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Ceuta, a doença das línguas, os sindicatos e a felicidade humana são os quatro (dis)sabores de Outono.

Jesué Pinharanda – Carta Dominical– O primeiro dissabor deste seco Outono tem a ver com as saudades que Portugal deixou em algumas terras por onde passou e que civilizou ao modo europeu.
Ceuta foi jóia da coroa portuguesa, a primeira jóia ultramarina desde 1415. Doada a Inglaterra nos fins do século XVII, tornou-se espanhola. El-Rei de Espanha visitou Ceuta e a população clamou «Olé Espanha!», encheu as ruas de bandeiras espanholas. Portuguesas, nem uma única. O mesmo sucede dia-a-dia em Olivença. Ninguém quer Portugal? Que fizémos (ou não fizémos) para sermos desprezados?
– O segundo dissabor é o da doença das línguas.
Nos campos, morrem os gados ovino e bovino de língua azul.
Nas escolas secundárias, morrem os estudantes de língua portuguesa.
Nas provas de Maio, inscreveram-se 250 mil alunos. Só 11 por cento (27500) atingiram um nível positivo. Portanto, para os estudantes, a língua portuguesa é doença bem pior do que a língua azul.
Quem falha? Alunos que não aprendem ou professores que não ensinam?
– O terceiro dissabor é matéria sindical.
Os partidos que se dizem defensores dos trabalhadores e as suas intersindicais correias de transmissão parecem estar adormecidas.
Ora, se guardados os regulamentos, os alunos passam de classe mesmo faltando às aulas, é tempo de aqueles defensores reivindicarem o direito dos trabalhadores ao salário, mesmo que não compareçam no local de trabalho. Ou há moralidade ou comem todos.
– O quarto e bem mais grave dissabor é o da felicidade humana. O senhor doutor Rui Pereira, ministro da Administração, acha que «os seres humanos não foram criados para serem felizes» (sic). É quanto reza o «Correio da Manhã», de 11 de Novembro, dia do in vino veritas.
Já nos constara que a política tinha por meta tornar a cidade feliz. Pelos vistos não tem tal meta. Ou será que os seres humanos, criados para seres felizes e terem vida, e vida em abundância, estão sujeitos a ministros e políticos cuja missão é a da contrariar a luta pela felicidade? E se os homens são fatalmente infelizes, para que servem os políticos e que está lá a fazer o ministro?
Esses proclames que se ouvem por vezes, prometendo uma sociedade mais alegre e mais justa, é então uma balela?
«Carta Dominical» de Pinharanda Gomes

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O concelho do Sabugal é cada vez mais ermo. Longe vai o tempo em que as aldeias tinham sempre mais garotada e considerável mocidade, a masculina enchendo a vila em dias de inspecções militares.

Jesué Pinharanda – Carta DominicalAgora, o deserto avança, e as instituições, como só servem enquanto há gente, correm o risco de se tornarem supérfluas.
A população escolar é um bom índice para se aquilatar do ermamento. Num artigo publicado pelo credível jornal «Nordeste» (n.º 249, Outubro de 2007), neste ano lectivo de 2007-2008, no 1.º ciclo só há 300 alunos nas freguesias de Aldeia da Ponte, Aldeia de Santo António, Aldeia Velha, Alfaiates, Baraçal, Bendada, Bismula, Cerdeira, Rapoula, Ruvina, Sabugal, Santo Estêvão, Soito, Vale de Espinho e Vila Boa.
Todas as demais freguesias zero de escolares. Que se passa?
«Carta Dominical» de Pinharanda Gomes

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Mapone é um anagrama do escritor Manuel Poças das Neves, nascido em 1931 na freguesia de Reguengo do Fetal (região de Leiria) mas que tem profunda ligação à Beira Baixa, cremos que por ter constituído família na zona do Fundão.

