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Escrevo agora a estória mais incrível da minha vida, acontecida desde que estou em Beja, cidade que abracei em 1970 e onde encontrei tudo a que julgava ter direito. Comidas boas, bebidas melhores, clima quente como eu gosto, ar puro, paisagens a perder de vista e mulheres lindas. Por que temos um pouco de marialvice, tinha que o escrever, aqui elas têm ADN’s diferentes das que vivem noutras províncias de Portugal.

José Jorge CameiraSempre senti um secreto prazer por automóveis e já os possuí das mais variadas marcas. Comprava-os a prestações, a pagar em 12 ou 18 meses, e no penúltimo mês do pagamento já andava meio louco, correndo os stands à procura de outro carro. Era de resto assim que toda a malta fazia…
Tinha então um Fiat 127, que andava um pouco mais que um boi enraivecido…
Passei pelo Stand do Senhor Domingos, da Auto Salúquia (infelizmente já partiu deste Mundo) e ele disse-me, mal me viu:
– Tenho ali um carro bom para si! O ideal para a sua categoria. Decida depressa porque anda muita gente à volta dele…
Fiquei boquiaberto! Mas que lindo carro!
Era um Citroen GS Pallas, amarelo, bonito, limpinho, com dois olhos grandes, que até pareciam suplicar-me para o levar…
Este carro tinha diversas particularidades que faziam aumentar a minha vaidade. Era bastante envidraçado, entrando muita luz no habitáculo, e as pessoas olhariam muito para quem ia a conduzir aquele carrão lindo e vistoso…
Além disso, quando se punha a trabalhar, o «gajo» subia lentamente! Isso fazia com que fosse extremamente confortável, como se se conduzisse sobre uma almofada de ar.
Mas o mais notável acontecia quando havia um furo. Ninguém gosta que lhe aconteça uma coisas destas, mas digo sinceramente que desejei que tal me acontecesse e de preferência no meio da cidade onde era forçoso passar muita gente. É que para mudar um pneu furado nesse carro não era preciso pôr o macaco e levantar o bólide: bastaria accionar o manípulo da suspensão de uma determinada maneira para que o pneu furado levantasse, ficando suspenso com as outras três rodas no chão!
Acertadas as contas, assinado o que era preciso para mais uns meses a pagar, o Senhor Domingos entregou-me o carro numa sexta-feira.
Pensei em fazer uma viagem para o experimentar, e decidi: «vou até à Praia de Montegordo, são só 120 quilómetros, vou sábado de manhã e volto à tarde».
Na viagem, logo depois de Mértola, vejo atrás de mim um Alfa Romeu ou Alfa Morreu (como eu lhes chamo) a pressionar-me em jeito de competição. Havia antigamente naquela estrada curvas e contracurvas, perigosas e junto a ravinas. Acelerei e, nas curvas, o gajo não teve hipótese. Mas veio uma recta e ultrapassou-me. A guerra repetiu-se e comecei a temer pelo Amarelinho, não fosse marrar numa árvore logo no primeiro dia!
Após uma curva em que me distanciei, escondi-me com o carro numa vereda com muitos arbustos. Passados uns segundos passou o Alfa em grande chiadeira à minha procura… bem, até hoje ainda não me apanhou!
Em Montegordo, depois de fazer praia e olhar as meninas de fato de banho completo (ainda não havia esses saborosos biquínis da Mary Quant) fui comer um belo peixe assado no Jaime, um restaurante mesmo dentro do areal.
Passei o dia e a tarde a comer camarão, gambas, cerveja, tremoços, vinho, finos ou imperiais (cerveja de copo à pressão), conversando com outros alentejanos que por ali andavam, mas sempre com o olhinho lá em frente onde estava o meu último amor – o Amarelinho, assim o baptizara!
