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Em nome do respeito e da decência antigamente era proibido contender com as senhoras que transitassem na via pública, facto considerado transgressão grave e punido com multa pesada.

Ventura ReisNa actualidade deixou de haver respeito pelas senhoras, que na via pública são alvo de constantes piropos e piadas de mau gosto, quando não de assobiadelas e até de gestos obscenos, sem que as autoridades intervenham em sua defesa. Este é um sinal claro de que a moralidade e o acato andam muito por baixo, pois assistimos a uma imparável degradação da vida social.
Não era assim no meu tempo de rapaz. Nós também gostávamos de raparigas lindas e elas prendiam-nos o olhar, mas tudo era feito com recato e, acima de tudo, com muito respeito.
A lei vigente não deixava espaço para brincadeiras de mau gosto. Era textualmente proibido incomodar ou ofender as senhoras interceptando-lhes a passagem, dizendo-lhes galanteios irónicos e ofensivos, dirigindo-lhes gestos e palavras injuriosas ou persegui-las à saída das casas de espectáculos. Se um agente policial encontrasse um indivíduo em flagrante delito era de imediato detido e conduzido à esquadra a fim de ser autuado com multa.
Além do mais essa lei virtuosa protegia as senhoras que fossem alvo da transgressão, impedindo a polícia de colher o seu nome e a morada e de as forçar a ir à esquadra. O agente devia proceder a este serviço com a maior rapidez e com o devido recato, a não ser que a visada quisesse formalizar uma queixa. Mas mesmo neste caso a lei era clara na protecção da moralidade pública: «As senhoras não devem ser forçadas a repetir as palavras que lhes foram dirigidas, mas simplesmente devem declarar se elas foram incorrectas ou impróprias de serem pronunciadas».
Assim se protegiam as senhoras dos galanteios impróprios proferidos por rapazes mal formados. Era bom que, em nome da moral e da decência civilizacional, essa norma legal fosse repristinada.
«Tornadoiro», crónica de Ventura Reis

Quando eu era garoto tinha um medo tenebroso aos lobos, que no meu imaginário era um animal muito feroz que comia as crianças se as apanhasse desprotegidas.

Ventura ReisPor isso havia receio de andar à noite. Não havia iluminação pública e o lobo atacava na escuridão. Para o meu medo, e o dos demais catraios, porque todos viviamos horrorizados com a perspectiva de um lobo nos saltar ao caminho, contribuíam bastante as histórias que se contavam nos serões.
A narração mais fantástica era a do João dos Namoros, que foi cruelmente atacado pelos lobos quando vinha de Vila Boa para o Soito e foi por eles devorado, de nada lhe valendo os gritos de socorro e a rápida acorrência do pai que veio de espingarda aperrada ao seu encontro, mas apenas já encontrou os seus sapatos com os pés metidos dentro.
Na verdade o lobo é um animal selvagem e muito nocivo, porque ataca os animais domésticos, sobretudo as ovelhas, e também é um perigo para quem se aventura a passear pelos campos. Por isso havia noutro tempo uma lei que premiava aqueles que contribuíssem para a destruição dos lobos.
Segundo um decreto do governo, datado de 1917 e que por basto tempo se manteve válido, por cada lobo ou loba não prenhe recebiam-se 20 escudos, por loba prenhe o prémio já era de 30 escudos e por cada lobacho, ou cria de lobo, havia o direito de receber 5 escudos. Estas somas eram garantidas pelo orçamento dos Serviços Florestais e Aquícolas, sendo recebido através das câmaras municipais.
Também se organizavam montarias ou batidas, tendo em vista dizimar o animal feroz, recebendo também aqui um prémio aquele que atingisse mortalmente um lobo.
A modernidade tornou catita a defesa dos animais, sejam domésticos ou selvagens, dóceis ou indomáveis. Mas a verdade é que devemos diferenciá-los e admitir que animais nocivos como o lobo que assalta os redis, a raposa que ataca os galinheiros, ou até o porco bravo que fossa os campos de cultivo, devem ser dizimados e extintos para que tenhamos uma vida melhor.
Claro que há que dar razão aos que defendem a preservação das espécies na perspectiva de que as gerações vindouras as possam conhecer e admirar. Mas para este caso, que considero justificado, bastará que animais como o lobo, o leão ou o tigre tenham o seu lugar no cativeiro dos jardins zoológicos ou em parques vigiados, onde em segurança poderão ser contemplados.
«Tornadoiro», crónica de Ventura Reis

