You are currently browsing the category archive for the ‘Páginas Interiores’ category.

O Município do Sabugal em parceria com a «Empresa Municipal Sabugal+», organizou uma homenagem ao meu conterrâneo Joaquim Manuel Correia, por ocasião dos 150 anos do seu nascimento, com o concomitante lançamento do seu romance inédito «Celestina».

José Robalo – «Páginas Interiores»É com regozijo acrescido que saúdo esta iniciativa, registando com muito agrado o contributo da família deste homem de letras, para a promoção da obra e da figura ímpar que foi Joaquim Manuel Correia.
Na qualidade de membro da Assembleia Municipal do Sabugal, vai para mais de 15 anos que sugeri que o executivo camarário contactasse o Conselho Executivo da Escola Secundária do Sabugal, no sentido de ligar o nome desta emérita figura das letras, a este estabelecimento de ensino, de forma a que a Escola Secundária do Sabugal viesse a poder ser designada como Escola Secundária Joaquim Manuel Correia. Constato volvidos todos estes anos, com alguma mágoa, que apesar da rua que dá acesso a tal estabelecimento de ensino ter o nome deste meu conterrâneo, a escola continua a ser apenas Escola Secundária do Sabugal.
Homenagear um sabugalense do vulto do Joaquim Manuel Correia, no meu modesto entendimento, não deve limitar-se a uma cerimónia de cortesia, com palavras de circunstância, onde um exímio painel de oradores põe à prova a sua dialéctica, por mais eloquente que esta seja.
Homenagear Joaquim Manuel Correia, mereceria uma visita aos locais onde viveu, a sua casa, de seus familiares e amigos e se possível transportar o supra-referido naipe de oradores para a Ruvina, a aldeia do homenageado, envolvendo os seus conterrâneos através da Junta de Freguesia.
Acresce que se pretendemos projectar esta figura para o futuro, penso que estamos no momento certo para lançar um museu ou uma fundação sedeada na Ruvina que venha ser responsável pela promoção da cultura, da educação, no apoio aos nossos jovens mais carenciados com atribuição de Bolsas de Estudo e até uma instituição assistencial e filantrópica com apoio a crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social, com necessidades educativas especiais, etc., etc… Não podemos esquecer que na Ruvina dispomos de uma instituição, a Casa de Cristo Rei, com pergaminhos no campo da acção social.
É o próprio homenageado que nas suas «Memórias do Concelho do Sabugal» (p. 239, edição da Câmara Municipal), refere: «Desde longa data existe na Ruvina o gosto pela instrução. Apesar de ser uma freguesia pequena, das menos populosas do concelho, raras vezes tem tido pároco estranho à povoação e quasi sempre tem tido ao mesmo tempo dois e mais eclesiásticos.»
A Ruvina de facto sempre teve famílias ilustres que souberam de forma superior dignificar a terra que os viu nascer, desde a família do próprio homenageado que saúdo na pessoa da Dr.ª Natália Correia Guedes, hoje administradora da Fundação Oriente e Comissária de uma exposição sobre a China a ser inaugurada no próximo dia 8 de Maio em Lisboa, às famílias Diniz da Fonseca, Monteiro Limão e à família Feytor Pinto para citar apenas algumas.
Penso que uma Fundação desta envergadura presidida pelo meu conterrâneo Padre Feytor Pinto, só nos honraria e levaria bem longe o nome da nossa terra e do Sabugal.
:: :: :: ::
Para ler: Celestina, e Memórias do Concelho do Sabugal, de Joaquim Manuel Correia, ed. Câmara Municipal do Sabugal.
:: :: :: ::
Para ouvir: «The Jamie Saft Trio, Plays Bob Dylan», Trouble, ed. Tzadik.
«Joe Henry», Civilians.
«McCoy Tyner Quartet», Walk Spirit, Talk Spirit, McCoy Tyner Music.
:: :: :: ::
«Páginas Interiores» opinião de José Robalo

joserobaload@gmail.com

Anúncios

José Robalo – «Páginas Interiores»Apesar de ter nascido fora do concelho a vida de Brás Garcia de Mascarenhas está ligada ao Sabugal. Motivo mais do que suficiente para que este poeta-soldado, seja reabilitado e estudado, desenhando-se um roteiro turístico da sua vida e locais que frequentou.

Os bosques, em que está, vê deleitosos
Vê nascer entre os rios caudalosos
Nobre Vila em Península guerreira
Que com três edifícios sumptuosos
Ponte, Castelo, Igreja, honrando a Beira,
Enobrece Dinis, segundo Brigo,
Novo Restaurador do Reino antigo
Viriato Trágico, Brás Garcia de Mascarenhas

Numa qualquer Feira do Livro chegou-me às mãos um estudo de investigação histórica da autoria do Dr. António de Vasconcelos, sobre a vida de Brás Garcia de Mascarenhas (1596-1656) um trabalho do Instituto de Estudos Históricos e Filosóficos da Faculdade de Letras de Coimbra, agora com a chancela da Fundação Calouste Gulbenkian.
Sou daqueles que pensam que só poderemos alicerçar o presente e preparar o futuro se conhecermos o nosso passado. Brás Garcia de Mascarenhas apesar de ter nascido em Avô, concelho de Oliveira do Hospital, tem a sua vida ligada ao Sabugal.
Autor de um poema épico, o Viriato Trágico, que escreveu no final dos seus dias depois de ter estado detido no Castelo do Sabugal, acusado de traição, acusação que se veio demonstrar ser falsa e como tal libertado.
Como militar Brás Garcia de Mascarenhas, foi capitão de infantaria e governador de Alfaiates por nomeação do general Álvaro de Abranches no dia 14 de Fevereiro de 1641. A primeira tarefa do nosso herói foi tomar conta do castelo e guarnecê-lo, por se encontrar muito carenciado de obras de restauro. Esta fortaleza poderá estar assente sobre vestígios romanos, podendo assim ter sido povoação romana.
Como se sabe Alfaiates passou para domínio português no reinado de D. Diniz no ano de 1296 com outros territórios da Riba Côa e enquanto foi leonesa chamava-se Castillo de Luna. Aparentemente terá sido construída uma fortaleza defensiva no reinado de D. Diniz, que se encontrava em ruínas, tendo sido recuperado e construído o novo castelo, que hoje conhecemos sob o impulso de Braz Garcia no séc. XVII, com indícios de ter sido construída em pouco tempo (três meses) e sem recursos. O nosso herói refere esta situação no seu Viriato Trágico:

Brás de Mascarenhas (fotos de Ricardo José Bairras Fernandes, n.º 12, 8.º B da Escola do Sabugal)O Castello de Lua, que fizera
A ferrugenta paz Lua mingoante,
Em três mezes somente considera
Regular Epiphéria o caminhante.

É espantosa a actividade de Brás Garcia de Mascarenhas na defesa dos territórios da nossa raia a partir de Alfaiates. Não querendo ser maçador aconselho o amigo leitor a consultar a obra do Dr. António de Vasconcelos, caso veja nisso interesse, sobre a vida deste herói e concluirá que participou activamente nas lutas pela independência contra os espanhóis, ao serviço de D. João IV, defendendo as populações indefesas da raia nomeadamente, Aldeia da Ponte, Forcalhos, Fóios, Aldeia Velha, Nave e Aldeia do Bispo.
Ao comando de 183 homens os mais deles gente nobre, todos luzidios e alentados, que ficaram conhecidos por Companhia dos Leões da Beira, o nosso herói fez diversas incursões por território castelhano conquistando nomeadamente Albergaria, Aldea-del-Obispo, Fuentes, El Payo, Espeja, Eljas, Navas – Frias, S. Martin de Trevejo, Valverde e Casillas. É verdade que Brás Garcia, disfarçado de mendigo fez um prévio reconhecimento de todos estes burgos, pedindo «Una limosna por amor de Dios».
Este foi tempo em que o nosso poeta e capitão, fez reconhecimento do território, num descanso que terminou em Agosto de 1641.
Escrevia então:

Cujas metas, brigas* registando
Solitário os perigos desistima,
Da tumba ao berço, donde nasce, morre
O turvo Cuda, cuydadoso corre

* Brigas= castelos ou fortalezas.

É verdade que Brás Garcia conhecia bem o território de toda a Raia melhor que ninguém e com trocas permanentes de prisioneiros, foi ganhando algum relacionamento com as autoridades leonesas, o que fez com que a partir de determinado momento tivesse sido alvo de invejas, suspeitas, acusado e preso por traição.
Detido, cumpriu prisão na torre de menagem do castelo do Sabugal. Diz-se que terá sido nesse momento que escreveu o Viriato Trágico, poema épico todo em verso e que para alguns autores da época, em inspiração e temática nada fica a dever aos Lusíadas, sendo certo que os nossos antepassados e a nossa geografia não são esquecidos neste poema.
D. João IV, ao ler esta obra terá ficado encantado e convencido da inocência do nosso herói e deu ordem para a sua libertação imediata.

:: :: :: ::
Para ler: Eurico o Presbítero, de Alexandre Herculano.
:: :: :: ::
Para ouvir: «Cantigas D’Amigo», do grupo La Batalla, com direcção de Pedro Caldeira Cabarl, da EMI.
«Sanfonia do grupo Realejo», do meu amigo Amadeu Magalhães.
«Monteverdi: Ottavo Libro dei Madrigali», concerto italiano Rinaldo Alessandrini, le monde de la musique.
«Monteverdi: selva morale a sei voci», com Bernard Fabre–Garrus, da Editora Naïve.
:: :: :: ::
Para visitar: Alfaiates com o seu castelo e praça Brás Garcia de Mascarenhas, igrejas e o convento da Sacaparte. Antes, durante ou após a visita recomendamos uma visita ao Bar La Cabaña, onde poderá degustar um bom pata negra e sempre com boas bebidas servidas de forma superior pelo Bino.
:: :: :: ::

«Páginas Interiores» opinião de José Robalo
joserobaload@gmail.com

Como alguns mortais, sou natural de uma aldeia humilde, muito bonita, mas pequena, situada entre a Guarda e Ciudad Rodrigo e carregada de espiritualidade. Tenho nos ouvidos o cantar dos pássaros e o toque único das Trindades e das Ave Marias dos sinos do Colégio da minha aldeia.

José Robalo – «Páginas Interiores»«Sou filho de camponeses, passei a infância numa daquelas aldeias da Beira…e, desde pequeno, de abundante só conheci o sol e a água. Nesse tempo, que só não foi de pobreza por estar cheio do amor vigilante e sem fadiga de minha mãe, aprendi que poucas coisas há absolutamente necessárias. São essas poucas coisas que os meus olhos amam e exaltam. A terra e a àgua, a luz e o vento consubstanciaram-se para dar corpo a todo o amor de que a minha poesia é capaz. As minhas raízes mergulham desde a infância no mundo mais elemental. Dessa infância trouxe também o desprezo pelo luxo, que nas suas múltiplas formas é sempre uma degradação…»
Eugénio de Andrade

Na Ruvina tomei consciência do mais importante da vida tendo aprendido a gostar das pessoas e a valorizá-las pelo que são. Quando falo da Ruvina as emoções assaltam-me e embarga-se-me a voz. O meu pensamento treme, quando falo da minha aldeia.
A nossa essência na vida revela-se naquilo que somos e nesse particular sinto orgulho do que sou, por ser donde sou e por ter uns pais trabalhadores e que padeceram muitas privações, para me darem condições de vida, que eles não tiveram.
Sei que há muita gente que lamenta o facto de não ter nascido num pequeno lugar, para poder sentir-se acompanhado e ter referências. Sempre que posso regresso ao meu tugúrio, retempero forças e visito os locais da minha infância, os odores da minha memória tais como as madalenas de Proust, no seu romance «Em busca do tempo perdido».
Até o poeta Fernando Pessoa afirmava que a sua aldeia era o Largo de São Carlos.
Ruvina (José Robalo)Foi na Ruvina que me cortaram o cordão umbilical, porque na altura não havia maternidades e tudo ficava longe. Foi aqui que aprendi a rir, a chorar, andar, a falar, a ler e a escrever.
Enquanto criança não conheci telefone ou electricidade e como aquecimento tive sempre boas lareiras. Na Ruvina, a luz eléctrica foi inaugurada, deveria ter sete anos. Considero-me um bafejado da sorte uma vez que com os meus amigos de infância, aprendi valores de solidariedade, justiça e respeito. Todos tínhamos apelidos e lembro-me que me zangava quando me chamavam espanhol em referência ao meu passado recente na vizinha Castilla y Leon. Aos mais velhos antes do nome púnhamos um «Ti». Ao prior da freguesia, a cada momento que com ele nos cruzávamos, pedíamos a bênção. Tenho nos ouvidos o cantar dos pássaros e o toque único dos sinos da minha aldeia, as Trindades e as Ave Marias do sino do colégio. As minhas vizinhas foram sempre as santas desse colégio.
Acredito como Rilke, que a nossa pátria é a nossa infância. A minha infância é a minha aldeia. A Ruvina sempre foi e será para mim uma lição de vida e por isso, sempre que posso retorno às origens. Em pensamento nunca a abandono e a ela regresso diariamente. A sua ausência é uma coisa que trago sempre comigo…

:: :: :: ::
Para ouvir: Georges Brassens Supplique pour être enterre à la plage de Sete, de Philips Phonogram.
Bill Evans: You must believe in spring, da Warner Bros. Masters.
:: :: :: ::
Para ler: «As Mãos e os Frutos», obra poética de Eugénio de Andrade, Editora Limiar.
:: :: :: ::
Para visitar: Festa da Senhora das Preces, no domingo, na Ruvina, no Cabeço da Atalaya. A paisagem envolvente é de cortar a respiração.
:: :: :: ::

«Páginas Interiores» opinião de José Robalo
joserobaload@gmail.com

Como é que posso com este mundo?, questionava-se o jagunço Riobaldo Tatarana, desenhado por João Guimarães Rosa, no seu livro «Grande Sertão: Veredas», que com alguma inquietação constatava que este mundo anda muito misturado.

José Robalo – «Páginas Interiores»A notícia aí está, ocupando as primeiras páginas dos jornais de todo o mundo: os cubanos poderão alojar-se nos hotéis. A decisão está tomada, apesar de oficialmente ainda não existir nenhuma confirmação. Brevemente, os cubanos poderão alojar-se nos hotéis da ilha como qualquer turista. Esta decisão de Raul Castro, o novo homem forte do regime, apesar de insólita, poderá significar um certo ar de liberdade.
Na ilha vive-se de forma deprimente, faltando de tudo a começar pela liberdade e bens de primeira necessidade, onde tudo é racionado…
É verdade que o embargo americano é parcialmente responsável por esta situação, que de forma cega põe em causa o direito a uma vida digna de toda uma população.
A economia mundial está em crise com o aumento desenfreado dos preços do petróleo, a queda das bolsas, reflexo já não de uma constipação da economia americana, mas sim de uma dupla pneumonia, que se não for atalhada poderá ter consequências muito graves para esta economia globalizada.
Veredas», de João Guimarães RosaAs nossas esperanças residem neste momento num jovem candidato a candidato que se chama OBAMA. Apesar de ser republicano penso que se fosse cidadão americano o meu apoio iria para este homem. George Bush teve o condão de pôr em dúvida o meu republicanismo, porque sempre preferi um presidente, a um rei.
A nível interno aquilo que mais me aflige é uma frenofobia generalizada, constatando que as pessoas começam a ter medo de pensar, confirmando assim o pensamento do poeta José de Almada Negreiros quando afirmava «Ó músculos da saúde de ter fechado a casa de pensar».
Diz-se que num momento de lucidez, mas sempre com o respeito pelo pacto de silêncio, o padrinho da máfia Michael Corleone, terá afirmado: «Tentei regenerar-me e começar a fazer negócios legais, mas à medida que fui subindo na escala social, mais porcaria encontrei.»
Assim mesmo!…
Ainda se recordam quando na escola estudávamos Emanuel Kant, penso que na sua «Crítica da Razão Prática», um tratado de filosofia sobre as obrigações morais, onde desenvolveu o seu «Imperativo Categórico», que reza mais ou menos o seguinte: «Age de tal modo que a máxima da tua acção se possa tornar princípio universal.»
Exerçamos a cidadania na sua plenitude.
Boa Páscoa.

:: :: :: ::
Para ouvir: Bach: A Paixão Segundo São Mateus, de John Eliot Gardiner.
Fauré: Requiem, editora harmonia mundi.
Mozart: Requiem, Deutsche grammophon.
Handel: Messiah, de Paul Mccreesh.

Para ler: «Grande Sertão: Veredas», de João Guimarães Rosa, Editora Nova Fronteira.
«A Cena do Ódio», de José de Almada Negreiros.

Para ver e a não perder: No TMG, exposição de Nadir Afonso, um dos maiores pintores portugueses vivos, até ao dia 18 de Maio.
:: :: :: ::

«Páginas Interiores» opinião de José Robalo
joserobaload@gmail.com

A «ronda» era feita pelas ruas com o tocador acompanhado pelos mordomos, os foguetes e a rapaziada do costume anunciar o momento alto da festa, o baile, onde era tolerado algum atrevimento e que servia para consolidar e iniciar namoros e noivados.

José Robalo – «Páginas Interiores»«Antigamente, o Largo era o centro do mundo. Hoje é apenas um cruzamento de estradas, com casas em volta…Vai morrendo o Largo. Aos domingos, é ainda maior a dor do Largo moribundo. Vão todos para os cafés … O Largo fica deserto sob a ramaria das faias silenciosas.»
O Fogo e as Cinzas, de Manuel da Fonseca.