Jesué Pinharanda – Carta DominicalE tão fundo se ligou que, ao iniciar uma carreira de romancista, o seu primeiro romance, de estilo bucólico («Monte das Giestas», 1967) tem a Serra da Gardunha por cenário, e o romance teve consentâneo prefácio do famoso dr. Rolão Preto, que, independentemente de uma vida política controversa, foi um regionalista, muito dedicado às terras da Gardunha.
Quanto a Mapone, tem obra nas áreas porventura distantes uma das outras, como sejam a Gastronomia regional (das regiões de Leiria e do Fundão), o turismo e, sobretudo desde 1974, a historiografia local, cujo percurso iniciou com os estudos para uma monografia da vila de Castelo Novo, hoje freguesia do concelho do Fundão, mas que é vila antiga, templária, granito embutido no granito. Uma preciosidade do património construído na serrania que olha a campina.
Tivemos o proveito de escutar Mapone, nas Jornadas que, há anos atrás, se realizaram em Castelo Novo, a propósito de mais um centenário do antigo foral da vila.
Mapone surpreende-nos agora com um outro Estudo de história local, e bem local, já que tem por tema um pequeno pedaço de terra, um covão, para onde escorrem as inverniças enxurradas, e onde, outrora, terras baldias, os povos circunvinhos apanhavam lenha para os lares, pastoreavam gados e um que outro cavava a terra para obter pelo menos algumas batatas e algum centeio. Esse covão é o que dá o título ao presente livro: «Charneca do Algar d’Água. História duma Guerra intestina no Concelho da Batalha, 1882-1940» É a apresentação documental de uma prolongada guerra (mais do que simples querela) entre as freguesias de Fátima, Reguengo do Fetal, S. Mamede e Santa Catarina da Serra e os concelhos da Batalha e de Vila Nova de Ourém, pela posse da referida Charneca do Algar d’Água, toponímico aliás bem bonito, a sugerir arcaicas origens.
Ignoramos se no País ainda há baldios. Da nossa meninice lembra-nos a política da Junta de Colonização Interna quando, no Alto Côa e nas abas da Serra da Malcata, procedeu ao cadastro dos baldios, que fraccionou em lotes, depois sorteados pelas famílias. Foi um drama, porque famílias, muitas, tinham cavado fracções de terra para cultivo, sendo o único pedacinho que possuíam. Ao perderem-no, ganharam por sorteio outra parcela, sabe Deus onde, e de pouco agrado. Muita gente, de facto, só cultivava a terra graças à existência do baldio.
Charneca do Algar d’Água (Mapone)Não aconteceram guerras, mas, no caso da fundação da Colónia Agrícola Martin Rei (Peladas) no termo do Sabugal, nem tudo foi pacífico, uma vez que a vila do Sabugal e a sua anexa (Torre) foram os beneficiários da Colónia, em que se instalaram casais daquelas terras ,com casa de morar, estábulo, apoio à compra de vacas de trabalho, etc., o que foi muito bom, mas, por outro lado, Quadrazais sofreu o prejuízo. Nas Peladas criava gado e, quem tivesse carro de bois, ia lá arrancar cepas para o lume.
A ideia de baldio levanta sempre a ideia de propriedade. Segundo uns, para ser livre é vantajoso não possuir propriedade – era a ideia dos Espirituais da Idade Média – segundo outros, a propriedade é a garantia de liberdade: só é livre quem tiver propriedade, pelo que a repartição dos baldios deu uma quota de posse a muitos que a não tinham. Porém, neste arquivo de documentos que Mapone encontrou, leu, descodificou e ajustou de forma lógica e temporalmente sequencial, é toda uma gesta de fossado (guerra de fronteiras) e de presúria (como no tempo dos fogos mortos da Reconquista Cristã) que durou cerca de 60 anos, aqui perto, nas barbas do poder central. Processo complicado, que envolve Juntas de Paróquia, Regedorias, Párocos, Comissões Administrativas, Populações e, também, como pitada de sabor a sal, os motins ao gosto da Maria Fonte. Armas: os utensílios da lavoura – podoas, podões, enxadas e enxadões e outras tecnologias bélicas ou de lavoura. Do processo nasceu uma nova freguesia, a de São Mamede, mas nem por isso os ânimos se acalmaram desde logo. Os costumes e os hábitos levam o seu tempo a curar.
Esta obra, em que o gosto literário só é ultrapassado pelo rigor da pesquisa documental em vários arquivos e chancelarias, tem um prefácio do professor Joaquim Veríssimo Serrão, que anota esses valores: os dons literários e os factos investigados.
«Carta Dominical» de Pinharanda Gomes

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Longe, a Guarda fica perto de quem dela gosta, num gosto condimentado pelo íntimo sentimento da nostalgia. Aliás, como foi escrito pelo sábio grego Aristóteles, os homens gostam de admirar o que é, ou está, longe. Afirmação paradoxal, pois que ad-mirar significa olhar de perto, ou junto do que se admira, ela comporta outro significado: o da contemplação na memória da alma.