Ao fim da tarde tinha que regressar a Beja mas estava meio cheio de cerveja e já com os copos (isto é, bêbado), pelo que decidi dormir dentro do carro. Se o assento se reclinava todo para trás e faz cama, não fazia sentido procurar uma pensão! Bem, o problema, na verdade, é que dava dó deixar o carro na rua…
Havia ali perto um pinhal onde entrei e estacionei. Deitei-me dentro carro, nu à Pai Adão – era Verão e fazia caloraça mesmo à noite. Mas tranquei as portas, não porque tivesse medo de bandidagem, não havia ainda dessa roupa naqueles tempos, mas o escuro-breu da floresta fazia impressão, a Lua tinha dificuldades em romper pela ramagem.
Às 4 horas da madrugada deu-me cá uma mijaneira, da cerveja, do vinho…
Saí do carro e comecei a regar a floresta, com a porta do carro meio-aberta. Mais eis senão quando soprou uma brisa leve… e a porta fechou lentamente. Eu no meio da mata todo nu, o carro fechado, a chave na ignição…
Perante tamanho contratempo, só havia uma solução: partir um vidro do carro!
Rebentar um vidro do meu amarelinho brilhante e logo na «noite de núpcias»?
Resignado e pragmático agarrei uma pedra… bati, mas o «sentimento» não me deixava bater com violência… eram, sim, «pancadinhas de amor»!!!
Decidi mudar de planos.
Peguei num papelão sujo que estava no meio dos pinheiros, sacudi-o, tapei as minhas farturas e fui até à estrada de asfalto, a 200 metros, pedir ajuda!
Coisa de doidos, tá bom de ver… pedir ajuda a quem, a uma hora daquelas?
Passou uma mota… agitei a mão e gritei: «Pare, espere aí…». Mas foi em vão.
Mas outra mota, com dois, parou e eles disseram:
– Vamos-te violar!!!
Agarrei dois bajolos do chão e ameacei:
– Se não ajudam vão-se embora, ou um fica estendido com o focinho e as cravelhas partidas!
Lá se foram, temerosos!!!
Um automobilista gritou com a janela meio-aberta, com medo que fosse emboscada:
– Vou chamar a polícia, vais preso… Já não há vergonha, nem respeito…. Agora já atacam em pelota!!!
Por fim apareceu uma carrinha com dez cachopas airosas, que vinham de um bar de alterne, seriam maganas da vida, sei lá…
O condutor parou – macho não pode mostrar fraqueza perante tanta mulher, né?
Disse-me, depois de eu explicar o sucedido:
– Ouve lá, se é armadilha partimos-te os cornos e ficas feito num rolo de carne picada! Vamos lá ver esse carro…
Pensei que ele me mandasse entrar na carrinha para indicar o caminho, mas não! Não queria mais nada?
Fui à frente, correndo, mas como ele levava as luzes apontadas para mim e ainda ligou os máximos, as meninas iam com a cabeça de fora, chingando-me:
– Ai, querido, que belo rabo tens!
– Mal empregado seres rabicha!
– Queres casar comigo? Ponho-te logo a render…
E outros piropos, qual deles o mais ordinário e humilhante.
Chegados junto ao meu querido carro – lá estava ele, orgulhoso, lindo, brilhando ao luar, inocente – o condutor riu-se e disse-me:
– Este carro é dos mais fáceis de abrir sem chave! Não dá luta! Ora porra…
Meninas, quem tem um corta-unhas?
Foi com essa peça de «alta serralharia», com um ténue clique, que o homem abriu o carro!
As meninas continuavam chingando, mas já com outra música:
– Aparece sempre, querido!
– Com esse carro deves ser rico, posso ficar contigo?
Humilhado, mas com sentimento de vitória, refastelei-me no carro, mas já não pude dormir – o Sol iluminava com pujança todo o Pinhal!
Se esse meu burro tivesse alma, por certo me agradeceria todo aquele meu empenho bastante sofrido!

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
mailto:jjorgepaxjulia4@hotmail.com

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