Corria o ano de 1985, quando das mãos do seu autor me foi oferecido «O Fogo e as Cinzas», com dedicatória que diz: «Para o José Robalo este Fogo e as Cinzas, cordialmente do Manuel da Fonseca.»
Trata-se de um livro de contos, cuja temática é a vida alentejana, que fácilmente poderemos transpôr para a vida do nosso interior raiano. Os nossos largos também estão moribundos, porém vivos na nossa lembrança.
Diferentes estudos que conheço sobre a memória, cito Jean Yves e Marc Tadié, quando no seu livro «Le sens de la mémoire», Paris: Éditions Gallimard, 1999, afirmam que todo relato do passado falsifica as recordações, pois o acto recordativo não distingue com clareza o verdadeiro do falso.
Equacionada esta advertência,
No imaginário da minha infância passada na pacatez da Ruvina, recordo com alguma nostalgia o som e a presença do acordeonista, que em momentos fulcrais se transformava no centro da vida da aldeia. Nas festas e uma vez terminada a componente religiosa com as procissões e a missa, a parte profana era preenchida na sua totalidade por este personagem, que com um acordeão a tiracolo, normalmente de uma marca italiana, calcorreava as ruas da aldeia anunciar o baile que se centraria num dos seus largos.
A «ronda» era feita pelas ruas com o tocador acompanhado pelos mordomos, os foguetes e a rapaziada do costume anunciar o momento alto da festa, o baile, onde era tolerado algum atrevimento e que servia para consolidar e iniciar namoros e noivados.
Na minha memória de infância guardo a imagem do tocador sentado numa cadeira, normalmente sobre uma grade de cervejas, num largo à sombra de um freixo, desfiando modas. Por vezes o suor escorria-lhe da testa colocando então um lenço das mãos por dentro da boina, para aliviar o incómodo, continuando a tocar. De quando em vez, anunciava «Esta é à inglesa!» «Esta é a roubar!». Terminada a moda as raparigas recolhiam para junto das mães aguardando nova moda e profundamente desejosas de serem convidadas a mais um pé de dança pelo seu predilecto.
Ti António Pereira, de RendoCorria assim a vida, pacata e mansamente, quando esta quietude foi quebrada com o aparecimento e generalização dos grupos musicais de influência pop e mais tarde os organistas, tendo o concerto de acordeão caído em desuso.
O Município do Sabugal, no ano 2000 resolveu dar «uma pedrada no charco» e organizou o festival de acordeão e de tocadores de realejo, com algum sucesso tendo editado um disco, designado «Festival de Acordeão… e tocadores de realejo», tudo com recurso à prata da casa, homenageando assim estes tocadores.
Fui encontrar um destes personagens, o ti António Pereira de Rendo, hoje com 76 anos e que por necessidade foi emigrante em França. «Comecei a tocar acordeão com 15 anos, por curiosidade e por gosto; os meus pais compraram-me um pequeno instrumento, que mais tarde trocámos por um mais a sério; foi preciso muita insistência e treino, sozinho com o instrumento, nas tentativas e erros; a vontade de aprender era enorme. Quando ia para os trabalhos do campo, nomeadamente a guardar as vacas levava o instrumento e treinava.»
Refere-nos que «quando era garoto sempre gostou de ver os acordeonistas tocar nos bailes; ficava encantado». Mais tarde e quando já sabia uns acordes, os acordeonistas deixavam-lhe experimentar umas modas.
Este autodidacta do acordeão correu todas as aldeias do concelho, tendo sido no seu tempo um dos mais reputados e procurados acordeonistas. Para se organizar um baile, bastavam uma cadeira, uma grade de cervejas e um acordeonista, «pondo a malta toda a dançar e a divertir-se. Na altura a malta era mais alegre e divertida».
Muitas vezes quando terminavam os bailes, porque cumprindo horários decentes nunca se ultrapassariam as 22 horas, a pedido da rapaziada ainda havia tempo para mais umas rondas pela aldeia. «A rapaziada gostava da rambóia e gostava de agradar às raparigas.» Ainda se lembra do seu primeiro cachet: «Recebi pela minha primeira actuação 100$00, o equivalente a 50 cêntimos.»
Com alguma amargura na voz, sempre vai dizendo «que o acordeão já não tem o valor que tinha. Foi despromovido, tendo sido substituído pelos órgãos electrónicos».
Em 1964, emigrou para França, onde ainda tocou num grupo etnográfico local. Regressou a Portugal em 1982. Foi com enorme alegria que recebeu o convite do município para participar no 1º festival do acordeão e participou na gravação do CD, onde tocou valsas e tangos. «Na altura dançava-se melhor do que hoje», diz a esposa que atenta ouve o desfiar das memórias do marido.
Agora toca na Igreja à missa para satisfação do Sr. Padre «e até já o Sr. Bispo me deu os parabéns».
Recorda nostálgico que às vezes a rapaziada vinha «tirá-lo da cama, para organizar mais um baile, ou fazer mais uma ronda. Quando a rapaziada ia ao número, e ficava apta para o serviço militar, lá estava o acordeonista, acompanhar alegria dos mancebos».
Em jeito de despedida diz-nos: «Agora tudo mudou.»

«Ele já não pode ver que o Largo é o mundo fora daquele círculo de faias ressequidas. Esse vasto mundo onde qualquer coisa, terrível e desejada, está acontecendo.»
O Fogo e as Cinzas, de Manuel da Fonseca.

:: :: :: ::
Para ouvir no fim-de-semana: «Festival do Acordeão …e Tocadores de Realejo», edição do Município do Sabugal e que poderá encontrar no Auditório Municipal, Posto de Turismo e Monumenta – Casa do Castelo, no Sabugal.
«La Revancha del Tango», dos Goten Project.
Se pretender algo mais erudito, «Maria João Pires, Verdes Anos, 1976-1985», onde interpreta de forma superior Bach, Beethoven, Chopin, Shumann e Mozart.
Para ler: «O Fogo e as Cinzas», de Manuel da Fonseca, editorial Caminho.
«Uma abelha na Chuva», de Carlos de Oliveira, Livraria Sá da Costa Editora.

:: :: :: ::

«Páginas Interiores» opinião de José Robalo
joserobaload@gmail.com

À beira da Côa, Dona Sesaldina, a última moleira do Sabugal soleniza os dias entregando a sua vida às pedras alveira e borneira, actividade ancestral que incólume perdura no terceiro milénio como a luz da candeia! Antigamente quem tinha um moinho tinha um padre! Dizia-se que era a pedra no altar e a mó a andar.»

José Robalo – «Páginas Interiores»Junto ao Rio Côa, «à Côa», como ela intimamente lhe sabe de cor o leito feminino, fui reencontrar uma amiga de muitos anos, uma mulher de armas, única moleira do concelho que conheço. Tem o nome de baptismo Sesaldina Janela Palos, 94 anos já cumpridos «a caminho dos 95, lá para o mês de Novembro».
Ao abordá-la não me reconhece de imediato, «por causa da luz, já não vejo contra a luz», mas depois, franqueia-me as portas, pede-me para não lhe tirar fotografias porque já é muito velha. Digo-lhe em tom sério e galanteador que é das mulheres mais bonitas que conheço. Não desarma e num sorriso de orelha a orelha, lembra-me que quando era nova era uma das raparigas mais bonitas da redondeza.
Nas paredes da casa a Dona Sesadina deslinda-me a sua veia artística porque também foi pintora autodidacta. E que pintora!… Numa pintura naïf, inspirada no cubismo sem nunca ter ouvido falar de tal corrente artística, os quadros são povoados por elementos do quotidiano. Ocorre-me de imediato o pensamento de Picasso, quando afirmava: «Os meus quadros são uma soma de destruições.»
De porta escancarada convida-me a um chá, uma filhós, um doce, tudo concebido pelas suas mãos e com a hospitalidade da gente humilde.
«Quando era mais nova tinha aqui sempre raparigas aprender a arte de pintar, de costurar e de fazer rendas, porque sempre fui boa costureira. Nunca ninguém serviu estas artes. Sempre tive boas máquinas de costura», diz-nos com algum orgulho na voz.
Na minha perspectiva, poderia ter sido desenhadora e criadora de alta costura, já que a Dona Sesaldina tem mesmo sensibilidade e graça artística. No entanto, os tempos eram de míngua e na terra estava o ganho. Diz-nos: «Éramos sete irmãos e uma vez a Côa invadiu-nos o moinho tendo arrasado e abalroado tudo à sua passagem.»
Moinho de Água da Rapoula do CôaA rogo de sua mãe e porque não a queria ver em tanto sofrimento e tão «consumida», mais o marido, «o meu Zé», deitaram mãos à obra e recuperaram o moinho de água a que Dona Sesaltina se entregou de alma e coração, durante toda a sua existência.
O marido que era lavrador «não girava com isto», ela sim, fazia da noite dia e moía sem cessar, acordada junto à pedra alva, de candeia acesa, ansiando pela madrugada e por novos fregueses. O moinho das Poldras era dos mais famosos das redondezas: «Tem uma pedra alveira para o trigo e uma pedra borneira para o centeio. Vinham os agricultores com os talegos do grão e trocavam por farinha, tirando-lhe a maquia. Era uma boa jorna, não tínhamos mãos a medir. Tínhamos um criado que percebia disto. Sabe, antigamente os ricos é que tinham os moinhos, mas não os exploravam, arrendavam-nos. Antigamente quem tinha um moinho tinha um padre! Dizia-se que é a pedra no altar e a mó a andar.»
Sobre o vetusto moinho, deve dizer-se que a sua engrenagem funciona pela força motriz da água que vem dum açude colocado a montante, açude que esta senhora para que conste afirma «estar às suas costas».
Tento explicar-lhe que agora as coisas estão complicadas, que até existe a ASAE, respondendo-me que já lá estiveram uns senhores bem vestidos que se deram de «ares e tomares», mas ela não lhes deu importância, que anda na sua santa vida.
Informa-nos com a mesma ilusão da juventude que neste momento o moinho está parado porque está a restaurar os rodízios para colocar dois novos.
Recorda-me que aquando das últimas enchentes se recusou a abandonar os seus haveres quando a água já lhe dava pelo peito: «Ainda vieram aí com um tractor a tentar levar-me, mas recusei-me a abandonar a casa. Nunca tenho medo porque apesar de viver aqui sozinha, ando sempre na companhia de Deus, nunca me sinto desacompanhada. Ando com Deus e com Nossa Senhora das Preces, que é minha amiga e minha vizinha, ao mesmo tempo que lança o olhar para a capela. Às vezes subo ao cabeço e faço-lhe uma visita. Somos muito amigas», diz-nos, referindo-se à senhora das Preces – guardiã da capela antiga que coroa o Cabeço da Atalaia, no termo administrativo da Ruvina.
– Ai, não me tire mais fotografias, que já sou muito velha!», diz-nos com algum pudor.
Dando-me conta da magia que a vida encerra, na presença desta jovem anciã, despeço-me da D. Sesaldina, moleira eterna dos dias à beira da Côa e deste modo simples de existir, que se mantém perene no terceiro milénio, como a luz da candeia.

:: :: :: ::
Em pleno Dia da Mulher aqui deixo sugestões de leitura e música no feminino:
Para ouvir: «Salt Rain», de Susheela Raman e «The Salieri Album», na voz melodiosa de Cecília Bartoli
Para ler: «Memórias de Adriano», «Como o água que corre», «O tempo esse grande escultor» da autoria da escritora de língua francesa, Marguerite Yourcenar, a primeira mulher a fazer parte da Academia Francesa.

:: :: :: ::

«Páginas Interiores» opinião de José Robalo
joserobaload@gmail.com

Existem aldeias do concelho às quais me sinto pertencer e onde me movo como se sempre ali tivesse vivido, como mais um residente. Uma dessas aldeias tem o nome de Fóios. Gente hospitaleira, humilde e trabalhadora, irradia felicidade. Nos Fóios não existe rendição, abnegação ou conformismo. Gente reivindicativa e combativa, aqui a cidadania exerce-se na sua plenitude.

José Robalo – «Páginas Interiores»O meu amigo Zé Manel, o professor, é um autarca sempre com ideias e projectos a fervilhar na cabeça, planos para o bem-estar dos Fóios num permanente rodopio e inconformismo, idealizando e concretizando obras que se sucedem, colocando esta terra «do calcanhar do mundo» no mapa. O Zé Manel e os fojeiros são de facto um exemplo e modelo daquilo que podemos fazer na luta contra a adversidade e a exclusão a que aparentemente estamos condenados.
É verdade que esta aldeia tem uma situação invejável na raia de Espanha com relações pessoais e trocas comerciais que o Zé Manel com uma enorme diplomacia tem sabido cuidar e cultivar, com geminações e intercâmbios culturais com aldeias do lado de lá, medrando assim o bom relacionamento.
Os Fóios têm do seu lado a mãe Natureza, com a nascente do Côa, a Serra das Mesas, a Malcata, florestações a perder de vista e pastos naturais para os gados, o segredo para uma boa cozinha. Para se comer bem e em roteiro gastronómico pelo concelho, os Fóios são uma referência obrigatória, um ponto de encontro, de passagem ou de chegada. Para dar apenas um exemplo, o melhor coelho bravo que alguma vez comi foi preparado de forma superior no Lei Troncho.
Como apreciador de queijo, o melhor que alguma vez saboreei foi o queijo de cabra dos Fóios e de Vale de Espinho.
Esta zona foi sempre território de pastores, sendo o pastoreio uma das formas de sobrevivência destas gentes, razão mais que suficiente para vir até aos Fóios conhecer um destes heróis e homenagear a actividade.
Tem cerca de 70 anos e uma profissão herdada dos pais e avós. Os seus antepassados já eram cabreiros. O Ti Zé da Chão do Mando e o irmão Manuel são cabreiros.
Fui encontrar o primeiro de sacola a tiracolo, nos Antremontes, ou melhor Entremontes, mais um lugar paradisíaco nos Fóios. As cabras olham-nos com a desconfiança de quem não gosta de intrusos na pacatez da sua rotina.
Diz-nos que no Verão fazem uma espécie de transumância ao mesmo tempo que com o cajado nos indica a direcção da serra das Mesas a nascente do Côa, explicando que vão até aos Canchais junto à Raia de Espanha, «onde há sempre água muito fresca e onde antigamente os pastores ordenhavam as cabras para as poças dos barrocos: – migavam o leite e consumia-se directamente este leite fresco.»
Vem-me então à memória a cabra Almateia que alimentou Zeus enquanto criança no monte Ida, com o seu próprio leite e que após a sua morte, Zeus usou a sua pele para combater os Titãs.
Diz-nos o nosso interlocutor: «Comia-se no campo onde se assavam batatas, pimentos e tomates. Nesse tempo vinham aí as espanholas e trocávamos batatas por figos.»
Diz-nos «que o gado come o que quer nos lameiros. Gosta de roer.»
Numa conversa animada, pergunto-lhe se conhece as cabras todas. «Claro que sim, todas, mas de admirar é elas conhecerem-me a mim.»
FóiosEspanta-me a capacidade deste cabreiro, porque tenho alguma dificuldade em reconhecer fisionomias. Imagino a minha dificuldade se tivesse que reconhecer cabras!
Está demonstrado cientificamente, que as cabras têm uma grande capacidade de reconhecimento. Passou-me pelas mãos um trabalho científico de uns investigadores ingleses, onde se garante que as cabras têm capacidade para memorizar até cinquenta pessoas diferentes.
A pastorícia pode ser boa fonte de rendimento para esta gente que deverá ser apoiada e acarinhada. Do lado de lá, na Serra da Gata, produz-se um queijo de cabra com denominação de origem protegida com grande projecção junto dos apreciadores, a que não se pode ficar indiferente.
Preservar estas raças autóctones boas produtoras de leite, conseguindo no final do circuito um queijo autêntico de qualidade e paladar superior, são causas mais do que suficientes para reconhecer e enaltecer esta actividade e a vida de pastor.
O segredo da qualidade da carne e do queijo reside na especificidade dos pastos e na raça dos animais, exigindo-se a protecção e apuramento da espécie, aproveitando-se plenamente as ajudas comunitárias que aí estão. Neste país, estas ajudas à agricultura ainda estão muito mal divididas, umas vezes por falta de informação e outras porque aqueles que recebem os maiores apoios nem se dedicam agricultura, tornando-se em verdadeiros subsídio dependentes. Se houvesse um maior atenção e conhecimento de causa para afectar incentivos talvez fosse possível entusiasmar os mais novos a dedicarem-se a esta actividade tão nobre e assim fixar gente no interior.
Com a extinção das raças autóctones, desaparecem as pessoas.
O pastoreio corre pelas veias do amigo Zé da Chão do Mando.Com gestos e assobios especiais as cabras param e olham-no, o que me leva de imediato à pergunta: Entendem o seu assobio? «Claro que sim, com este assobio disse-lhes que fiquem onde estão. Também lhes posso assobiar para virem ter comigo.»
Digo-lhe que o meu avô materno depois de ter combatido ao lado de Afonso Costa na implantação da República e após ter conhecido Argentina e o Brasil, também foi pastor. Lembro-me que, no Verão, quando o calor apertava, os animais recolhiam para as sombras dos currais, voltando a sair ao fim da tarde.
«Aqui não, as cabras andam no campo todo o dia, quer seja Inverno, quer seja Verão. É preciso gostar disto. Eu gosto, não sou homem de cafés. Prefiro andar por cá, do que estar no povo.»
Pergunto-lhe como passa o tempo durante todo o dia, sozinho: «Aqui sinto-me como um leão, gosto disto, sinto-me feliz, ando enredado nos meus pensamentos, na companhia do cão Piloto.»
De alguma forma sinto uma espécie de inveja saudável da vida deste pastor, porque o pior na vida não é perder o tempo, mas não ter tempo para perder.
«Quem diria que hoje compartiria a minha merenda consigo e com o senhor professor», afirma quase incomodado por existir. É assim esta gente simples e honrada da raia.
Abandono os Fóios, já com saudades do lugar, guardando na memória de caminhante o sabor inconfundível do melhor queijo de cabra do mundo.

:: :: :: ::
Sugestões para o fim-de-semana:

Para ouvir, a música que me acompanhou até aos Fóios: «Miles Davis & John Coltrane, The complete Columbia Recordingds 1955-1961», na minha opinião o melhor trompetista de sempre e o melhor saxo tenor. Explosivo.
Para ler: «O lobo das estepes», de Herman Hesse, prémio Nobel de Literatura.

:: :: :: ::

«Páginas Interiores» opinião de José Robalo
joserobaload@gmail.com

De Quadrazais é o maior apicultor do concelho, com vários apiários e vivendo exclusivamente desta actividade. Em plena natureza e aproveitando a Reserva Natural da Serra da Malcata, onde tem milhões de trabalhadoras em laboração constante, produz um mel e pólen de qualidade superior.

