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Decorreu como estava previsto, o primeiro Magusto dos Sabugalenses, residentes no Concelho do Fundão. O cenário não podia ter tido melhor escolha, que recaiu num espaço envolvente à Capela de S. José, nas Quintas do mesmo nome, na Freguesia de Aldeia de Joanes.

Numa tarde com as cores outonais, com uma envolvência natural impar, no meio de duas serras, a sul, a Gardunha amarelecida, e a norte a Estrela vazia de neve, numa Cova da Beira, onde ainda se ouve o balido dos rebanhos, o mugir das vacas, que disciplinarmente se colocam para a ordenha, o zurrar dos burros e o canto suave de algumas aves.
Numas instalações adequadas a estes eventos, era já o princípio da tarde, quando começaram a chegar os primeiros Sabugalenses, alguns com as dúvidas do local, apesar de todo o percurso se encontrava devidamente assinalado.
Visitas a destacar, a do Pároco de Aldeia de Joanes, Padre Casimiro Mendes Serra, que quis associar-se a este encontro, por alguns momentos, atitude apreciada por todos os presentes. A segunda, do Padre Manuel Joaquim Martins da Bismula, num espaço que lhe é muito familiar, porque foi no seu tempo de Pároco de Aldeia de Joanes, que foi construído.
Numa simples auscultação a alguns participantes, fomos ouvir e registar as motivações que os conduzem a este evento:
Júlio Fernandes Martins – Quadrazais, depois de uma estadia por terras de França, encontrasse há 30 anos no Fundão, como gerente de lavandarias, onde também trabalha uma filha. Aprecio este convívio com os nossos conterrâneos.
Mário Luís Santos Dias – Bendada, está no Fundão há 29 anos, trabalha como técnico de confeções, e veio ao magusto para me encontrar com a malta do Concelho do Sabugal e gosto de conhecer as pessoas que aqui vem da nossa zona.
Joaquim Esteves Barbara – Alfaiates, há 15 anos no Fundão, no Posto da G.N.R. A viver a alguns anos no Fundão, desconhecia por completo, que aqui vivessem tantos naturais do Sabugal. Foi uma agradável surpresa. Estes encontros têm a particularidade de nos conhecermos melhor e relembrarmos as nossas origens.
Maria Teresa Carvalho Moreira Barreto Amaral – Aldeia do Bispo, há 22 anos no Fundão. Gosto de estar, de me reunir com as gentes do Sabugal, e estes encontros servem para nos conhecermos melhor. Veja, trabalhei 12 anos na Empresa Eres, com pessoas do Sabugal e não sabia. Aqui damo-nos a conhecer mutuamente.
Natália Fernandes Martins – Quadrazais, há trinta anos no Fundão, diz que estes encontros são muito positivos e servem para nos conhecermos.
Isabel Gonçalves Martins Leitão – Aldeia da Ribeira, há 27 anos no Fundão, trabalha como empresária de produtos alimentares. Estes encontros permitem conhecer pessoas da nossa zona arraiana. É uma feliz ideia, é bom o encontro.
Joaquim Lopes Pinto – Santo Estevão, há 42 anos no Fundão, comerciante. Gosto desta gente de alma arraiana, que é batalhadora, trabalhadora, dinâmica e vencedora em toda a parte. Estamos espalhados pelo mundo. São importantes estes convívios.
Maria Rita Martins Pinheiro Costa – Bismula, há 45 anos no Fundão, reformada. Estes encontros são interessantes. Tive pena de não estar até ao fim, não me foi possível. Não falharei o próximo. É uma forma de partilharmos com os nossos conterrâneos sabugalenses e fazermos um elo de ligação com as suas famílias.
Marta Marcos Barroso Ramos – Aldeia da Ponte, há 8 anos de Fundão, arquiteta. Diz que é uma boa iniciativa e participei com muita honra a cantar para os meus conterrâneos, num sítio fantástico, maravilhoso e encantador. Tenho pena de sair mais cedo, por compromissos já assumidos. No entanto, no próximo encontro espero estar presente.
Esta jovem arraiana com grandes dotes musicais, brindou-nos com lindas canções que empolgou todos os presentes, principalmente a canção dedicada a São Martinho.
Em todos os rostos havia alegria e felicidade por mais esta jornada de convívio dos Sabugalenses, com a certeza de que no próximo ano, se vai realizar neste local bucólico, na companhia da mãe natureza.
António Alves Fernandes – Aldeia de Joanes

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Há mais de meio século, que milhentas vezes fazia uma pergunta a mim próprio: onde estará a minha Professora Primária, ainda está na companhia dos vivos? Tinha umas pistas e havia necessidade de investigar, fazer prospeção e tentar a sua localização.

A última vez que tinha estado com ela, foi quando fiz exame da 4ª classe no Sabugal. Nos dias antecedentes, ainda tivéramos aulas na varanda da casa dos seus pais, numa quinta nos arredores daquela vila. Ao fim de algumas diligências, consegui localizá-la através de sua irmã Professora Joaquina Marques, residente no Sabugal, mas foram necessários diversos telefonemas, para que este aluno falasse com a sua professora. Quando o consegui fui invadido por uma emoção, por uma alegria, por uma felicidade, conversar com aquela que me abriu os caminhos do futuro, que me rasgou os horizontes da cultura e da arte. A minha Professora Primária, chama-se Otília d’Ascensão Marque Gonçalves, é natural de Águas Belas e filha de Joaquim Marques e de Alzira Pires Lages. Os pais eram proprietários de duas quintas, a Quinta Mateia e a Quinta Nova, junto à estrada nacional que liga o Sabugal à Guarda. O seu pai é de Águas Belas e a sua mãe, natural de Carvalhal Meão, e sobrinha do Padre Diamantino Lages, que durante muitos anos foi Pároco de Pega e Carvalhal Meão.
É originária de uma família muito respeitada, muito trabalhadora, organizada e amiga, solidária com todos os trabalhadores e com quem convivia. É a filha mais velha de cinco irmãos, três rapazes e duas raparigas. Todos estudaram e atingiram cargos superiores, na vida militar, no ensino e na engenharia.
Frequentou o Liceu na Guarda e quando terminou estes estudos, já funcionava a Escola do Magistério, formou-se como Professora Primária, em 19 de Agosto de 1952.
Em Outubro desse ano foi colocada na Escola Primária Feminina da Bismula – Sabugal-, como Professora do Quadro de Agregados. Iniciou na Bismula um longo e gratificante caminho de ensino. Seguiu-se a Escola de Penaverde – Aguiar da Beira. Em 1954 voltou novamente à Bismula, como Professora do Quadro Geral. Seguiu-se Vale de la Mula – Almeida-, e o Soito – Concelho do Sabugal. Voltou a fazer a “ terceira comissão“ e última na Bismula. Seguiu-se a Escola Primária de Alfaiates no Sabugal, Vila da Feira em Aveiro, Ota, Póvoa de Santa Iria, Vila Franca de Xira e Escola Secundária de Alenquer e Carregado.
Em 1973 tinha habilitações académicas para dar aulas na Escola Preparatória de Alenquer como Professora de História e Português. Continuou a estudar, frequentou a Universidade de Letras de Lisboa e fez a licenciatura em História, com grande sacrifício familiar. Eram as aulas, eram os filhos, eram os estudos. “Não foi fácil alcançar os meus objetivos, mas consegui com trabalho e esforço.”
Em Junho de 1993, com quarenta anos de ensino primário, preparatório e secundário, pediu a aposentação, por força da lei, terminando uma importante e brilhante carreira docente em Alenquer.
Teve um percurso frutuoso e maravilhoso na educação de milhares de jovens, onde me incluo com muita gratidão.
Na Bismula formou muitos jovens, aí alicerçou muitos homens e mulheres. Passou tempos felizes na primeira escola onde exerceu. «É sempre a primeira escola da minha vida profissional, o começo de uma vida a sério, de uma vida com responsabilidade, tanto para comigo própria, como para as crianças que eu ia ensinar e tentar abrir portas para a vida. Tive a sorte de encontra uma santa de uma senhora, a Senhora Antoninha Polónia, e a Família Vaz, que me ajudaram a ver a vida e o futuro. Esperava-me sempre com olhos de esperança e de confiança. Bons tempos!»
«Só havia uma pequena dificuldade: ir a pé ou a cavalo, da Bismula até à Nave e apanhar o transporte rodoviário da Viúva Monteiro para o Sabugal. Eram outros tempos… não havia estradas, havia caminhos onde mal se podia passar.»
A profissão de Professora é das mais importantes para mim, das mais importantes para a sociedade. É o seu pilar. São estes profissionais do ensino, sucessivamente vilipendiados pelos últimos governos, que ensinam com muita competência, responsabilidade, disciplina e missão, sem olharem a horários ou honorários extras, muitas vezes colocados em situações e locais difíceis, sem direito à mais pequena reivindicação.
Diz a minha Querida Professora Primária: «acho que fui sempre uma Professora que, ao exigir disciplina nas aulas, levava os alunos a desejarem aprender e a obter muitos bons resultados nos finais de cada ano escolar. A melhor prova foi que nenhum aluno da Bismula, levado a exame, reprovou.»
Nos arredores de Lisboa, viúva, chorando a partida de alguns familiares, com doenças irreversíveis, com a sua saúde precária, mas com a força, lucidez e ânimo, na companhia de dois filhos, respetivas noras e quatro netos. Minha Querida Professora Primária, um abraço de gratidão do tamanho do mundo, do seu aluno,
António Alves Fernandes – Aldeia de Joanes
António Alves Fernandes – Aldeia de Joanes

O tempo passa depressa. Já lá vão três anos, que o Padre Francisco dos Santos Vaz deixou o mundo dos vivos. Neste terceiro aniversário o meu objetivo é relembrar, avivar a sua memória. Sabemos que há tendências para esquecer aqueles que nos são próximos, os nossos familiares, os nossos amigos, muitas vezes aqueles que nos ajudaram a crescer em todas as amplitudes humanas e sociais. Para combater essa vertente aqui estou novamente a escrever, porque há pessoas que pelo seu caminhar ao lado de comunidades, de sentirem e apontarem injustiças, não devem ficar nos baús do esquecimento. O Padre Francisco dos Santos Vaz não pode, não deve ser ignorado.

Com ele, partilhámos diversas atividades lúdicas na terra que nos viu nascer – A Bismula – Sabugal.
Com ele, partilhámos idas a Almedilha, terra fronteiriça de Castela, onde na casa «d´el Cura» tomávamos o pequeno-almoço. Ofertava-nos lindos selos que coleccionávamos em uso naquele país. Ainda nos ajudava para que as autoridades (os terríveis carabineiros franquistas), não nos «roubassem» uns pães, uns doces – as galhetas –, uma bola de borracha de futebol, umas sapatilhas e um ou outro livro religioso.
Com ele, partilhámos as idas e estadias no Rio Coa, nas margens de Badamalos, na propriedade de António Joaquim Morgado Leal. Com outros companheiros, pescávamos peixes, refrescávamo-nos, cozinhávamos, enfim, passávamos momentos maravilhosos de entretimento, fazendo parte deste grupo o actual Pároco do Sabugal – Padre Manuel Igrejas. Ainda no passado dia oito de Agosto, na renovada Igreja de Badamalos, na Celebração das Bodas de Oiro do Padre Agostinho Crespo Leal, e no Encontro Anual dos Sacerdotes da Diocese de Évora da Zona Raiana, te recordámos com saudade e rezámos.
Padre Francisco Santos VazCom ele, partilhámos na casa de seus pais, Albertino Vaz e Maria d’Ascensão Leal, o pão repartido, as refeições que fumegavam nas panelas de ferro, aquecidas à lareira, e alojamento à luz da candeia porque a luz elétrica ainda era uma miragem.
Com ele, partilhámos milhares de quilómetros à boleia quando éramos jovens estudantes, ficando mais conhecedores do património nacional.
Com ele, partilhámos cultura quando nos deslocávamos às ruinas romanas de Tróia, aproveitando para umas idas à praia com o mesmo nome, quando esses locais eram do Povo, as salgadeiras, onde os romanos guardavam o melhor peixe de Setúbal.
Com ele, partilhámos conhecimentos de línguas clássicas, grego e latim, onde era mestre, além de dominar o francês, o inglês e o alemão, sem esquecer a língua portuguesa com provas dadas no Ensino Secundário, no Jornal «O Nordeste» e nos livros de sua autoria.
Com ele, partilhámos a amizade dos meus pais e meus irmãos, que viam, no Francisco dos Santos Vaz um filho e irmão mais velho, culto e sabedor.
Francisco dos Santos Vaz, escrevi-te este pobre e simples texto, para que sejas recordado, para que ninguém afirme que já te não conhece na Bismula. Sabes que há muita gente que tem a memória muito curta. Esquecem-se facilmente aqueles que fizeram história, semearam e ensinaram cultura, apregoaram valores e foram sacerdotes ao serviço do amor e da proximidade, nas aldeias dos outros e na sua terra natal.
Francisco dos Santos Vaz, em tua homenagem e para que nunca sejas esquecido «cantarei sempre até que a voz me doa».
António Alves Fernandes – Aldeia de Joanes

Lembrei-me de escrever sobre uma figura muito popular das nossas comunidades cristãs e paroquiais. Todos os que frequentamos a Igreja, conhecemos bem a missão e os serviços prestados por estes homens e mulheres. Nós também já partilhámos essas actividades em muitas cerimónias religiosas ajudando o titular do cargo.

Vou escrever umas notas sobre aqueles com quem me cruzei e a minha experiência neste serviço voluntário.
Da Bismula recordo o Manuel Cordeiro. Nós, ainda muito jovens, procurávamos ajudá-lo principalmente nas Eucaristias da semana, com horário matutino, porque os habitantes tinham de ir trabalhar para a faina dos campos agrícolas. Havia tanta competitividade, que muitas vezes os mais madrugadores se escondiam atrás do altar-mor, fazendo barulhos para afastar os mais preguiçosos. Era uma disputa muito saudável e louvável, sem censuras do Pároco. Lembro-me dos Jovens nestas andanças: Manuel Vaz, seu irmão Messias Vaz, António Alves Fernandes e seus irmãos Manuel José Fernandes e Francisco Alves Monteiro, José Lavajo Fernandes e tantos outros.
Em Setúbal, na Igreja de Santa Maria da Graça, hoje a Sé da Diocese, José Maria Fernandes Monteiro, meu saudoso Pai, durante um ano desempenha, em regime de substituição, o cargo de sacristão, que pertencia a Ernesto Santos Silva, morador na Rua da Paz, junto às muralhas medievais da cidade de Setúbal, a recuperar de uma grave doença. Regressado à sua função, José Maria Fernandes Monteiro fica com o encargo de diariamente ajudar à missa, na Igreja da Boa-Hora (Grilos), edificada em 1566, pela Ordem dos Agostinhos Descalços, onde há muitos anos está alojada a Comunidade dos Missionários Claretianos. Colocado em novo emprego, passaram os filhos a desempenhar aquela missão. Várias vezes coube-me ir desempenhar as funções amadoras de sacristão, principalmente nas férias. Era Superior da Casa, o Padre Carolino, homem bom, com um coração maior que Trás-os-Montes, província de onde era natural, que nos autorizava a colher e comer no quintal laranjas e tangerinas. Já o Padre António Monteiro de Terras de Jarmelo (Guarda), que conheci em Setúbal, era bem mais severo. Talvez fosse fruto de recalcamentos históricos pelo facto de D. Pedro, o Justiceiro, vingar a morte de Inês de Castro, arrasando aquelas povoações e arrancando o coração pelas costas a Pero Coelho de Jarmelo. Em contrapartida, este Rei atribuiu imensos privilégios aos pescadores de Setúbal…
Um dia, possuído de odores a laranja e tangerina, sou interpelado por este celebrante, que além da censura ditatorial, aplica-me o respetivo corretivo. Seguimos para o altar, ainda se celebrava a Eucaristia de costas voltadas para o povo. Ao colocar a almofada para se ajoelhar, o reverendo dá-lhe um pontapé, que parecia um golo do Eusébio, aqui na baliza de Santo Agostinho, que estava no altar muito sossegado com um livro numa das mãos. Foram os citrininos mais amargos que saboreei na cidade de Setúbal. Aqui foi muito negativa a minha experiencia de «sacristão».
Conheci em Setúbal, um sacristão, numa das maiores Paróquias Nacionais, refiro-me a S. Sebastião, um exemplo de dedicação e amor à camisola de serviço à Igreja. Refiro-me a João Maria Afonso Lopes, o «João Sacristão». Muito virado para a evangelização junto dos homens do mar, onde teve as suas origens, construiu uma Capela no Bairro do Faralhão, e durante muitos anos foi o impulsionador e organizador das Festas de Nossa Senhora do Rosário de Troia. O seu nome está perpetuado numa artéria da Cidade de Elmano Sadino, perto da Avenida do Coração de Maria, na Comunidade da Azeda de Cima.
Em Castelo Branco, um sacristão com nome militar – Fernando Sargento – era efetivamente um sargento na guarda dos tesouros da Sé Albicastrense, sempre vigilante durante décadas, falecendo quase centenário. Os Rotários de Castelo Branco prestaram-lhe uma justa homenagem pelos revelantes serviços prestados à comunidade cristã.
Em Aldeia Nova do Cabo (Fundão), durante mais de cinquenta anos, trabalhou para a Paróquia José de Oliveira, sendo substituído por João Gadanho, a quem as dificuldades visuais impediram de ainda estar a serviço.
Em Janeiro de Cima, encontrei uma persistente guardiã da igreja. Decorreu um evento cultural naquele local e a idosa responsável esteve sempre atenta na guarda de todo o património sagrado. Procurei descansá-la, dizendo-lhe que tudo iria correr bem, que os presentes eram gente séria, conhecidos da Junta de Freguesia local e da Câmara Municipal do Fundão, mas apesar de ouvir os meus conselhos, não descurou a segurança.
Termino este périplo em Aldeia de Joanes, onde uma dinastia de sacristães tem ocupado a respetiva cadeira durante muitos anos. Sebastião Nascimento Ramos e seu irmão Manuel Joaquim Ramos, em períodos alternativos, desempenharam a missão de ajudantes do senhor prior. Manuel Ramos tinha uma voz para os cânticos litúrgicos de encher a alma de quem o ouvia. Até arrepiava quando cantava estes versos:
Oh! Vós que passais
Em frente deste Sacrário.
Oh! Eles loucos não pensam
No amor do Santuário.