Noutro tempo era rigorosamente interdita a exibição de filmes de incitamento e glorificação ao crime, bem como os considerados atentatórios da moral, situações que eram rigorosamente fiscalizadas pela Inspecção Geral dos Espectáculos.

Ventura ReisEram tempos de muito rigor, aqueles que corresponderam ao surgimento do cinema enquanto arte e espectáculo popular.
As explicações das películas eram sempre escritas em linguagem portuguesa corrente, para que todos as compreendessem. Por outro lado, não era permitido exibir fitas perniciosas para a educação do povo, designadamente as que contivessem cenas de maus tratos e de torturas a homens e animais, personagens desnudas, bailes lascivos, operações cirúrgicas, execuções capitais, contactos íntimos entre casais, assassínios e roubos com arrombamento.
Talvez se considerem essas limitações excessivas, mas tenha-se em atenção que as proibições visavam não apenas proteger a moral vigente, mas também, e muito especialmente, evitar que pelos pormenores de certas cenas se pudessem avaliar meios e aprender métodos empregados para se cometerem delitos.
Hoje, em nome da irresponsabilidade, tudo é permitido. Em consequência, algumas fitas de cinema que passam nas salas de espectáculos e até na televisão, são autênticos ensinamentos de como se podem cometer crimes. É aí que muitos dos delinquentes aprendem os métodos que depois utilizam na execução das maldades que cometem.
Um enredo e suas cenas que indiquem como um determinado grupo criminoso organiza um assalto a um banco ou a perpetração de raptos, violações e assassínios, constitui, as mais das vezes, um verdadeiro ensinamento e uma incitação velada ao crime e à violência.
Muitos dos crimes hoje sucedidos vêm dessa escola pública e irresponsável, que assim deixa que a sociedade actual cave a sua própria sepultura.
Sei que estão pensando que este idoso está senil e que já não tem noção no que diz. Pois digo-lhes que antes faço um aviso de plena lucidez: reintroduza-se a fiscalização preventiva das artes, em especial na do cinema, seja nas salas de espectáculos, na televisão ou pela agora chamada internet, como forma de se garantir que o crime não tenha escolas livres e gratuitas, de onde depois os delinquentes partem para nos infernizar a vida.
«Tornadoiro», crónica de Ventura Reis

No geral os nossos campos estão em acalmia. A desertificação e o abandono da lavoura no interior levaram a que o mato crescesse, sendo agora presa fácil para as chamas que lavram a seu bel-prazer. O homem, entretanto, refugiou-se nas cidades onde não dá mostrar de querer sair.