José Robalo – «Páginas Interiores»Quadrazais é uma das freguesias mais emblemáticas do concelho do Sabugal. Foi terra de contrabandistas e, para fugir à repressão e vigilância policial, criou um linguajar, dialecto ou gíria próprios que com o tempo se vai esboroando.
As palavras são um património valioso que identificam um povo e que por tal motivo, deverão ser acarinhadas e cuidadas, não permitindo que se gastem com o tempo. As palavras gastam-se com o uso e prostituem-se com o abuso e se não forem protegidas e cuidadas entram em desuso e morrem, afirmava um professor de Coimbra, ilustre romanista.
O discurso estruturalista do final do século passado com Claude Levi-Strauss e Michel Foucault vai no sentido de darmos proeminência à linguagem. No seu estudo de referência Michel Foucault, nas «Palavras e as Coisas», numa perspectiva conceptualista, reduzia o homem à linguagem quando afirmava que «o homem será aquilo que a linguagem dele fizer».
Sendo as palavras e a linguagem um património tão importante, será despiciendo afirmar que é primordial, recuperar e preservar este linguajar quadrazenho e se possível reabilitá-lo, honrando assim a nossa memória?
Quadrazais tem especial devoção por Santa Eufémia, devoção que não é exclusiva dos quadrazenhos, mas que se estende a toda a região. A devoção a Santa Eufémia é enorme, podendo afirmar-se que neste momento esta festa é das mais concorridas e populares, atraindo devotos de toda a região.
No final das colheitas e nos dias 15,16 e 17 do mês de Setembro os quadrazenhos e as pessoas das redondezas demonstram toda a sua devoção a esta santa milagreira, podendo afirmar-se que a Santa Eufémia de Quadrazais é um local de culto e romaria.
O maior apicultor do concelho, António Moura construiu e licenciou a sua melaria em plena natureza, garantindo assim a produção de um mel de muita qualidade e com elevados padrões de higiene. Diz-nos: «Esta estrutura foi pensada para produzir e embalar diferentes produtos apícolas, nomeadamente mel e pólen. A produção de mel assenta numa premissa de qualidade, não só daquela qualidade que o consumidor julga conhecer, mas sobretudo da qualidade que uma nova e moderna apicultura emergente está a colocar no mercado. A produção tem que garantir requisitos sanitários e as instalações licenciadas e vistoriadas dão hoje essa garantia de qualidade. Por outro lado, o mel é um alimento cultural! Diz-se que o melhor mel é aquele que comemos pela primeira vez; este alimento natural parece ter o poder de definir e condicionar para sempre, como o primeiro amor, aquilo que consideramos ser mel.»
mel, serra, malcata, sabugal, quadrazais, abelhaEste apicultor é um apaixonado de Quadrazais e do Sabugal e mais apaixonado ficou quando ficou preso pelo olhar fugaz de um lince, que vinha do meio da vegetação. Apaixonado da natureza, em 1987 decidiu-se pela produção de mel e pólen de abelha, aproveitando assim as condições ímpares da Serra da Malcata e da sua envolvente, fazendo transumância, aproveitando as variações climáticas e a floração dos diferentes territórios. As contrariedades têm sido muitas, sendo que logo em 1987 teve «uma prenda chamada varrose importada de Espanha. Nesse ano morreram em silêncio milhares de enxames, sem qualquer apoio ou ajuda. Foi necessário começar de tudo de novo, partir do nada».
O António Moura é um homem persistente e determinado e porque gosta e sabe do que fala é hoje o Presidente da Associação de Apicultores da Serra da Malcata, que abrange os territórios de Sabugal e Penamacor. Nessa qualidade, tenta defender a sua dama contra a invasão dos espanhóis, «que apesar de existirem por aí vários, só um é que se encontrava registado na zona agrária do Sabugal; não respeitam a distância a observar entre apiários, mas no entanto existe alguma passividade e tolerância por parte das autoridades». «Trabalhar com concorrentes como os espanhóis é muito difícil, uma vez que possuem uma apicultura muito evoluída, sendo tão só os primeiros produtores de pólen, com apoios dos governos regional e central e com uma organização associativa muito forte.» Os espanhóis exercem assim concorrência desleal.
Em Montesinho, o Parque Natural é o principal motor do desenvolvimento apícola. Na Lousã é o Município que desempenha esse papel. Nestas duas situações existe o cuidado de dar formação aos apicultores, com estruturas de apoio á produção, melaria comum e laboratórios. Li algures que «a apicultura pastoril é de uso muito antigo nas freguesias raianas do Sabugal».
Zeus por seu lado no monte Ida foi alimentado com mel, que as abelhas destilavam propositadamente para ele com apoio de Melissa (A Abelha).
Voltando ao nosso apicultor António Moura, em jeito de despedida vai-nos confidenciando: «A minha produção é constituída por mel de Urzes (Torga e Queiró) da Serra da Malcata, mel de Rosmaninho de Sortelha, mel de matagal (Melada e Multiflora) de Quadrazais e pólen da Serra da Malcata, que vendo quase inteiramente em bruto, destinando apenas uma pequena parte à embalagem. Seriam substanciais as mais valias realizadas se toda a produção fosse embalada, mas para isso é preciso divulgação e participação em feiras com visibilidade nacional. Este é o maior reparo que eu faço aos poderes na nossa região, onde tem faltado o apoio.»
Sendo quadrazenho ainda conhece alguma gíria dos contrabandistas. Com um sorriso no olhar deixa-nos uma expressão que ouviu e gravou na sua meninice e que foi proferida por uma contrabandista: «Aí o raí do xincabelho, se te dou c´uma arrebolada até tismexo.» Assim mesmo!
Como diria o Fernando Pessoa: «A minha pátria é a língua portuguesa.»
«Páginas Interiores» opinião de José Robalo

joserobaload@gmail.com

Zeus, o deus supremo do Olimpo, foi criado pelas Ninfas longe dos apetites devoradores de seu pai Cronos. Para além da boa gastronomia que detém, Belver, no concelho do Gavião, é um lugar idílico, com um castelo sobranceiro ao rio Tejo e uma envolvente cativante.

José Robalo – «Páginas Interiores»Zeus era na mitologia grega o deus supremo que governava o Olimpo. Foi contudo com alguma dificuldade que este deus se livrou da fúria devoradora de seu pai Cronos. É conhecida a história: a mãe Terra terá profetizado que Cronos iria ser destronado por um dos seus filhos. Perante tal augúrio, Cronos passou a devorar todos os filhos que a sua esposa Rea lhe dava. Quando Zeus nasceu, a mãe exausta e desesperada com os banquetes do seu marido, entregou o filho à mãe Terra para que esta o protegesse longe dos apetites devoradores do pai, tendo sido criado pelas Ninfas no monte Ida na ilha de Creta. Para enganar Cronos, Rea colocou entre panos brancos uma pedra do tamanho de um recém-nascido, que Cronos engoliu sofregamente, demonstrando assim que este deus sendo mau e vingativo, não era de certeza um bom garfo!
Falando de gastronomia, confidenciava-me um amigo, que um dos exercícios mais arrojados, tornando-se até um acto de coragem, é entrar num restaurante onde não se conhece ninguém ou que nunca nos foi sugerido, sentarmo-nos e comermos um prato com molhos estranhos. Resta-nos encomendar-nos a Deus depois de ingerimos e depositarmos no nosso íntimo estes venenos. Foi com alguma satisfação que li neste espaço um artigo do meu amigo Paulo Leitão, que de uma forma superior tecia elogios à gastronomia de Belver e a um restaurante recomendado do lugar. Estes elogios são merecidos.
Para além da boa gastronomia que detém, Belver é um lugar idílico, com um castelo sobranceiro ao rio Tejo e uma envolvente cativante, com a praia fluvial do Alamal de bandeira azul e bandeira acessível, muito bem cuidada e com passeios de barco no Tejo, com a duração de 2 horas, uma vez que o rio é navegável numa distância de 18 quilómetros entre a barragem de Belver e a Barca de Amieira. A paisagem envolvente ao rio Tejo é onírica e inesquecível!
Nas relações pessoais e humanas prezo a gratidão e a amizade, sentimentos que tenho para com aquela gente. Belver, como o amigo leitor sabe pertence ao concelho do Gavião, autarquia socialista onde só tenho bons amigos.
Amigos que apesar de encontrar de forma espaçada por contingências da vida, quando o fazemos, é como se estivéssemos estado juntos no dia anterior. São assim os amigos. Estes amigos que adoram o Sabugal, conhecem a raia, vibram com as nossas capeias e com os nossos sucessos. Quando nos encontramos é para partilhar sabores e gastronomia temática em que o Alentejo é muito rico. Belver, tem na lampreia pitéu invulgar que já degustei no Sabugal, preparado por esta gente hospitaleira.
Diz-me o meu amigo vereador do município do Gavião, Francisco Louro: «No Sabugal adoro e vibro com as capeias que corro com todo o prazer no mês de Agosto. Com um grupo de amigos do Gavião e com a família, assistimos aos encerros e capeias com o mesmo entusiasmo dos raianos. Impressiona-me a devoção das vossas gentes pelas festas religiosas, sendo assíduo das festas da Sacaparte. O Sabugal é um dos nossos roteiros de férias e fins-de-semana.»
Belver (concelho do Gavião)Penso que as autarquias do interior deveriam trocar conhecimentos e experiências, porque confrontando-nos com problemas idênticos, talvez tivéssemos todos aprender e a ganhar uns com os outros, no sucesso e na contrariedade.
Na organização da Festa da Europa, na qualidade de presidente da ADES e porque esta festa desenvolveu uma componente de mostra gastronómica socorri-me destes amigos do Gavião, para viabilizar a presença de um restaurante de cozinha alentejana, o que veio acontecer com o Restaurante da Ribeira da Venda situado no parque de merendas da Comenda, outro lugar idílico e que foi um sucesso, na divulgação da gastronomia alentejana.
O feed-back que me chegou foi de uma experiência totalmente conseguida em termos gastronómicos. A eles o meu reconhecimento público e muito obrigado. O município do Gavião tem uma mostra gastronómica na 3ª semana de Julho muito interessante, onde a cozinha do Sabugal poderia e deveria estar presente por ser salutar este intercâmbio. Os amigos, os negócios, as trocas de experiências, também se fazem à volta de uma boa mesa e de um bom vinho. Este concelho tem em fase de nascimento três bons vinhos tintos com corpo e taninos, a lembrar-nos que estamos no Alentejo: o Pausa e o Margalha, ambos da Quinta da Margalha e o Garfos da Quinta dos Garfos, vinhos com qualidade e de bom preço.
Por outro lado, este concelho integra-se na associação de municípios do norte alentejano, que está a elaborar um estudo com a participação da Universidade Nova de Lisboa. Diz-me o meu amigo e vereador do pelouro do Ambiente Francisco Louro: «A Agenda 21 Local é uma ferramenta para aumentar a qualidade de vida no município e evitar que as pessoas tenham de sair para outros territórios em busca de um futuro melhor. É um instrumento de politica e gestão municipal na área do desenvolvimento sustentável, integrando os aspectos ambientais, sociais, culturais, económicos e de organização espacial. Promove-se neste processo o envolvimento dos principais actores locais. A qualidade de vida depende muito das oportunidades de emprego, da existência de um tecido produtivo robusto e gerador de riqueza, de um ambiente social solidário, inclusivo e dinâmico, e na manutenção de um ambiente natural e equilibrado, em que os recursos são utilizados eficazmente e a pensar no futuro. Os desafios a enfrentar são muito fortes e por isso a A21L tem como opção fundamental o trabalho em estreita sintonia entre a autarquia, os actores económicos e a sociedade civil.»
A A21L tem as suas origens numa Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, conhecida como Cimeira da Terra ou Cimeira do Rio, realizada no Rio de Janeiro em 1992.
Para aceder a estes territórios basta tão só deixar a A23, no nó do Gavião em direcção a Belver e procurar o Restaurante da Quinta do Belo-Ver onde poderá degustar a diversidade e qualidade da boa cozinha alentejana acompanhada de bons vinhos e de um esmerado serviço. O amigo leitor, está num espaço sobranceiro ao Rio Tejo e com vista para o castelo medieval de Belver. Se pretender descansar, a Quinta de Belo-Ver é uma unidade de turismo rural de eleição para retemperar forças em contacto com a natureza.
«Páginas Interiores» opinião de José Robalo

joserobaload@gmail.com

À estratégia militar da terra queimada e à putativa objectividade de estudos e rigor científico onde a premissa encerra em si a conclusão não há política que resista. O Sabugal com 60 por cento do território integrado na «Rede Natura» é o concelho com melhor qualidade para se viver e para se ser velho e criança, por existir uma invejável rede de apoio à terceira idade e às crianças.

José Robalo – «Páginas Interiores»Corria o dia 21 de Julho do ano 356 a.c., quando Eróstrato decidiu incendiar o templo dedicado à deusa Artemisa em Éfeso, uma das sete maravilhas do mundo antigo, tentando assim perpetuar o seu nome pela eternidade.
Alguns dos pirómanos que incendeiam o País, transformando-o num braseiro nos meses de Verão, no mais profundo do seu íntimo também pretendem à sua maneira, ter o prazer de nos obrigar assistir a esse espectáculo desolador a que dão causa, sendo isso que lhes dá gozo.
Os soldados napoleónicos, sofreram pesadas derrotas aquando da invasão da Rússia, na sequência da táctica militar que se designa por terra queimada. Os soldados russos em fuga, deixavam atrás de si a destruição, queimando tudo à sua passagem. Sem possibilidades de se reabastecerem as tropas de Napoleão soçobraram e foram vencidas pela fome e pelo frio. A esta estratégia militar não há política que resista.
Vem tudo a propósito de um estudo de putativa objectividade e rigor científico até porque foi divulgado sob a chancela da Universidade da Beira Interior e que coloca o Sabugal, como o pior lugar do País para se viver.
Apesar de não ser a minha área, sempre direi que a partir do século XIX, as Ciências Sociais, com o positivismo, foram pugnando por utilizar métodos científicos, tentando analisar e explicar cientificamente a realidade que é o objecto do seu conhecimento. A ciência pratica-se com seriedade!
Apesar de me considerar um cartesiano que acredita que todo o fenómeno tem uma causa explicativa e que o nosso intelecto tem que encontrar explicações para a realidade que nos circunda, até para sermos mais felizes, não acredito em estudos que partem de premissas ou dados viciados, qual silogismo aristotélico onde a premissa encerra em si a conclusão.
É assim de duvidosa validade científica aquele exemplo de escola, que afirma «Todos os homens são mortais. Eu sou homem. Logo sou mortal».
Castelo do Sabugal e Rio CôaReportando-me ao estudo, conclui-se que no Sabugal existe insegurança, porquanto (os números são aleatórios) cerca de 60 por cento da criminalidade denunciada é contra as pessoas, isto é, dos crimes participados no ano de 2004, 3 em cada 5 são crimes de ameaças e crimes contra a integridade física. No Barreiro por exemplo, a percentagem participada destes crimes é apenas de 1 em cada 5, razão pela qual se conclui que é mais seguro viver no Barreiro do que no Sabugal! Não interessa a quantidade dos crimes nem a sua violência. Porque matemática é matemática, teremos de concluir que a cidade do Barreiro é a 4.ª melhor cidade do país para se viver pelo seu sossego e tranquilidade e que o Sabugal é a pior entre outros, pelos seus elevados indicadores de violência contra as pessoas.
Esquecer que o Sabugal tem cerca de 60 por cento do território em Rede Natura, que tem um ar respirável e de qualidade, que não tem problemas de trânsito, que tem equipamentos sociais de qualidade e em quantidade para apoio à 3.ª idade, às crianças e juventude, que cerca de 90 por cento do concelho se prepara para ter saneamento básico, 100 por cento com fornecimento de água ao domicílio, que tem património natural e construído com 5 castelos, toda a população servida com estradas municipais, onde os dinheiros são gastos com rigor, é subestimar estes indicadores que falam do conforto e bem estar das populações.
Estas sim, são razões mais do que suficientes para se poder concluir que o Sabugal é o melhor concelho para se viver e para se ser velho e criança, por existir uma rede de apoio à terceira idade e à infância invejável; acresce que muitas destas instituições funcionam com o empenho e voluntariado de muita gente, que o faz pelo prazer e verdadeiro espírito altruísta e de servir os outros.
Enquanto responsável da ADES (Associação de Desenvolvimento do Sabugal), cargo que desempenhei durante três anos de forma totalmente desinteressada, pretendemos criar uma sociedade financeira com capitais do Sabugal e dos sabugalenses que nos permitisse estar em condições de em parceria com o município, investir em projectos como as termas do Cró na sua componente privada. Contactámos e reunimos com o responsável do famigerado estudo, por ser economista e sabugalense, mas até ao momento tal estudo nem a disponibilidade para o fazer apareceu. Onde está o nosso bairrismo senhor professor?
No Sabugal muito está por fazer, porque somos por natureza pessoas inconformadas e com uma vontade indómita de mudar o mundo e temos especial prazer de viver longe desse tumulto vazio, que é característico das cidades que ocupam o topo da lista.
Eróstrato ignorava que a imortalidade é uma prisão da qual nunca nos conseguiremos libertar.
«Páginas Interiores» opinião de José Robalo

joserobaload@gmail.com

Na Grécia antiga o bravo ateniense Teseu, filho do rei Egeu, desafiou e venceu o Minotauro que habitava nos labirintos do palácio de Minos na ilha de Creta. Na raia sabugalense a capeia arraiana com forcão é uma forma superior de bravura deste território único. Este fim-de-semana as atenções estão viradas para Aldeia do Bispo com um variado e colorido programa que inclui desfiles carnavalescos, encerros, desencerros, capeia e o almoço da Confraria do Bucho Raiano.