É ali que repousa
Naquela Hóstia de Amor e Luz
Vamos todos nesta hora
Desagravar o Bom Jesus.

Também nas festividades do Natal, Quaresma e Páscoa, entoava cânticos de grande musicalidade e fervor religioso. Nas diversas procissões era um general a comandar as tropas.
Há anos, com o seu falecimento, terminou esta Dinastia Sagrada, sucedendo-lhe Higino Serra Cruz, que desempenha um vasto trabalho de sacristão, sempre muito atento e preocupado; ainda é ministro da comunhão e elemento da Cáritas e da Equipa Litúrgica, substitui por vezes o Pároco, trata da limpeza da Igreja Matriz, arrumações e sempre que necessário põe em prática os seus vastos conhecimentos de marceneiro.
Estes homens e mulheres, no silêncio religioso das Igrejas, muitas vezes sem lhes ser reconhecida a atenção e o carinho que merecem por desempenhar tarefas fundamentais, nas atividades litúrgicas, na defesa do património dos templos, são voluntariamente os guardiões dos templos. Merecem reconhecimento e homenagem de todos.
António Alves Fernandes – Aldeia de Joanes

A Paróquia da Bismula, foi durante o século passado um grande alfobre, um viveiro de vocações sacerdotais, missionárias e religiosas. Desse grande número, o Bismulense Padre Manuel Joaquim Martins, celebra meio século da ordenação presbiteral, e que aconteceu na cidade de Trancoso, em Agosto de 1962.

O atual Pároco da Bismula, Padre Hélder Lopes, com o seu dinamismo e juventude, criou uma comissão organizadora de Ação de Graças, pelos cinquenta anos de vida sacerdotal do Padre Manuel Martins. Constituiu uma comissão muito abrangente, que é coordenada pelo Padre Hélder Lopes, como é óbvio, por José Augusto Vaz, na qualidade de Presidente da Junta de Freguesia da Bismula e Provedor da Santa Casa da Misericórdia; António Salgueira irmão e Rita Martins Pinheiro, sobrinha, em representação da família, António Alves Fernandes, em representação das Paróquias do Arciprestado do Fundão e de Emília Bordalo, em representação das Paróquias do Arciprestado de Trancoso.
Este evento realiza-se no dia 25 de Agosto, Sábado, pelas 16H00, na Igreja Paroquial da Bismula, com uma Eucaristia presidida por D. Manuel Felício, Bispo da Diocese da Guarda.
No final da Eucaristia será servido um lanche-convívio, nas instalações da Junta de Freguesia.
A presença nesta cerimónia religiosa que se pretende simples, é uma prova de amizade, de reconhecimento e agradecimento, por uma longa e profícua missão sacerdotal, que começou por coadjutor na Sé da Guarda, pelas Paróquias de Carnicães, Vilares, Freches, Vila Franca das Naves, Vale Mouro, Frechão, Feital, Garcia Joanes e Póvoa do Concelho, Tamanhos, do Arciprestado de Trancoso, das Paróquias de Aldeia de Joanes e Aldeia Nova do Cabo do concelho do Fundão, Professor de Religião e Moral no Fundão, em Trancoso e Celorico da Beira, Vila Franca das Naves; de Assistente Religioso do Agrupamento 120 dos Escuteiros do Fundão e um dos primeiros impulsionadores dos Convívios Fraternos no Fundão.
Por motivos de doença, fez um “ estágio obrigatório,” no Sanatório da Guarda, de assistente religioso junto dos seus companheiros doentes durante vinte e dois meses. Só o doente compreende melhor o outro doente, que partilham dores, tristezas, ansiedades e preocupações. Dizia-me há dias que foi o local que contribui muito para a sua realização como padre, companheiro do homem.
Procurou dentro das condições humanas que cada um de nós transporta, ser sinal de Deus no meio dos homens, ser profeta de uma Igreja que é comunidade, anunciou a Boa Nova a todos os cristãos a si confiados.
Qualquer informação e esclarecimento contate a Comissão Organizadora de Ação de Graças:
Padre Hélder Lopes – Telemóvel 966549561
José Augusto Vaz – Telemóvel 927964754
António Salgueira – Telemóvel 271607233
Rita Martins Pinheiro – Telemóvel 919233491/275772627
Emília Bordalo – Telemóvel 961868020
António Alves Fernandes – Telemóvel 962820107/275752726

Deu-se conhecimento do programa e contatos para que com toda a dignidade e fraternidade, agradecemos a Deus os cinquenta anos de sacerdócio do Padre Manuel Joaquim Martins.
António Alves Fernandes – Aldeia de Joanes

Tudo na vida tem estórias, tem princípio e princípios e qualquer obra necessita de alicerces e projetos.

O Escutismo em Aldeia de Joanes nasceu de uma pequena semente, lançada por dois irmãos, Chefes de Escuteiros da Região de Setúbal, Francisco Alves Monteiro, autor do livro «História do Escutismo em Setúbal e na sua Região» e agraciado com o Colar Nuno Álvares e Joaquim Alves Fernandes soldador voluntário do Monumento do Centenário do Escutismo, em inox refratário, projetado pelo Arquiteto Amaral, Escuteiro do Agrupamento 484 da Anunciada, inaugurado no Parque do Bonfim, na Cidade do Sado. Estes Chefes já tinham realizado muitos acampamentos na Região do Fundão e em Aldeia de Joanes e verificado o grande número de crianças e jovens nesta Freguesia de Aldeia de Joanes, que necessitam de um projeto escutista.
Residia aqui um seu familiar, que também tinha sido Escuteiro em Setúbal, desempenhando inclusive as funções de Tesoureiro no Clã Nº1, do Agrupamento nº 62 da Ordem Terceira.
Em Castelo Branco teve dois filhos Escuteiros no Agrupamento 160, onde fizeram as Promessas de Lobitos. Por divergências causadas por dirigentes e assistentes, esse agrupamento foi suspenso, tendo os Pais, onde se incluía, criado o Grupo 67 da AEP. Por decisão da Assembleia Geral de 21/3/1986, foi-lhe atribuído o título de Sócio Honorário pelos relevantes serviços prestados.
Por decisão do Chefe Nacional Victor Faria em 14/6/1993, é-lhe concedido o Diploma de Mérito pelos serviços prestados ao CNE, particularmente aos Agrupamentos da Região de Setúbal do CNE.
Muitos outros Agrupamentos da Região de Setúbal lhe manifestaram a gratidão pelo apoio que sempre lhes dispensou.
Por aqui se percebe que este seu irmão escuteiro, com tantos incentivos e com tanta matéria-prima, pouco ou nada aproveitada, decidiu conversar com o Pároco para a possibilidade da fundação de um Agrupamento de Escuteiros em Aldeia de Joanes. Verifiquei desde a primeira hora uma apatia e censura à ideia. Com um beco sem saída, em Setembro de 2005, aconselhado por um Dirigente Nacional do CNE., escrevi uma carta ao Chefe Regional da Região da Guarda, sediada na Covilhã. Nessa missiva, pedia uma análise e uma apreciação, para a fundação de um agrupamento do CNE, na Paróquia de Aldeia de Joanes, motivada pela situação geográfica desta Freguesia, aumento da população, com muitas crianças e jovens ali residentes. Solicitava uma reunião que apontava diversos locais, inclusive a sua casa, com a presença do Pároco, do Chefe Regional, do Dirigente Luís Fernando Pereira.
A Chefia Regional, pelo ofício nº 177/05 de 10 de Outubro de 2005, chega a resposta, com oportunas condições, sobre a formação de um agrupamento do CNE, «sendo a principal a aceitação do Pároco», para o qual remeteram expediente.
Terminavam a carta informando-o que «a sua proposta tinha merecido muita estima, alegria e apoio», pedindo uma reunião com o Pároco para aquele fim, que nunca se concretizou, e das cartas não lhes conheço qualquer resposta.
Passam-se dois anos sem o processo avançar e alguém com vontade de este assunto entrar no rol de total esquecimento.
Perante este impasse, algumas vezes foi abordado para se criar um grupo da AEP em Aldeia de Joanes, mas não manifestei disponibilidades, apesar de receber apoio em todos os aspetos.
Com a chegada à Diocese da Guarda de D. Manuel Felício, e já com mais apoios administrativos e técnicos, foi lançada a ideia a este Bispo, e com a sua dinâmica e esforços, a obra começou a ser desenhada.
Assim, dá os primeiros passos, esta grande escola da formação da juventude em Aldeia de Joanes. Decorre um processo de inscrição de dirigentes e elementos. Na ordem de serviço nº 566 de 31 de Outubro de 2008, está oficializado o Agrupamento em Formação de Aldeia de Joanes, que depois de formado recebe o número oficial de 1335. O sonho era uma realidade, para a felicidade de muitos jovens escuteiros, dirigentes e pais.
Em 4 de Outubro de 2008, tomou posse o Dirigente Luís Fernando Santos Pereira – 8409000607004-, o Chefe Adjunto Nuno Paulo Duarte Rocha – 7709000120001-, e foi nomeado pela competente entidade eclesiástica um Assistente do Agrupamento, o Diácono Francisco da Cruz Lambelho – 0809001335002.
No dia 30 de Maio de 2009, há três anos, com a presença do Assistente Padre José Manuel Dias Figueiredo, Chefe Regional António Bento Duarte, do Presidente da Junta de Freguesia António Albino Sousa Carvalho e do Vice-Presidente da Câmara Municipal do Fundão, Dr. Paulo Fernandes, também Escuteiro, realizou-se O Dia das Promessas, onde quem é investido nunca mais o esquece.
Começou a Cerimónia com a Investidura do Dirigente Francisco Lambelho.

Da Alcateia nº 42 do Agrupamento 1335 de Aldeia de Joanes, fizeram a sua Promessa:
Adriana Ramos Pereira, Ana Carolina Martins Carvalho, André Santos Gomes, Beatriz Barata Pereira, Beatriz Marcelo Ramos, Bruno Gonçalves Marques, Diogo Alexandre Cardona, Duarte Dias Encarnação, Duarte Gonçalves Antunes, Eduardo Miguel Trindade Saraiva, Elodie Campos Mesquita, Fernando José Mateus Marcelo, Filipe José Dinis Domingues, Gonçalo Costa Duarte, Gonçalo Nogueira Costa, Guilherme Martins Lourenço, Henrique José Morgado Duarte da Silva, Inês Maria Mota Bonifácio, Joana Gonçalves Pires, Joana Raquel Batista Veríssimo, João Miguel Patrocínio Bastos, Leonor Dinis Domingos, Margarida Freire Rodrigues, Mariana Rodrigues Lambelho, Pedro Miguel Almeida Penetra, Pedro Miguel Santos Rocha,

Investidura e promessas do Grupo Explorador nº 43:
Alexandra Nunes Roxo, Ana Carolina Morgado Duarte da Silva, André Gonçalo Batista Veríssimo, André Manuel Patrocínio Bastos, Beatriz Maria Dias Encarnação, Bruna Filipa Brito Neves, Cyril Soares Campos, Diogo Marques Pires, Eugénia Morgadinho Martins, João Diogo Cruz Ponciano, João Pedro Marques Esteves , Jorge Miguel Marques Esteves, Rodrigo Monteiro Lambelho, Manuel João Monteiro Barbosa, Marta Isabel Pinheiro Lambelho, Nuno Miguel Freire Rodrigues, Patrícia Isabel de Brito, Rodrigo Monteiro Lambelho Proença, Tiago Gonçalves Marques

Investidura e promessa de caminheiras:
Mariana Gomes da Costa

Foram todos estes heróis os primeiros obreiros, que reconheceram em Aldeia de Joanes, numa festa de partilha e amizade, que o Movimento Mundial Escutista é uma Fraternidade sem fronteiras e que ao dar os primeiros passos para essa Fraternidade, são irmãos e amigos de todos os Escuteiros do Mundo. São os servidores de Deus, da Igreja, da Pátria, do amor à Natureza.
Não ficais esquecidos, vós que tendes aqui o vosso nome gravado, ficais na História do Escutismo em Aldeia de Joanes, esperando que os mais velhos, os mais responsáveis, agarrem neste bebé de três anos a merecer todos os cuidados e atenções. Se esta pequenina criança for abandonada, ninguém tem perdão…Está ali um bom viveiro. Que todos os responsáveis alimentem a CHAMA VIVA… desta Juventude Escutista.
Parabéns a todos os Escuteiros de Agrupamento 1335 de Aldeia de Joanes. Longa e feliz vida, que os presentes e vindouros escrevem a HISTÓRIA.
António Alves Fernandes, Aldeia de Joanes

Como está agendado há muitos anos, no último sábado do mês de Junho decorre em Gouveia o Encontro dos Antigos Alunos. Assim aconteceu nesta data o vigésimo sétimo evento, com a particularidade de se verificar a presença de muitos alunos das últimas décadas do século passado. Alguns participaram com algum sacrifício, por se encontrarem desempregados, enquanto a velha guarda já se encontra aposentada. Espera-se que este facto seja uma alavanca para nos próximos encontros surgirem os mais novos.

Também é significativo a Assembleia Geral ter eleito para os corpos sociais um elenco diretivo jovem, que vai contar com o apoio incondicional das anteriores direções.
Na Eucaristia, o Padre José Cristino, coadjuvado pelo Padre Carlos Jacob, falou da sua experiência como assistente hospitalar, em que os valores humanos e espirituais de muitos doentes se vêm nos momentos mais críticos e se necessita tanto da Fé como suporte para vencer as dificuldades. Nesta Casa também se ensinaram esses valores a mais de mil alunos que passaram pelos bancos das salas de aulas e por esta capela.
O almoço, servido no refeitório que nos é tão familiar, foi um importante momento para trocarmos conhecimentos e alicerçar amizades. Foi oportunidade para ouvir alguns alunos sobre as motivações que os conduziram a este convívio.
Assim, António Jacinto Fonseca de Freches (Trancoso, 1966-1969) afirmou que «o fundo deste encontro é a amizade e a formação para a vida. Aqui, passámos um dos melhores períodos da nossa juventude. Aqui, aprendemos vivências. Temos de ser solidários para esta Obra, principalmente neste período complicado».
José Lazaro de Fiães (Trancoso, 1972-1974) escreveu, embora tenha passado por esta Casa pouco tempo, que este «foi um local onde encontrei um abrigo, graças ao Padre Cristino. Soube de Encontro através do Facebook. Não podia faltar, não só para agradecer, mas também para conviver. A esta Casa devo muito como pessoa e cidadão. Obrigado.»
Manuel Cabral, de Cubos (Mangualde, 1990-1994), diz que vem «para encontrar velhos amigos e principalmente conhecer os alunos que nos antecederam».
José Barros Figueiredo de Cabanas de Viriato (1960-1966), afirma que vem «para reencontrar amigos. Também não esqueço que foi aqui o princípio da formação como homem».
Ricardo Lacerda, de Torre de Moncorvo, 1996, diz que está aqui «para reviver e confraternizar com os amigos».
António José Dias dos Santos de Aldeia de S. Sebastião (Almeida,1966-1974), afirma que «este encontro é algo que nos liga, que nos une muito a esta Casa, que é um pouco de nós. Proporciona-nos ver antigos companheiros de estudo e devemos manifestar a nossa gratidão».
Pedro Costa, de Seia (1995-2000), diz que «este encontro é um reencontro».
José Fonseca de Fornotelheiro (Celorico da Beira, 1966-1971) veio para «ver a malta e conviver».
A tarde foi ocupada num jogo de futebol entre as Velhas Glórias da Escola Apostólica de Cristo Rei, arbitrado por um juiz estrangeiro.
A tarde aproximava-se do fim. Tivemos mais uma jornada de convivência, de saudade e de recordações. Numa troca de abraços fraternos íamos partindo enquanto decorria o lanche-convívio. Lançávamos os últimos olhares para a exposição e álbuns fotográficos, onde cada um de nós tinha ali a sua história, uma história coletiva.
António Alves Fernandes, Aldeia de Joanes

A Cáritas Portuguesa para acompanhar com a contestação de que a crise, a mal fadada crise, está a ser usada para desinvestir no combate á pobreza e à fome, reuniu-se com a Cáritas Internacional e dessa reunião saíram estes dez mandamentos, que seguidamente enuncio, para um Mundo sem fome.