Ventura Reis - TornadoiroQuando eu era rapazola os campos andavam pejados de gente. A terra era cultivada até ao limite e havia um constante, e às vezes infernal, bulício do nascer ao pôr-do-sol. Soavam, intermitentes, as campainhas do gado, chiavam os carros de vacas com veio de freixo, gritava a canalha na guarda dos animais e a gente graúda no decurso dos trabalhos agrícolas. Se era no verão, cantavam os ranchos de ceifadores e de sachadores e as noras gemiam ao rodar, tocadas por burros ou vacas.
Confesso que dava gosto andar pelos campos, embora seja doloroso imaginar a vida dos homens e mulheres que antigamente trabalhavam de sol a sol para apenas garantirem a sobrevivência.
Nos anos 70 do século passado, deu-se uma transformação neste frenesim: A introdução dos motores de rega, que massivamente substituíram as noras e as picotas. Isso trouxe ainda mais barulho aos campos. Era um som ensurdecedor quando se passava pelas veigas e se ouvia o matraquear constante dos pequenos motores a dois tempos, movidos a petróleo, que sugavam água das ribeiras, poços e presas.
Eis entretanto que os campos foram verdadeiramente abandonados, deixando de se cultivar as melhores nesgas de terra. O mato cresceu por todo o lado e as silvas e as giestas substituíram os feijões, os batateiros e o centeio. Agora tudo é sossego.
Há alguns anos, no verão, dei uma volta pelo campo, querendo espairecer e matar saudades, percorrendo o vale da ribeira de Palhais, de Pouca Farinha à Quinta do Costa. Digo-lhes que tudo ali é silêncio, salvo o som de algum camião que passa na estrada.
Deixaram acabar a vida intensa que noutro tempo se vivia nos campos, de onde de resto as pessoas garantiam o seu ganha-pão. Embora vivendo com privações, tudo era de superior qualidade.
De caminho apanhei uma maça bichosa de uma macieira que ali restou. Pois digo-lhes que me soube melhor essa maça já furada pela lagarta, do que as que usualmente como, vindas do supermercado, todas muito reluzentes e bem polidas.
«Tornadoiro», crónica de Ventura Reis

Somos um povo de emigrantes e estamos espalhados pelo mundo inteiro, mas muitos dos portugueses que optaram por sair do País para buscarem melhor vida tiveram de comer o pão que o diabo amassou.

Ventura Reis - TornadoiroNoutro tempo não era qualquer um que decidia emigrar. É que isso não era livre. A Junta da Emigração definia o contingente de emigrantes autorizados a sair, por região e por profissão e isso condicionava as opções de cada um.
Claro que havia a possibilidade de sair a salto, pela fronteira terrestre, como muitos sabugalenses vieram a fazer, correndo os seus riscos, mas quem queria seguir a via legal metia-se no cabo dos trabalhos.
A pessoa que queira emigrar tinha de pedir uma licença na Câmara Municipal, a qual, depois de colher informações acerca do requerente, o remetia para a Junta da Emigração. Muitas vezes a autorização apenas era possível com uma carta de chamada devidamente reconhecida pelo consulado português do país onde fora emitida. Tratando-se de mulher, tinha de apresentar uma autorização escrita do marido e os menores de 21 anos uma autorização dos pais.
Depois de emitida a autorização o candidato a emigrante apresentava-se no ponto de embarque, onde era sujeito a uma inspecção médica. Só após a inspecção médica lhe era entregue o passaporte.
O meu tio José Reis, que embarcou para o Brasil em 1948, em busca de melhor vida, teve que cá deixar a família e avançar ele só na aventura, levando todas as poupanças que arranjou mais o dinheiro que pediu emprestado a familiares e amigos.
A Junta da Emigração andava atenta, pretendendo evitar que homens com actividade política considerada subversiva abandonassem o país, assim se eximindo à prisão. Por isso as Câmaras tinham ordens muito claras para fazerem rigorosas averiguações. E meu tio, que era um homem culto e que cada vez que ia ao Sabugal comprava o jornal para se manter informado, foi alvo da recomendação especial para os casos em que havia dúvidas: o recurso à PIDE.
Um dia foi chamado à Câmara Municipal e daí conduzido por dois homens desconhecidos e bem falantes ao posto da Guarda Republicana, onde foi sujeito a rigoroso interrogatório. Teve de explicar a razão por que um campónio, que vivia da lavoura, comprava jornais e qual o destino que dava aos mesmos.
Apenas passados dois anos o meu tio foi chamado a Lisboa para embarcar. Passado algum tempo a sua família juntou-se-lhe e por lá ficaram todos.
Conto esta história para fazer ver a dificuldade que era emigrar naquele tempo de ditadura, que nada tem a ver com as facilidades que se colocam, nos dias de hoje e, neste caso, ainda bem que assim é.
«Tornadoiro», crónica de Ventura Reis

Quando vim para Lisboa, no há muito ido ano de 1952, estavam afixados em muitos locais da cidade editais que proibiam cuspir, tanto no chão dos estabelecimentos públicos ou privados como também na via pública.

