouvidas, a gente humilde queria agradecer a intervenção divina. A falta de meios materiais levava o povo a recorrer ao que tinha ao seu alcance. Agradecia através de pequenas e toscas esculturas de madeira ou pinturas em tábuas, que depois se iam depositar na capela ou ermida onde tinha abrigo o santo protector. Eram os ex-votos.
Se foi doença grave, de onde houve cura milagrosa, o crente pegava numa tábua, e ali desenhava o doente a padecer no leito, rodeado da mulher e dos filhos, contemplando a Virgem, que viera para lhe valer. Em rodapé uma legenda, que continha, em português vernáculo, o agradecimento pelo milagre. Mas se foi acidente, o quadro retratava o infeliz momento, contendo sempre a pequena legenda. Se a doença estava numa perna ou num braço o ex.-voto podia ser uma representação em madeira do membro afectado, talhado a podoa e navalha.
Tomemos como exemplo um ex-voto da vila de Gonçalo, concelho da Guarda, depositado na igreja local, onde se representa toscamente um homem a ser mordido no braço por um cão raivoso, com a Senhora no canto superior direito e parte do corpo envolto numa nuvem. Por baixo, a mensagem escrita:
Milagre q. fez N. S. da Mezericordia a Jozé, Prª da Quinta da Gaia, q. mordendo-lhe hum cão danado, N. S. lhe acodio, não teve prigo. No anno 1843.
Diga-se que nem tudo são representações ingénuas, efectuadas por quem não domina as técnicas da arte. Há tábuas que são autênticas obras-primas, onde transluz a sapiência do mestre que produziu uma autêntica peça de arte, de inestimável valor.
Em todo o País, mas em especial nas Beiras, há templos onde os ex-votos estão apinhados a um canto, a tapar um buraco ou servindo de estante improvisada. Noutros casos, as tábuas já desapareceram, porque viram nelas um estorvo e ninguém lhes achou utilidade. Poucos lugares de culto cuidaram deste relevante património, mescla entre a arte popular e a arte sacra, testemunho de fé e objecto de valor artístico que se deveria preservar.
Urge sensibilizar as comissões fabriqueiras das igrejas paroquiais, as comissões que tratam da preservação de capelas e ermidas, as ordens religiosas com lugares de culto a seu cargo, em suma toda a população, para a conveniência em preservar o património religioso que está depositado, mesmo quando parece ser algo sem valor, que apenas ocupa lugar. Em especial, é de atender à recolha e catalogação dos ex-votos, mesmo os mais toscos e em avançada deterioração, pois são um importantíssimo testemunho da fé popular, das preocupações das pessoas, da linguagem utilizada, das doenças e das catástrofes que se abateram sobre as populações. Riquíssimas fontes da História da religião popular e da Etnografia que é necessário guardar em acervo. Em Pinhel felizmente alguns ex-votos foram recolhidos no Museu Municipal, quase todos de invocação a Nossa Senhoras das Fontes.
Podiam-se recolher os ex-votos nos museus de arte sacra, que já vão existindo nos maiores centros, seria uma boa e prática solução. Contudo, sempre se dirá que o ex-voto deve, de preferência, ser contemplado no seu lugar de origem, onde foi depositado por mãos de quem teve fé e quis agradecer uma graça recebida. Em cada lugar há um misticismo próprio, no seio do qual os ex-votos melhor poderão ser apreciados. Por isso se revela importante a recuperação dessas peças de arte e a sua exposição nas igrejas, capelas e ermidas, para que quem passe tenha a real possibilidade de as admirar.
Paulo Leitão Batista

A igreja matriz de Vale das Éguas, no concelho do Sabugal, foi assaltada na passada quinta-feira, 18 de Setembro. Os larápios roubaram as imagens em madeira de São José e de Nossa Senhora do Rosário e uma gargantilha de ouro da imagem da padroeira, Santa Luzia.

Igreja de Vale das ÉguasO roubo ocorreu durante a madrugada e foi detectado pelas 8 horas da manhã de quinta-feira, 18 de Setembro, quando a mordoma, Deolinda Vaz, chegou à igreja e deparou-se com «a porta um pouco aberta». Quando entrou apercebeu-se que «Santa Luzia estava fora do seu altar e da falta das imagens de São José e de Nossa Senhora do Rosário».
Domingos Laiginha, responsável pela Comissão da Igreja e Fernando Proença, presidente da Junta de Freguesia de Vale das Éguas, alertaram as autoridades tendo comparecido a GNR de Vilar Formoso e da Miuzela e cinco elementos da Polícia Judiciária da Guarda que recolheram impressões digitais.
O Capeia Arraiana esteve em contacto com o presidente da Associação dos Amigos de Vale das Éguas, Quim Laiginha, que nos confirmou a ocorrência acrescentando que os habitantes da aldeia, maioritariamente idosos, ficaram «muito perturbados e preocupados com este acto de vandalismo ocorrido dentro de um espaço religioso».
«A população está atenta a indivíduos estranhos à freguesia mas Santa Luzia tem muitos devotos e agora com a praia fluvial temos visitantes mesmo de fora do concelho o que dificulta um pouco a vigilância», disse-nos ainda o presidente da Associação terminando com a convicção de que «eles sabiam ao que vinham».

A Diocese da Guarda, por iniciativa de D. Manuel Felício, iniciou há algum tempo um inventário sobre o património religioso existente nas paróquias. Importa acelerá-lo e concluí-lo antes que os ladrões de arte sacra se antecipem e poupem esse trabalho aos técnicos.
jcl

JOAQUIM SAPINHO

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