– Contribui para que todas as pessoas tenham o suficiente para comer.
– Não cobices o pão do teu vizinho.
– Não guardes para ti mesmo, os alimentos que fazem falta as pessoas necessitadas.
– Honra a terra e o trabalho para combater as mudanças climáticas, para todos terem uma vida mais longa e um a Terra melhor.
– Vive de acordo com o teu próprio estilo de vida.
– Não cobices a terra e a propriedade dos teus vizinhos.
– Que a política agrária seja para reduzir a fome e não para aumentá-la.
– Toma uma atitude perante Governos corruptos e os que os seguem.
– Ajuda a evitar conflitos armados e guerras.
10º – Combate a fome de forma eficaz, através de ajuda ao desenvolvimento.
António Alves Fernandes – Membro da Cáritas Paroquial de Aldeia de Joanes

Há tempos, uma instituição bancária, numa ação louvável, realizou uma exposição pedagógica para crianças sobre as origens e a evolução da moeda através dos tempos, enfim, como se deve gastar e poupar os proventos dos seus pais.

Há tanta variedade de moeda quanto olhares sobre ela. Uns olham para o dinheiro como um bem que é necessário saber administrar, outros vêem-no como um Deus, outros como um meio que todos compra e outros, que infelizmente são milhões, nem a cor lhe vêem.
Numa amena cavaqueira, saboreando um frango de uma capoeira doméstica, que não passou pelos vistos e carimbos da ASAE, e se estava bom! A conversa descambou para o vil metal. Todos fomos de concordância unânime: o dinheiro é o maior inimigo do homem, o maior causador de desgraças.
Desfilaram imensos casos sobre histórias de dinheiros. Assim, um irmão emprestou a outro determinada quantia. Passados uns tempos o emprestador começou a ter insónias, a andar nervoso, por causa do empréstimo. Vai à casa do irmão e pede-lhe a restituição do vil metal. Este pergunta-lhe as razões desta atitude. Responde-lhe que não tem qualquer desconfiança e nem precisa dele, mas não consegue dormir, passa as noites em branco, porque todas as noites antes de dormir lhe passava as mãos, acariciando-o como uma deusa. Este tipo de gestos ou rituais à Tio Patinhas e sua simbologia, dava-lhe diariamente felicidade, relaxamento e relaxe. O dinheiro substituía a mulher…
Um dia, um familiar deu determinada quantia a um cunhado. Este, ao receber as notas, deu-lhes beijos, talvez convencido de que estava a prestar algum culto ao Santo António. O mesmo familiar também foi comprar umas saladas a uma mulherzinha que vendia hortaliças na antiga Praça do Fundão. Quando lhe pagou, a Senhora agarrou nas moedas e beijou-as, pensando porventura que estaria a beijar os Pés do Menino Jesus… Mas logo o esclareceu: beijou as moedas porque eram as primeiras que recebia após tantas horas de estátua. Que grande crise…
Também um irmão emprestou dinheiro a uma irmã para aquisição de habitação própria. Como estava habituado a dormir com o capital, fazendo do colchão o seu cofre, o que talvez lhe aquecesse as nádegas no Inverno e as arrefecesse no Verão, não descansou enquanto não equilibrou as temperaturas do seu quarto de repouso.
Dizem que um Senhor Prior se negou a Celebrar a Eucaristia próxima da sua residência, porque os honorários litúrgicos não lhe pagavam as despesas da viagem, não davam para o petróleo, e lá ficaram os pobres dos fiéis, que já sofrem com tantos desprezos e esquecimentos, sem a Ceia do Senhor.
Um vizinho, que já foi contrabandista, tendeiro e arraiano, era visita assídua destes amigos à mesa do franguinho. Nos inúmeros encontros, quase diários, o homem só falava em dinheiro, em lojas alugadas, contas bancárias recheadas, considerava-se o maior capitalista da Cidade. Estava sempre a bater na mesma tecla do piano. A música era sempre o saltitar das moedas e o contador das notas. Já começava a desafinar para quem ouvia. Os intervenientes, intoxicados com tanto metal, sentiam-se pior que um fumador inveterado sempre a tossir. Um dia, resolveram acabar com aqueles discursos económicos e monetários. Assim, foi-lhe proposto fazer o balanço das suas riquezas culturais e espirituais, porque das outras riquezas já estavam mais do que esclarecidos.
– Diga-nos lá quem foi Mozart e o Profeta Isaías?
– Mozer e Isaías? Bem, penso que foram jogadores do Benfica.
– E o Rei Salomão?
– Bem, esse foi jogador do Sporting, mas está emprestado.
– E Eugénio de Andrade, que tem o nome da avenida onde você mora?
– Bem, esse gajo deve ter sido um homem importante para ter uma avenida. Parece-me que é cá destes sítios, mas eu nunca o vi aqui a trabalhar.
Perante tão desastradas respostas e ignorância reveladora, disseram-lhe que era a pessoa mais pobre que já conheceram, apesar de ter uma tulha de dinheiro. Andou um ano sem lhes falar, mas já reataram o convívio e nunca mais lhes falou no metal.
Quando surgiu o euro, um Sr. Prior, no alto do seu púlpito, queixava-se que na saca das esmolas só apareciam moedas pretas e muitas eram pequenas demais.
Uns adolescentes encontraram caídas umas moedas amarelinhas como o ouro e ficaram deslumbrantes com tão precioso achado. Esconderam-nas nos bolsos e mantiveram-se caladinhos, não fosse o diabo tecê-las e serem roubados. Passados uns tempos tinham derretido. Ficaram sem as moedas e nem sequer comeram o chocolate. Por um lado ainda bem, porque podiam apanhar uma diarreia inflacionária.
Há anos (hoje não há tempo, nem vontade) havia o hábito de levar o Cristo Ressuscitado às casas dos paroquianos na Páscoa. Na Zona da Covilhã era obrigatório dar uma nota de Santo António ou uma galinha. Dadas as grandes dificuldades das populações, não era fácil pagar esta imposição, e muitas pessoas sentiam-se na necessidade de pedir uma ou outra coisa emprestada. O sacristão, vendo o número de galinhas crescer na capoeira do Pároco e quase vazia a sua, arranjava artimanha de dar uma picadela na cabeça dos galináceos, que ficavam meio tontos, e quando avistava o ”Padre do Galinheiro”, sorria para o Cristo Ressuscitado e lamentava-se de não ter nota e as galinhas terem malina. Mal o Padre se apercebia da “doença “, o sacristão escolhia as mais robustas das e tirava-lhes logo bilhete para o seu capoeiro e uma ia direitinha para a panela da cozinha.
Há muitos outros casos cómicos, pois o dinheiro, ao corromper os homens, torna-se numa fonte de humor. Como aquele funcionário avarento, que queria que lhe pagassem num dia vinte e cinco horas de trabalho extraordinário, e ninguém o convencia que os dias só têm vinte e quatro horas.
Como alguém escreveu amar o dinheiro é a causa de metade dos problemas do Mundo, a falta dele é a outra causa.
António Alves Fernandes – Aldeia de Joanes

Jesus Cristo, ao denominar-se «EU SOU O BOM PASTOR», encontrou umas das melhores definições para os seus conterrâneos, que conheciam bem os ambientes rurais e pastoris.

Quem já visitou as Catacumbas de Roma, lá encontra um ícone do Bom Pastor. Esta imagem transfere-nos para a missão sacerdotal.
O Papa Bento XVI insiste no celibato e recusa a ordenação de mulheres. Entendo que terão de se dar passos para inverter esta situação, porque até ao Concílio de Trento os Padres eram casados. São Pedro, um dos primeiros Apóstolos e o primeiro Papa, tinha família, era casado. Um dos milagres que Jesus Cristo realizou foi a cura da sua sogra. Quanto à ordenação de mulheres, parecem verificar-se razões impeditivas teológicas, mas numa sociedade moderna, em que a mulher desempenha todas as profissões (a minha mulher foi durante muitos anos diretora de um Estabelecimento Prisional), tem que se acabar com esta discriminação. Conheço mulheres a desempenhar funções de chefia e direção muito mais competentes que muitos homens. Acredito plenamente que a MULHER ainda terá o seu lugar no presbitério da Igreja, próprio, equilibrado, sensato, persistente, com a missão do grande amor de MÃE.
A Igreja Católica Portuguesa tem três mil e trezentos padres nos diversos serviços paroquiais e outros. No ano passado morreram cento e doze padres e só foram ordenados trinta e um, portanto um quarto dos que faleceram. Um terço tem mais de setenta anos e a idade média dos padres portugueses é de sessenta anos. Um presbitério envelhecido e gasto.
O Papa manda algumas farpas dizendo que não anunciamos teorias, nem opiniões privadas, mas a Fé da Igreja da qual somos servidores. E se não chegarem ou acabarem os servidores?
Alguns bispos dão alguns recados, assim o Cardeal Patriarca afirma que há a tentação de apresentar perspectivas e visões pessoais em vez de proclamar a Fé da Igreja.
O Bispo de Braga aponta as sete maravilhas da Igreja: a fé, a pobreza, o celibato, a alegria, a oração, a obediência e a unidade. Será que é isto que vemos no nosso presbiterado?
O Bispo de Leiria e Fátima diz que o sacerdócio é um sacramento social e apela a todos os sacerdotes para abandonarem as sacristias e irem ao encontro do mundo, optando por uma Nova Evangelização, que contrarie o eclipse de Deus e que atinja a sociedade. Concordo plenamente com esta mensagem. Quem dará passos em frente?
D. Clemente, Bispo do Porto, lembra que os pobres esperam respostas da Igreja e faz duras críticas à legislação, principalmente no sector da família e da procriação. Nos últimos anos com a lei do aborto foram feitos sessenta mil em Portuga, não se sabendo dos clandestinos.
O Bispo da Guarda, apelou aos sacerdotes para ajudarem os outros a escutarem o apelo de Jesus às vocações sacerdotais, o grande sofrimento da Igreja de hoje. Pediu-lhes para serem homens de acolhimento, o rosto acolhedor de Jesus Cristo, voltado para todas as pessoas sem exceção, o nosso ministério tem de promover a proximidade. Será que todos ouviram esta mensagem?
Na Páscoa, o Domingo do Bom Pastor, Pedem-nos para rezarmos a Deus, para que esse Dia Mundial das Vocações dê à Sua Igreja muitas e santas vocações sacerdotais e religiosas. A este propósito lembrei-me de uma situação de queixumes e lamúrias da parte de voluntários e voluntárias da pastoral prisional. Num encontro em Fátima lamentavam a falta de assistentes religiosos. O responsável Padre Dâmaso Lamber inquiriu todos os presentes e ninguém mandou o seu ou os seus filhos para o Seminário… e não estavam interessados para os mandarem frequentar no futuro.
Sei que no Distrito de Castelo Branco temos um Diácono, a desempenhar e bem essas funções, no sistema prisional.
Com os Seminários vazios ou quase vazios, há que encontrar alternativas. Já Camões avisava que todo o mundo é feito de mudança e mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.
Os Bispos reuniram-se no Concílio de Trento e entenderam que deviam ter padres mais cultos e então criaram os Seminários para a sua formação. Sei por experiência própria a ação importante que tiveram na sociedade portuguesa. E hoje? Ainda se justificam? Porque é que os leigos não desempenham tantas missões no ministério da Igreja? Não seria importante concretizarem-se esforços para dar continuidade ao Concílio Vaticano II, que este ano comemoramos o seu cinquentenário?
Este tema dava para escrever um livro. Este texto é uma simples reflexão sobre o significado de um Bom Pastor. No meu modesto entender deve ser UM COMPANHEIRO DOS HOMENS NA FÉ.
António Alves Fernandes – Aldeia de Joanes

Comemoram-se este ano os cinquenta anos da fundação do Agrupamento 160 do CNE na cidade albicastrense. As suas origens remontam aos anos 1957/58, em que D. Agostinho de Moura quis que o Escutismo fosse uma realidade em Castelo Branco.

A semente foi o Clan S. Miguel, a funcionar no Seminário Maior de Portalegre, de que faziam parte três jovens seminaristas José Dias da Costa, Luís Moreira Armando e João Ribeiro. Assim, Acácio da Silva Meira Rosado, Arnaldo Vieira, Maria Teresa Cardoso Salema, Mila Rosado, Joaquim de Sousa Castanheira, Padre João de Deus e Maria Graciete Santos Quintas, lançaram 1962 mãos à obra escutista e fundaram o escutismo em Castelo Branco, oficializado nos Serviços Centrais na O. S. nº 222, funcionando como sede no Arco do Bispo na sede da J.OC., e mais tarde na Rua Ruivo Godinho. Mais tarde passou para o edifício onde hoje funciona o Conservatório Regional de Música. Estava criada esta grande escola da vida com os valores do Escutismo e da Igreja para a juventude albicastrense.
No dia 14 de Abril na Biblioteca Municipal decorreu uma sessão comemorativa desta efeméride com dois momentos importantes: a inauguração no átrio da mesma de uma exposição sob o lema «AO ENCONTRO DA HISTÓRIA… RUMO AO CENTENÁRIO», e uma palestra do Chefe João Aramando, Membro do Comité Mundial do Escutismo, sobre o «ESCUTISMO SÉCULO XXI», tendo como moderador o Dr. José Pires, também escuteiro do Agrupamento de Castelo Branco.
Com o auditório da Biblioteca repleta de escuteiros, familiares e amigos, abriu a sessão o Chefe do Agrupamento José dos Santos Mendes que saudou todos os presentes, prestou homenagem aos dirigentes e escuteiros da atualidade, os que passaram por esta instituição, sem esquecer aqueles que já estão no eterno acampamento. Esta Escola de valores que é o escutismo merece que a cidade de Castelo Branco tem de apoiar, para bem da sua juventude.
O conferencista o dirigente João Armando pretendeu partilhar reflexões, para passar um pouco para os desafios do Escutismo no Século XXI. Já somos Escuteiros deste século. Lança algumas perguntas. Como éramos há vinte anos atrás? O Escutismo esteve sempre ligado à sociedade. É perigoso falar sobre o Escutismo neste século. O mundo mudou…e muito. Aqui aponto as mudanças:
Acesso à informação – o maior desafio que nos é apresentado é selecionar a informação. Temos de ajudar os mais novos a escolher a qualidade da informação. Hoje o acesso é imediato. Deve fazer-nos pensar.
Novas formas de comunicação – Hoje estamos ligados a todos. Hoje não estamos a falar sozinhos.Com os SMS, mails, telemóveis. Estamos em rede.
Novas formas de relacionamento – Não estamos sozinhos. Hoje temos muitos “ amigos” e partilhamos com eles muitas coisas.
Acesso aos recursos – Parece um paradoxo com a crise com que vivemos, mas sabemos a oportunidade de recursos que existem e se aproveitam.
Crescente mobilidade – Sabemos a deslocação que se verifica com as pessoas pelos mais diversos motivos. Vejam o que é isto em termos escutistas. Antes estávamos fechados e não passávamos de Badajoz. E hoje? Vejam os fluxos migratórios no nosso País, na Europa, no Mundo.
Sociedades multiculturais – hoje no nosso ensino há nas turmas alunos de várias nacionalidades. O Escutismo tem de repensar o seu oferecimento. Esta “ mistura “ podem trazer grandes benefícios para a Escola Escutista.
Mudanças demográficas – no Ocidente cada vez mais envelhecido. Em África, Ásia nascem mais pessoas. Portugal é o segundo país do mundo com menos natalidade. Não vamos ter crianças e dirigentes «velhos», na idade.
Novas formas de trabalho e organização – no século passado víamos a divisão de trabalho as hierarquias chefias. Hoje, as normas são diferentes com as novas tecnologias. Estão em mudança as relações laborais.
No CNE. Estamos habituados a uma organização com fluxos verticais de pedir ao outro. Algo terá de ser mudado. Ginasticar com novas formas de pensar e de nos organizarmos uns com os outros.
Oportunidades internacionais – todos conhecem os esquemas de voluntariado, Erasmus, oferta e troca de vivências esporádicas de turismo.
Globalização – cada vez mais estamos ligados aos sectores políticos, económicos, sociais e ambientais e naturais.
O mundo amanhã como será? Como será daqui a cinquenta anos? Como estará o Escutismo posicionado?
O futuro do escutismo passa por:
Valorizar experiências com significado.
Consciência coletiva de um mundo melhor – fazer parte da grande família, cuidarmos do local onde habitamos, a boa ação, seguida por outras ações.
Organização – que as pessoas se sintam bem no seu processo de desenvolvimento.
Tribos – em mantas de retalhos, no encontro do bem comum. Organização em grupos e na defesa dos seus interesses. Saber «cozer» esses retalhos.
A missão e o peso – das mulheres que vão aumentar o seu número na sociedade, e no escutismo são em maior número que os homens. É interessante e importante pensar neste facto para olhar para o futuro.
Que escutismo amanhã? – Apresento um caleidoscópio que passa por reforçar os propósitos educativos, centrar a atenção pedagógica a nível local, responder às exigências da própria multiculturalidade, equilíbrio entre a tradição e renovação, sentido vivencial da pedagogia escutista, reforçar realidades extra escutistas e diversificar a presença dos adultos.
Os sinais do futuro estão na missão educativa, ambiente de aprendizagem, experiência intensa (hard skills et softskills), espaço de liberdade e aventura, um ponto de encontro de amigos, mais global, mais internacional, mais urbano, adaptação aos diferentes «tubos» de digital, mais colaborativo e aberto e uma organização mais «plana», isto é o retorno do perfil do movimento, menos burocracias, nível local ao mundial, uso a fundo das tecnologias na comunicação, formação, entrada na era
Seguiu-se um debate vivo, com perguntas por parte dos jovens escuteiros e as respostas do conferencista sobre esta temática.
Era final de tarde quando abandonei as instalações da Biblioteca Municipal de Castelo Branco, sentindo-me muito feliz por ali ter estado. Dei o último olhar pela enriquecedora e histórica exposição, que aconselho uma visita. Vieram-me à memória tantos momentos felizes vividos, quando admirei as fotografias dos meus dois filhos quando no espaço da Senhora de Mercules,
Fizeram as suas Promessas de Lobitos, dos acampamentos, dos convívios, da amizade dos dirigentes como o Chefe Arnaldo, Félix, Mendes, Armindo, Fátima (Fatuxa), e a Chefe Etelvira, e tantos outros, que com os seus ensinamentos escutistas, os meus filhos aprenderam valores cívicos, de amor à natureza que nunca mais esqueceram. Nesta hora vai a minha gratidão para estes homens e mulheres que gratuitamente colaboraram e colaboram na formação global dos jovens albicastrenses e lhes apontavam e indicam caminhos de fé, de solidariedade, de verdade, de justiça e de amor à natureza.
PARABÉNS AO AGRUPAMENTO 160 DO CNE DE CASTELO BRANCO.
António Alves Fernandes – Aldeia de Joanes

Um punhado de cidadãos de Alpedrinha sob a dinamização de Barata Roxo, foi feita homenagem a Zeca Afonso – a voz da utopia não morre, como escreveu o Jornal do Fundão. No dia 14 de Abril numa Adega na Zona Histórica do Cardeal Jorge da Costa, um grupo de amigos proporcionou uma tertúlia cultural sobre o criador das Baladas.