Ventura Reis - TornadoiroQuem tivesse a ousadia de cuspir ou lançar restos de tabaco no chão ser-lhe-ia levantado um auto e aplicada uma multa que podia chegar aos 500 escudos, caso o assunto seguisse para despacho judicial. Em contrapartida, nas escolas, cafés, casas de espectáculos, igrejas, e no geral dos locais frequentados pelo público, havia escarradores suficientes para serem usados pela população que os frequentava.
Era nessa época comummente aceite a ideia de que o ser humano necessitava de escarrar, hábito de resto enraizado na população portuguesa daquele tempo. Por isso cuspir não era considerado um acto repulsivo nem deselegante, antes sendo absolutamente vulgar e tolerado, desde que efectuado para o recipiente apropriado. Na falta de um escarrador as pessoas cuspiam para o chamado lenço das mãos, que andava sempre no bolso das calças ou do casaco.
Os tempos mudaram e os hábitos também. Hoje o acto de cuspir não é bem aceite, sendo até repugnante que alguém o faça em público. De facto é difícil de imaginar que alguém, perante outras pessoas, se ponha a arrancar ruidosamente a expectoração da garganta e depois a expeça para o solo ou para os lencinhos de papel que hoje se usam. Esse é um acto inaceitável.
Sucede porém que por vezes o ser humano, até por razões de saúde, tem mesmo de expelir cuspo, impondo-se que o faça em algum lado. Ora o inaceitável é que tenham retirado dos locais públicos os escarradores, impedindo assim as pessoas de fazerem o que para algumas é de facto uma precisão.
Em contrapartida sucede às vezes a rapaziada nova, hoje menos respeitadora do que antigamente, se dedicar a cuspir para o chão, para as paredes e para o ar, muitas vezes em ar de mofa e de escárnio, sem que porém as autoridades possam verdadeiramente interferir. Ai se fosse no outro tempo, que logo a autoridade lavrava auto e aplicava a respectiva coima.
«Tornadoiro», crónica de Ventura Reis

No meu tempo de rapaz eram proibidos os chamados vícios contra a natureza ou perversões sexuais, ao contrário do que hoje sucede porque o mundo se virou de pernas para o ar.

Ventura Reis - TornadoiroAs aberrações da vida sexual serão tão antigas como o próprio mundo, mas em geral sempre foram condenadas pelas leis.
O assexualismo toma várias formas: bestialidade, homosexualismo, masoquismo, necrofilia, sadismo, entre outras. Todas são uma verdadeira perversão em relação àquilo que deve constituir a vida sexual entre humanos.
É lá aceitável a prática da sodomia, ou bestialidade, em que o indivíduo, homem ou mulher, dá preferência às relações com animais, sejam cabras, cães, cavalos ou vacas? Trata-se de uma prática sexual repugnante e de lesa natureza.
E o que dizer do masoquismo, que é o uso contra si mesmo de actos cruéis, para assim se atingir a voluptuosidade? E o sadismo, que é o gosto em fazer sofrer o parceiro na relação sexual? E o que considerar ainda da necrofilia, que consiste na excitação sexual quando se toca em mortos?
Mas a mais comum das perversões é o homosexualismo, ou seja, o amor entre indivíduos do mesmo sexo. Esta inversão pode existir nos homens, chamando-se mais propriamente uranismo, e nas mulheres, tomando aqui as designações de lesbismo e safismo.
Antigamente, uranistas e lésbicas eram de facto comummente consideradas pessoas com perversidades e a lei proibia esses actos degradantes e contrários à moral pública. Agora dizem que o mundo pulou e afinal o homossexualismo é um direito absoluto, protegido pelas leis. Países há, como a vizinha Espanha, onde os indivíduos do mesmo sexo se podem casar entre si e alguém já aventou que essa tolerância também deve ser acolhida pela lei portuguesa.
Como estou irremediavelmente velho resta-me lamentar tudo isto, confiante em que compreenderão a minha inadaptação, neste e em outros assuntos, ao mundo moderno. Agora lhes volto a garantir que no meu tempo de rapaz, bem ou mal, a lei estipulava que a policia devia conduzir ao tribunal os que «se entregassem à prática de vícios contra a natureza», podendo ser-lhes aplicadas as seguintes medidas de segurança: caução de boa conduta, liberdade vigiada ou internamento em casas de trabalho ou colónia agrícola.
«Tornadoiro», crónica de Ventura Reis