José Robalo – «Páginas Interiores»Na Grécia antiga, na ilha de Creta reinava um poderoso soberano chamado Minos, que residia num lendário palácio concebido pelo arquitecto Dédalo. No labirinto do palácio habitava o monstro Minotauro com cabeça de touro e corpo de homem, que jamais se saciava de carne humana, labirinto tão intrincado que se alguém nele ousasse entrar jamais dele sairia. Cada três luas o Minotauro percorria a ilha e devorava os pobres cretenses, semeando o terror, saga a que se pôs termo com o sacrifício de jovens atenienses; um dia, o ateniense Teseu, filho do rei Egeu, num acto arrojado ofereceu-se para combater o monstro e caso o vencesse poria por seu lado, fim ao sacrifício dos atenienses. A pitonisa previu a sua vitória desde que fosse amparado pelo amor. O Rei Egeu, preparou então uma expedição comandada por Teseu, num barco adornado de velas pretas, com o pedido explícito de colocar velas brancas no regresso, caso a expedição tivesse sucesso.
Ariadne, filha do rei Minos amparou Teseu com o seu amor, entregando-lhe um novelo de fio que deveria atar no início do labirinto para poder regressar e uma espada mágica, para combater o Minotauro. Teseu que para os atenienses atingiu em façanhas a nomeada de Hércules, conseguiu vencer o monstro e regressar a casa, mas com a euforia da vitória esqueceu-se de alterar o colorido das velas como havia prometido. O pai ao avistar ao longe a expedição, com as velas pretas, convencido da morte do filho, deitou-se ao mar onde se afogou. Para testemunhar este fatídico episódio ainda hoje as águas que banham essas ilhas têm o nome de mar Egeu, o berço do mundo grego.
As origens das nossas capeias acordam reminiscências deste mito. Diz-se por aqui, que inicialmente o forcão serviu para os rapazes da raia defenderem a população das investidas dos touros bravos que em liberdade se apascentavam nos campos charros e que invadiam as nossas terras, semeando o pânico. Numa segunda fase, o forcão converteu-se no objecto lúdico e de recreio que hoje conhecemos.
Tenho orgulho no concelho a que pertenço e quando olho à minha volta, mais aumenta esse orgulho e a sensação de que este território é único com pessoas, tradições, lugares, património e uma vontade única de sempre ambicionar por mais bem estar e desenvolvimento, num permanente inconformismo.
Apesar de ter nascido numa aldeia ribeirinha do Rio Côa tal aconteceu do lado leonês, (País llïonés), razão pela qual me sinto profundamente raiano. A raia sabugalense é um estado de espírito e uma forma de estar. Como bom raiano que me considero gosto de touros, cavalos, capeias e do toureio a pé. Como diz José Tomás, o diestro que mais admiro e aprecio, «Vivir sin torear, no es vivir» e podemos afirmar com segurança: sem capeias a raia sabugalense não seria a raia.
Carnaval em Aldeia do BispoNo Domingo Gordo em Aldeia do Bispo, o programa é preenchido na íntegra com touros, na tradicional capeia de Carnaval e correspectivos encerros e desencerros.
As capeias quase criam um território dentro do território, tal o frenesim das pessoas da raia pelos touros, forcão, encerros e desencerros. A capeia com forcão é uma forma superior de arte e quando o touro tem bravura, trapio, casta, nobreza, se fixa no engano e não sai solto, nada melhor do que uma valsa de Strauss, uma sinfonia de Beethoven para acompanhar os movimentos estilizados de 30 rapazes que com bravura enfrentam o animal «de poder a poder».
Vem tudo a propósito do Carnaval que se avizinha e que em Ciudad Rodrigo com o impulso do Ayuntamiento local, é uma festa que reveste atractividade nacional, no formato assumido de Carnaval del Toro. No concelho do Sabugal a primazia vai para Aldeia do Bispo, «a Princesa da Raia», que tem um corso carnavalesco já com algum interesse, onde os foliões desinibidamente podem desfilar, acompanhadas de tamborileiros, disfarces e gigantones, numa iniciativa da Junta de Freguesia e associação locais, a que a população adere significativamente.
Porque estamos no Domingo Gordo, dia em que tradicionalmente se comem as iguarias resultantes da matança do porco e uma vez que se avizinha a Quaresma com jejum e abstinência, a Confraria do Bucho Raiano decidiu em boa hora, organizar um almoço em honra deste pitéu no restaurante Xalmas em Aldeia do Bispo. Para participar neste evento é necessária uma inscrição prévia.
Estão assim reunidos todos os condimentos para Aldeia do Bispo ser a capital do Carnaval. A folia é a palavra de ordem.
Eufóricos com toda esta lufa-lufa, andam os dois únicos toureiros profissionais que a raia criou e ainda vivos. Estou naturalmente a referir-me ao Fernando Gregório, picador de touros e ao matador Zé Carlos «Gravatas», ambos naturais de Aldeia do Bispo, duas figuras consagradas do toureio a pé, com traje de luces, que quais D. Quixote e Sancho Pança, têm mais medo dos touros do que quem escreve estas linhas, que nunca teve a coragem de entrar numa arena.
Bons Carnavais.
«Páginas Interiores» opinião de José Robalo

joserobaload@gmail.com

Para os romanos os olhos verdes da deusa Minerva eram símbolo da inteligência. «Por beber muito azeite», diziam. No lagar mecânico da Bendada «apenas se utilizam azeitonas inteiras, sãs e maduras» respeitando técnicas dos nossos avós. O azeite e a folha da oliveira estão presentes, desde sempre, na história da Humanidade. Falta cumprir-se a história nas terras quentes do Sabugal…

José Robalo – «Páginas Interiores»Minerva era a deusa romana da inteligência e da sabedoria e presidia à actividade intelectual, sendo que na mitologia grega, tinha como correspondente a deusa Atenas, que como é sabido na guerra de Tróia protegeu os aqueus Ulisses e Aquiles e era «a deusa dos olhos garços». Atenas nunca perdoou a Páris irmão de Heitor, o facto de este lhe ter negado o prémio de beleza. Os deuses eram como se vê muito vingativos. A planta preferida de Atenas era a oliveira. Por seu lado, os olhos da deusa Minerva, símbolo da inteligência, eram verdes, dizia-se por beber muito azeite. Consta-se que o leito onde o divino Ulisses reconciliava o seu sono, era feito do tronco de uma oliveira; na Bíblia o azeite é citado mais de duzentas vezes, quer no uso litúrgico, quer medicinal. No Alcorão é explícita a ligação entre a luz do azeite e a luz que irradia de Alá.
Após o dilúvio Noé soltou uma pomba, que regressou à Arca, trazendo no bico uma folha verde de oliveira, sinal divino de que as águas tinham baixado, o que comprova à saciedade a importância desta planta no mundo ocidental.
Ainda hoje o ramo da oliveira nas nossas terras serve para nos proteger das trovoadas, depois de devidamente benzido no Domingo de Ramos. Esta é ainda uma crença muito arreigada no espírito das nossas gentes.
As novas tendências da cozinha e que fazem moda, conquistando Nova Iorque e Tóquio assentam no azeite como um produto de excelência. Os países mediterrânicos conseguiram impor-se aos nossos amigos americanos que soçobraram com os óleos de girassol, pelas consequências perniciosas para a nossa saúde.
A oliveira é uma planta que se adapta muito bem à parte sul do concelho do Sabugal, aquela a que designo por terra quente e que compreende o território e termos das freguesias de Santo Estêvão, Moita, Casteleiro, Sortelha e Bendada. Estas freguesias que por si ocupam um vasto território produzem um azeite de eleição, utilizando essencialmente três variedades de azeitona a saber: galega, cordovil e carrasquenha.
BendadaNa Bendada laboram na actualidade três lagares de azeite, absorvendo matéria-prima das aldeias limítrofes, algumas delas já pertencentes aos concelhos de Penamacor, Belmonte e Fundão.
A época normal de laboração de um lagar compreende os meses de Novembro, Dezembro e Janeiro. Para a produção de um azeite de qualidade, torna-se necessário bom clima, solo e uma boa adaptação da planta às condições do terroir, sendo que a azeitona deve ser de qualidade e entrar no lagar em boas condições fitossanitárias. A este propósito refere-nos António Januário Vicente, que «é cada vez mais comum a produção de azeite biológico, uma vez que os olivicultores têm cada vez mais consciência da importância da não utilização de pesticidas».
Proprietário de um lagar mecânico na Bendada, António Januário Vicente acrescentou: «O nosso lagar utiliza as técnicas dos nossos avós, com total respeito pela qualidade e estado sanitário da azeitona. Aqui apenas se utilizam azeitonas inteiras, sãs e maduras, sujeitas a processos mecânicos, respeitando integralmente o produto que entra no lagar.»
O azeite é por si um produto de qualidade aos olhos do consumidor tendo estas terras condições para o produzir em qualidade e quantidade, rentabilizando esta actividade, profissionalizando-a. Os olivicultores têm que se organizar, com certificação do produto e garantias de escoamento, o que aparentemente não se nos afigura difícil.
Na Bendada e na sequência do nosso último artigo, fomos ainda encontrar o Presidente de Junta, Adérito Alves Pinto, que a propósito da produção do azeite nos refere «seria muito importante que alguma entidade nos ajudasse a relançar esta actividade económica, fulcral para o pequeno produtor.»
Finalmente, quando o questionámos acerca das principais necessidades da sua freguesia, foi peremptório: «O projecto do parque de lazer já deveria estar no terreno, com um polidesportivo e pavilhão multiusos.» Por outro lado, o autarca não compreende «o atraso na implementação da secção de Bombeiros, uma vez que a aposta também é na protecção do meio ambiente e da Natureza. Não posso aceitar tanta desculpa e tanta inércia».
«Páginas Interiores» opinião de José Robalo

joserobaload@gmail.com

A Sociedade Filarmónica Bendadense foi fundada em 1870, por António Nunes da Fonseca Faria, primeiro professor primário da Bendada. Sendo a única do concelho do Sabugal, possui 32 elementos, na sua maioria muito jovens, que ao sábado transformam a Bendada num espécie de reino de Orfeu com a música a sair de todas as casas.

José Robalo – «Páginas Interiores»A música ocupa um lugar primordial no espírito humano. São muitos os estudos que concluíram que existe uma relação directa entre a audição de boa música e o desenvolvimento das nossas capacidades intelectuais e boa disposição. Parece que até os animais e plantas melhoram o seu rendimento e crescimento, em contacto directo com a música. De uma forma ou de outra todos nós somos melómanos e é já quase um hábito no dia de Ano Novo, assistirmos em directo via TV ao concerto de Ano Novo da Orquestra Sinfónica de Viena culminando a alegria e boa disposição com a Marcha Radetzky.
Na mitologia grega, Orfeu era o cantor por excelência, músico e poeta, tendo sido seleccionado para participar na expedição dos Argonautas, não pelos seus dotes físicos, até porque não tinha forças suficientes para ser remador, mas pela sua voz que ao cantar definia a cadência dos remadores.
Consta-se que nesta expedição, Orfeu foi ainda muito útil para sobrepor o seu canto ao das Sereias que como se sabe, pretenderam seduzir os argonautas. Tal não veio acontecer graças à intervenção melodiosa de Orfeu, uma vez que o seu esplendor musical superou em doçura o canto das sereias. Acredita-se que após a morte de Orfeu a sua lira de nove cordas (tantas quantas as musas), foi levada para o céu, transformando-se numa constelação.
Habitando os Campos Elísios, local reservado aos deuses, diz-se que Orfeu em vida tocava melodias tão suaves, que as árvores e demais plantas se inclinavam na sua direcção. Diz-se ainda que a sua música acalmava até o coração dos homens mais rudes e insensíveis.
Partindo da Guarda pela Estrada Nacional em direcção ao Sabugal, na Catraia do Sortelhão, toma-se o caminho agrícola à direita na direcção da Quinta da Erva, Quinta de Santo António e Quinta da Ribeira até se chegar à sede da freguesia da Bendada, atravessando uma paisagem lunar, assombrosa e de cortar a respiração. A Natureza no seu esplendor!
BendadaNuma tarde de sábado, chegados ao largo principal da freguesia de supetão, invade-nos a sensação de nos encontrarmos no reino de Orfeu, uma vez que a música sai de todas as casas. Entramos num espaço que no exterior indica ser a sede da Sociedade Filarmónica Bendadense, onde com alguma vaidade, se pode ler que foi fundada em 1870.
Deparamos com uma turma de crianças que estão a postos para uma aula de formação musical. O professor e amigo Luís Andrade que ao mesmo tempo é ensaiador e mestre da Banda Filarmónica da Bendada, recebe-nos e mostra-nos a exiguidade do espaço dizendo: «É muito difícil trabalhar nestas condições. Não temos espaço e os meios são escassos. Só com muito amor e carolice é que se consegue trabalhar. Aqui o dinheiro é contado ao cêntimo», indicando-nos um placard na parede onde estão afixadas todas as contas. «Como podes verificar as contas estão aqui expostas e só com muito rigor se consegue trabalhar. É muito difícil. Como motivar um jovem a integrar a banda filarmónica, se com ensaios e actuações numa festa religiosa ganha cerca de 20 euros, privando-se do convívio dos amigos nos dias festivos?»
O Luís Andrade é professor de música, no ensino oficial e vai-nos desfiando com algum orgulho uma panóplia de gente e de nomes que neste momento se encontra ligada à música e faz disso profissão, tendo-se iniciado na Sociedade Filarmónica Bendadense. Estão aqui os músicos do futuro», ao mesmo tempo que indica para aquele grupo de crianças, que com pontualidade, aos sábados acode às aulas de formação musical.
Mais acima e já no exterior num local bem centralizado está o coreto onde a Filarmónica apresenta os seus concertos e que foi objecto de obras de recuperação recentemente. Ao penetrarmos no seu interior, vamos encontrar os jovens mais velhos a ensaiar.
Do interior deste edifício a música sai por todos os poros, mais parecendo que aqui se encontra o túmulo do nosso Orfeu. O Presidente da Sociedade Filarmónica, o jovem professor de música Filipe Fernandes de seu nome diz-nos: «Para ensaiar aproveitamos os sábados, que é quando todos podemos, visto que a maioria dos músicos são estudantes. Ensaiamos numa sala, pertencente ao edifício do Centro de Dia da Casa do Povo da Bendada, tendo sido cedida à Banda enquanto esta existir. Em contrapartida a Escola de música tem cerca de uma dezena de crianças na iniciação à música, servindo de retaguarda à banda e prepara-mo-las para no futuro a integrarem, se essa for a sua vontade.»
Esta escola dá ainda formação aos mais velhos para aperfeiçoarem individualmente o instrumento eleito que pode ser saxofone, clarinete, trompete ou trombone.
O que impressiona nesta gente jovem é o entusiasmo, com que se entregam a esta causa, por amor à música, sem apoios e ocupando o seu tempo com coisas úteis e agradáveis. Este projecto atrai gente das povoações vizinhas como as Caldeirinhas e Trigais, existindo para o efeito uma carrinha propriedade da Sociedade Filarmónica para transportar toda esta juventude de forma gratuita, sendo certo que toda esta actividade em serviço de voluntariado, tem muitas despesas. No entanto, é toda esta juventude que garante a sobrevivência e continuidade desta colectividade, que é tão só uma das mais antigas do concelho, estando para breve a celebração dos 140 anos.
Quando perguntamos ao Filipe, o que gostaria de receber como prenda, a resposta não se fez esperar: «Gostaríamos de ter um espaço para uma sede tendo já adquirido um terreno para o efeito há algum tempo pela banda e no dia do aniversário colocar a primeira pedra, com ajuda de todos. A Sociedade Filarmónica Bendadense foi fundada em 1870, por António Nunes da Fonseca Faria, primeiro professor primário da Bendada. Inicialmente a Banda dava mais importância à música vocal. Sendo a única do concelho do Sabugal, possui 32 elementos, na sua maioria muito jovens. O repertório é actual e bastante diversificado.»
Saímos da Bendada divididos pelo sentimento de satisfação por vermos uma colectividade a trabalhar com este entusiasmo, com base em tanta juventude. No entanto, com um profundo sentimento de tristeza, por sentirmos que esta juventude deveria ter mais apoio e que seria de inteira justiça que esta colectividade tivesse aquilo que tanto ambiciona: uma sede onde ensaiar com condições de acústica necessárias, guardar equipamento e organizar actividades. Acredito que o Ministério da Cultura através dos meios disponíveis será sensível a toda esta dinâmica e que justamente abrirá uma janela para esta agremiação.
«Páginas Interiores» opinião de José Robalo

joserobaload@gmail.com

A Casa do Castelo recentemente inaugurada na zona histórica do Sabugal já é ponto de passagem obrigatório no roteiro cultural da cidade. Guardada pela torre das cinco quinas podemos encontrar no seu interior o altar judaico e a ara romana que são motivos mais do que suficientes para fazermos uma visita ao espaço gerido por Natália Bispo.

José Robalo – «Páginas Interiores»Dos diferentes judeus que conheço, concluo que são gente maravilhosa. Se analisarmos a história do pensamento e das ideias verificamos que nenhum outro povo contribuiu tanto para o desenvolvimento da história da humanidade, apesar de ser uma pequena comunidade, comparativamente com outras. Se elaborássemos uma lista com o nome dos maiores cientistas, músicos, filósofos e inventores, concluiríamos que a percentagem de judeus é impressionante. Não será despiciendo afirmar, que no universo de valores dos judeus, o espírito e as descobertas científicas ocupam um lugar primordial, dando sempre primazia à arte e ao pensamento.
Acreditando como acredito que não existem raças, até porque está demonstrado cientificamente que não existem diferenças genéticas entre pretos e brancos, entre árabes e judeus, é evidente que a superabundância de génios judeus resulta de factores educacionais, morais e circunstanciais, atendendo ao seu cosmopolitismo e por estarem espalhados por todo o mundo, os judeus são ao mesmo tempo judeus e portugueses, judeus e alemães, judeus e franceses.
Este povo foi perseguido e vilipendiado, é o povo da diáspora, sendo que em Portugal apesar da ferocidade da Inquisição, na Idade Média e após a extinção do Santo Ofício, houve alguma tolerância com os judeus, embora sempre considerados como raça inferior. Os cristãos novos e os marranos são tão – só a face de uma mesma realidade, que culminou no criptojudaísmo.
Belmonte tem uma comunidade judaica bastante extensa sendo tida como exemplar a nível nacional. Naturalmente que esta comunidade não se fixou apenas em Belmonte tendo-se expandido por todo o território que é hoje a Beira Interior, nomeadamente o Sabugal e Penamacor onde foi figura de proa Ribeiro Sanches, um judeu perseguido em Portugal e médico ilustre nas principais cortes europeias do seu tempo.
Com a expulsão dos judeus na vizinha Castela pelos reis católicos em 1492, muitos deles demandaram na diáspora os territórios de fronteira, sendo que nessa data por exemplo a população triplicou em Belmonte.
Embora não possuindo dados e estudos em relação ao Sabugal nesta matéria, estou em crer que muitos se fixaram por aqui e que a população do Sabugal, também terá aumentado substancialmente.
Recorde-se que o nosso rei D. Manuel I assinou o decreto de expulsão dos judeus, em 1496 proibindo e reprimindo o judaísmo, seguindo o exemplo dos reis católicos e converteu à força milhares de judeus através do baptismo num processo que ficou conhecido por cristãos novos.
Casa do Castelo no SabugalNo entanto, o apego deste povo à religião e o seu espírito de sobrevivência aguçou-lhes o engenho e arte dissimulando as suas práticas religiosas, protegendo-se assim, do ambiente hostil onde estavam inseridos. A mezuzáh de bolso é uma prova disso mesmo. A mezuzáh era inicialmente colocada à entrada de todas as portas na parte traseira dos umbrais, do lado direito, com um pergaminho que continha duas passagens da Torá cumprindo-se assim os mandamentos do Deuteronómio (6:4-9 e 11:13-21). Com o tempo esta mezuzáh e por necessidade foi adaptada para ser transportada no bolso cabendo na palma da mão, forma expedita dos criptojudeus cumprirem os rituais religiosos sem serem incomodados e fugirem às perseguições.
Natália Bispo é uma natural e residente no Sabugal, com um dinamismo e capacidade de intervenção ao nível da comunidade em que está inserida, fazendo-o de forma exemplar. O amor à sua terra levou-a a abrir um espaço na zona histórica e envolvente ao Castelo, a Monumenta que para além de ser um local aprazível para se tomar um café ou uma refeição numa roda de amigos e da família é um pequeno museu repositório da nossa memória histórica.
No centro de toda esta obra de arte encontra-se um altar judaico que foi achado por acaso nas obras de recuperação do edifício, uma vez que estava dissimulado entre dois muros, o que comprova à saciedade que no Sabugal também viveram criptojudeus e cuja comunidade deveria ser extensa uma vez que dispunham de meios para celebrarem os seus cultos.
Refere-nos a sua proprietária: «É impressionante o interesse que a Casa do Castelo está a despertar em quem nos visita, muito mais no sentido cultural querendo observar o Altar Judaico e a Ara Romana, relegando para segundo plano o aspecto comercial da Casa.»
Esta Casa do Castelo com abertura há escassos meses, já está a ser uma referência cultural, no Concelho de Sabugal.
Com orgulho e alguma apreensão natural a Talinha vai dizendo: «No livro de honra que a Casa tem à disposição, são deixados testemunhos que provam que este projecto está a ser uma mais valia para a nossa cidade; como proprietários estamos orgulhosos, mas também preocupados, porque não é fácil de gerir um projecto com estes moldes.»
Cripto é um prefixo de origem grega que significa secreto, oculto. Os criptojudeus eram todos aqueles que em público praticavam actos religiosos próprios do catolicismo, como ir à missa, baptizar os filhos, mas que em privado praticavam os rituais ancestrais da religião judaica. Como não havia sinagogas, nem livros, a religião e rituais religiosos passavam de geração em geração de forma oral, o que com o tempo criou um outro judaísmo, distante do normativo, criando-se assim quase uma religião própria, com rituais cristãos em público e rituais judaicos em privado, numa eterna vida paralela.
Com alguma segurança podemos afirmar que o criptojudaísmo se foi quase transformando numa nova religião.
Os elementos de que dispomos embora sendo escassos por não ser nossa tarefa investigar esta temática, leva-nos a concluir que no Sabugal, Sortelha, Alfaiates e Vilar Maior existiram comunidades judaicas com alguma importância, sendo certo também que estas comunidades dispunham de alguma organização económica. Em Vilar Maior, temos conhecimento da existência de uma mezuzáh, símbolo da purificação numa casa particular bem como de um pavão desenhado num armário de pedra, símbolo judaico da fertilidade.
O Município de Belmonte apostou na organização do museu judaico com alguma importância e em boa hora o fez, uma vez que tem uma média anual de 14000 visitantes a pagar. Como território limítrofe a esta realidade e com vestígios da passagem e fixação dos judeus pelo Sabugal, não será o momento de nos reconciliarmos com a História e colocar o Sabugal envolto nesta temática?
«Páginas Interiores» opinião de José Robalo

joserobaload@gmail.com

As Termas do Cró têm sido o guião de todas as campanhas eleitorais autárquicas no Sabugal mas… Baños de Montemayor é uma estância termal espanhola perdida no meio da Serra com águas de idênticas propriedades às do nosso Cró e com lotação esgotada durante toda a época balnear.