De uma forma informal Barata Roxo deu inicio à sessão agradecendo a presença de todos os presentes que enchiam por completo o espaço daquela Adega Tradicional. Espaço que o Zeca Afonso escolheria, porque gostava de atual em coletividades populares, de pescadores e operários, em convívios fraternos, em Tabernas… Deu a palavra ao Jornalista Fernando Paulouro Neves, que referiu que a música do Zeca está perfeitamente atualizada. Se recorrermos às letras das Baladas «os Vampiros, o Menino do Bairro Negro, No Lago Breu ou Balada do Novo Dia», estão completamente atuais, neste contexto social e político. Estão outra vez na moda porque a sua mensagem musical e poética passou para as juventudes dos nossos dias. As suas canções são um património de liberdade. Teve a capacidade e a disponibilidade para entender o tempo histórico que era o dele e que está atual. A sua obra é soberba de carater e com grande carga de compromissos. Ele cantava as liberdades e os seus poemas não precisam de datas.
A Dr.ª Maria Antonieta Garcia fez um testemunho de convivência pessoal com este trovador em Belmonte e principalmente no ensino na cidade e acompanhamento das suas atuações em muitas coletividades e grupos desportivos populares e no Centro Cultural de Setúbal, que ainda hoje existe. No ensino preocupava-se muito com os estudantes pobres e nunca se preocupava com os honorários das suas atuações, não vivia para o dinheiro.
Também falou sobre as suas músicas, que nos inventava os filhos da madrugada, abrindo portas de liberdade, sofreu com as notícias de soldadinhos que não voltavam, de meninas de olhos tristes, de exílios, de prisões, de fome…. Ajudou os presos políticos e chegou a ter casa em Monsanto para se fosse necessário se refugiar e passar mais facilmente para Espanha. A viagem da vida parou cedo e «já não volto à Beira».
António Alves Fernandes, leu um texto escrito pelo seu irmão Ezequiel Alves Fernandes, que em 1969, na Turma do 2º R do Ciclo Preparatório da Escola das Areias em Setúbal foi aluno do Professor de História Dr. José Afonso. Dizia aos alunos de uma Turma problemática, com muitos repetentes, com idades dos doze aos dezassete anos, alunos de bairro de lata, subnutridos, que «a História que vou ensinar é contada pelos Homens do Mar, sentida nos Lugares e vivida pelos Povos, que fazem a História».
Se este não fosse um País de labregos, com colossal desonestidade, que medram em asfixia mediocridade de cariz inquisitorial, provavelmente o País respirava a Obra Humana, Intelectual, Musical e Poética de Zeca Afonso.
Nesta ação cultural foram declamados poemas e cantadas baladas de Zeca Afonso. Um grupo musical do Fundão composto pelos dois irmãos Freires, por Adelino e a sua jovem filha, fecharam com chave de ouro esta tertúlia de um punhado de amigos.
Á meia-noite os presentes unidos, cantaram a senha, o hino que tem o nome de «Grândola, Vila Morena».
Em cada rosto respirava felicidade, fraternidade e igualdade…
Parabéns a este punhado de cidadãos que tiveram memória, que recordaram o Trovador do Povo.
António Alves Fernandes – Aldeia de Joanes

Naqueles tempos, há mais de cinquenta anos, os habitantes da Bismula viviam com imensas dificuldades. Era fundamentalmente através das atividades agrícolas e da pastorícia que sobreviviam, com a ajuda das jornas contrabandistas em terras fronteiriças. Todos os terrenos disponíveis eram cultiváveis. Não havia campos incultos.

Os cereais (centeio, trigo, cevada e milho) eram primordiais na alimentação humana e também para os animais.
Os terrenos das searas passavam por três fases ou folhas como o povo chamava. Na primeira, em Março, começava- se a decrua das terras, eram lavradas. Na segunda as searas ficavam no seu normal crescimento e na terceira as terras estavam de poisio ou em repouso.
Começa aqui o ciclo do Pão. Em finais de Setembro e Outubro procedia-se à sementeira do centeio. Onde não chegava o arado eram feitos os cadabulhos com a enxada. As terras eram adubadas com o Nitrato do Chile. Com a semente nascida procedia-se a uma apara com dois objetivos: uma melhor ceifa manual e arrancar algumas ervas daninhas.
As ceifas iniciavam-se pelo S. João, S. Pedro, em finais de Junho. Organizavam-se os ranchos de ceifeiros e ceifeiras em trabalho de parcerias, dado que rareava o dinheiro, daí a necessidade desta permuta. Era um trabalho árduo, debaixo de sol escaldante, que exigia refeições reforçadas. Não faltava o presunto, a chouriça do porco caseiro ou as saladas de bacalhau. Matava-se um borrego, um cabrito, fazia-se um bom ensopado acompanhado com uma refrescante salada de alface. Ao cair da noite regressavam à aldeia cantando ao desafio os diversos ranchos. Antes do repouso justo ainda se comiam as milharadas, feitas com farinha de milho e trigo, misturada com leite.
Feitas as ceifas, atados os molhos das espigas, seguia-se o trabalho da «carranja», que era o transporte em carros de bois para as Lages ou Eiras, onde organizavam as medas, um belo conjunto ordenado dos molhos do centeio.
Na Bismula havia naqueles tempos as Eiras ou Lages dos Pinas, da Tia Maria Emília no Barroco Grande, do Corvo, do Chão do Pinto, do Vale das Mós e do Pombal. Ali malhava-se o cereal com um grupo de homens que, sob a voz de comando, com mestria e cadência, exercitavam os manguais. Destacavam-se neste trabalho Manuel Moleiro, José Vaz, Francisco Carvalho, Joaquim Salgueira, José Pinheiro, Joaquim André Teixeira, entre outros. A ajudá-los havia duas ou três mulheres, as espalhadeiras, com destaque para Maria da Graça Polónia e Maria Pinheira.
Mais tarde surgiram as malhadeiras, que trabalhavam por força de um motor através de correias anexas, de forma a facilitar a tarefa da separação do cereal e da palha. Foi um grande avanço tecnológico, de grande rapidez e sem esforço humano. Também começaram a surgir os motores de rega a petróleo, que também veio revolucionar as regas.
Recolhido o centeio, este seguia para as arcas, a fim de cumprir os compromissos anuais da irmandade, as côngruas, os pagamentos dos adubos e, em maior quantidade, para ser moído, escolhendo-se a melhor semente para futura germinação.
A moagem era concretizada nos Moinhos de Água, na Tapada Ribeira, propriedade de Maria Luiza Fernandes e José Polónia. Mais abaixo, perto de Badamalos, na Negreira, uma outra propriedade de Manuel Salgueira e Manuel Joaquim Polónia. Em Valongo do Coa, também havia o moinho de César Moleiro e Manuel Pires e na Rapoula do Coa moeram muito cereal dos bismulenses.
Obtida a farinha era peneirada e o farelo era de muita utilidade para as viandas dos porcos caseiros. A sua cozedura acontecia principalmente no Forno Comunitário, ainda existente. A Junta de Freguesia procedia à arrematação de lenhas, ramos de pinheiro, giestas, para o seu aquecimento. Muitas vezes, Manuel Martins Salgueira e António Fernandes ganharam esse concurso público. As grandes forneiras eram a Alexandrina Abeira e a Guilhermina…
Conforme o número de pães cozidos, assim se pagava a poia e o seu tamanho era variável de acordo com a fornada.
Tinham fama as célebres broas feitas com farinha de cevada e leite feitas pela Maria Rita Trindade. Cada vez que penso nelas, vem-me muita água à boca, porque as tenho muito presentes.
Além do Forno Comunitário, havia mais quatro fornos de propriedade particular. O mais antigo situava-se no local do Cabeço e pertencia a António Fernandes, José dos Santos Leal e Manuel Martins Salgueiro. Também naquele local havia um outro, pertença do Carloto e Varjão. Junto do Forno Comunitário, havia o dos Pinas e o quarto era propriedade de Manuel Lourenço e Joaquim Rasteiro.
A maior parte dos habitantes da Bismula tinham pequenas searas. Mas os grandes produtores eram Manuel Joaquim Polónia, Manuel Martins Salgueira, António Fernandes, José dos Santos Leal, António Lopes Carreto, Albertino Vaz, José Maria Fernandes Monteiro, Celestino Nunes, Joaquim Cordeiro, Manuel Varjão, Joaquim Leal, João Polónia, João «Lagarto» Fernandes, António Adão Fernandes, António Valente, Joaquim Leal Fernandes e tantos outros.
Assim se fecha este Ciclo do Pão na Bismula, que envolvia um Povo Trabalhador.
Ao terminar este texto, recordo duas frases que a minha avó repetia muitas vezes: «o Pão é como a roupa, umas vezes melhor que a outra, e os meus saudosos Pais ensinaram aos filhos que «o Forno deve cozer todos os dias e o Pão que lá seja colocado é o fruto do suor do nosso rosto». Além de uma grande simbologia religiosa que o pão encerra.
António Alves Fernandes – Aldeia de Joanes

«Um Santo é alguém que apesar dos limites e defeitos, vive plenamente a Vida de Deus»; Comissão da Causa da Canonização.

Há muito que andava com o desejo de fazer um texto sobre o Santo Padre Cruz – Padre Francisco Rodrigues da Cruz, que nasceu em 29/7/1859, na Vila de Alcochete, no Distrito de Setúbal. Esta vontade está alicerçada nas muitas conversas que os meus saudosos Pais Bismulenses – José Maria Fernandes Monteiro e Maria da Piedade Alves Lavajo – entabulavam sobre a vida deste Homem e Padre, que conheceram nas décadas de sessenta do século passado, e a quem se confessaram, tendo por ele uma devoção muito especial. A minha Mãe tinha na sua mesinha de cabeceira uma pequena imagem do Santo Padre Cruz, pedindo-lhe a sua protecção, inclusive para o seu Clube, o Clube da nossa família – O Vitória de Setúbal. Infelizmente, nem sempre o Padre Cruz ouviu as suas orações, mas a minha Mãe explicava-me que a culpa era dos jogadores, que em frente ao guarda-redes e sozinhos falhavam os golos escandalosamente. E tinha muita razão…
Fez os estudos secundários em Lisboa e o Curso de Teologia na Universidade de Coimbra. Aos vinte e três anos foi ordenado sacerdote. Torna-se director do Colégio dos Órfãos de Braga, Director Espiritual de S. Vicente de Fora e Professor de Filosofia no Seminário de Santarém, que por motivos de saúde teve de abandonar.
Em Dezembro de 1940 entrou na Companhia de Jesus e em 1942 visitou a Madeira e os Açores.
Um dia fui cortar o cabelo no Fundão, dando conhecimento ao barbeiro da minha intenção de escrever sobre o Padre Cruz. Este olhou para mim, fixou-me e disse-me: «eu ajudei muitas vezes na missa em Alpedrinha o Santo Padre Cruz, que visitava regularmente a nossa histórica Vila». Joaquim Mendes Caldeira, Barbeiro há mais de cinquenta anos, na Praça do Município do Fundão e o seu conterrâneo Doutor António Ribeiro, ex-Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Alpedrinha, foram acólitos e seus acompanhantes.
Devo a estes dois senhores as pistas que me deram para basear todo este texto, pois viveram de perto todas estas vicissitudes, o que lhes confere uma importante credibilidade. Seria bom o poder local dar maior visibilidade a estes factos, com uma maior investigação, e gravar o seu nome na toponímia de Alpedrinha, ou outro gesto que perpetue a sua memória.
O Padre Cruz tinha em Alpedrinha um grande amigo, Alexandre Inácio, notário em Benavente.
Chegava a Alpedrinha através da via ferroviária e subia a pé com o breviário, o terço, uma malinha, vestido com a sotaina e o seu chapéu, numa modéstia total.
Celebrava a Eucaristia na Igreja Matriz, no altar lateral de Nossa Senhora de Fátima, sempre com a presença da população de Alpedrinha. Muitas vezes visitava os doentes do Hospital da Misericórdia de Alpedrinha sob a orientação das Irmãs Hospitaleiras Franciscanas, hoje o Lar da Terceira Idade.
Estes dois acólitos muitas vezes o acompanharam à Estação de Caminho de Ferro de Alpedrinha. Numa das vindas, o Santo Padre Cruz demorou mais tempo que o previsto com os «seus doentes», como ele costumava dizer e o horário do comboio já lá ia. Todos estavam preocupados, mas o Padre cruz sossegou-os: «o comboio não sai da estação de Alpedrinha sem eu chegar». Conseguiu-se que o único automóvel de Alpedrinha fosse colocado à sua disposição e lá partiram. A verdade é que o comboio lá estava parado, sem se saber as razões deste facto, com grande descontentamento geral e sem explicação, e só começou a sua marcha a caminho de Lisboa, quando o Padre Cruz subiu para uma carruagem, sendo saudado por todos os passageiros que o reconheceram e admiraram a sua santidade. Todos diziam que tinha sido um milagre.
Todos nós sabemos que este sacerdote se dedicou totalmente a visitar doentes, reclusos, pessoas marginalizadas e carenciadas. Hoje fala-se muito na caridade e talvez se pratique pouco. Este simples, humilde e pobre Padre, é uma referência moral e cristã, sobretudo para todos aqueles que têm responsabilidades litúrgicas e não só… Este grande discípulo do Santo Cura de Ars, conduziu a sua missão ímpar, ultrapassando todas as fronteiras e colocando o homem no centro do mundo.
Infelizmente muitas vezes me desloco ao Cemitério de Benfica em Lisboa para me despedir de familiares e amigos. Nunca deixo de rezar junto ao seu mausoléu, onde há sempre pessoas a perpetuar a sua memória. É possível que qualquer dia o festejemos nos altares, porque a vida das pessoas já o santificou.
António Alves Fernandes – Aldeia de Joanes

Ir ao mercado foi um acontecimento que me fascinou desde criança. Na minha terra natal, Bismula, concelho do Sabugal, no fim de cada mês realizava-se este evento comercial, onde o meu irmão Manuel José Fernandes vendia todos os melões do meloal, propriedade do meu pai, enquanto o meu irmão Francisco Alves Monteiro vendia pão espanhol, que era muito apreciado naquela zona arraina.