Quando entrei nas Finanças, em 1953, tive de assinar a chamada declaração de honra: «Declaro por minha honra que estou integrado na ordem social estabelecida pela Constituição Política de 1933, com activo repúdio do comunismo e de todas as ideias subversivas.»

Ventura Reis - TornadoiroA falta dessa declaração inviabilizaria a minha entrada no funcionalismo público, pelo que a assinei sem pestanejar, só mais tarde tomando consciência de que a «declaração de honra» era uma autêntica perversidade.
Ao tempo isso era levado muito a sério. Directores e chefes de serviços onde algum dos funcionários professasse as chamadas doutrinas subversivas, podiam ser imediatamente demitidos ou reformados compulsivamente.
Não se pense porém que as pessoas aceitavam isto de bons modos. Assinavam para garantirem o ganha-pão, mas tal não lhes condicionava a existência. Nas repartições por onde passei naquele tempo, eram comuns as graçolas ao António da Calçada, nome que dávamos a Salazar, ou ao Cardeal Cerejeira. Claro que primeiro se ganhava a confiança com os colegas interlocutores, pois o perigo de denúncia à PIDE era real, mas a verdade é que esta era uma prática comum.
Hoje vive-se em liberdade. Pode-se dizer, sem peias, o que aprouver, mas muitas vezes não se sabe usar a liberdade com a devida responsabilidade.
Ainda há dias fui a uma repartição pública, onde me queixei a um funcionário da burocracia excessiva em relação ao meu assunto. Ele, que não me conhecia de lado algum, desatou a dizer imprecações contra o governo e contra o ministro que tutelava o serviço, mimoseando-o com todos os nomes que lhe vinham à cabeça e declarando-o culpado pelas teias burocráticas de que eu me queixava.
Em nome da decência calei-me, para não alimentar a discussão, mas penso que isto é chegar ao extremo da depravação. Uma coisa é o que cada qual pensa e defende, porém algo diferente é ter a noção da forma e do local apropriados para exporem essas ideias.
Temo bem que uma boa parte dos funcionários públicos de hoje não saibam estar no lugar que ocupam.
«Tornadoiro», crónica de Ventura Reis

Tornou-se hábito entre a rapaziada de agora o uso de brincos e de outros espetos metálicos a adornar o corpo, suplantando em muitos casos os da mocidade feminina.