José Robalo – «Páginas Interiores»O desenvolvimento do termalismo tem acompanhado a história da Humanidade. Os romanos, esteio da nossa civilização, não dispensavam nas grandes obras públicas o aproveitamento desta riqueza da natureza que teve desde sempre duas funções: as termas eram utilizadas pelas suas águas com capacidades curativas e medicinais e pela sua valência social. Os banhos serviam também como lugar de encontro e convívio. Na actualidade ao termalismo associou-se a vertente estética e de lazer com os SPA.
Do ponto de vista turístico o termalismo foi associado durante algum tempo à terceira idade, sendo certo no entanto, que nos últimos tempos se tornou num turismo de moda, reflectindo um crescimento exponencial em todas as camadas etárias.
Sendo apologista deste género de turismo, testemunho que as termas têm a virtude de nos recuperar física e mentalmente desta vida agitada, que nos vai consumindo.
No início da década de 90 do século passado, conheci profissionalmente o Manolo, pessoa com quem cimentei uma profunda amizade. Tínhamos em comum entre outras, uma paixão pelos touros de morte e na Praça da Glorieta em Salamanca, partilhámos tardes de touros inesquecíveis na feira de Setembro em honra da Virgen de la Vega.
Este meu amigo era proprietário de um hotel em Baños de Montemayor, lugar insignificante, situado num vale na linha divisória das comunidades de Castilla y Leon e da Extremadura, sendo que Baños de Montemayor pertence à Extremadura, província de Plasencia.
Baños de Montemayor é uma estância termal perdida no meio da serra, recuperada com bom gosto, com águas de idênticas propriedades às do nosso Cró, mas com um fulgor difícil de descrever e lotação esgotada durante toda a época balnear.
As pessoas procuram Baños de Montemayor para tratamentos no seu balneário, descanso e lazer com todo o tipo de actividades alternativas e ocupacionais que vão desde a caça, aos passeios a pé, equitação, ténis e pesca desportiva, dando assim vida a toda aquela região.
As Termas do Cró já conheceram este fulgor no início do século passado, tendo no entanto encerrado em 1975 e votadas desde essa data ao mais completo desprezo e abandono.
Termas do CróNo Cró fui encontrar o Ti Artur Costa, o guardião do Cró, que com um olhar azul perdido na sua vida de 75 anos, puxa da memória e vai desfiando: «Conheço isto desde pequeno. Eram as freiras que tomavam conta do balneário e davam banhos. As casas estavam sempre cheias de gente que pagava rendas durante toda a época balnear. Se me apanhasse nesse tempo…» recorda com alguma nostalgia. «Apanhava peixes e vendia aos banhistas. O rio era rico de tudo, com barbos, bordalos, bogas e trutas. Corria as casas a vender peixe fresco! Até leite vendíamos, pois tínhamos as vacas aqui na quinta.»
Nos últimos tempos o zelo, amor e dedicação a este espaço por parte do Ti Artur Costa, foi compensado pela Junta de Freguesia da Rapoula do Côa, que viram neste homem a pessoa indicada para guardar e vigiar o Cró.
As obras de recuperação do espaço já se iniciaram vai para muito tempo com análise do caudal e qualidade das águas, infra-estruturas, saneamento, rede de águas, energia eléctrica, mas a exigência de planos de pormenor eternizam o seu avanço contrariando o desejável e como o concelho e a região necessitam.
Este é um projecto estruturante para o desenvolvimento do concelho, que já deveria estar em pleno funcionamento, não se compreendendo o tempo gasto e a obra que não avança, enleada na burocracia. O Cró é sinónimo de lazer, turismo e de infra estruturas com potencial elevado para atrair gente e para colocar o nosso concelho numa rota de inversão desta tendência para o despovoamento. O termalismo é equivalente a turismo de qualidade e de bem-estar, que estando na moda tem neste momento grande procura, como melhor se comprova na vizinha Espanha. Este investimento tem um potencial efeito multiplicador à boa maneira de Keynes, podendo criar muitos postos de trabalho quer directos, quer indirectos.
Diz-nos o Ti Artur Costa: «Neste momento já não trabalho para a Junta, mas continuo a vir aqui todos os dias, porque tenho aqui uma casa. As obras têm estado paradas. Antigamente a malta vinha para aqui aos banhos e às noites organizavam bailes com acordeonistas. Na festa do segundo domingo de Agosto na Senhora dos Milagres havia sempre festa rija e às vezes desentendimentos entre a malta do Seixo e a da Rapoula do Côa pela disputa da festa. A divisão é feita pela ribeira do Cró, que é a mesma que passa em Pêga.»
Hoje o Ti Artur Costa continua a vir ao Cró, já não apanha peixes porque «os não há, mas faço umas vassouras em bracejo que vendo às pessoas que vêm a fazer tratamentos e até faço por encomenda, ao preço de 50 cêntimos cada vassoura». Podemos dizer que se reconverteu de pescador a artesão.
As Termas do Cró têm sido o guião de todas as campanhas eleitorais autárquicas, com a virtualidade de conseguir o pleno e a unanimidade por parte de todas as candidaturas no reconhecimento da importância deste projecto para o desenvolvimento do concelho do Sabugal.
Como diria o poeta-pintor do grupo Orfeu, José de Almada Negreiros «É esta a Pátria de Camões, onde Camões morreu de fome e todos enchem a barriga de Camões.»
«Páginas Interiores» opinião de José Robalo

joserobaload@gmail.com

A Livraria Cervantes, uma das mais conhecidas e conceituadas livrarias de língua espanhola está a distribuir aos seus clientes um calendário de bolso para 2008 com um curioso título: «Por la Raya de Portugal de Lumbrales a Sortelha».

José Robalo – «Páginas Interiores»Qué descansada vida
la del que huye del mundanal ruïdo,
y sigue la escondida
senda, por donde han ido
los pocos sabios que en el mundo han sido.
Fray Luis de Léon

Salamanca é a grande capital, de um espaço económico, linguístico e cultural, que historicamente ficou conhecido como o reino de Leão. Esta capital cultural, foi desde sempre uma cidade cosmopolita, que com a sua Universidade ganhou prestígio e se afirmou como centro de saber e conhecimento por excelência, nas mais variadas áreas, nomeadamente do Direito e da Medicina.
Salamanca foi uma cidade de notáveis que desde o fundador da Universidade o rei Afonso X o Sábio, passando por S. Juan de La Cruz, Luís de Gongora, Calderon de La Barca, Miguel de Unamuno e Fray Luis de Léon, lhe deram prestígio ao longo dos tempos. Associados a Salamanca estão os nomes de Cristóvão Colombo, Cervantes e do nosso Pedro Nunes.
«Por la Raya de Portugal de Lumbrales a Sortelha», da Livraria CervantesFray Luis de Léon, tendo vivido no final do século XVI, foi vítima da Inquisição e da estultícia dos homens, tendo estado preso durante vários anos e é tido em Salamanca como a encarnação do espírito da liberdade, com uma estátua em lugar de destaque nos pátios da Universidade. De regresso à sua cátedra após a sua libertação, sem nunca ter sabido o motivo da sua prisão, Fray Luis tornou famosa a frase «Decíamos ayer…» que denotava o triunfo da sua liberdade interior contra a maldade e perseguição dos seus inimigos.
Estas são razões mais do que suficientes para que a sua Universidade seja das mais procuradas e concorridas quer por espanhóis, quer por estudantes estrangeiros, que pretendem aprender ou aperfeiçoar o castelhano. No centro de todo este fulgor pelo conhecimento encontra-se a livraria Cervantes, a mais conhecida e prestigiada em Espanha e nos países de língua espanhola.
Esta livraria localizada não muito longe das Universidades e da Praça Mayor, está a distribuir pelos seus clientes um calendário de bolso de 2008 que tem por título «Por la Raya de Portugal, de Lumbrales a Sortelha», reprodução da capa de um livro de Ángel Blanco Hernandéz, conforme melhor se documenta na foto que se anexa.
Como sabugalense e amigo de Sortelha, fiquei surpreendido e honrado por ver a minha terra, divulgada desta forma por uma instituição – a livraria Cervantes – tão concorrida e conceituada.
Não será esta uma oportunidade para quem manda, numa operação de charme e promoção do concelho junto da livraria e dos seus leitores, oferecer um ou vários fins–de-semana em Sortelha, a sortear por todos os clientes?
«Páginas Interiores» opinião de José Robalo

joserobaload@gmail.com

Sendo um homem de compromissos e habituado a cumprir prazos, por defeito de profissão, o prazo é sempre cumprido no último dia. E o Natal em família na Ruvina não deixa tempo para uma escrita interessante para o leitor.

José Robalo – «Páginas Interiores»Acontece no entanto que por vezes, o excesso de trabalho e de compromissos nos tolhem o pensamento e nos impedem com alguma lucidez engendrar uma história, um conto que possa ter respeito e interesse pelo leitor.
Encontrando-me na Ruvina, a azáfama do madeiro de natal, os preparativos da Consoada e da missa do galo, as prendas do menino Jesus, que hoje designamos por Pai Natal, têm usurpado esse tempo para a reflexão e para a escrita. É nestes momentos que nos acode ao espírito o pensamento do poeta, quando escrevia:

Capela da Senhora das Preces«Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.»

É assim desta forma desidiosa, que na Ruvina desfruto do Natal, a época mais bonita para se viver em família numa aldeia do Sabugal, longe da indiferença e do anonimato das grandes cidades.
Proponho-lhe caro leitor amigo, nesta época preguiçosa por excelência que procure na sua estante, biblioteca ou livraria um livro precioso: «Os Novos Contos da Montanha», de Miguel Torga e à lareira aos seus filhos, netos ou para si próprio leia a história de Natal mais bonita que conheço. Um conto que perpetua a nossa memória do Natal e que no livro tem esse nome.
A história degusta-se à lareira em cinco minutos, mas se pretender ter o prazer de a ouvir pela voz do seu autor também existe em CD. Boas leituras.
Para todos um Santo e Feliz Natal.
«Páginas Interiores» opinião de José Robalo

joserobaload@gmail.com

Foi um dos momentos mais hilariantes do ano, correu mundo, deu azo a todas as interpretações: «¿Pero por qué no te callas?» O «pero» foi quase inaudível, quase ninguém o captou, mas aí estava para os ouvidos mais atentos. Talvez o assunto tivesse tido menos transcendência se o rei tivesse dito ao ditador: «¿Pero, por qué no le dejas hablar?»

José Robalo – «Páginas Interiores»Ao longo da história da Humanidade a liberdade de expressão e pensamento têm sido uma das pedras de toque da arte de viver em sociedade, não sendo infrequente que de vez em quando um louco com poder ponha em causa esta essência do ser humano. Como escrevia o poeta Antero, «a liberdade não é tudo, mas é o primeiro passo para se alcançar tudo o que é justo e santo».
«Clama ne cesses» é uma expressão latina, que se encontra inscrita no púlpito datado de 1692, da Igreja de estilo românico de Águas Belas, que significa «Fala, não te cales» e que reproduz parte de uma das epístolas de S. Paulo a Timóteo, onde o exortava a expandir a palavra de Deus com inteira liberdade e coragem.
Como nos refere o amigo e pároco de Águas Belas, dr. Francisco Vaz, professor de Latim aposentado, «a Igreja de Águas Belas, sendo românica deverá datar do século XIII, com marcas deste estilo nomeadamente, as portas redondas e os cachorros dos beirais, sendo certo que foi objecto de posteriores intervenções, nomeadamente no século XVIII, com a introdução das janelas, com data de 1756 inscrita em vários locais e na sacristia existe um lavatório desse ano, nitidamente encastradas na parede. O orago é Santa Maria Madalena».
Sobre a porta principal podemos ainda encontrar uma cruz dos Templários, sinal evidente que este lugar interessou em tempos a esta ordem religiosa, extinta como se sabe a uma sexta-feira, dia 13 de Outubro de 1307, por Filipe, o Belo. Ainda hoje referimos ser dia aziago a sexta-feira 13, por referência a tal data.
Águas BelasEsta jóia arquitectónica está no entanto votada a algum abandono, devendo merecer da parte das autoridades maior atenção e cuidados, nomeadamente a substituição daquele muro exterior de blocos, por outros materiais que dignifiquem o local.
O Presidente da Junta de Freguesia, Raul José Luís, refere: «Águas Belas, já foi centro nevrálgico na exploração do minério, com as minas localizadas no termo da freguesia, mas esse fulgor perdeu-se e a freguesia está despovoada, devido à emigração e falta de postos de trabalho. Concluídas as obras de saneamento, e renovação da rede de águas, é importante recuperar o Largo da Igreja», para acrescentar com alguma indignação que «também não posso admitir que a sede da freguesia esteja a 16 quilómetros de uma anexa como Vale Mourisco, se com uma nova estrada de ligação entre estas duas localidades poderíamos ficar a apenas seis».
Por outro lado, no entender de Raul José Luís, deveria haver mais investimento produtivo, para que as pessoas se pudessem fixar nas aldeias, contrariando assim esta desertificação humana, que nos vai empobrecendo a todos.
João Filipe Cunha, é um jovem natural de Águas Belas, amante como ninguém da sua aldeia, mas que por circunstâncias madrastas da vida, reside na Guarda. O João tem 16 anos de idade e é um virtuoso do piano. «Comecei a tocar piano com 11 anos, porque para mim o piano é um instrumento emocionante. Tocar é um desafio permanente, proporciona-me prazer, como acho que os meus colegas terão prazer a jogar futebol.»
Encontro o João Filipe no Conservatório antes de uma audição e com responsabilidade e respeito pelas pessoas que o vão ouvir, pede-me «desculpa, mas só já falta uma hora e tenho que continuar o ensaio». O João Filipe é um perfeccionista, com uma capacidade de progressão enorme, sendo já um caso sério na forma apaixonada como aborda cada nota e cada peça que executa. Esta noite, o programa será preenchido com Claude Debussy. «Os meus compositores preferidos, são Beethoven, Mozart, Debussy e Chopin. Como tenho a chave do Conservatório, ao fim de semana, aproveito para com tranquilidade fazer aquilo que mais gosto: tocar piano.»
Ouvir este virtuoso do piano, onde todo o corpo se movimenta em duas mãos, mais parecendo duas aranhas que com magia correm todo o teclado, numa fria noite de Dezembro, é um privilégio só para alguns, dos quais fiz parte.
Com o olhar perdido de sonhador, o João Filipe, faz-me uma última confidencia, um desejo de curto prazo: «Gostaria de dar um concerto para piano na minha terra, o Sabugal, agora que sei que tem um auditório com muito boas condições acústicas.»
Digo adeus ao João vindo-me então à memória a tal exortação inscrita no púlpito da igreja de Águas Belas, «Clama ne cesses», sendo certo que o João Filipe merece ser ajudado e apoiado.
«Páginas Interiores» opinião de José Robalo

joserobaload@gmail.com

Os castelos do concelho do Sabugal são um excelente cartão de visita turístico. O de Vilar Maior parece brotar de um conto infantil. Mas… apesar de tantos e tantos motivos de interesse a freguesia tarda em ser considerada aldeia histórica.