Nas aldeias vizinhas de Alfaiates, Miuzela e Vila do Touro, calcorreei caminhos com o meu progenitor José Maria Fernandes Monteiro, levando animais e produtos agrícolas para vender. Os mercados mensais eram os eventos mais importantes da transacção de mercadorias e produtos. O meu primeiro fato que levei em 1958, para a Escola Apostólica de Cristo Rei em Gouveia, dirigida por padres alemães, foi comprado no mercado de Alfaiates. Em Vila do Touro comi a melhor carne assada pelo meu conterrâneo António Joaquim Videira, que estava um pouco acanhado, mas as ordens da autoridade da freguesia, são neste caso, para se cumprirem. Na Miúzela saboreei umas belas sardinhas, acompanhadas com água, porque era-me proibido beber o vinho famoso daquela região. Era bom ir ao mercado porque sempre folgavam as nossas costas do trabalho rural, sempre se convivia, comia-se com mais gosto, compravam-se mercadorias e animais de quatro patas.
O Mercado mensal do Fundão é um acontecimento regional de grande importância comercial, social, económica, de encontros e desencontros e de convívio das gentes do concelho, extensivo aos Concelhos da Covilhã, Belmonte e Castelo Branco. Ali se cruzam muitas e diversas mercadorias, mas acima de tudo as pessoas.
Entro pelo lado nascente e olha-se para o placard da necrologia para saber se uma pessoa familiar ou amiga faleceu. Desta vez lá estava o amigo Filipe de Sousa Monteiro, mestre na arte da serralharia, na Firma Miguel Reis do Fundão e na Cerâmica de S. Pedro em Alcaria, que desceu à terra pelas 16h30 em Aldeia de Joanes.
Junta-se o amigo alentejano que há tempos não via e lá se veio lamentar de umas dores que não o largam. Seguimos para o espaço do mercado. Conta-me uma história da sua juventude, ao passarmos por uma jovem muito bonita e a beleza feminina é para ser admirada. Trabalhava na Carris e tinha uma meia casinha alugada na Mouraria. Um dia deu abrigo a uma moura, que tinha perdido o marido recluso numa Cadeia da Capital por desfalques a uma empresa de venda de automóveis. Como trabalhava por turnos autorizou-a a dormir na sua cama. Queria respeitá-la, mas um dia de muito frio a sua amiga convidou-o para entrar no vale dos lençóis. O aquecimento recíproco foi deveras proveitoso. Passados meses parecia que a relação podia dar frutos menos desejáveis e de pronto-socorro alguém interveio. Um amigo deu-lhe uma caixa de preservativos e nunca mais teve problemas, inclusive com a dona da casa que tinha o marido lá para as Minas de São Domingos no Alentejo, ficando tudo em família. Ainda hoje ouvi na comunicação social que os Portugueses dão meças ao mundo. Ainda bem!
Enquanto avançávamos e nos cruzávamos com novos e velhos, com reformados ou gente desenfiada que devia estar no seu posto de trabalho, talvez dispensada pelos seus chefes, o meu amigo alentejano conta-me outra história. Há dias entrou numa dessas Igrejas, onde um Pastor gritava que estava a chegar a hora do milagre e que todos deviam colocar a mão no local onde tinham as suas maleitas, requerendo a intervenção divina. A mulher colocou a mão no coração e ele no meio das pernas. Esta maleita chamou-lhe a atenção, porque o referido Pastor faz alguns milagres, mas não ressuscita instrumentos mortos há muitos anos.
Vamos caminhando por meio das tendas de trapos, roupas, sapatos…Algumas estão cheias de mulherio que se acotovelam para comprar roupas de uso pessoal, enquanto ali perto uns carteiristas espreitam uma distracção para dar um golpe fatal, e eu encontrei lá dois que foram clientes no Estabelecimento Prisional de Castelo Branco. De um lado grita-se «aqui é tudo barato, é quase dado, ó freguês, ó freguês, venha ver a qualidade da nossa mercadoria e veja os nossos preços, venha ver as nossas roupas para a criançada, venham, venham, não tenham vergonha de comprar barato». Vejo um vendedor de altifalante em punho como estivesse num comício político, a procurar vender pijamas e roupa interior, e graças aos apelos de compra tinha a sua banca repleta de clientes. Era um formigueiro humano. O som é importante, não é por acaso que junto às Igrejas existem campanários com sinos, para chamar os cristãos às liturgias.
Numa tenda de etnia cigana discutiam-se assuntos de religião, o jejum, a Quaresma, caso muito estranho, e fiquei a saber pela voz do dono daquela banca, que é nesta altura que os cristãos bebem água benta. Com este tempo, não benta já temos. E, a este propósito, no lado poente, encontro um ex-trabalhador do Jornal do Fundão que me diz: «estamos entregues aos Pedros. O que está lá em cima não manda chuva, está cansado de ver tanto malandro. O de baixo é pior que uma calamidade de uma austeridade e crise seca». Também me contou que há dias foi à Missa e que o senhor Prior pediu que quem quisesse ir para o Céu, colocasse a mão no ar. Todos levantaram a mão, menos um idoso. O dito Prior perguntou-lhe o motivo e ele respondeu-lhe que também queria ir, mas ainda não tinha pressa. Quando encontro um simpático e grande conversador, combino logo mais encontros. Assim trocámos os nossos endereços e deu-me o seu email: Alfredoloureiro@come.bebeoquepodeenaodeve. Achei muito interessante e com piada.
Faço a viagem de retorno e cruzo-me com o advogado caminheiro com o seu boné da Adega Cooperativa do Fundão. Desde que fizemos uma digressão a Lisboa para participar numa manifestação de vinicultores, que durante algumas horas percorremos a Baixa de Lisboa, partindo do Marquês de Pombal até ao Terreiro do Paço, com milhares de participantes, que queriam que fossem alterados os graus da taxa da alcoolemia no código da estrada. Por essa acção de luta em favor do consumo do vinho nacional, conseguiu-se subir essa taxa para 5%., ficámos amigos. Almoçamos nessa ocasião no Restaurante A Laurentina de António Pereira natural de S. Jorge da Beira, onde são só consumidos produtos agrícolas da Região do Fundão. Escolhemos uma da especialidade da casa, o bom bacalhau assado com batatas a murro, bem temperado com azeite e vinho da Cova da Beira. Também tem feijão com carne e couves à moda de S. Jorge da Beira. A sua saudação é sempre a mesma: paz e amor. Estas duas palavras encerram tudo de bom para pessoas. Num local assavam-se frangos. Seguimos em frente e passou uma viúva repleta de preto. O meu amigo recita-me: «Luto preto é vaidade / De quem se veste a rigor / O meu luto é a saudade / E a saudade não tem cor».
Os locais de venda das árvores e plantas agrícolas estão à pinha. Ainda bem, porque é necessário plantar e semear. Também no sector dos galináceos e dos ovos há clientela. Bons sinais de vida, para que estas terras não desapareçam.
No sector da venda das ferramentas anda há braços para trabalhar a terra. Tratada dá-nos tudo, é generosa.
Duas horas passeei por este mundo que é importante e dá vida ao Fundão.
António Alves Fernandes – Aldeia de Joanes

Procurarei com este texto, no Dia Mundial do Teatro, que acontece hoje, 27 de Março, prestar uma homenagem a todos aqueles que com o seu trabalho dinâmico, sabedoria, empenho e talento na arte de representar, que proporcionam tantos momentos culturais e emocionais a um público que os admira e respeita.

Viver é representar. Todos os homens escolhem as melhores máscaras e saltam para ao palco do teatro com engenhosas representações.
Shakespeare dizia que o mundo era um palco e Fernando Pessoa definia-se como uma cena viva representando diversos actores em diversas peças. Assim se explica a fome de teatro de todos os homens. A Vida é um Teatro. Experimentem, por exemplo, tirar todas as máscaras nos sectores políticos, religiosos, sociais e culturais, e, que outra consequência senão encontrar a morte? Com efeito, é o Teatro que torna as pessoas mais livres e permite a vida, ora autorizando verdades que, sem máscara, poucos ousariam dizer, ora dissimulando os nossos reais defeitos e possibilitando a sã convivência.
O teatro vem dos clássicos gregos, atravessa séculos de culturas e civilizações, passa pelo misticismo, pela farsa social, pelos testemunhos heróicos, religiosos e tantos outros. A sua importância é milenar. Nas tragédias gregas, por exemplo, as autoridades pagavam ao próprio público para as ir ver.
Quando Molière bateu três vezes com a sua bengala nas «tábuas da aristocracia francesa» do Século XVII, não imaginaria, por certo, que esses sons ecoariam numa aldeia portuguesa recôndita, situada no Planalto do Ribacôa, na alma do POVO anónimo Bismulense, a que com orgulho pertenço, e que escolheu para acontecer Teatro representado em diversos locais públicos: o Largo de Santa Bárbara, da Relva, da Praça, e quando o tempo ameaçava chuva no Salão, ao cimo da Rua do Forno.
Através de um conhecimento baseado na transmissão oral, nos princípios do Século XX já a Bismula fantasiava um jogo cénico com componentes militares e religiosas, envolvente ao Mártir São Sebastião, que já abordei num texto sobre a Irmandade com o mesmo nome, centenária e com irmãos espalhados por todas as freguesias do Concelho do Sabugal.
Com a nomeação do Padre Ezequiel Augusto Marcos para Pároco da Bismula e ali residente, as peças de Teatro levadas à cena atingiram o seu apogeu, contando com o apoio de dois colaboradores e encenadores: José Joaquim Fernandes e o seu parente José Maria Fernandes Monteiro, seguidos por um elenco de actores populares, que hoje envergonhariam muitas vedetas de pacotilha, que aparecem todos os dias nos ecrãs da televisão. Actores de grande talento como Joaquim Firmino, António e Joaquim Videira, Iberte Alves Ramos, José Augusto Vaz, Paulo Cardoso, José Maria Fernandes, Manuel José Fernandes, as Irmãs Faustina, Trindade e Inês Alves Mendes, Maria Bernardete Fernandes Lavajo, António Joaquim Lopes, Antero Leal, Francisco dos Santos Vaz, e tantos outros.
Esta plêiade de homens e mulheres levaram à cena, na Bismula e nalgumas freguesias limítrofes, peças de Teatro com a temática religiosa, histórica e alguma mitologia popular; no final havia sempre uma rábula cómica, que fazia rir o grande público. Para dar um ar festivo ao Teatro, muitas vezes este era abrilhantado por uma Banda de Música, que vinha da Freguesia da Malhada Sorda ou da Parada.
Lembro-me da apresentação das peças de S. Sebastião, «A Bandeira Roubada», «Santo Tarcísio», «Os Dois Jovens Cativos», «A Paixão de Jesus Cristo», «Restauração de Portugal», «O Amor Descoberto», «O Fim do Mundo»; nas peças mais cómicas apareceram «O Barbeiro de Sevilha», «Salsa e Parrilha» e outras que não tenho na memória.
Estas peças eram apresentadas com tanto realismo que numa peça, levada à cena no Largo da Relva, com o palco assente nas pedras do mercado (já desapareceu este património), um dos actores ficou com uma costela partida. Também não posso deixar de dar o meu testemunho pessoal. Na peça «A Bandeira Roubada», o meu pai é condenado à morte e com os meus seis anos comecei a chorar compulsivamente no meio dos espectadores, e só parei quando me agarrei ao pescoço do meu saudoso Pai – José Maria Fernandes Monteiro – e confirmei que estava vivo e não tinha sido morto.
Vivi esta e outras emoções que me acompanham até à morte. Devo-as ao Povo Actor, aos Homens e Mulheres Bismulenses.
HONRA, GLÓRIA E LOUVOR AOS ACTORES ANÓNIMOS BISMULENSES, CUJOS NOMES AINDA ESTÃO VIVOS NA MEMÓRIA DE TODOS AQUELES, QUE ASSISTIRAM A MARAVILHOSAS PEÇAS DE TEATRO.
A TODOS OS HOMENS DO TEATRO.
António Alves FernandesAldeia de Joanes

Todos os anos, no primeiro fim-de-semana de Outubro vou em excursão, com as gentes de Aldeia de Joanes a Fátima, inserido na Grande Peregrinação Franciscana, que se realiza a nível nacional. É interessante que a veneração a S. Francisco de Assis, tem alguma implementação na zona circundante do Fundão. Imagens, capelas e conventos são sinais dessa presença. Na viagem e na Cova da Iria, cruzamo-nos e encontramos oriundos de Aldeia Nova do Cabo, de Alpedrinha, de Castelo Novo e do Fundão.

É interessante ir em comunidade, compartilhar e partilhar os nossos farnéis, estarmos numa proximidade de uns com os outros.
Dormimos, descansamos na Casa de Nossa Senhora de Fátima, das Servas de Jesus, da Diocese da Guarda. Ali temos a simpatia e simplicidade das Irmãs e todas as condições para partilharmos as nossas refeições.
Chegados no Sábado, deslocámo-nos para a Igreja da Santíssima Trindade, onde em conjunto com milhares de «Irmãos Franciscanos», da Família Franciscana, assistimos à Eucaristia, presidida por um Bispo de Moçambique, em que não faltou a pregação inflamada, interessante, oportuna, mas curta do Padre Vítor Melícias, exaltando a mensagem fraterna de Francisco de Assis e da Obra Franciscana em Portugal e no Mundo.
O Grupo Coral das Irmãs Franciscanas com a sua música litúrgica e vozes apuradas, convidam-nos para um ambiente de espiritualidade e de fraternidade.
Á noite, com tempo de verão, milhares de pessoas incorporam-se na Procissão das Velas, com um caudal comovente de luz e de fé.
No Domingo de manhã, percorri as proximidades da Igreja da Santíssima Trindade. Fico sempre encantado com a sua beleza e grandiosidade. Paro junto das diversas portas imponentes e trabalhadas com inscrições evangélicas de salvação. No seu interior, admiro e medito no painel em tons dourados, suavíssimo atrás do altar, obra com simbologia bíblica. Olho para a figura simples, forte, escura e poderosa na sua agonia de um Cristo Crucificado. Junto ao altar a imagem branca de Nossa Senhora, com muita espiritualidade e leveza, fazendo-me lembrar uma jovem camponesa trajada à moda das pastorinhas. No centro do altar, um relicário com um pedacinho de uma pedra do túmulo de S. Pedro de Roma a dar-nos a imagem da universalidade da mensagem de Fátima.
Cá fora, olho para aquela altíssima e estilizada cruz e mais à frente a Estátua de João Paulo II. Aqui fico em silêncio alguns minutos. Não posso ir a Fátima sem fazer uma visita obrigatória a este saudoso Papa. Desta vez toquei-lhe acentuadamente no seu manto pontifício, como que o agarrei e pedi-lhe muito baixinho uma graça muito especial, que só ele ouvisse, porque há sempre muita gente junto dele. Foi-me concedida, bem-haja, João Paulo II.
Ali está, numa escultura notável, repleta de piedade e comovente autenticidade, concebida por um seu conterrâneo, com a anotação das viagens ao Santuário de Fátima.
Terminadas as Cerimónias Dominicais, com o inesquecível adeus à Virgem, regressamos a Aldeia de Joanes, num são e agradável convívio, numa jornada franciscana muito feliz e de espiritualidade.
Regressámos às nossas normalidades da vida, com cadências, ritmos, com altos e baixos, pressas e paragens e esperanças. São estes momentos de espiritualidade que nos devem fazer mais fortes e seguros para resistir às inúmeras dificuldades e austeridades. Porém, devemos estar sempre vigilantes e activos.
Uma palavra de simpatia e agradecimento, para o Senhor Higino Serra Cruz que todos os anos organiza esta Peregrinação da Família Franciscana, e desta vez, me proporcionou escrever estes «OLHARES DE FÁTIMA» e a todos os acompanhantes de Aldeia de Joanes.
António Alves Fernandes – Aldeia de Joanes

Sabemos que a Poesia é como o Pão e deve ser partilhada entre todos, eruditos e camponeses, entre todas as nossas imensas, fabulosas, extraordinárias Famílias do Povo»; Pablo Neruda.

Hoje, dia 21 de Março, comemora-se a nível mundial o Dia da Poesia. Com o início da Primavera, não podia existir melhor comemoração.
Quando frequentava a Escola Primária na minha aldeia – Bismula – era muito frequente as professoras falarem da poesia, nós que somos um País de Poetas. Na Escola Apostólica de Cristo Rei, em Gouveia, tínhamos de declamar muitos sonetos dos nossos maiores poetas portugueses: Camões, Sá de Miranda, Bocage, Frei Agostinho da Cruz, Sá Carneiro, Florbela Espanca, Sebastião da Gama, Augusto Gil, Guerra Junqueiro, Antero Quintal, Miguel Torga, e tantos outros.
Desculpe-me algum bismulense que se sinta injustiçado, mas a Bismula teve dois poetas irmãos: José Bárbara Leitão e Joaquim Bárbara Leitão. O primeiro encantava com uma voz maravilhosa e o segundo com voz de desafio e de provocação. Estes trovadores cantadores, que se inspiravam e improvisavam versos, a partir dos Textos da Bíblia Sagrada, eram acompanhados pelo acordeonista Raul dos Santos Tomé, e na sua companhia, percorriam romarias, mercados, onde centenas de pessoas os ouviam com muita admiração e entusiasmo, sobretudo todos os anos junto à fogueira do Natal, na celebração do Nascimento do Menino Jesus. Infelizmente a memória oral não se conserva tanto como a escrita. A seguir temos três poetas, com obra publicada. No cimo da pirâmide está um dos expoentes máximos nacionais e internacionais, o Dr. Manuel Leal Freire, que no seu «Namoriscar» escreveu:
E se a sorte me não minar
Então arranco uma bula
E vou casar-me com uma prima
Que me espera na Bismula.

Manuel Leal Freire é homem de múltiplas atividades profissionais, mas tem uma grande produção literária, tem milhares de textos em diversos jornais, com um espaço no Jornal Nordeste, da Bismula, em Jornais Nacionais e Regionais, em revistas e em alguns sites. As suas principais obras de Poesia são «Sementes na Rocha Nua», «Pátria-Matria», «Terra Paterna», «Cantigas da Pátria Xica» e «Trovas de Escárnio em Vernáculo». Noutros domínios literários, concretamente em prosa, também ali tem inscrita a sua Poesia. É o caso da obra: «Contrabando delito mas não pecado». Na capa principal do livro lemos:
Eu sou o coelho campal
Que em toda a parte faz a cama:
Anoiteço em Portugal,
Amanheço em Espanha.

Convidado em apresentações de livros ou tertúlias, é um encanto ouvi-lo dissertar em verso sobre qualquer tema com muita graça e profundidade.
Manuel Leal Freire é um dos expoentes máximos da literatura portuguesa e a Bismula tem na sua obra grandes motivos para se orgulhar.
Um segundo poeta, é José Maria Fernandes Monteiro, com diversas poesias inseridas no Livro «Pater Famílias». Num dos seus poemas escreveu:
A Bismula me viu nascer
E juntamente com os meus;
Logo que comecei a crer
Ensinaram-ma a amar a Deus.