Ventura ReisA par das tatuagens, que nalguns casos cobrem a quase totalidade do corpo, os penduricalhos metálicos espetados na carne tornaram-se de uso comum entre os jovens. O efeito de imitação, que entretanto surgiu, transformou esta prática em moda e a onda tem crescido a olhos vistos.
Claro que o corpo é de cada qual e a imagem também, e concordo que devemos respeitar os gostos dos outros, mas eu, perdoem-me lá, sou doutro tempo e não vejo isto como um bom sinal.
Esta juventude de agora, soma à irreverência o gosto pela extravagância, por isso a vamos vendo também com o cós das calças ao fundo do rabo e com o cabelo pintado com as cores do arco-íris. Só que um dia estes jovens serão adultos e alguns, passada a época do capricho, quando o pleno juízo sobrevier, quererão ter uma imagem «normal» para ingressarem na vida profissional e nela singrarem. Pois temo bem que um rapaz tatuado até ao limite e com as orelhas, nariz e lábios furados, não consiga ser visto como alguém normal. Talvez o fato, a camisa e a gravata lhe assentem de forma ridícula e isso o venha mesmo a prejudicar.
Às vezes penso que só com um sarrafo nas mãos se pode meter juízo nestas cabeças tolas, mas logo me arrependo de pensar assim, pois nos tempos de agora isso pode ser contraproducente. Não sei pois como se poderá encontrar uma solução, mas talvez o melhor seja esperar que a moda se pegue a todos os homens, porque assim já ninguém estranha, ou que a mesma acabe, e tudo volte àquilo a que eu chamo de normalidade.
Agora a mim não me peçam que ache bem essas modas da juventude. É que no meu tempo de rapaz eu, que fui criado no campo, apenas me lembro de ver as argolas colocadas no focinho dos bois de cobrição, às quais se atava a prisão para os conduzir para junto das vacas toirondas que os homens levavam ao curral. Também os porcos tinham um arame na ponta do focinho, a que se chamava arganel, para se evitar que os mesmos revolvessem a cama.
«Tornadoiro», crónica de Ventura Reis

Sou do tempo em que o professor era um verdadeiro educador, assumindo em pleno a sua função pedagógica, que complementava a educação que cada criança recebia em sua própria casa.

Ventura Reis - TornadoiroO professor Frederico tinha forte propensão para o castigo corporal, baseado em palmatoadas e bordoadas de arrebimba o malho. Mas, há que dizê-lo, era um verdadeiro Mestre. Muito do que fui e sou na vida o fiquei a dever à rispidez desse professor primário, e isso nunca poderei esquecer.
A minha educação começou em casa, sob a batuta de minha mãe e de minha irmã mais velha. Aos seis anos ingressei na escola da aldeia, onde minha mãe me conduziu pela mão num dia chuvoso e me entregou ao cuidado do professor Frederico, a quem recomendou em voz clara:
– Bata-lhe, Senhor Professor. Ele às vezes precisa duma sacudidela.
Minha mãe não era uma mulher severa, sendo antes carinhosa e complacente com os filhos, mas ela bem sabia a importância da obediência ao Mestre. As palavras que dirigiu ao professor eram sobretudo para eu ouvir e para me colocar de sobreaviso. O professor Frederico, precisava lá da recomendação dos pais da canalha para lhes arrumar cacetada! Isso fora o que ele sempre fizera, porque nas suas aulas vigorava o Código da Palmatória.
Hoje os professores não podem tocar nos meninos e nem sequer repreendê-los. Ai daquele que o fizer, que logo lhe caem os pais em riba, prontos a derrancá-lo e a processá-lo por crime contra a Humanidade. O resultado é formarmos homens que não sabem ler nem escrever e tampouco fazer contas. Os jovens crescem numa redoma protectora que os impede de se prepararem para a vida. Por isso os vemos ingressar na vida profissional conduzidos pela mão dos pais, que os vão recomendar aos patrões e aos chefes, e só não lhes dão o biberão à hora da deita porque têm medo que o leitinho os deixe indispostos.
Confesso que não defendo o castigo corporal, pois bem me bastaram as reguadas que apanhei e que me doeram sobremaneira. Não defendo isso para o meu neto, coitado do menino, mas há coisas que se deviam sempre respeitar. Uma delas é a palavra e a ordem de um pedagogo no exercício da docência. Só com respeito pelos professores se podem formar devidamente os homens do futuro.
«Tornadoiro», crónica de Ventura Reis

A cerveja é agora uma bebida de alta implantação popular e com níveis de aceitação que há muito ultrapassaram os do vinho. Mas nem sempre foi assim.