José Robalo – «Páginas Interiores»Tenho uma prima na raia
Outra em Vilar Maior
Se a da raia é bonita
A outra é muito melhor.
(Canção popular interpretada pelo Rancho Folclórico do Sabugal)

Chegou-me às mãos, por oferta do seu tradutor e achador, o insigne latinista já falecido Miguel Pinto de Menezes, a Crónica de D. João II da autoria de Manuel Telles da Silva, conde de Vilar Maior, «pessoa que desde a infância abraçou a disciplina militar e aprendeu a arte de conduzir exércitos», edição com a chancela da Imprensa Nacional-Casa da Moeda.
Na dedicatória refere o autor: «Ao prezado José Robalo, pelo gosto que me deu numa conversa de Agosto em seu escritório de o saber afeiçoado às Letras e nomeadamente à História de Portugal.» Cegueira dos amigos…
Manuel Telles da Silva (1641-1709), conde de Vilar Maior, foi uma das mais ilustres personalidades do seu tempo, distinguindo-se na actividade diplomática, com a celebração do contrato matrimonial de D. Pedro II em 1687 e na negociação do tratado de Methuen com a Inglaterra em 1703.
Vilar Maior tem história e foi um bastião na defesa avançada dos territórios do reino de Leão, até ao tratado de Alcanices, perdendo a partir de então paulatinamente a sua importância militar, até porque com o tempo, a diplomacia foi-se impondo na relação entre os dois reinos.
Em Vilar Maior, o castelo imponente domina a paisagem, lembrando ao viajante que aquelas terras já foram importantes estrategicamente e que os nossos antepassados foram súbditos do reino de Leão. Aqui, as pedras falam e tudo está impregnado de história: a ponte romana, o pelourinho, o pombal, as sepulturas antropomórficas, as ruínas da Igreja de Nossa Senhora do Castelo, a Igreja de S. Pedro, a muralha, as fontes romanas de mergulho, a paisagem…
Vilar MaiorO Castelo de Vilar Maior é um dos mais bonitos que conheço, que pelo seu encanto, parece brotar de um conto infantil. Apenas necessitamos de tempo para dele desfrutar.
Pena é que ainda não tenham reconhecido o encanto destas jóias arquitectónicas e que Vilar Maior, ainda não tenha sido etiquetada de aldeia histórica. Sem serem importantes os títulos ainda definem roteiros turísticos.
António Cunha, presidente da Junta de Freguesia, com alguma decepção na voz, lamenta «que a candidatura a aldeia histórica não tenha tido sucesso, aquando de tal reconhecimento a Belmonte e Trancoso. Gorou-se mais uma oportunidade, agora que o município tem investido na freguesia, no saneamento e implantação subterrâneas da rede eléctrica e telefones, com a reposição de calçadas e a requalificação dos largos. Tudo vai ficar muito mais bonito».
Quercus Pyrenaica é o nome científico do carvalho negral, ou pardo das Beiras.
Partindo de Vilar Maior, em direcção a Aldeia da Ribeira, Batocas, Nave de Haver e Malhada Sorda, podendo utilizar trilhos tradicionais e devidamente sinalizados e cuidados, encontramos um milagre da natureza: a maior mancha do País e uma das maiores da Europa, desta espécie, aguardando por um título, que lhe garanta protecção e interesse turístico. A inventariação desta realidade, já foi feita, tardando a sua classificação, apesar de estar integrada na rede Natura 2000.
A professora Maria Delfina Marques, apaixonada de Vilar Maior, tem feito um trabalho na promoção da aldeia, que já foi vila e sede de concelho e na conservação de objectos e tradições, com a criação do museu etnográfico de Vilar Maior: «O museu tem uma componente etnográfica, religiosa, do mundo rural, instrumentos musicais e uma pequena biblioteca.» Afirma que «tudo começou na escola, com as crianças, tentando afastá-las da rua, incutindo-lhes o gosto por estes objectos que à partida elas desvalorizavam. No Verão com o posto de turismo a funcionar, o forno comunitário e a casa da padeira, o nosso museu é muito visitado, recebendo cerca de 2000 pessoas por ano, e até já tivemos visitas de turistas coreanos».
Figura incontornável da vida de Vilar Maior, António Gata, sempre nos vai confidenciando: «O património é a âncora que nos pode ajudar a combater esta desertificação, tornando-se necessária a sua reabilitação, não sendo suficiente a sua classificação de interesse público, concelhio, ou monumento nacional, como já aconteceu. Uma vez reabilitados, devem ser colocandos ao dispor de quem deles queira usufruir, sob pena de tudo não passar de operações de cosmética e de criação de ilusões. A reabilitação deve prevalecer sobre qualquer classificação.»
António Gata, agarra-se ao amor que tem a estas terras e com a convicção dos que estão do lado da razão, afirma: «A minha terra tem todas as condições para ter futuro, desde que numa acção concertada de todos no terreno, simples cidadãos como é o meu caso, os agentes económicos, os políticos, mesmo com pontos de vista diferentes, com divergências saudáveis, que servem para aprofundar o debate para a obtenção de consensos. Nesta perspectiva Vilar Maior tem potencialidades para ser pólo de atracção turística, conciliando o turismo de natureza, com o do património construído.»
Ao abandonar este burgo medieval partindo lá do alto das ruínas da Igreja de Santa Maria do Castelo e numa atitude de devido recolhimento, digo mais uma vez adeus ao meu querido tio Zé da Ruvina, para nós Ti Zé da Vila, que sepultado aos pés do castelo de Vilar Maior, dir-se-ia que passa a sua morte de férias…
«Páginas Interiores» de José Robalo

joserobaload@gmail.com

Elisabete era uma mulher saciada da vida cosmopolita da cidade e da civilização. Tal como o Jacinto da «Cidade e as Serras» regressou às origens. Reabilitou a memória do pai transformando-a numa unidade de turismo rural acolhedora, às portas do Sabugal, junto à estrada nacional na direcção de Vilar Formoso.

José Robalo – «Páginas Interiores»«Muito tempo um melro nos seguiu, de azinheiro a olmo, assobiando os nossos louvores. Obrigado, irmão melro! Ramos de macieira, obrigado! Aqui vimos, aqui vimos! E sempre contigo fiquemos, serra tão acolhedora, serra de fartura e de paz, serra bendita entre as serras! Assim, vagarosamente e maravilhados. O ar fino e puro entrava na alma, e na alma espalhava alegria.»
A Cidade e as Serras, Eça de Queiroz

Este extracto da obra «A Cidade e as Serras», de Eça de Queiroz, retrata fielmente o sentimento de Elisabete Pereira Lopes, natural de Rendo, hoje proprietária e responsável da Quinta do Alexandre, uma unidade de turismo rural.
No cinema trabalhou com Fonseca e Costa, Luís Filipe Rocha, Artur Semedo e uma panóplia de realizadores franceses da nouvelle vague, nomeadamente no «La Reine Margot», com Isabelle Adjani, no principal papel. Foi maquilhadora no filme a «Casa dos Espíritos», onde contactou com Meryl Streep, Jeremy Irons, Winona Ryder e Antonio Banderas.
Por motivos profissionais lidou de perto com a classe política portuguesa da direita à esquerda, mas com a humildade que lhe é característica e algum pudor pede para «não se falar disso» sendo certo que correu o mundo, como fielmente retratam os objectos que com bom gosto povoam a casa de turismo rural que fomos conhecer. Com alguma emoção sempre nos vai mostrando uma fotografia, ao lado do Presidente Xanana Gusmão.
Entra-se na quinta por uma avenida de árvores, acompanhados pelos chilrear permanente da passarada, que acompanha o viajante. A Quinta do Alexandre já foi celeiro e pomar, nos meados do século passado, mas hoje é uma unidade hospitaleira de turismo rural com alvará, gerida de forma superior pela sensibilidade desta mulher, que nos confidencia: «Já vi tudo, já corri o mundo. Decidi-me pelo projecto de recuperação desta Quinta que foi de meus pais, por se encontrar abandonada e por este ser um espaço a que tenho fortes ligações afectivas. Acresceu a grande vontade de abandonar a cidade e vir para o campo em contacto com a natureza.» Esta mulher saciada da vida cosmopolita da cidade e da civilização, regressou às origens, tal como o Jacinto da «Cidade e as Serras». A ideia firme de reabilitar este lugar, transformando-o numa unidade de turismo rural acolhedora, às portas do Sabugal, junto à estrada nacional na direcção de Vilar Formoso, tornou-se realidade.
Quinta do AlexandreNas palavras alguma amargura: «Foi um calvário, um parto muito difícil, aos poucos, aos poucos, vou andando, é muito difícil! Conseguir o alvará para turismo rural, foi uma batalha…Investi aqui todas as minhas economias, sem ajuda de ninguém…»
Como não podia deixar de ser, os quartos todos têm nome e retratam o encanto exterior, com uma identidade própria. Por cerca de 50 euros podemos escolher para pernoitar entre A Bela-Luz, a Alfazema, a Violeta ou o Amor-Perfeito. Com juízo anedótico, relata-nos as dificuldades que teve em convencer o empreiteiro a colocar vidros normais nas janelas das casas de banho, para assim se desfrutar da paisagem. À natureza nada se esconde…
Tendo aberto ao público em Junho, mereceu honras de primeira página numa edição do jornal «Metro». Tem existido procura e já há ocupação esgotada para o Natal. «Trata-se de um grupo de jovens que esteve aqui na Festa da Cerveja, que gostou e regressou agora com mais tempo.»
Quer no interior onde a decoração é conseguida com muito bom gosto, quer no exterior, respira-se tranquilidade, acolhimento e conforto.
No quintal adjacente à casa, em canteiros pedagógicos, a Elisabete cultiva plantas aromáticas, tais como salsa, hortelã, coentros, rosmaninho, alfazema, tomilho e jasmim. As flores, de todas as cores, são transportadas desde o jardim para decoração do interior. Os aromas e sabores de compotas artesanais, despertam todos os sentidos. Nesta casa, o hóspede dispõe de total liberdade para usufruir dos espaços, tendo ainda à sua disposição um frigorífico recheado.
A quinta tem 16 hectares, toda ela arborizada, podendo ser utilizada para passeios pedestres em contacto absoluto com a natureza. No exterior um parque infantil faz as delícias da pequenada. A casa tem ainda belas vistas sobre a cidade do Sabugal e cabeço de S. Cornélio.
Na despedida, esta mulher encantadora, sempre nos vai dizendo «mudei de vida, abracei este projecto».
Tal como Jacinto, protagonista da «Cidade e as Serras», esta mulher, no contacto estreito com a natureza, renova-se primeiro liricamente, numa atitude de encantamento, integrando-se depois na vida produtiva do campo. O viajante embrenhado nos seus pensamentos, acredita que usufruir deste espaço, muda a nossa vida.
No outro lado da linha encontrará o paraíso da Elisabete Pereira, nos seguintes contactos:
Telemóvel: 962 338 406.
Email: geral@quintadoalexandre.com
Página na Internet: www.quintadoalexandre.com
Blogue na Internet: http://quintadoalexandre.blogspot.com/
«Páginas Interiores» de José Robalo

joserobaload@gmail.com

A Junta de Freguesia da Rebolosa, liderada por um presidente jovem e dinâmico, tem desenvolvido um trabalho interessante na dinamização da Festa de Santa Catarina.

José Robalo – «Páginas Interiores»Santa Catarina
Senhora do Almortão, oh minha rosa encarnada
Ao cimo do Alentejo chega a vossa nomeada
Senhora do Almortão, oh minha linda raiana
Virai costas a Castela, não queirais ser castelhana.

Estes versos populares, interpretados de forma magistral pelo saudoso amigo José Afonso, ao vivo no Coliseu dos Recreios, retratam a devoção das gentes da raia a Nossa Senhora num misto sagrado e profano, tão característico do culto popular. É verdade que na nossa raia as pessoas não concordam com este último verso, visto Castela ter sido ao longo do tempo parceiro de intercâmbios, que nos permitiram algum desafogo económico.
Vem tudo a propósito da Santa Catarina que amanhã, dia 25 de Novembro, em formato de festa religiosa e feira tem o seu expoente máximo na Rebolosa, trazendo à prova as novas carnes de porco.
A D. Maria Joaquina, que numa tarde soalheira, junto à igreja matriz da Rebolosa, com duas agulhas tecia uma teia em tudo igual à de Penélope e que dava a ideia de estar ali desde que o mundo é mundo, à espera do viajante, parecendo adivinhar de antemão ao que vínhamos, desenredou: «Na festa de Santa Catarina toda a gente na Rebolosa come carne de porco. Isto é já um hábito muito antigo, já os nossos avós festejavam desta forma a nossa padroeira. A Santa Catarina resistiu ao pai que não queria que ela tivesse práticas religiosas católicas. O pai que era rei, mandou matar a filha com uma roda de 10 a 12000 navalhas. No momento em que Santa Catarina ia ser anavalhada, a roda rebentou e tudo correu em prejuízo dos seus algozes.» Que pai cruel!…
Estas cenas estão retratadas no altar-mor da Igreja matriz da Rebolosa e num fresco colocado no tecto da Igreja, superiormente conservado para quem quiser comprovar! Não passa despercebido ao viajante mais distraído que na Rebolosa existe grande devoção por Santa Catarina e que a Igreja Matriz é um primor na limpeza e conservação.
RebolosaA Junta de Freguesia da Rebolosa, liderada por um presidente jovem e dinâmico, tem desenvolvido um trabalho interessante na dinamização da Festa de Santa Catarina.
Manuel Barros, Presidente da Junta de Freguesia, confidencia: «Desde tempos imemoriais que se associa esta data ao início da matança do porco e se alguém a fizesse antes deste dia, não era visto com bons olhos. Chegou até nós a expressão, vamos à Rebolosa tirar a licença, razão pela qual e simbolicamente, a Junta de Freguesia está a emitir licenças para os visitantes.»
Quando as eleições autárquicas eram em Dezembro, cada quadriénio, a Santa Catarina era o local por excelência para os partidos e candidaturas mostrarem a sua força, o que teve o mérito de dar a esta festa a nomeada que vinha perdendo.
Para os filhos da aldeia, segundo Manuel Barros e uma vez que «o orago da Freguesia é Santa Catarina e porque a Rebolosa já se chamou Santa Catarina, a vertente religiosa tem muita tradição com a missa e a procissão, pela manhã bem cedo para se ter tempo de ir até à feira preparar os assadores, onde é degustada a carne de porco e o vinho da terra. A festa implica uma visita guiada às adegas, com a prova do vinho novo».
Historicamente esta feira local era a vara de medir, onde se definiam os preços da carne de suíno para as matanças, sendo palco privilegiado das transacções comerciais.
Naturalmente que hoje esta feira já não tem estas funções, até porque o porco, perdeu a importância que tinha na economia doméstica do nosso concelho, mas serve isso sim para os amigos se encontrarem e confraternizarem. Nos últimos anos tenho sido convidado do amigo Manuel Cunha, o inefável «Jordão» das Batocas que faz questão de oferecer aos amigos e a quem se queira aproximar, uma prova gratuita dos seus porcos pretos de bolota de altíssima qualidade.
A Santa Catarina serve assim para se necessário fosse demonstrar que na nossa raia se produz em quantidade e qualidade porco ibérico (preto) de bolota, produto que poderia e deveria ter certificação com denominação de origem.
Penso ainda que esta Santa Catarina poderia ser a alavanca para a promoção do nosso produto de qualidade e servir como rampa de lançamento das cozinhas tradicionais, com produção certificada dos nossos enchidos, que com orgulho podemos afirmar, são os melhores do mundo.
Sendo a Santa Catarina uma festa genuína do mundo rural, com adesão popular que se perde no tempo, será despiciendo pedir a quem nos governa, que aposte neste evento para o enobrecer, transformando-o numa agro-alimentar que promova o concelho e os seus produtos?
«Páginas Interiores» de José Robalo

joserobaload@gmail.com

A grande produção de cereais na freguesia alcunhou de Lomba dos Palheiros uma aldeia que viu o Ministério da Indústria encerrar as suas fábricas dos sabões por falta de luz eléctrica.

José Robalo – «Páginas Interiores»«A Lomba dos Palheiros, foi assim designada porque havia por aqui muitos palheiros de palha centeeira; era uma zona muito forte em cereais.» Quem assim fala, com um brilhozinho nos olhos, é o meu querido amigo e Presidente da Junta de Freguesia, filho adoptivo da terra, Domingos Romão. No entanto e como quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto a esposa, professora aposentada, peremptória sustenta: «Diz-se que quando os romanos invadiram a Lusitânia, os nossos antepassados para fugirem à espada dos soldados romanos, escondiam-se nos palheiros existentes aqui na Lomba, sendo que estes serviram de esconderijo, dando assim fama ao local, que chegou aos nossos dias.»
A Lomba já foi uma aldeia com muita gente e actividade, que nos anos 20 do século passado, vivia das duas fábricas de sabão existentes na freguesia. Diz o meu amigo Domingos: «Tínhamos dois alvarás para duas unidades industriais na produção de sabão. O Ministério da Indústria resolveu não renovar os alvarás porque na freguesia não existia energia eléctrica, condição sine qua non para na altura se produzir sabão com alguma salubridade.»
Lomba dos PalheirosLá vêm mais uma vez os tais, sempre os mesmos de Lisboa, a cercear o nosso direito a sermos felizes aqui no Interior.
Fui encontrar o meu amigo Daniel Dias Nunes, proprietário de uma fábrica de sabão a «V.ª Luís Nunes & Filhos, Lda.», bem no coração da cidade da Guarda, junto à Escola de S. Miguel, que me confirma que no século passado existiram duas fábricas de sabão na Lomba, sendo «uma do meu avô e outra duns primos. O sabão inicialmente era vendido em sacos para a raia e carregado por burros sendo contrabandeado, pelos quadrazenhos».
Estas fábricas que se socorriam de métodos tradicionais rudimentares e matérias-primas como as olainas (borras) de azeite, soda e mais tarde óleo de palma, abasteciam o mercado nacional e as feiras da região nomeadamente Pousafoles do Bispo, Pêga, Vila do Touro, Sabugal e Alfaiates.
Uma das fábricas ardeu, não havia energia, os acessos eram maus e nos meados dos anos 60, enquanto os Beatles criavam furor e revolucionavam os costumes, os estudantes em Paris faziam greves e lutavam pela afirmação da liberdade, a família Nunes investia na Guarda, criando uma nova unidade industrial.
Foi a fase da internacionalização, em que os produtos das fábricas de sabão conquistaram novos mercados, nomeadamente nos Estados Unidos e hodiernamente o mercado africano (Angola) para onde o produto era remetido em contentores.
Com saudades o Daniel sempre vai dizendo: «Na Lomba, da cozinha da casa dos meus avós, tínhamos acesso à zona do fabrico do sabão, para a caldeira». Mas hoje os tempos são outros e com algum azedume acrescenta: «A União Europeia impõe regras incomportáveis para as pequenas empresas, acrescendo que os novos concorrentes a oriente, colocam a nossa actividade em dificuldades.»
Será que não é possível aproveitar o fulgor do passado, esta energia positiva, este know-how, localizado na Lomba, para com um projecto, uma candidatura a este novo QREN que aí está, revitalizar uma actividade que já deu nome à freguesia, numa aposta de qualidade e para mercados mais exigentes onde os orientais não sejam concorrentes?
«Páginas Interiores» de José Robalo

joserobaload@gmail.com

As Persíades são a chuva de estrelas mais conhecida para os amantes da observação do céu. O seu nome está inspirado na palavra Perseu, que não é mais do que a designação da constelação donde parece nascer esta chuva de estrelas, ou seja de nordeste.