Num outro poema:
A Rua do Forno na subida
Ou a mesma a descer,
Faz-nos lembrar nesta vida
Subimos? Descemos a morrer.

Mário Tiago Bernardo Fernandes, no esmiuçar daqueles enigmáticos versos, afirma que «alguém que pelo menos uma vez na vida teve uma ideia própria e forte que abala tudo. E nestes simples quatro versos, ao saltar a escatologia de uma Rua da Bismula, para uma escatologia existencial, descreve em poucas palavras a condição humana».
Também o escritor e jornalista Manuel da Silva Ramos, na apresentação da segunda edição do «Pater Famílias», em Aldeia de Joanes, na presença de centenas de pessoas, escreveu e leu: «Lembro-me do meu avô, fazendo versos e rimando “MIM” com “ASSIM… ASSIM”».
Também o colaborador do Jornal Nordeste da Bismula, Professor José Corceiro Mendes, tem apresentado muita temática poética.
Vou deixar vários textos de Poetas, que todos já conhecem, para recitando poemas no Dia Mundial da Poesia, façamos a justa homenagem.
Um grande poeta, tem milhares de poemas com linguagem mundial, que teimosamente não quer publicar, chamasse António Brás Ribeiro, ex-Provedor da Santa Casa de Alpedrinha, e para este Dia Mundial escreveu este poema:

A POESIA, no Tempo
Ecoará…
E não se confundirá
Com o vento.
A POESIA, encontrará
A magia da Palavra
No seu próprio…
TEMPO.

Outros poetas:
Escrevo como quem quer ser escrito.
Jorge Reis Sá

Que por todos se faça POESIA.
Ruy Belo

A POESIA adora andar descalça nas areias do Verão.
Eugénio Andrade

Sei fazer VERSOS, mas doem.
Machado Assis Pacheco

A POESIA não é um dialeto
Para bocas irreais
Nem o suor concreto
Das palavras banais.
É talvez o sussurro daquele inseto
De que ninguém sabe os sinais
Silêncio incorreto.

José Gomes Ferreira

Eu não escrevo em Português
Escrevo eu mesmo.

Fernando Pessoa

A minha Homenagem vai para todos os POETAS PORTUGUESES, principalmente aos BISMULENSES.
António Alves Fernandes – Aldeia de Joanes

Nasce na Primavera de 1923, em Terras Beirãs, na Freguesia de Vila Cova à Coelheira, num ambiente rural, de uma família de agricultores, a dois passos da sede do Concelho – Seia – já com indústrias ligadas à manufactura dos tecidos, da lã, do queijo e do turismo da Serra da Estrela.

Feito o exame da 4ª Classe ingressa no Seminário do Fundão no ano de 1936. Em Agosto de 1946, um ano depois do fim da II Grande Guerra é ordenado sacerdote, vivendo o País uma grave crise económica, como a de hoje, talvez com diferenças, havia a cultura dos valores, da palavra, da ética, da honra e da dignidade.
Inicia a sua missão sacerdotal nas Minas da Panasqueira, em S. Jorge da Beira, onde vive e convive com a problemática social e humana das gentes mineiras, dos seus dramas, das mulheres viúvas, dos filhos órfãos, da exploração desenfreada e da maldita doença da silicose.
Regressa ao Fundão, sendo Pároco nas Donas, onde baptizou um menino, que mais tarde foi Primeiro-Ministro de Portugal, em Valverde, apoia o Seminário Menor do Fundão e os rapazes do Abrigo de S. José.
Em 1959 é convidado para ir trabalhar com os Jovens do Patriarcado de Lisboa, saindo da Diocese da Guarda, como aconteceu a muitos outros dinâmicos sacerdotes.
Em 1968 é nomeado Pároco em Venda do Pinheiro onde tem o seu nome inscrito na toponímia e em Torres Vedras. Sei, conheço uns medíocres e míopes que não vêem com bons olhos estas distinções, mas deve fazer-se justiça a quem a merece, fruto de trabalho, de missão evangelizadora, não se acomodam.
Em 1973 é professor no Montijo, e nomeado Assistente Regional do CNE de Setúbal, conforme ordem de serviço da Junta Central nº323 de Abril, desse ano, mantendo-se até 1994, isto é durante vinte e cinco anos, digo bem, vinte e cinco anos ao serviço dos jovens escuteiros
Durante este percurso e nos anos de 1975 a 1980 é Director do Externato Diocesano Manuel de Mello, no Barreiro, nos anos de 1980 – 1993 Director do Colégio Frei Luís de Sousa de Almada e Director Espiritual do Seminário Diocesano de Setúbal.
Em 1993 é nomeado por essa figura impar do episcopado português – D. Manuel Martins, Vigário Geral da Diocese de Setúbal.
Conheci o Padre Alfredo Brito nos anos oitenta em diversas actividades escutistas da Região de Setúbal, e nos convívios que mantinha com os meus familiares. Marcou-me muito pela proximidade que mantinha com o movimento escutista, não faltando às reuniões e eventos que exigiam a sua presença. Também vi sempre neste sacerdote uma grande liderança e de diálogo construtivo, não se perdendo com banalidades, futilidades, enfrentado com rigor, disciplina, autoridade e aprumo os problemas e tomada de decisões.
Não há jovem escuteiro da Região de Setúbal que não conheça a acção, a missão deste Assistente Regional, do Padre Alfredo Brito.
Em 1986 pelos importantes serviços prestados ao Escutismo, é o primeiro elemento deste movimento da Região de Setúbal, a receber a máxima condecoração daquela instituição, O Colar Nuno Álvares.
Ao Centro de Educação e Ambiente da Arrábida, propriedade da Junta Regional de Setúbal é-lhe atribuído o nome de Padre Alfredo Brito.
O Livro «A História do Escutismo em Setúbal e na Região», de Francisco Alves Monteiro, um escuteiro que fez caminhada com o Padre Alfredo Brito ilustra muito bem através de fotografias e de textos a obra impar, deixada por aquele inesquecível Assistente Regional.
Há oito anos o Divino Chefe chamou-o para o eterno acampamento e regressou á terra que o viu nascer, às suas origens graníticas e serranas. Bem-haja Padre Brito pelo que fez na formação da Juventude. Este texto é para MEMÓRIA FUTURA!
António Alves Fernandes – Aldeia de Joanes

Era uma mulher franzina, de estatura meã, com uma alma grande. Era uma mulher que cedo ficou viúva e mãe de cinco filhos. Perante esta situação civil e social viu-se a braços com a criação de tão grande prole, se compararmos com os dias de hoje, em que um dos motivos principais para o deficit da natalidade são os aspectos económicos das famílias, e nem o poder político nem a Igreja se preocupam muito com isso.

Era uma das mulheres mais idosas de Aldeia de Joanes. Mulher rija como o aço, com uma força assente no granito e hercúlea, deitando as mãos ao leme familiar. O barco era o trabalho duro no campo, ali e acolá. Era necessário ter alguns cêntimos para alimentar os filhos. O local de trabalho incerto e contratos por umas horas ou dias no amanho de umas plantações, no cultivo de terrenos agrícolas. Há pessoas que se cruzam na nossa vida que nunca mais esquecemos. A Senhora Celeste ficou na nossa memória e dos meus filhos, que a tratavam como mais uma avó. Alma simples, qual Teresa de Calcutá, bondosa, sempre risonha, transmitia felicidade. Hoje já não sorrimos, já não nos cumprimentamos, andamos tristonhos, sempre muito ocupados com o nada, muito cheios de serviço, boa desculpa para nada se fazer, para os outros serem as nossas bengalas, com o medo que ainda nos venham exigir ou cobrar qualquer imposto. É melhor fingir que não nos vemos… Podem vir a chatear-nos a pedir um conselho, uma ajuda. O melhor é fugir…
A Senhora Celeste ensinou-me muito. Não sabia ler nem escrever mas tinha o Curso Superior de Ciências Humanas na Universidade da Vida. Quando às vezes um filho nosso fazia alguma asneira, lá estava a apara raios da Senhora Celeste. Além da dedicação ao trabalho, amava os nossos filhos, amava as pessoas.
Com os filhos na diáspora, ainda passou alguns tempos nos Estados Unidos e na França. Antes de apanhar o avião, o que lhe criou imensa confusão, procurei explicar-lhe que era o transporte mais seguro do mundo.
Numa tarde quente de Fevereiro recebo a notícia da sua morte quando me dirigia para a Capital. Acompanhava-me o meu filho mais novo, e saíram-lhe dos seus olhos umas lágrimas dolorosas e sentidas.
Algumas vezes a visitei. Muitas vezes a passar pela estrada nacional Aldeia de Joanes – Telhado, no Largo de Santiago, ouvia a minha voz e trocávamos afectividades. Reconheço que da minha parte merecia mais visitas. Visitar os idosos é uma obrigação cívica e moral.
A Senhora Celeste, nome maravilhoso, nome que se enquadra no pensamento religioso, é uma grande alma, e sempre que as suas forças lhe permitiam nunca faltou às suas obrigações.
A Senhora Celeste, esposa, mãe, viúva, trabalhadora rural, assalariada algumas vezes, ainda trabalhou nas limpezas das vias públicas, a cargo da Junta de Freguesia de Aldeia de Joanes.
São estas mulheres portuguesas, simples, anónimas, que construíram e constroem Portugal.
Foram estas mulheres que no tempo das Caravelas ou da Guerra do Ultramar foram a retaguarda do nosso patriotismo. Relembro Fernando Pessoa: «Ó Mar Salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal, quantas mães choraram…»
Sei que alguns fariseus, quais sepulcros caiados de branco ou de vermelho, se interrogam, «mas este vem com esta crónica, com esta conversa, a falar de uma mulher que quase ninguém conhece». Ora, foi no ambiente destas mulheres que nasci, cresci e me alicercei como HOMEM. Foi lá que vi, num meio rural, como aqui, mulheres com as ferramentas e a informática da época: o berço de madeira, a enxada, a foice, o arado, o sacho, a cesta da merenda às costas, quase vazia, a ida aos cartórios civis ou religiosos, a serem recebidas, muitas vezes, como pessoas de segunda ou terceira classe, como acontecia nos comboios, enquanto muitos desses fariseus assentavam o traseiro nos cafés, nas poltronas, nos camarotes das ficções, nas mesas das honrarias, nas mesinhas com toalhas de rendas a tomar o chá das cinco, que o da manhã já lá foi, a receber e a comer o prato de lentilhas.
António Alves Fernandes – Aldeia de Joanes

Ao ler este título, perguntam quem é esse Fatela? Aqueles que vivem em Aldeia de Joanes, Freguesia povoada pelos Templários e situada na Cova da Beira, conhecem-no.

O Fatela nasceu nesta Aldeia, um cidadão simples, humilde, católico praticante, que muito cedo começou a trabalhar. Aprendeu o ofício de saber lidar e tratar os móveis e aí gastou muitas das suas forças profissionais. Por motivos de saúde reformou-se prematuramente. De seguida tem o falecimento da esposa. Uma desgraça para os pobres nunca vem sozinha. Para afagar tantas dores envereda pelo consumo exagerado do álcool. Quem não tem um vício?
Ficou com a companhia da única filha, que se destacou durante seis anos como Catequista na Comunidade Paroquial de Aldeia de Joanes, levando dois grupos a fazer a Primeira Comunhão. Também foi evangelizadora na sua terra. As exigências da procura de uma profissão, de um emprego, como acontece a milhares de jovens do interior deste País, forçaram-na a emigrar para o litoral. O Pai, o Fatela, fica só. Fica nas paredes sombrias e frias da sua residência, tendo como companhia a Capelinha de Nossa Senhora do Amparo, de grande devoção para as gentes de Aldeia de Joanes, que em Agosto lhe fazem uma festa e lhe prestam reverência.
Ainda trabalhou numa empresa de venda de materiais de construção no Fundão, mas o tal vício obriga-o a abandonar aquelas actividades.
Também a Junta de Freguesia lhe deu trabalhos esporádicos de limpeza de caminhos vicinais e outros. Num desses trabalhos, com o seu companheiro a suar por todos os poros, chamei-o para lhes dar uma bebida refrescante. Quis um copo de vinho tinto em vez da cerveja fresquinha. Se todos nós bebêssemos vinho português, a nossa agricultura estaria bem melhor.
Foram muitos os encontros com o Fatela nos Cafés de Aldeia de Joanes. Era um homem de trato afável, delicado, não criava problemas a ninguém, apenas prejudicava a sua saúde e a sua reforma. Um dia, tive de fazer o papel de regedor dos costumes e não lhe autorizei que bebesse mais um copo de vinho, atendendo à medida já ultrapassada em todos os níveis possíveis, e fui levá-lo a casa. Este gesto cimentou mais a nossa empatia e estava sempre a relembrar-lhe que tudo na vida tem limites e muito mais limites aquilo que prejudica a nossa saúde.
No dia 15 de Fevereiro de 2012, num Lar situado na aldeia mais alta de Portugal, partiu para a vida eterna, na data em que fazia 61 anos de idade, indo festejá-los no Reino de Deus. No dia seguinte foi o funeral em Aldeia de Joanes.
Na Igreja Matriz, nas Cerimonias das Exéquias, o Povo cantava «Eu caminharei na presença do Senhor» e um elemento do Grupo Coral com uma voz celestial cantava que «O Senhor é a minha Luz e a minha Salvação». O Evangelho de S. Mateus apontava e iluminava: «vinde a Mim os que andais oprimidos, os humildes de coração».
O Celebrante teve o cuidado de mencionar o nome completo do defunto, o que é muito louvável. Irrita-me quando, por questões de crise ou austeridade, apenas mencionam um só nome. Desta vez foi bem pronunciada e sufragada a alma de António Salvado Afonso Fatela.
No funeral registou-se e notou-se a presença do elenco da Junta de Freguesia, o Presidente da Assembleia de Freguesia e todos os proprietários dos Cafés de Aldeia de Joanes, revelando que acima dos negócios há sentimentos, solidariedade e dor.
Estranhei a ausência de representação da parte dos Catequistas da Comunidade Paroquial de Aldeia de Joanes, mas os homens às vezes têm a memória curta.
Já o sol estava a esconder-se nesta tarde fria de Fevereiro quando o corpo do Fatela – António Salvado Afonso Fatela – desceu à terra, onde todos nós também desceremos.
Paz à sua alma…que descanse em Paz.
António Alves Fernandes – Aldeia de Joanes

José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos é o nome completo desta figura nacional e internacional da música, da intervenção política e cívica, social e docente.

Nasce a 2 de Agosto de 1929, na freguesia da Glória, do Concelho de Aveiro, no seio de uma família de magistrados. Atendendo à actividade profissional dos seus progenitores que se estendeu de Timor a Moçambique e Angola, Zeca Afonso teve de ficar ao cuidado de familiares em Portugal. Reside em Belmonte na casa de um seu tio que desempenhava as funções de Presidente da Câmara. Ali faz o exame da 4ª classe. Em Coimbra frequenta o Liceu Nacional João III e a Faculdade de Letras. Inscreve-se no Orfeão Académico de Coimbra e na Tuna Académica da Universidade de Coimbra, actuando em diversas localidades de Portugal, em Angola e Moçambique. Ainda em Coimbra faz parte da equipa da Associação Académica.
Casa com uma humilde costureira de quem mais tarde se divorcia, passando muitas e diversas dificuldades económicas, aliás, Zeca Afonso foi sempre um desprendido dos valores materiais.
Cumpre o serviço militar obrigatório na Escola Prática de Infantaria em Mafra, frequentando ali o Curso de Oficias Milicianos, onde muitos portugueses passaram.
No ensino oficial como professor dá aulas em Mangualde, Alcobaça, Aljustrel, Faro e Lagos. Mais tarde exerce funções docentes na Beira e Lourenço Marques em Moçambique. Termina a sua carreira em Setúbal, por ter sido expulso por razões políticas. Era uma grande injustiça.
Em 1958 grava o primeiro disco a que se seguem muitos outros. Introduziu novas formas e padrões interpretativos na renovada canção coimbrã. Surge a balada veiculada por uma profunda contestação estudantil. A sua canção é em 1960 e nos anos seguintes a bandeira da oposição ao regime. Surgem canções com forte componente social e política como os Vampiros, O Menino do Bairro Negro, a Balada de Coimbra e tantos outros.
São de grande qualidade poética, têm novas formas rítmicas, com ambientes sonoros compostos por instrumentos africanos, adufes da Beira Baixa, as gaiatas de foles de Trás-os-Montes e da Galiza e outros, recriando a música popular. Zeca Afonso com as vivências da sua longa peregrinação pelo país e por África introduziu na sua música todos os sons destas regiões. Saliento que ao gravar em Paris a “ Grândola Vila Morena”, o Fanhais com umas botas, ao passar por cima de um espaço com areia, fazia o barulho de um grupo de trabalhadores rurais a dirigirem-se para o trabalho.
Tenho dois irmãos ligados ao Zeca Afonso. Ezequiel Alves Fernandes foi seu aluno de História em Setúbal. Conta que as suas aulas eram de uma história viva, com visitas regulares aos locais e monumentos históricos, além de aulas de grande formação cívica e política, que o marcaram para sempre. Manuel José Fernandes, antes e depois do Abril/74, participou em diversas reuniões, em jornadas sociais e em convívios musicais em colectividades populares e cooperativas da Margem Sul e no Alentejo.
Em 23 de Fevereiro de 1987, faleceu no Hospital de S. Bernardo em Setúbal, com uma doença de esclerose lateral amiotrófica. O seu funeral foi um acto nacional com milhares e milhares de portugueses a acompanhá-lo até ao Cemitério de Nossa Senhora da Piedade em Setúbal. Por sua vontade levou um pano vermelho no féretro e repousa numa campa rasa, tendo como companhia uma camélia. É local de muitas visitas e romagens.
Quis o destino que os meus saudosos Pais José Maria Fernandes e Maria da Piedade Alves Lavajo ficassem sepultados no Talhão da Santa Casa da Misericórdia de Setúbal, a poucos metros da sua última morada terrestre. Quatro bismulenses ligados à memória de um dos maiores compositores portugueses e dos mais divulgados a nível mundial. Um dos maiores vultos da cultura musical portuguesa.
Não há cidadão nacional que não conheça uma canção de Zeca Afonso e muitas são de uma grande actualidade. HONRA E GLÓRIA À SUA OBRA. DIA 23 DE FEVEREIRO DE 2012 FAZ 25 ANOS QUE PARTIU DOS VIVOS. Que ninguém se esqueça e o recorde, como faço neste texto.
António Alves Fernandes – Aldeia de Joanes

Inicio este texto com uma afirmação que li há tempos e registei, por se enquadrar perfeitamente neste tema: «brincar não era um tempo oferecido, mas conquistado entre os múltiplos afazeres em que cedo nos iniciávamos no mundo do trabalho».