Ventura Reis - TornadoiroHá meia dúzia de décadas a cerveja inexistia nas nossas aldeias e era produto muito raro nas vilas e cidades do interior do País. A bebida comum era o vinho, que se bebia em abundância.
O vinho da altura era, na sua mor parte, de colheita local. A pinga, como o povo lhe chamava, era excelente retemperador de forças, se bebida a contento, o que nem sempre sucedia. Em casa, no trabalho agrícola, nas tabernas ou nos arraiais, o vinho corria abundante pela goela.
O hábito de beber vinho estava tão enraizado que quando a cerveja chegou à taberna aldeã foi recebida com muita desconfiança e passaram-se anos até ter aceitação. Eram excepção os que saíram das localidades de nascimento e foram conhecer mundo, sobretudo os militares e os estudantes, que trouxeram novos hábitos, sendo o de beber cerveja um deles.
Recordo o caso de um cavador que frequentava a nossa casa, de nome Maximino, que era um arreigado bebedor de vinho. O meu irmão, que chegara de véspera de Coimbra, onde cumpria o serviço militar, trouxera meia dúzia de cervejas e, num acto de carinho para com o jornaleiro, meteu-lhe uma garrafa nas mãos. O Maximino, que já ouvira falar naquela bebida, mas que nunca a havia provado, meteu o gargalo da garrafa na boca e embalou um golo. Mas mal provou a cerveja, achando-a amarga e gaseificada, cuspiu-a de imediato:
– Tome lá isto, Menino. Não é bebida a que esteja afeito! – disse enquanto se limpava com a cota da mão.
Foi uma risada!
Soube depois que o Maximino seguiu de nossa casa para a taberna, onde pediu um copo de meio quartilho e disse para os presentes:
– Isto é que é bebida que agrada a um home! Inda agora me fizeram dar um golo de cerveja na casa do Ti Chico. Aquilo é bebida do damonho, que manda uma espuma branca e sabe a giesta negral.
«Tornadoiro», crónica de Ventura Reis

Assisti há dias ao funeral de um velho amigo. O corpo foi cremado, cumprindo-se a sua vontade, mas a última homenagem àquele homem, para mais na sua condição, merecia outro arranjo.

Ventura Reis - TornadoiroO caixão com o corpo do velho coronel seguiu de carro, da Igreja dos Olivais, em Lisboa, para o cemitério com o mesmo nome, onde existe um crematório. Ali chegado, acompanhado pela família e uma dezena de amigos, duas secções de jovens militares, de resto muito faladores e irrequietos, colocaram-se em formatura e, à voz de um também jovem tenente, disparam uma salva.
A isto se resumiu verdadeiramente a cerimónia. De resto, o féretro e a infinidade de flores garridas que o acompanhavam, seguiu para o edifício do crematório, onde nem sequer foi aberto para uma última despedida. Da pobre viúva e dos filhos ouviram-se uns suspiros contidos, porque hoje de tudo se tem vergonha, até de gritar de peito aberto na despedida de um ente querido.
Nada disto acontecia antigamente. Um funeral era um momento solene, vivido sentidamente por todos os que nele participavam. Recordo sempre o primeiro enterro a que assisti, na vila do Sabugal. Foi o de um grande lavrador, que dava pelo nome de Triste e morava numa casa junto ao Castelo. O meu pai tinha-lhe grande respeito, porque era ele que lhe fazia as jeiras aquando da decrua da terra e das sementeiras.
No dia em se realizou o enterro segui com ele até à casa do velho lavrador, onde havia um grande ajuntamento. Entrámos na casa do defunto e meu pai benzeu-se, pegou no ramo de oliveira que estava numa bacia, e respingou o morto com água benta. Depois deu os pêsames à viúva, aos filhos e à restante família.
Eu teria os meus oito anitos e foi a primeira vez que vi a cara de um defunto e disso haveria de me gabar perante os meus irmãos, como acto de iniciação e de coragem.
Não tardou que chegasse o vigário, acompanhado por dois acólitos, bem como o juiz da irmandade e dois confrades. O juiz transportava a bandeira, um irmão a cruz e o outro, que ainda era muito jovem, levava uma sineta, que badalava sem cessar. Vestiam opas roxas, da cor da morte, e colocaram-se à entrada da casa. Só o padre entrou com os acólitos, mas logo saíram acompanhando o caixão. Desatou então uma tremenda choradeira, provocada pelos membros da família que se agarravam ao féretro, mas também por um grupo de carpideiras que, soube-o depois, haviam sido para isso chamadas, a troco de uma cesta de batatas.
O cortejo seguiu até à Igreja de S. João, onde se juntara uma vintena de padres, devidamente aprestados, para cantarem os ofícios de corpo presente. Depois foi a romagem ao cemitério, numa enorme coluna negra, de gente sisuda, que seguia com todo o respeito, e onde ninguém ousava falar ou esboçar um sorriso.
Também nisto dos funerais se vê a mudança dos tempos. Já ninguém fala da morte, porque a morte tem peçonha. Nas cidades só vão aos funerais os familiares e os amigos mais chegados, bem como, por obrigação, os funcionários das agências funerárias, e o padre, quando se realizam com sacramentos religiosos, o que muitas vezes não sucede.
«Tornadoiro», crónica de Ventura Reis