José Robalo – «Páginas Interiores»Este espectáculo pode ser observado todos os anos entre 25 de Julho e 18 de Agosto, sendo que atinge o seu apogeu na noite de 12 para 13 de Agosto, com a passagem do cometa, sendo ainda visíveis nesta época do ano, os planetas Vénus, Marte e Saturno.
O concelho do Sabugal é um território privilegiado para que nos possamos deleitar com este espectáculo da natureza. No passado mês de Agosto aproveitei o céu limpo para numa dessas noites fazer a pé o trajecto que liga a Ruvina a Aldeia da Dona, para me encontrar com o meu amigo Joaquim Borregana, o artista plástico Kim Prisu.
Aldeia da Dona é uma anexa da freguesia da Nave, já com pouca gente, mas com uma associação local muito activa e empenhada em ressuscitar as tradições da aldeia, os usos e costumes dos nossos avós, dando-lhes visibilidade. Esta actividade é tanto mais meritória quando é desenvolvida por jovens que de regresso às origens tentam compreender os seus atavismos.
O viajante que passar por Aldeia da Dona fica extasiado com o talento patente nas diferentes esculturas que se encontram espalhadas pela aldeia, retratando a vida do campo árdua e milenar dos nossos antepassados, esculturas que recuperam materiais da lavoura, que de outra forma teriam como destino o esquecimento e o lixo.
Kim Prisu, numa conversa animada relata-me como tudo surgiu: «Pretendi com o amigo A.L. Tony, criar uma escultura que funcionasse como valorização sedentária naquele lugar específico, uma obra cuja plástica está no seu presente e nos olhos interiores da memória dos habitantes de Aldeia da Dona onde nascemos e que deixámos para ir para a França, onde regressávamos no Verão.»
Kim Prisu em Aldeia da Dona«Com estes trabalhos que reflectem as memórias da infância a que acresce o que tinha aprendido da expressão plástica, quis homenagear, e criar um ponto de referência para a nossa memória colectiva, de um passado ainda tão próximo, mas em via de extinção.»
Este trabalho torna Aldeia da Dona numas das aldeias com maior riqueza cultural em espaço rural, um museu a céu aberto, trabalho que poderia e deveria ser divulgado como ponto de atracção turística e pedagógica, mas que teimosamente continua abandonado e desprezado por quem tem a incumbência de o fazer.
Diz Kim Prisu: «O lavrador feito com ferros agrícolas, foi a primeira escultura a ser feita, uma representação simples, gráfica, em três dimensões.
As pessoas da aldeia ajudaram-nos na colocação das três pedras do pedestal até porque os mais velhos tinham o domínio de certas técnicas ligadas à deslocação de pedras de granito. As pessoas gostaram e conseguimos levar arte numa estética não clássica, a pessoas que nunca viram um Picasso, nem nunca entraram num museu, nem têm ideia do que é a arte.»
Acrescentaria que tudo isto foi feito sem subsídios ou apoios do Ministério da Cultura.
Fica o convite a quem não conhece, para visitar Aldeia da Dona e deleitar-se com esculturas de grande sensibilidade artística, objectos e artefactos que nos reportam à nossa profunda identidade, sendo ainda certo que esta aldeia possui arquitectura urbana popular com muito interesse.
Quanto ao artista Kim Prisu, que vive e trabalha em Palmela, onde tem o seu atelier, está disponível para no Sabugal, fazer uma grande exposição no mês de Agosto, para que a terra que o viu nascer, lhe consagre de uma vez por todas o transbordante talento.
«Páginas Interiores» de José Robalo

joserobaload@gmail.com

Quando penso na Rapoula do Côa, nas suas gentes e nas suas paisagens ocorrem-me estes versos do meu poeta de juventude que foi Mário de Sá Carneiro…

José Robalo – «Páginas Interiores»A ver passar a vida mansamente
Nas suas cores serenas eu hesito
E detenho-me às vezes na torrente
Das coisas geniais em que medito…

Esta aldeia onde tenho parte das minhas raízes, uma vez que o meu avô materno era natural da Rapoula do Côa, traz-me à memória boas e gratas recordações da minha infância passada na aldeia, onde o tempo era infinito.
Desde o Rio Côa, onde toda a canalha das freguesias ribeirinhas aprendia a nadar nas suas águas então cristalinas e onde com canas improvisadas aprendíamos os prazeres da pesca, era à época fonte inesgotável de prazer.
Aos Domingos, lá íamos dois ou três garotos da Ruvina a pé até à Rapoula à tasca da ti Pureza, ou à taberna do ti Melro, jogar nas rifas na ilusão de um prémio.
Rapoula do CôaA Rapoula do Côa continua a ser terra de gente trabalhadora e que não se resigna à inexorável lei da desertificação, gente que continua a resistir e a olhar para o rio Côa como fonte de vida.
É necessário de uma vez por todas que alguém pegue nesta temática de forma séria e que sem demagogias apresente um projecto de reabilitação do Rio Côa, tornando-o numa fonte de vida, devolvendo-o às populações ribeirinhas, como fonte de lazer e de mais valia para a criação de riqueza, porque como diz José Saramago, «sem feitiço não há feiticeiro…»
Chegou-me às mãos e oferecido pela sua Autora uma tese de doutoramento apresentada na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, sob o tema «Abandono do espaço Agrícola na Beira Transmontana», Extensão, causas e Efeitos Ambientais, da autoria da Doutora Adélia de Jesus Nobre Nunes, professora da área de Geografia da Faculdade de Letras de Coimbra e natural da Rapoula do Côa.
Este trabalho abrange toda a bacia hidrográfica do Côa incluindo naturalmente o concelho do Sabugal.
Não resisto a pensar que com o novo QREN, novas janelas de oportunidades se abrem na área do ambiente. Estou em crer que o município deverá estar preparado para abrir essas janelas e com a colaboração de gente com esta qualidade poderemos devolver o rio à natureza e aos homens.
«Páginas Interiores» de José Robalo

joserobaload@gmail.com

O Interior tem muitas coisas atractivas que nos podem proporcionar uma maior qualidade de vida, comparativamente com aqueles que vivem nos dormitórios dos grandes centros urbanos.

José Robalo – «Páginas Interiores»O Município do Sabugal está a implementar «As caminhadas pelo Interior», uma boa iniciativa, que permite a muita gente descobrir tesouros da Natureza, em que o Sabugal é fértil.
Viver no Sabugal, deverá equivaler a qualidade de vida, num combate permanente à burocracia, simplificando a vida das pessoas agilizando processos de forma que estas sintam que vivem num território atractivo, com a tal discriminação positiva.
Não resisto contar a este propósito, um episódio que me aconteceu há cerca de três ou quatro anos.
Estava incumbido por um cliente de outorgar numa escritura de compra e venda de um prédio urbano sito num município do distrito de Coimbra. Os meus clientes emigrantes em França, proprietários de tal imóvel estavam decididos definitivamente adoptar a nacionalidade francesa.
O meu cliente entregou a venda do imóvel a uma imobiliária da zona, fui por esta contactado para a data da escritura. Havia um casal jovem que trabalhando em Coimbra manifestou interesse em adquirir tal imóvel, sendo que na altura beneficiava de um crédito habitação jovem bonificado, benesse que terminava nesse ultimo dia de um mês de Setembro.
Às 14 horas lá estou como era meu dever no Cartório Notarial para outorgar na escritura em nome dos meus clientes, quando a notária me informa que não haveria escritura, porquanto não tinha sido apresentada a licença de habitabilidade, documento emitido pela Câmara e essencial para a escritura, que nestas circunstâncias demora meses a ser emitido.
Em pânico, só me restava uma alternativa. Fui à Câmara Municipal, pedi para falar com o Presidente que só conheci nesse dia e de imediato compreendeu, que a não realização dessa escritura era mais uma casa que continuaria fechada e ficava gorada a possibilidade de mais um casal jovem se instalar no concelho.
O senhor Presidente deu ordens e duas horas depois tinha em meu poder o tal documento, essencial para a realização da escritura.
Prometemos mutuamente, reencontrar-nos para degustarmos um arroz de lampreia, quiçá para festejarmos a fixação de mais vida naquela terra.
«Páginas Interiores» de José Robalo

joserobaload@gmail.com

Como militante do PPD/PSD que sou, não poderia deixar de comentar as eleições para o líder do meu partido e o congresso que decorreu de 12 a 14 de Outubro de 2007 em Torres Vedras.

José Robalo – «Páginas Interiores»Era um adolescente, um imberbe da política, o país ardia politicamente naquilo que ficou conhecido por Verão Quente, rendido ao socialismo de Soares, Cunhal e até Otelo, quando era proibido ser-se de direita; assisti por um acaso a uma entrevista dum indivíduo que mal conhecia e que se chamava Francisco Sá Carneiro: fiquei rendido e deslumbrado, com a coragem e clarividência de ideias e princípios.
Hoje no PPD/PSD, como militante da concelhia do Sabugal, sou santanista convicto e nem tinha necessidade de ler o seu ultimo livro, «Percepções e Realidades», para melhor compreender que Pedro Santana Lopes foi vítima do seu talento, determinação e de uma trama bem urdida, por uma classe política que se instalou no poder vai para 30 anos e que o exerce como sendo um privilégio divino, ou como um direito de casta ou seita.
Na sociedade portuguesa, ainda reina o sistema de castas, onde o poder de forma alternada é sempre exercido pelos mesmos.
No passado mês de Julho fui convidado para ser mandatário da candidatura do Luís Filipe Menezes no Sabugal. Na altura encontrava-me de férias na ilha do Pico, preparava-me para fazer a viagem de barco até à ilha de S. Jorge, quando o convite me foi feito.
Confesso que naquele momento desconhecia os desenvolvimentos deste processo, sendo certo que acreditei de imediato na importância desta candidatura para o meu partido e para Portugal, pelo que aceitei este honroso convite.
No Sabugal, como em todo o País, acreditou-se neste mudança, uma aposta forte para Portugal, com pensamentos e formas de trabalhar distintas de tudo aquilo que estávamos habituados.
Neste momento, estou a ler um verdadeiro tratado de política, da autoria de Dominique de Villepin, com o título «Les Cent – Jours ou l’esprit du sacrifice», que se concentra no regresso de Napoleão da ilha de Elba, do desembarque na costa francesa e da sua caminhada gloriosa até Paris, sem qualquer resistência.
Louis XVIII, aparentemente na sua fuga para o estrangeiro apenas se preocupou com o facto de ter perdido as suas pantufas. Era um rei desacreditado numa França flagelada pela guerra e pela divisão. Como há duzentos anos o autor retrata a tomada do poder pelos fracos, cobardes e arrivistas. As mesmas pessoas que serviram Luis XVIII, disponibilizaram-se para servir o regressado Napoleão, embora cada qual representasse, como se sabe, interesses divergentes nesta França dividida. Ficou célebre a frase de Benjamin Constant : «Servons la cause et servons – nous».
Aparentemente até hoje nada mudou. Estas pessoas sem causas, sem ideias e sem capacidade para as ter, apenas com o interesse egoísta da protecção do seu umbigo mesquinho tudo faz para se perpetuar no poder e lutar por mais um tacho e se possível grande.
Enganou-se Pedro Santana Lopes quando previu que pudesse vir a ser um Congresso só para maiores de 18 anos. É que esta gente cobarde e sem princípios a tudo se submete para defender as sinecuras de que vive e a que se acha com direito vitalício.
Com todo este processo eleitoral ganhámos um líder para o partido e para o País. Acredito que com Luís Filipe Menezes, os portugueses vão ter quem venha dar voz às suas legítimas expectativas e reivindicações, para que não se perca a dignidade e tenhamos orgulho em ser portugueses.
«Páginas Interiores» de José Robalo

joserobaload@gmail.com

A Quarta-Feira, é um lugar encantador, que pertencente à freguesia de Sortelha. Longe do fulgor do minério que lhe deu nomeada, através das minas da Bica, é hoje um lugar de pouca gente, mas cheio de vitalidade e olhos postos no futuro.

José Robalo – «Páginas InterioresOuçam o episódio que recordo e vejam como denota o vigor da gente oriunda destas terras: Quando no passado Inverno liderámos um movimento de contestação ao encerramento do SAP- Serviço de Atendimento Permanente do Sabugal, com a plateia do auditório do Sabugal ao rubro, um casal de jovens octagenários da Quarta-Feira, levantou-se e disponibilizou-se para caso fracassassem as restantes formas de luta, assumirem ali, perante todos, subir nus ao castelo de 5 quinas, para manifestarem o seu descontentamento!
Não foi necessário encetar esta forma de luta original, porque quem decide recuou perante gente desta têmpera e perante a injustiça de deixar toda uma população sem cuidados mínimos de saúde.
Desde muito cedo que no exercício da minha profissão de advogado me habituei a calcorrear caminhos por montes e vales para no local, aquilatar dos direitos que assistem aos meus clientes. Os direitos de propriedade ainda apaixonam homens e mulheres que sempre viveram ligados a essa nesga de terra, que lhes deu a sobrevivência.
É nestes momentos que me acodem ao espírito aqueles versos do nosso Pessoa quando perscrutava, imagino que com olhar sonhador:
Ó tocadora de harpa, se eu beijasse
Teu gesto, sem beijar as tuas mãos!
E, beijando, descesse p’los desvãos
Do sonho, até que enfim eu o encontrasse.

Com este desejo do poeta na realização possível, lá descia até à Quarta-Feira, com prazer acrescido em contemplar vales e penhascos, onde a natureza se oferece numa paisagem deslumbrante de cabo do mundo, desembocando num casario cheio de vida.
Esta situação geográfica, com uma exposição solar inigualável, dá à Quarta-Feira e à região envolvente, características únicas em termos de microclima, propiciando produtos agrícolas de excelência, que em meu entender deverão ser valorizados, potenciados e protegidos.
Este território que se encontra integrado naquilo que designo em termos concelhios, como terra quente, produz entre outros um azeite de excelência.
O meu amigo professor Zé da Costa, é proprietário de um dos maiores apiários do concelho, produzindo um mel em qualidade e quantidade resultado do trabalho das abelhas nestas encostas da Quarta-Feira.
No entanto, pelos Evangelhos, ficamos a saber que nem só de pão vive o homem, apesar de no livro dos Gênesis, Esaú ter cedido a seu irmão Jacob o seu direito de primogenitura em troca dum prato de lentilhas!
Esta pequena comunidade pela mão do meu amigo João Reis e da Associação local, possui um grupo de teatro muito activo, «Os Guardiães da Lua», que tem desenvolvido um trabalho de muita qualidade e mérito.
Os Guardiães da Lua vão mais uma vez apresentar o seu trabalho no Festival de Teatro do Sabugal, que vai decorrer por estes dias no Auditório.
O João, um homem de cultura e talento, transfere para o granito a sua arte; pedreiro de profissão, tem enriquecido o património da sua terra esculpindo talento de forma desprendida e generosa, fazendo lembrar ao viajante, que na Quarta-Feira existe vida com arte.
O Mário Pires, natural e residente na Quarta-Feira, lançou a si próprio um desafio: criar o seu posto de trabalho, aproveitando riquezas endógenas e potenciando-as.
Assim, meteu mãos à obra, fez uma candidatura ao programa de iniciativa comunitária LEADER+ e construiu de raiz uma queijaria, produzindo queijo de cabra de fabrico artesanal, que denominou Serra do Cardo, com três condimentos: leite cru de cabra, que presumo ser das encostas da Quarta-Feira, coalho e sal. O produto final é uma iguaria de se lhe tirar o chapéu, convidando desde já o amigo leitor, a degustar este produto adquirindo-o na Rua do Forno, na Quarta-Feira, forma de apoiar este jovem dinâmico e empreendedor.
É com iniciativas deste género que criando o seu próprio emprego, se combate a desertificação e o pessimismo associado, valorizando o que de melhor têm estas terras, ao mesmo tempo que aumentam as possibilidades de se consumir bom queijo da região.
Finalmente e se for à Quarta-Feira querendo pernoitar, poderá fazê-lo na Casa da Ti Ana da Póvoa, uma Unidade de Alojamento Rural, classificada na modalidade Casa de Campo, outra mais-valia desta dinâmica aldeia, onde é patente a diversificação das actividades económicas.
Por falar em arte e se também o amigo leitor gosta de pintura e escultura, até ao dia 21 de Outubro, em Salamanca na Sala de Exposições Caja Duero, de segunda – feira a Domingo, incluindo dias festivos, poderá visitar a exposição «Arte Moderna em Portugal», cedida pelo Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado.
É uma boa oportunidade para admirarmos obras de Amadeo de Souza-Cardoso, Mário Eloy, Eduardo Viana, José de Almada Negreiros, Abel Manta, Dórdio Gomes e Vieira da Silva, entre outros.
Assim vale a pena viver no Interior.
«Páginas Interiores» de José Robalo

joserobaload@gmail.com

Acreditar no Talmud, Deus criou o homem, para o ouvir contar histórias. Esta é uma perspectiva. Outra, pretende que precavendo-se Deus de uma eventual Alzheimer divina, inventasse o ser humano dotando-o da faculdade de recordar.

José Robalo – «Páginas InterioresCreio ter lido em 1984 um romance de João Aguiar, que intitulou A Voz dos Deuses. É verdade que na altura deliciavam-me os existencialistas e surrealistas, no meu mundo de leitor. Este João Aguiar chegou-me às mãos por acaso, mas como romance histórico que era, de leitura muito leve e interessante, teve o condão de tornar as minhas leituras mais leves por algumas horas. O livro lê-se de um fôlego e lançou uma carreira de um escritor que ainda hoje vive exclusivamente da arte de contar histórias, o que num país como Portugal, é digno de mérito e respeito.
A história gira toda ela à volta de um herói (Viriato) e de um povo (Os Lusitanos), que ainda hoje alguns acreditam ter sido este povo de pastores e guerreiros, os nossos mais directos antepassados.
É também um facto histórico incontornável, que este povo de guerreiros desconhecia a produção do vinho, até porque a vinha acompanhou a expansão do cristianismo e chegou à Península pela espada dos romanos, já numa fase posterior. Os nossos antepassados faziam libações aos seus deuses com cerveja. Plínio nos seus escritos, faz alusão ao uso da cerveja na Península, com o nome de célia ou céria, sendo produzida e consumida em grandes quantidades pelos Lusitanos. A célia ou céria era uma bebida de fabrico rudimentar, que facilmente provocava a embriaguez, objectivo último destes pastores/guerreiros quando festejavam as suas vitórias sobre as legiões romanas.
Na Bíblia, do Livro dos Génesis aos Evangelhos, o vinho corre em abundância; é sabido que Deus recompensou Noé após o dilúvio, com a oferta da vinha. O vinho é referido 441 vezes ao longo de toda a Bíblia e apesar da conversão dos povos peninsulares ao cristianismo e ao culto do vinho, até porque Jesus Cristo na última Ceia, na companhia dos Apóstolos e antes de morrer, transformou o pão e o vinho nos alimentos mais populares do mundo ocidental; a cerveja é no entanto anterior a toda esta romanização, por já ser à época produzida e consumida pelos nossos antepassados no território que é hoje o Sabugal.
Integrados num ocidente judaico-cristão, com um pensamento moldado pelas culturas grega e latina, por povos que a todo o momento faziam libações aos deuses e celebravam vitórias à volta do vinho, é certo que os divinos Aquiles, Ulisses e Heitor nunca foram ou poderão ser transcudanos; mas que dizer do não menos divino Viriato que como nosso antepassado directo (segundo alguns autores terá nascido em Loriga)? Será que não aprovaria a realização de uma festa da cerveja na sua Lusitânia?
Depois da minha última colaboração veio ao meu conhecimento o desaparecimento de José Luís de Vilallonga, natural de Madrid, mas exilado político em Paris por opositor ao regime de Franco. Escritor e actor trabalhou entre outros com Fellini, Louis Malle e Blake Edwards. Como escritor colaborou regularmente com o El País, ABC, El Periódico e La Vanguardia. Apesar da sua obra literária ser publicada originariamente em francês, destaco La cruda e tierna verdad. Memórias no autorizadas.
Da última obra que adquiri e li deste mestre, Politicamente incorrecto, um livro de crónicas, retiro este pequeno extracto, que transcrevo em castelhano:
«Los gigantes siempre han molestado. Sobre todo – o mejor dicho, exclusivamente – a los enanos. A veces, los enanos – que también suelen serlo mentalmente – se equivocan de gigante y, en lugar de matarlo o de aserrarlo, se ponen de hinojos y, hundiendo la frente en el polvo, le adoran. Esto les ocurrió a los enanos españoles con Franco. Desconocian por lo visto el prudente consejo de Novalis: Cuando vean ustedes a un gigante, observen cuidadosamente la posicion del Sol, pues bien pudiera ser que el gigante no sea mas que la sombra alargada de un enano. En general, eso es lo que ocurre, porque gigantes genuínos, de verdad, hay muy pocos. Tan pocos hay que los enanos no suelen reconocerlos.»
Em Espanha, exilado em Paris tínhamos um.
Paz à sua alma.
«Páginas Interiores» de José Robalo

joserobaload@gmail.com

Apesar de ser minha intenção não utilizar este espaço para exposições jurídicas, para não ser interpretado como presunção profissional, vou abrir uma excepção, numa matéria que sendo actual serve directamente o interesse dos particulares, perante a arrogância da Administração Pública e os diferentes órgãos estaduais.