Na lógica desta afirmação, em Outubro de 1952, ao iniciar a frequência da Escola Primária da Bismula, com mais de duas dezenas de rapazes e raparigas, levei na minha sacola de serapilheira, um caderno, um livro, uma caneta para molhar no tinteiro, uma ardósia escura e um pião com umas baraças.
Naquela manhã outonal, comecei assiduamente a brincar com os meus conterrâneos. Se as lições na sala de aula eram muito importantes, o nosso brincar no pátio da escola tinha o seu valor. Os nossos cenários do brincar eram o Largo da Santa Barbara, junto à Escola Primária e Capela com o mesmo nome, os Largos do Chafariz, da Relva, da Ladeira, da Praça, o extinto Adro da Igreja e o Campo de Futebol.
Há tempos fui convidado a falar para crianças do 1º Ciclo, sobre os brinquedos do meu tempo escolar. Acedi com todo o gosto, prazer e saudade ao ir relembrar a minha infância.
Disse às crianças que me ouviam com muita atenção, que os nossos tempos de brincadeiras eram escassos. Era nos intervalos das aulas, da Catequese e pouco mais, porque as outras horas eram destinadas a ajudar os nossos pais no cultivo dos campos e na guarda e cuidado dos rebanhos.
Disse-lhe que os nossos brinquedos eram muito pobres e poucos, a maioria era feita pela paciência dos nossos pais, de algum familiar ou amigo. As matérias utilizadas eram de origem vegetal, madeira, trapos, frutos secos, ferro, lata ou latões, papel e outros. Não havia dinheiro para se comprarem brinquedos nos mercados. Hoje há uma inflação de brinquedos de toda a espécie e feitio, ao ponto de muitas crianças quando os recebem, nem quase os vêem. E comecei a explicar-lhes que por exemplo o meu pai fazia uns barquinhos com as cascas de nozes, que colocávamos nas condutas da água das regas. Fazia moinhos com uns pauzinhos e bugalhas. Fazia umas caravelas que ao corrermos giravam a grande velocidade e também eram importantes para colocarmos nas hortas, para afugentar a passarada da mesma forma que os espantalhos. Os piões e um cordel de sisal eram o nosso encanto, e o seu jogo era de tal maneira competitivo, que ficávamos muito contentes quando partíamos o do vizinho. Faziam-nos bolas de trapo para jogarmos. Mais tarde chegaram as bolas de borracha que íamos comprar de contrabando a Almedilla, povoação castelhana.
Jogávamos ao bugalho, que íamos às matas dos carvalhos procurá-los, e mais tarde ao berlinde quando chegaram à Bismula as garrafas dos pirolitos; jogos das escondidas, da cabra cega, da corda, do arco…
Falar do Património dos nosso brincar é irmos à memória da nossa infância e recordá-lo. Quem do Concelho do Sabugal não recorda os seus modestos brinquedos de criança? Penso que não há ninguém, porque fizeram parte da nossa história e do nosso crescimento. Cada brinquedo é uma memória, uma história, uma lição aprendida, uma acção de solidariedade, de amizade e de zangas infantis.
Falar deste Património é recordar pessoas que os construíram, que nos ensinaram, é recordar os nossos companheiros de escola, as nossas brincadeiras colectivas e partilhadas, que já não existem.
Para terminar apetece-me declamar o poema de Fernando Pessoa:

O meu passado de Infância,
Boneco que me partiram,
Não poder viajar para o passado,
Para aquela casa e aquela feição.
E ficar lá sempre, sempre criança, sempre contente.

Hoje há pavilhões desportivos e espaços em todas as freguesias para se brincar, para a prática do desporto, resultado de muitas promessas eleitorais. Porém, o que observamos, a maioria está vazio, inactivo. Já não há crianças nas nossas aldeias e aquelas que as tem não estão motivadas, estão desinteressadas.
As crianças dos nossos dias, desta sociedade a esquecer valores, perderam espaço, tempo e autonomia de brincar.
Hoje as crianças deste País, tem brincadeiras e actividades individualizadas. Como eram diferentes os meus tempos de criança e a saudade que tenho do meu arco e do meu pião.
António Alves Fernandes – Aldeia de Joanes

Aleluia! Aleluia! A nossa Selecção Nacional dos Padres de Futsal é Campeã Europeia. Trouxe para Portugal a Taça dos Campeões Europeus.

A Prova Desportiva realizou-se na Hungria. Participaram doze países europeus. Os finalistas foram Portugal e a Croácia, que vencemos por 5-4, tendo recorrido à marcação de grandes penalidades, visto que o jogo terminou empatado. Consta que não baptizaram os árbitros com aqueles nomes que nós chamamos às vezes (eu em particular), principalmente quando a nossa equipa está a perder.
Os senhores abades portugueses tiveram a ajuda dos deuses, porque foram bafejados por uma pontinha de sorte, mas a sorte protege os audazes. São recebidos em ambiente de apoteose no Aeroporto Sá Carneiro, no Porto. Esta foi a grande notícia que me chegou num jornal diário, em letra minúscula e lá para o seu meio. Na outra comunicação social não vi uma imagem ou alguma notícia escrita.
É interessante saber que estes jovens sacerdotes não têm qualquer apoio. Sem patrocínios, apenas podem contar com a ajuda de Deus e do seu esforço físico e técnico, pois jogam por prazer. Pagam as deslocações do seu bolso, que rondam os quinhentos euros. Têm a oferta dos equipamentos e a cedência gratuita dos pavilhões onde treinam aos domingos de tarde e pouco ou nada mais. Dão um bom exemplo a muitos grupos desportivos, clubes e associações que andam sempre na pedincha de apoios do erário público.
Esta Selecção Nacional dos Clérigos é formada por jogadores do Norte de Portugal. Pertencem às Dioceses do Porto, Viana do Castelo, Braga, Vila Real e Lamego. O representante da Diocese de Lamego deve ter-se treinado antes da posse do actual titular. Pelo que ouvi e li, a oratória daquele Prelado, é pior que os discursos do defunto Almirante Américo Tomás, pior que as intervenções televisivas do Jorge Jesus (embora com resultados práticos) ou do Esteves, que desmoralizariam qualquer cristão, quanto mais um futebolista padre.
Verificámos que os representantes da nossa Selecção são todos do Norte do País. Seria bom espalhar a prole por todo o território nacional cristão, passando pelos Açores e Madeira.
Na Diocese da Guarda temos um Bispo que é um bom atleta, já fez mais do que uma vez a Caminhada a Santiago de Compostela na Galiza. Se mandasse na Federação Portuguesa de Atletismo, já lhe teria atribuído uma medalha, porque a merece inteiramente. Não sei, no entanto se há garra para os futebóis. Quanto à Diocese de Lisboa, deveria sair mais uma norma antitabagismo: vi pessoas tão cansadas, que já não têm forças para saudar um qualquer samaritano que por aquelas bandas apareça, caído na Feira da Ladra.
Quanto à Diocese de Setúbal, saiu de lá o melhor treinador que já conheci, homem corajoso, dinâmico, de vivências sociais e desportivas, capaz de levar muitas equipas a ganhar muitos campeonatos.
Quanto às outras não conheço, tive um breve contacto com o Bispo de Aveiro, de estatura meã, mas com genica para recrutar um ou outro elemento, porque os homens não se medem aos palmos.
É bonito, patriótico e religioso saber que elementos responsáveis na Igreja são Campeões da Europa. Deram uma pedrada no charco da crise e da austeridade e logo com cinco golos marcados nas balizas adversárias.
Despir as batinas, vestir uns calções e calçar umas chuteiras também é evangelizar. Nesta missão e acção, conheci o Padre Ezequiel Augusto Marcos – Vilar Formoso, Padre Manuel Joaquim Martins – Aldeia de Joanes, o saudoso Padre Francisco dos Santos Vaz – Bismula, Padre António Cecílio – Manteigas, Padre João de Deus – Vila Nova de Tazém, e Padre Carlos Manuel Jacob Foitinho – Missionário de S. João Baptista – Gouveia.
Não sei se Sua Santidade, o Papa Bento XVI, lhes irá atribuir uma medalha da Santa Sé ou equacionar a canonização futura da equipa. O saudoso João Paulo II, Papa que amava e praticava o desporto, lembrar-se-ia destes bravos padres portugueses, que ganharam a Taça dos Campeões Europeus em Futsal, ainda por cima em país do Leste Europeu. Não tenho dúvidas.
Para estes senhores priores que, além da sua missão nas comunidades cristãs, ainda têm tempo para o Desporto, DEO GRATIAS, continuação de mais êxitos desportivos, e um TE DEUM de acção de graças.
António Alves Fernandes – Aldeia de Joanes

Há muito que não visitava a Capital do Império. É uma cidade que me fascina, que me encanta. Ali trabalhei, ali nasceu o primeiro filho. Porém, desta vez fiquei surpreendido e preocupado.

Os preços a subirem em flecha, mais altos que as Torres da Basílica da Estrela. Os táxis a aguardar clientes que não aparecem. Fui a uma grande superfície comercial perto do Parque Eduardo VII. Entrei na catedral do consumo para comprar um cobertor. Entrei num labirinto e dizem-me que tenho de subir ao sétimo andar. Um cobertor com descontos custa mais de sessenta euros. Tudo em saldos, mas sem grande procura, com excepção nas marcas da moda. Á saída um slogan «por cada rico um pobre». Não concordo, há mais que um pobre, por cada rico. Há muitos pobres… Um grupo de jovens bem constituídos falam de assaltos, são sinais dos tempos que vivemos. Calcorreio as ruas e em frente à Penitenciária de Lisboa, visitas esperam ordem para entrar, com um aviso que devem chegar meia hora mais cedo. Passo por diversas lojas que compram ouro. Uma loja tem o descaramento de publicitar que compra ouro estragado, velho, usado e partido. Partido por quem e com quem? Entrei e a gentil menina disse-me que tem de usar esta linguagem comercial. «E esta hei?», como dizia o Fernando Pessa. Estão a surgir por todos os lados como já surgiram as lojas dos chineses. Se estes enveredam nestes negócios com o apoio do governo chinês, os nossos comerciantes dos metais preciosos dão uma queda maior que o paquete Costa Concórdia. Há uma procura desusada na procura dos metais, que o digam os ladrões e os receptores dos mesmos. Roubam-se os sinos, os cabos telefónicos, ouro, prata e tudo o que rende dinheiro. Este é um negócio que está a dar e sem fiscalização, sem ASAE, é um verdadeiro negócio da China. É comprar e fundir. Não custa nada e é só lucro. Enfim, parece-me que todos querem comprar ou roubar a ilusão do ouro para esquecer a idade do latão.
Nas paredes da Mãe de Água uma frase: «greve geral – 24 de Nov». Apreciei a caligrafia num vermelho vivo, numa escrita a lembrar os meus tempos de Escola Primária, quando usávamos as canetas de aparos molhados em tinteiros, inseridos nas carteiras de madeira.
Á entrada de um grande terminal de transportes, tropeço nesta frase: «o aumento dos transportes públicos é um roubo aos utentes». Desembolso fatalmente todos os meus trocos e entro no autocarro. À minha frente surge um cartaz «goze a viagem, vá de transportes públicos». Com o aumento dos preços somos mesmo gozados.
Também num mural uma frase: «corruptos, manquem-se». Cuidado, porque depois não há ortopedistas e serviços de saúde que cheguem para tratar tantos mancos.
Percorro uma avenida com endereços de escritórios de advogados e das suas sociedades. Encontro um velho amigo, que me despede em grande velocidade, porque tem de ir estudar e preparar o recurso de uma sentença judicial, porque este também é um negócio que dá chorudos lucros.
Vejo o pequeno comércio quase vazio, cafés, casas de produtos da alimentação, vestuário e outros.
Vejo na Avenida Miguel Torga, e nem queria acreditar: um amolador e afiador de facas e tesouras e afins, apoiado a uma velha bicicleta, despertado a sua atenção e presença com um sinal sonoro próprio. Ele bem olha para os prédios de diversos andares, mas nem um sinal de vida. Ninguém de avental aparece e de saias muito menos. Andam por outras bandas, talvez pelo Bairro Alto e outros locais limítrofes.
Numa companhia de saúde quase ninguém corresponde aos bons-dias. Será que estas e outras saudações já pagam imposto? Não é só aí. É em quase comportamento comum todos os lugares.
Um jovem parecido com um repórter de imagem entrega-me gratuitamente um jornal onde leio-o diversas notícias. Em letras muito minúsculas como convém a esta sociedade relativista, o Papa afirma que «os emigrantes não são números, mas sim os protagonistas do anúncio do Evangelho no mundo contemporâneo». Em 2010 um quarto dos condutores que faleceram de acidente tem álcool no sangue, 1,2 gramas e 7,1% tem substâncias psicotrópicas. As cadeias estão cheias e não estão lá muitos que andam por aí a passear. Um político diz-nos que «somos um país de novelas». Concordo, mas não só.
Termino com as palavras que li de Guerra Junqueiro, poeta transmontano, anticlerical, que fez a transição do século XIX para o XX e da Monarquia para a República, sobre o Povo Português há mais de cem anos: «um povo imbecilizado, resignado, humilde, macambúzio, fatalista e sonâmbulo…um povo enfim que eu adoro porque sofre e é bom e guarda ainda na noite a sua inconsciência como um lampejo misteriosos da alma nacional». Continua actualizada a opinião de um dos maiores poetas portugueses.
António Alves Fernandes – Aldeia de Joanes

«A consciência da nossa identidade como povo obriga ao conhecimento da nossa – Cultura Rústica – não apenas das suas manifestações vivas, mas também das suas formas periclitantes ou que vivem tão-somente na memória dos mais velhos»; Michel Giacometti.

Nasceu em Janeiro de 1929 em Ajaccio – Córsega. Criado por um tio a desempenhar funções coloniais, partilha o seu universo infantil com crianças de origem espanhola e árabe.
Nos anos de 1947-1952 realiza em Paris estudos de música e arte dramática. Fundou e dirigiu revistas culturais e de poesia. Cria uma Companhia de Teatro e participa em vários estágios de arte dramática.
Viajou pelo Norte da Europa e participou em cursos de etnografia. Em todas as Ilhas da Zona Mediterrânica investiga as tradições populares.
Em boa data de 1959 veio para Portugal onde iniciou um trabalho impar e militante de investigação cultural e popular dos portugueses. Faz uma recolha musical e etnográfica e não dispõem de apoios. Mune-se de microfone e gravador com uma velha carrinha percorre este País agrícola e com muitos tradicionalismos na recolha de valores musicais populares.
Inicia a primeira campanha em 1970 no Baixo Alentejo e Algarve, percorrendo diversas aldeias.
No mesmo ano faz uma digressão pelo Alto Alentejo e visita Malpica do Tejo na Beira Baixa.
Em 1971 inicia a terceira digressão à Idanha-a-Nova – Beira Baixa. Os contactos com Fernando Paulouro, jornalista, actual Director do Jornal do Fundão e seus apoios, passam a dedicar aqui uma maior atenção. Capta a imagem e a voz de Catarina a «Chita» de Alcongosta. Regista os sons e o despique dos Bombos de Lavacolhos com os do Souto da Casa.
Em Aldeia de Joanes faz um documentário das ceifas e das sachas do milho, além de Cânticos da Quaresma nas traseiras da Casa do Cruz. Participam nestas gravações as gentes de Aldeia de Joanes cujos nomes vou registar para ficarem para memória futura. Cantaram e participaram nos trabalhos rurais: Esperança Veríssimo, Filomena Ramos, João Mendes, António Manuel Ramos, Maria da Conceição Lambelho, Francisco Marques da Cruz, Jerónimo Bernardo Lambelho, Maria do Carmo Lambelho, Ana Gonçalves de Oliveira, Etelvina Monteiro, Esperança Lambelho, José Oliveira Marques, Albino Simão Ramos, Ana Almeida e Glória Roxo Campos.
A quarta digressão é passada em Trás-os- Montes, Minho e Douro Litoral. Fez uma profunda investigação em mais de sessenta campanhas, percorreu mais de seiscentas e cinquenta povoações e recolheu mais de duas mil espécimes musicais.
A sua passagem por Aldeia de Joanes ainda está bem viva e ainda há tempos foi recordado com a exibição do documentário gravado e filmado com as suas gentes.
A Assembleia de Freguesia de Aldeia de Joanes, por unanimidade, atribui-lhe o nome de uma rua em homenagem e prova de reconhecimento por ter dado a conhecer ao mundo as canções musicais através do programa da RTP, «O POVO QUE CANTA».
Giacometti foi um génio da etnografia e da musicologia do Povo de Portugal. «O POVO QUE CANTA», nunca o esquecerá e está vivo na sua memória.
Ainda não está tudo descoberto da sua obra. Foi um romântico, um pesquisador que palmilhou os caminhos do nosso universo sonoro, à procura de tesouros, com um calendário agrícola e cristão.
No dia 24 de Novembro de 1990 faleceu em Faro. Por sua vontade está a descansar em Paz na Freguesia de Peroguarda no Alentejo.
Bem hajas caro Michel Giacometti.
António Alves Fernandes – Aldeia de Joanes

Há momentos na vida que esta devia fazer uma paragem, por diversos circunstancialismos. Assistir ao funeral do Padre Mário, no Fundão devia ser um desses momentos, mas é assim este ciclo. Senti-me comovido, emocionado e no final das cerimónias fúnebres um grande vazio.