No meu tempo de catraio tinha, como os demais garotos da minha idade, um medo tenebroso aos agentes da autoridade e as pessoas em geral tinham-lhes um respeito absoluto. Nos dias de hoje tudo foi alterado, porque a autoridade deixou de se impor e com isso deixou também de ser respeitada.

Ventura Reis - TornadoiroUm polícia ou um guarda-republicano eram antigamente pessoas investidas de uma autoridade quase absoluta. Eu fui educado dentro dessa ideia, a pontos de ter fundado receio de passar defronte do posto da GNR da minha terra.
É que os guardas, ao contrário do que hoje acontece, eram homens de respeito. Usavam um bigode farto e tinham a cara angulosa, fazendo um esgar ríspido, pois nunca os vi sorrir. Usavam um barrete na cabeça e uma farda de cotim com botões reluzentes, com um número de metal fixado nas golas (os seus superiores tratavam-nos apenas pelo número). Tinham umas correias de cabedal atravessadas no tronco, seguras ao cinturão e às patilhas do dólmen. Usavam botas fortes e ferradas, a que se juntavam umas polainas sempre impecavelmente engraxadas.
Às vezes via-os passar defronte da minha casa de fuzil ao ombro. Seguiam sempre aos pares, cada qual do seu lado da estrada, com o tronco muito direito e as mãos atrás das costas. Era um perigo encontrá-los no caminho.
Agora os guardas já não nos metem respeito. A maior parte são rapazolas imberbes, com rosto de meninos tirados da saia da mãe, de cara muito simpática e sorridente. Não há quem os respeite, porque deixaram perder o ar severo que antes caracterizava os guardas-republicanos. Largaram a farda de cotim e vestem uniforme de fazenda azul, com camisa clara. Usam sapatos, bota-de-elástico (à maneira dos magalas) ou até botins de montar. Cada um parece andar segundo lhe parece, chegando a estar juntos à meia dúzia, cada qual com seu fardamento. Andam de carro ligeiro e até já os vi montados em bicicletas vestindo um calção amaricado.
A sociedade degrada-se e a GNR, instituição quase centenária, antes tão respeitada, deixa-se ir nessa perdição. E ainda se queixam de que os bandidos lhes perderam o respeito!
«Tornadoiro», crónica de Ventura Reis

Natural do Concelho do Sabugal, Ventura Reis, aceitou o nosso desafio de escrever no Capeia Arraiana sobre alguns temas, onde predominará a saudade dos tempos idos da sua infância e juventude, vivida na sua terra natal, até que a necessidade o empurrou para outras paragens.
plb

JOAQUIM SAPINHO

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