José Robalo – «Páginas InterioresSendo o direito administrativo um ramo muito recente, no vasto campo global que é o direito, não deixa de ser uma área por ainda pouco estudada, trabalhada e praticada, onde as garantias dos administrados, ou seja os direitos de todos nós perante esse monstro sagrado que é a administração pública, uma quimera, onde o Estado, pratica as maiores arbitrariedades, sob a capa da presunção de legalidade do acto administrativo.
Os direitos dos administrados perante administração pública são ainda muito ténues, onde o Estado é ainda um pouco a vontade dos poderes executivos, que ditam as leis, um pouco na senda do imperador Luís XIV, quando afirmava, «L’Etat c’est moi».
É verdade que com afirmação do Estado de Direito democrático, a nós particulares vão-nos sendo concedidas algumas «migalhas», perante esse «monstro» que é o Estado e administração pública.
Nesse sentido é de saudar a Lei n.º 46/2007 de 24 de Agosto, que transpõe para a ordem jurídica interna a Directiva n.º 2003/98/CE do Parlamento e do Conselho de 17 de Novembro, que regula o acesso por parte de qualquer cidadão dos documentos administrativos e a sua reutilização, com base nos princípios da publicidade, transparência, igualdade, justiça e imparcialidade. Ou seja,
A partir deste momento qualquer um de nós pode aceder a documentos administrativos, direito que até agora nos estava vedado, com as restrições do artigo 6.º da Lei, tais como documentos que versem sobre a segurança do Estado, segredo de justiça, inquéritos e sindicâncias, bem como documentos nominativos com autorização expressa do visado.
Vai no entanto ser criada uma entidade que regula todas estas situações a CADA (Comissão de Acesso aos Dados Administrativos), para a qual poderemos reclamar ou apresentar queixas, contra qualquer decisão que contrarie a presente lei, ou seja que nos impeça o acesso a documentos administrativos.
Perante uma Administração Pública anquilosada, é de saudar esta lei, que não é mais do que uma lufada de ar fresco, numa administração que fechada sobre ela própria, castiga os particulares, esquecendo-se que vivemos num Estado de direito democrático onde os cidadãos têm direitos, nomeadamente o direito a ser informados, sobre todos os assuntos que lhe digam respeito, não só em termos individuais, como em termos colectivos, colocando assim Portugal mais perto dos restantes países da União Europeia da qual fazemos parte.
P.S. Depois da minha ultima crónica, veio a notícia da morte em Londres de mais um grande poeta português, Alberto de Lacerda, natural de Moçambique, mas exilado em Londres, onde acabou por viver por opção, uma vez que, como escreveu : «O exílio é isto e nada mais / na sua versão mais perfeita:/Hoje na terra de meus pais, / apenas a luz não é suspeita.»
De Alberto Lacerda deixo estes versos:

A meio caminho

Fico entre o céu e a terra.
Choro como a àrvore nua
Que ao alto os ramos indica:
Ergue as asas, mas não voa,
Tem raízes, mas não desce.

Paz à sua alma.
«Páginas Interiores» de José Robalo

joserobaload@gmail.com

O mês de Agosto, é por excelência o mês do lazer e entretenimento, que me permite pôr algumas leituras em dia, livros que durante o ano os afazeres profissionais e compromissos familiares o impedem.

José Robalo – «Páginas InterioresCom cerca de 300.000 exemplares vendidos em todo o mundo, «Karaoke Capitalism» de Jonas Riddensträle e Hjell Nordströn, é um manual de gestão é já um best-seller mundial.
Para estes autores o centro de decisão são as pessoas, numa perspectiva da gestão ao serviço da humanidade, com uma visão futurista do mundo empresarial, onde a chave do sucesso passa pelo abandono do que designam por «Clube do Karaoke» onde não há lugar para a imitação.
Defendendo a diferenciação, Jonas Riddensträle e Hjell Nordströn, advogam que não deve haver nem limitações, nem imitações, pugnando pelo investimento na inovação, pondo de lado o dejá vu.
A longo prazo, a defesa e aposta num país, numa empresa, numa marca, numa banda rock, ou na namorada, está votada ao insucesso, uma vez que cada vez mais os consumidores optam pela novidade e fogem da vida padronizada.
Para estes pensadores as nossas empresas devem apostar na inovação e renovação, apresentando produtos mais fit, e mais sexy.
Karaoke CapitalismJonas Riddensträle e Hjell Nordströn, o conceito fit aplica-se às empresas que conseguem responder às actuais necessidades dos consumidores e do mercado de forma eficiente; a estratégia do sucesso, não passa por se ser o melhor, mas sim por ser diferente, ou seja, sexy.
A expressão sexy, inova ao assentar numa base emocional uma vez que se deve procurar vender emoções, que substituam os produtos, num mercado em que os consumidores têm acesso livre à informação e são também livres de fazer e ser o que quiserem, fiéis aos princípios defendidos por Adam Smith já no séc. XVIII.
Conheço no Sabugal empresas e empresários que podem preencher e responder de forma positiva a estes requisitos, em que assenta o pensamento destes novos gurus da gestão com sucesso e reputação mundial.
Temos é que acreditar neles e apreciá-los, para que o seu sucesso seja também o sucesso do nosso destino colectivo.
«Páginas Interiores» de José Robalo

joserobaload@gmail.com

Joaquim Bravo, artista plástico português, natural de Évora, figura incontornável da nossa pintura contemporânea, deu em 1973 a uma das suas telas o seguinte título: «Em Portugal não há montanhas como no romantismo.» Sem me debruçar sobre a inspiração do desenho em si, que é do mais belo que a nossa pintura contemporânea produziu, sempre me intrigou o enigma do título.

José Robalo – «Páginas InterioresO pintor ou não conhecia o Pico da ilha com o mesmo nome, ou conhecendo-a, o que é mais natural, não a teve em consideração ao fazer tal afirmação. Dizia-me um amigo meu mais dado a tergiversações, que realmente o romantismo foi um movimento cultural e artístico que produziu muitas montanhas…
Na ilha do Pico a montanha é imponente, domina e absorve tudo, é uma referência exclusiva. De formação vulcânica e sendo a mais recente do arquipélago, de entre o seu solo basáltico, qual milagre da natureza, no século XIX, as vinhas do Pico chegavam à mesa do Papa, do Imperador e do Czar. Este vinho verdelho foi perdendo o seu fulgor cosmopolita com a queda dos impérios e com a revolução bolchevique. As vinhas do Pico forneceram com requinte as mesas dos czares.
As pinturas gastronómicas dos AçoresEsta casta tradicional, o verdelho, aliada a outras castas tal como o Arinto, Plansel, Seara Nova, que crescem num terroir lava, património mundial da Unesco como paisagem natural, é responsável na actualidade pela produção de um vinho branco de eleição, satisfazendo os apreciadores mais exigentes, sendo as maiores referências, O Terras de Lava, O Curral Atlantis e o Frei Gigante.
Vinhos brancos, que para além das condições naturais, são trabalhados por enólogos ciosos de produzirem caldos de eleição, que podem acompanhar pratos de peixe, abundante neste mar dos Açores, que vão desde a garoupa, goraz, rocaz (o peixe cujo sabor mais se assemelha à lagosta), ao cherne ou pargo; a todos estes sabores e aromas acresce a possibilidade de sermos nós próprios a ter o prazer de por algumas horas nos tornarmos pescadores destas verdadeiras iguarias.
A ilha do Pico oferece ainda a quem a visita a possibilidade de se afoitar mar adentro, pelo canal que separa esta ilha da ilha do Faial e que Vitorino Nemésio tornou famoso no romance Mau Tempo no Canal, tomar um bom banho em pleno Oceano Atlântico com aguas a 23º e avistar não a grande distância a ilha de S. Jorge.
Se o amigo leitor ainda tiver energia e tempo poderá dar um salto a esta ilha e na Fajã do Ouvidor poderá degustar as amêijoas do Santo Cristo no Restaurante «O Amílcar» e que têm a reputação de serem as melhores do mundo, acompanhadas por um branco da ilha Graciosa – o Pedras Brancas – que pela companhia e simpatia do lugar, nada fica a dever aos seus primos do Pico.
Afinal em Portugal ainda há montanhas e mares como no romantismo.
«Páginas Interiores» de José Robalo

joserobaload@gmail.com

Aproxima-se o mês de Agosto e como tem sido hábito nos últimos trinta, quarenta anos o nosso concelho aumenta exponencialmente a sua população e as nossas aldeias por trinta dias recuperam o fulgor de outros tempos, num rodopio de alegria, cor e animação.

José Robalo – «Páginas InterioresSe os da primeira geração estão ligados à terra natal como um íman, os das gerações que se lhe sucederam, adoram a sua terra, têm saudades das suas raízes e teimosamente regressam ao pequeno tugúrio que os viu nascer.
Os emigrantes são a garantia de que o despovoamento e desertificação do Interior tem cura e que se soubermos agir com alguma subtileza, inteligência e tenacidade, estes nossos conterrâneos, poderão ser um excelente aliado nesse combate.
Os nossos emigrantes têm que ser acarinhados.
Compete aos poderes políticos concelhios desenvolver políticas que visem a implementação de dinâmicas de intervenção nesta área, que tenham por objectivo a criação de condições para que estes sabugalenses de primeira, mas residentes nos quatro cantos do mundo, se sintam em primeiro lugar cidadãos do Sabugal de corpo e alma.
O primeiro trabalho a realizar consistirá em saber quantos somos e quem somos. Não seria interessante que alguém se predispusesse para fazer este levantamento? Não seria interessante sabermos onde estão estes nossos conterrâneos, em que trabalham e de que forma poderiam contribuir para o nosso desenvolvimento e o que esperam de nós?
Sendo um trabalho minucioso, onde se exige rigor, não poderiam os nossos Presidentes de Junta nas suas freguesias e sob a orientação do gabinete de apoio ao emigrante do município, proceder a este trabalho?
Como sabugalense de corpo e alma, filho de emigrantes que durante 40 anos em França deram o que de melhor tinham, que era a sua força de trabalho, sinto ter alguma legitimidade para colocar o dedo na ferida e deixar o desafio: neste mês de Agosto vamos receber os nossos emigrantes como mandam as melhores regras da hospitalidade e não olhar de soslaio para quem conduz veículos de matrícula amarela.
Boas férias.
«Páginas Interiores» de José Robalo

joserobaload@gmail.com

É com muita satisfação que o Capeia Arraiana anuncia a «contratação» de mais um opinador. A partir de hoje, de 15 em 15 dias, aos sábados, temos a crónica de José Robalo. Advogado de prestígio com escritório no Sabugal diversifica a sua actividade presidindo à ADES-Associação Desenvolvimento Sabugal. É militante do PSD e pertence à concelhia do Sabugal. Filho de emigrantes naturais da freguesia da Ruvina é uma das personalidades incontornáveis do actual momento sabugalense.
Desejamos ao ilustre causídico boas defesas e melhores julgamentos.
jcl

JOAQUIM SAPINHO

DESTE LADO DA RESSURREIÇÃO
Em exibição nos cinemas UCI

Deste Lado da Ressurreição - Joaquim Sapinho - 2012 Clique para ampliar

Indique o seu endereço de email para subscrever este blog e receber notificações de novos posts por email.

Junte-se a 836 outros seguidores

PUBLICIDADE

CARACOL REAL
Produtos Alimentares


Caracol Real - Produtos Alimentares - Cerdeira - Sabugal - Portugal Clique para visitar a Caracol Real


PUBLICIDADE

DOISPONTOCINCO
Vinhos de Belmonte


doispontocinco - vinhos de belmonte Clique para visitar Vinhos de Belmonte


CAPEIA ARRAIANA

PRÉMIO LITERÁRIO 2011
Blogue Capeia Arraiana
Agrupamento Escolas Sabugal

Prémio Literário Capeia Arraiana / Agrupamento Escolas Sabugal - 2011 Clique para ampliar

BIG MAT SABUGAL

BigMat - Sabugal

ELECTROCÔA

Electrocôa - Sabugal

TALHO MINIPREÇO

Talho Minipreço - Sabugal



FACEBOOK – CAPEIA ARRAIANA

Blogue Capeia Arraiana no Facebook Clique para ver a página

Já estamos no Facebook


31 Maio 2011: 5000 Amigos.


ASSOCIAÇÃO FUTEBOL GUARDA

ASSOCIAÇÃO FUTEBOL GUARDA

ESCOLHAS CAPEIA ARRAIANA

Livros em Destaque - Escolha Capeia Arraiana
Memórias do Rock Português - 2.º Volume - João Aristides Duarte

Autor: João Aristides Duarte
Edição: Autor
Venda: Casa do Castelo (Sabugal)
e: akapunkrural@gmail.com
Apoio: Capeia Arraiana



Guia Turístico Aldeias Históricas de Portugal

Autor: Susana Falhas
Edição: Olho de Turista
Venda: Casa do Castelo (Sabugal)



Música em Destaque - Escolha Capeia Arraiana
Cicatrizando

Autor: Américo Rodrigues
Capa: Cicatrizando
Tema: Acção Poética e Sonora
Venda: Casa do Castelo (Sabugal)



SABUGAL – BARES

BRAVO'S BAR
Tó de Ruivós

Bravo's Bar - Sabugal - Tó de Ruivós

LA CABAÑA
Bino de Alfaiates

La Cabaña - Alfaiates - Sabugal


AGÊNCIA VIAGENS ON-LINE

CERCAL – MILFONTES



FPCG – ACTIVIDADES

FEDERAÇÃO PORTUGUESA
CONFRARIAS GASTRONÓMICAS


FPCG-Federação Portuguesa Confrarias Gastronómicas - Destaques
FPCG-Federação Portuguesa Confrarias Gastronómicas Clique para visitar

SABUGAL

CONFRARIA DO BUCHO RAIANO
II Capítulo
e Cerimónia de Entronização
5 de Março de 2011


Confraria do Bucho Raiano  Sabugal Clique aqui
para ler os artigos relacionados

Contacto
confrariabuchoraiano@gmail.com


VILA NOVA DE POIARES

CONFRARIA DA CHANFANA

Confraria da Chanfana - Vila Nova de Poiares Clique para visitar



OLIVEIRA DO HOSPITAL

CONFRARIA DO QUEIJO
SERRA DA ESTRELA


Confraria do Queijo Serra da Estrela - Oliveira do Hospital - Coimbra Clique para visitar



CÃO RAÇA SERRA DA ESTRELA

APCSE
Associação Cão Serra da Estrela

Clique para visitar a página oficial


SORTELHA
Confraria Cão Serra da Estrela

Confraria do Cão da Serra da Estrela - Sortelha - Guarda Clique para ampliar



SABUGAL

CASA DO CASTELO
Largo do Castelo do Sabugal


Casa do Castelo


CALENDÁRIO

Setembro 2019
S T Q Q S S D
« Fev    
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
30  

Arquivos

CATEGORIAS

VISITANTES ON-LINE

Hits - Estatísticas

  • 3.146.737 páginas lidas

PAGERANK – CAPEIA ARRAIANA

BLOGOSFERA

CALENDÁRIO CAPEIAS 2012

BLOGUES – BANDAS MÚSICA

SOC. FILARM. BENDADENSE
Bendada - Sabugal

BANDA FILARM. CASEGUENSE
Casegas - Covilhã


BLOGUES – DESPORTO

SPORTING CLUBE SABUGAL
Presidente: Carlos Janela

CICLISMO SERRA ESTRELA
Sérgio Gomes

KARATE GUARDA
Rui Jerónimo

BLOGUES RECOMENDADOS

A DONA DE CASA PERFEITA
Mónica Duarte

31 DA ARMADA
Rodrigo Moita de Deus

A PÁGINA DO ZÉ DA GUARDA
Crespo de Carvalho

ALVEITE GRANDE
Luís Ferreira

ARRASTÃO
Daniel Oliveira

CAFÉ PORTUGAL
Rui Dias José

CICLISMO SERRA ESTRELA
Sérgio Paulo Gomes

FANFARRA SACABUXA
Castanheira (Guarda)

GENTES DE BELMONTE
Investigador J.P.

CAFÉ MONDEGO
Américo Rodrigues

CCSR BAIRRO DA LUZ
Alexandre Pires

CORREIO DA GUARDA
Hélder Sequeira

CRÓNICAS DO ROCHEDO
Carlos Barbosa de Oliveira

GUARDA NOCTURNA
António Godinho Gil

JOGO DE SOMBRAS
Rui Isidro

MARMELEIRO
Francisco Barbeira

NA ROTA DAS PEDRAS
Célio Rolinho

O EGITANIENSE
Manuel Ramos (vários)

PADRE CÉSAR CRUZ
Religião Raiana

PEDRO AFONSO
Fotografia

PENAMACOR... SEMPRE!
Júlio Romão Machado

POR TERRAS DE RIBACÔA
Paulo Damasceno

PORTUGAL E OS JUDEUS
Jorge Martins

PORTUGAL NOTÁVEL
Carlos Castela

REGIONALIZAÇÃO
António Felizes/Afonso Miguel

ROCK EM PORTUGAL
Aristides Duarte

SOBRE O RISCO
Manuel Poppe

TMG
Teatro Municipal da Guarda

TUTATUX
Joaquim Tomé (fotografia)

ROTA DO CONTRABANDO
Vale da Mula


ENCONTRO DE BLOGUES NA BEIRA

ALDEIA DA MINHA VIDA
Susana Falhas

ALDEIA DE CABEÇA - SEIA
José Pinto

CARVALHAL DO SAPO
Acácio Moreira

CORTECEGA
Eugénia Santa Cruz

DOUROFOTOS
Fernando Peneiras

O ESPAÇO DO PINHAS
Nuno Pinheiro

OCEANO DE PALAVRAS
Luís Silva

PASSADO DE PEDRA
Graça Ferreira



FACEBOOK – BLOGUES

Anúncios