Cedo entrei na Igreja Matiz do Fundão, depois de apresentar condolências, foi sentar-me no último banco daquele templo. Iniciou-se a recitação do terço, tendo como dinamizador o Bispo Emérito da Guarda – D. António dos Santos, que acompanhei, todos os presentes acompanharam, enchendo-me a alma ao ver esta atitude de um ex-representante da Diocese. Respirava-se um grande silêncio. Entretanto um grupo de Irmãos da Santa Casa da Misericórdia, faz uma vigilância junto dos restos mortais do Padre Mário. A hora da Eucaristia rapidamente chegou. Pela coxia central da Igreja avançava o cortejo de mais de cinquenta sacerdotes, dois diáconos sendo encerrado pelos Bispos D. Manuel Felício e D. António dos Santos. Observei no rosto do Bispo da Guarda dor e tristeza. Enquanto se deslocavam para o altar, o Grupo Coral, sob a batuta do Maestro Geada entoava o cântico da aleluia, seguida do salmo: «os que temem o Senhor é grande a sua misericórdia e vinde benditos do meu Pai, receber a herança do meu Pai».
Os Bombeiros Voluntários do Fundão faziam a guarda de honra a um dos seus homens que há vinte e cinco anos os acompanhou como capelão, como assistente religioso.
A primeira leitura é feita pelo Presidente da Câmara Municipal do Fundão, aliás todo o executivo ali estava presente. O Diácono Francisco Lambelho fez a leitura do Evangelho de S. João.
D. Manuel Felício tomou a palavra e dirigiu-se aos inúmeros assistentes. A sua intervenção sintetiza-se numa frase: «O Cónego Mário foi um grande modelo de virtudes humanas e sacerdotais». Realçou as diversas instituições em que o Cónego Mário se dedicou de alma e coração. Deixou-nos um testamento espiritual e humano. Contando com Jesus Cristo Ressuscitado, viveu dando-se ao serviço dos outros. Viveu com paixão a sua vocação sacerdotal. Viveu sessenta e um anos de sacerdócio em diversos serviços. A maior parte do tempo passou-o no Fundão, a sua terra adoptiva e que pediu para aqui ser sepultado. Viveu com grande amor ao Seminário onde desempenhou diversas actividades. Louvemos o Senhor por este sacerdote que teve a capacidade de dar, de ajudar, da sua prudência, do bom conselheiro, com ajuda preciosa para a Diocese da Guarda.
Todos precisamos da misericórdia de Deus e vamos pedi-la. Na fé ganha-se não se perde. Esta é a verdade de que o Cónego Mário vai continuar no meio de nós.
A Oração dos Fiéis foi concretizada pelo Provedor da Santa Casa da Misericórdia do Fundão, de quem o Padre Mário era o Presidente da Assembleia Geral.
A oração dos Fiéis Defuntos foi feita pelo actual Reitor do Seminário do Fundão, que pronunciou o nome completo do Padre Mário de Almeida Gonçalves, pedindo a misericórdia divina à sua alma.
No final das Cerimónias Religiosas, o Presidente da Associação dos Antigos Alunos dos Seminários do Fundão e Guarda, que traçou o percurso do Padre Mário, que também pronunciou o seu nome completo, principalmente na Associação e na missão dos Bombeiros, salientando algumas frases chaves que durante alguns anos lhes dirigiu. Terminou recitando um poema recolhido do seu bloco de notas: «Tenho uma viagem marcada / Quando a faço, não sei / Do que tenho, não levo nada / Só levo o que dei».
Transcrevo as palavras que meu irmão me mandou como comentário ao artigo que lhe enviei sobre o Padre Mário: «Há mortos que vivem todos os dias vivos e há vivos que estão mortos todos os dias». O Padre Mário de Almeida Gonçalves está sempre vivo.
António Alves Fernandes – Aldeia de Joanes

«Pelo S. Martinho vai à Adega e prova o Vinho» – adágio popular.

Este é a sexta homilia que faço relacionada com este Santo, Padroeiro do Fundão, mas principalmente com o Vinho. Hesitei se o devia fazer nestes tempos de crises económicas, de valores, éticas, mas como não cobro honorários por este serviço, não serei atingido por qualquer imposto. Tenho só um receio é se aquele ministro de falas mansas, a lembrar um cordeirinho, vá a qualquer TV pública ou privada a anunciar mais um imposto a quem faz publicidade ao vinho. É possível que aquela calma sonora a aprendeu nos balidos dos rebanhos de Manteigas. Também havia lobos e ouvi-os muitas vezes naquelas zonas serranas. Nestes últimos tempos terá havido alguma transumância. Como alguém escreveu «ele é o GPS do Governo». Parece um daqueles actores alemães refugiados nos Estados Unidos que faziam sempre de espiões soviéticos, nos filmes da Guerra Fria. Mansinhos, mansinhos, mas com o veneno na ponta das botas.
Caros Irmãos, segundo investigações arqueológicas, há mais de cinco séculos que a China cultiva a vinha. Passou a estender-se por todo mundo conhecido da época, como hoje fazem os seus comerciantes, com lojas abertas isentas de horários e impostos por todas as esquinas como antigamente as nossas tabernas e agora as nossas universidades. Aqueles estão a atirar para o empobrecimento e a desgraça os nossos pequenos retalhistas e até já os ciganos, vendedores ambulantes se queixam, estão a fazer-lhe desleal concorrência.
Com a histórica vinícola da China, verificamos que a Humanidade há mais de cinco mil anos anda a apanhar bebedeiras. É obra…
Caros Irmãos, na Sagrada Escritura, no Livro do Génesis, Noé também cultivou a vinha e bebia bom vinho. Não está confirmado oficialmente, mas dizem as más línguas, que à socapa levou para a sua Arca, uma grande pipa de vinho.
Rezam as crónicas recolhidas da mitologia grega que Dionísio era o Deus do Vinho.
O Povo Romano também plantava e fazia o néctar dos deuses, escolhendo-lhe o nome de Baco. O simbolismo da Adega Cooperativa do Fundão é a imitação de uma estatueta romana encontrada em Castelo Novo, representando alguém com um cesto de uvas à cabeça.
Caros Irmãos, no Evangelho de S. João 2, 1-12, há a descrição do Primeiro Milagre de Jesus Cristo, como o sinal do Reino de Deus. Aconteceu nas Bodas de Caná, na Galileia, para as quais Ele, sua Mãe e os Discípulos foram convidados. Um caso insólito, faltou o vinho. Sua Mãe, apelou ao Seu Filho, para tentar resolver o problema. E o Senhor mandou encher as talhas com água e transformo-a em bom vinho, melhor que o primeiro servido. Em Portugal também muitos taberneiros imitam muito mal aquele milagre, deitando água no vinho.
Carlos Irmãos, não é por acaso que o vinho inspirou santos, poetas, artistas e fadistas.
S. Francisco Xavier, o Grande Missionário do Oriente, em 1514, ofertou ao Rei do Japão, garrafas de bom vinho da cepa portuguesa.
Eugénio de Andrade, grande poeta português escreveu, «…a embriaguez é o leite entornado das estrelas».
O meu conterrâneo e parente Manuel Leal Freire, grande poeta, escritor, etnógrafo, jornalista, escreve, «…mais vinho, que é sangue eterno, / Mais vinho, que faço eu. / Ai se o vinho leva ao Inferno, / Primeiro nos mostra o Céu.»
Caros Irmãos, há muitas qualidades de vinho. O da Sabedoria, que inspira poetas, artista e intelectuais. O do Amor, que dá cá um entusiasmo nas aventuras amorosas… O de todos os dias, que nos dá força e alento em todas as horas de trabalho, às vezes funcionando como um verdadeiro doping. E o Vinho da Morte, que se bebe em excesso, nos leva à cirrose, à morte na estrada, no trabalho, em casa arruinando o bem-estar da família, destruindo-a…
Caros Irmãos, tendes a liberdade democrática de vos embebedar, de beber até cair. Mas, Irmãos, cuidado com as consequências. Não espereis por milagres, assumi as vossas responsabilidades. Ao soprar no balão podeis ir para a prisão. Não vos queixais, porque multas pagais e sem carta de condução ficais.
Caros Irmãos, festejemos o S. Martinho com bom vinho que bebido com moderação, faz bem ao coração, principalmente o tinto da Adega Cooperativa do Fundão. É cá uma pomada…
Se não me ouviste Caros Irmãos, irei pregar para outra Paróquia. Que S. Martinho nos dê a suas bênções e bom vinho. Assim seja. Amém.
António Alves FernandesAldeia de Joanes

O objectivo deste texto é lembrar às gerações bismulenses mais novas que tiveram e têm pessoas da sua terra, que em missões humanitárias, sem recompensas monetárias, prestaram serviços importantes, numa entrega total a Deus e aos homens.

Sabemos por experiência própria como alguns responsáveis por instituições públicas e políticas são alérgicas, insensíveis e deixam cair no esquecimento os seus filhos e até afirmam que já ninguém os conhece na sua terra natal. No entanto, muitos tiveram participação social activa no seu meio e estenderam-no pelo mundo em trabalho notável e valioso. Nesta linha está alguém que gastou uma longa vida a curar e a suavizar as dores físicas e psicológicas de muitos doentes.
Há muito que era minha intenção escrever sobre a minha conterrânea, a Irmã Religiosa Célia, com quem falei uma ou duas vezes, nas suas raras visitas à Bismula. Avivei a memória e com alguns apontamentos recolhidos vou debruçar-me um pouco com a sua história.
Nasceu a 4 de Agosto de 1907 na Bismula, nos finais da Monarquia agonizante. Eram seus Pais Luísa Martins e Joaquim Valente. Pertencia à geração do meu Pai – José Maria Fernandes, que me falava muitas vezes desses tempos. Foi registada civilmente com o nome de Maria Rosa Martins. Tinha duas irmãs, Francisca Martins, casada com o meu tio António Fernandes, cedo faleceu de parto, deixando quatros filhos menores órfãos. O recém-nascido Francisco ficou aos cuidados da sua irmã Rita Martins, mas passados alguns meses também morreu. Esta irmã teve uma numerosa família, nove filhos e foi a mãe do Padre Manuel Joaquim Martins.
Aqui tenho de citar Mário Tiago Bernardo Fernandes, no preâmbulo do Livro Pater Famílias de Ezequiel Alves Fernandes, «era o tempo em que as crianças ficavam às escuras na Bismula, olhando as luzes das cidades que emergiam no horizonte, catapultando sonhos impossíveis, o tempo das rixas nas tabernas; as crianças mortas embrulhadas num lençol; o tempo dos gritos da injustiça das mães que viam partir os seus rebentos por falta de assistência médica.» E as mães também partiam… Partiam todos sem cuidados médicos, porque não existiam.
A Maria Rosa Martins frequentou a Escola Primária da Bismula. Nas horas vagas apascenta um pequeno rebanho com a ajuda da sua amiga Leonilde Polónia, no sítio dos Arroios.
Naqueles tempos havia na Bismula alguns casais onde se praticava a violência doméstica, maridos que maltratavam as suas esposas e filhos. A Maria Rosa apesar de adolescente já tinha uma certa consciência destas agressões familiares, assim como a sua companheira. Decidem nunca casar para não passar por aqueles vexames, que passavam as mulheres da sua terra, e decidiram um dia abraçar a vida religiosa. Estava muito viva e presente nas gentes bismulenses a mensagem deixada pelos responsáveis da Congregação das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus, com sede em Idanha – Belas – Lisboa, a primeira Casa Religiosa fundada em Portugal em 1894.
A Congregação é fundada por S. Bento Menni em Maio de 1881, em Ciempozuelos nos arredores de Madrid, com o objectivo da criação de asilos, hospitais gerais e hospitais psiquiátricos, na promoção, tratamento e reabilitação das pessoas, no âmbito da saúde mental, orientada em critérios da centralidade da pessoa doente, na continuidade apostólica dos Irmãos de S. João de Deus, agora com uma componente feminina.
Aos treze anos aquela menina já sabia quais os caminhos a percorrer. Já tinha mentalidade adulta e decide voluntariamente ingressar naquela Congregação desloca-se com os seus Pais, à Freguesia da Parada, do Concelho de Almeida, onde uma Irmã Religiosa a recebe, e seguem para Lisboa, via-férrea, tomando o comboio na Cerdeira do Côa. Mais tarde a sua amiga Leonilde Polónia vai juntar-se a ela.
Ali faz votos de apostolando e é lhe atribuído o nome de Célia. Parte para Espanha e faz o noviciado na Casa Mãe em Ciempozuelos, junto de Madrid. Aí vive intensamente a Guerra Civil Espanhola e por milagre não é fuzilada, como aconteceu a tantos outros religiosos e religiosas. A grande dedicação e serviço aos pobres, mendigos e doentes, são a senha para serem poupadas ao martírio. Segue para Paris e aí desenvolve imenso trabalho hospitalar. Com a ocupação nazi da cidade surge-lhe mais uma tormenta. Diversas vezes têm as instalações ameaçadas por armas pesadas dos nazis, apontadas para disparar. São forçadas a dar assistência médica e alimentação às forças invasoras. É de tal forma o stress que algumas Religiosas pagaram com a morte estas afrontas militares dos nazis. A Irmã Célia com estas vivências de guerra, num território ocupado pelas forças nazis, ficou de tal forma afectada na sua saúde, uma espécie de virose traumática, que nunca conseguiu debelar.
Regressa a Portugal e em trabalho de missão e de angariação de fundos, faz diversos peditórios pelo Concelho do Sabugal, recebendo fundamentalmente produtos agrícolas que o seu cunhado Manuel Salgueira, conduz para a estação de caminho de ferro da Cerdeira do Côa, a fim de seguirem para Idanha.
Através daquela sua acção, jovens bismulenses e de muitas Freguesias do Concelho do Sabugal, como por exemplo da Nave, Ozendo, Vale de Espinho, Aldeia da Dona, Pousafoles do Bispo, Aldeia da Ponte, entraram naquela Congregação. Estão neste número Maria da Piedade Alves Lavajo, Irmã Hortense, Maria da Nazaré, Irmã América, Maria de Jesus Martinho, Isabel Dias, Adelaide Serrote e tantas outras.
A Irmã Célia faleceu no dia 23/2/2006, em Idanha – Belas, e ali está sepultada, onde tinha entrada em 1920. Trabalhou em Portugal, Espanha e França na área da saúde mental, durante oitenta e seis anos, repito oitenta e seis anos. Os números aqui falam melhor que as palavras.
Ontem como hoje os caminhos vocacionais e do testemunho da Fé tem de ser percorridos, com os métodos que os tempos modernos exigem.
Vem aí uma semana dos Seminários, cujo tema é «FORMAR PASTORES CONSAGRADOS TOTALMENTE A DEUS» e a Igreja vai proclamar um ano consagrado ao estudo e aprofundamento da Fé com inicio a 11 de Outubro de 2012 e o encerramento a 24 de Novembro de 2013, na solenidade da Festa de Cristo Rei.
Na questão vocacional hoje levantam-se muitas questões, que não vou abordar. Sabemos e dizem-nos que a Igreja e o mundo precisa de vocações sacerdotais, seduzidos pelo de Jesus Cristo. Para as despertar precisam-se de famílias e comunidades que sejam campo fértil onde possam germinar. Apela-se aos catequistas e educadores para que se empenhem nas vocações sacerdotais, mas sabemos que em algumas paróquias os seus responsáveis esquecem e ignoram os jovens.
Nesta Nova Evangelização à semelhança desta Irmã Religiosa, devemos concretizar as palavras de Jesus Cristo: «Vós sois o sal da terra, vós sois a luz do mundo. Brilhem as vossas obras diante dos homens para que eles vendo-as glorifiquem o Pai que está nos Céus.»
Bem-haja Irmã Célia – Maria Célia Martins, minha conterrânea, Religiosa das humanidades, que deu testemunho de Jesus Cristo na sua simplicidade, no seu silêncio, na sua longa missão.
Deus já a recompensou, porque cumpriu a Parábola do Samaritano e as Bem-aventuranças.
São estes membros da Igreja Viva que tem de ser nossas referências cristãs.
António Alves FernandesAldeia de Joanes

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