Jesué Pinharanda – Carta DominicalPara quem saíu da Guarda nos fins da adolescência, por força dos ventos da vida à procura de futuro, a Guarda permanece aí, na memória da alma.
Essa memória sobrepõe-se às imagens que, depois dos meados do século passado, me tem sido dado ver e verificar. Sempre a memória sobressai na imagem. Já então, para muita gente, a Guarda era longe, apesar dos comboios, e das alternativas das vias beiroas que na Guarda entroncavam. A cidade, todavia fica(va) no cimo do monte sagrado. Era pequena, familiar, escura, de ruas estreitas, apesar de algumas mais recentes, sobretudo nas partes novas, construídas fora dos sítios onde outrora se ergueram as muralhas, ingloriamente destruídas para adventícias construções, pondo um fim irracional ao que teria sido a grandeza da muralha fernandina. Dizemos grandeza pois dela nos restam ainda testemunhos inequívocos: a Torre de Menagem, as Portas do Sol e d’El Rei, a Torre dos Ferreiros que se não contempla sem espanto, tal a sua massiça adustez, e elegante lançamento.
Da memória da alma já não partilha a cidade nova. Quando vou à Guarda, e caminho pelas ruas, sobretudo a do Comércio, a Praça Velha, o Largo João de Deus e a Rua do Campo, ode morei em casa de família, procuro nos rostos da rua identificar um conhecido ou reconhecer um contemporâneo. Em vão. Quarenta anos escorregaram no tempo. Hoje em dia, as gerações jovens do meu tempo já andam pelas casas etárias dos 60 e 70 anos, enquanto as mais velhas já passaram a outro mundo. Não identifico e ninguém me identifica, salvo os que, sabendo onde os contactar, previamente aviso. Porém, na rua, já não identifico qualquer rosto.
A Guarda era de facto pequena. No cocuruto do flanco estelar, a vida comunitária centrava-se por aí, entre o Campo de São Francisco, o Carvalho, o Torreão, os adjacentes da Praça Velha, São Vicente e pouco mais. O Sanatório, referência da cidade, era já quase fora de portas e poucos lá entravam, ainda que nas noites calmosas de Verão, muita gente, incluíndo senhoras e meninas, gostassem de percorrer o passeio histórico, que era ir de casa à estrada do Sanatório e voltar, algumas vezes com incursões à Rua do Comércio, para ver as montras. Em todo o caso, a cidade era tão pequena, que para todos só por exigência canónica se distinguiam as duas paróquias, a da Sé e a de São Vicente. Ia-se à missa a qualquer delas sem dúvidas de pertença à comunidade paroquial.
Guarda VelhaNesse tempo a ideia de comunidade paroquial ainda se apresentava indecisa. Toda a Guarda era uma paróquia, ainda que socialmente falando, houvesse fissuras de carácter sócio-profissional. O que se verificava nos cafés. A clientela do «Mondego» tinha por base a estudantada e os caixeiros, o «Monteneve» era mais dos políticos, das profissões liberais, a «Leitaria Cristal» heterogénea, recebia também senhoras, mormente ao fim de tarde, pois lá funcionava, no 1.º andar, um salão de chá.
Em todo o caso, a cidade começara a expandir-se, a romper com as cercanias históricas, progredindo de modo visível para o Bonfim, cujo marco motor foi o Bairro Social, e, depois, no tempo do dr. Alberto Dinis da Fonseca, para os lados do Mileu e da Estação.
Hoje em dia, com o acentuado progresso urbanístico, ir à Guarda pode não significar subir ao monte, porque nas redondezas tudo é Guarda. Naquele tempo, ficar na Estação não era o mesmo que ir à Guarda. A qual, apesar de longe, ainda era paragem dos poucos circuitos turísticos que em autocarro, espanhóis e franceses faziam em Portugal. Por via de regra os turistas pernoitavam na Guarda, sobretudo no regresso. Subiam à cidade, davam um diferente colorido às ruas e abonavam as unidades hoteleiras, ao tempo modestas, salvo o caso do moderno Hotel de Turismo. Longe, a Guarda tornava-se perto. Chegando tarde à zona fronteiriça, as excursões preferiam pernoitar por aqui.
Ao que nos tem constado, as novas rodovias facilitaram imenso as acessibilidade à Guarda, mas elas passam em baixo. São estradas de passagem, não de estalagem, feitas para rodar e avançar e por poucos mais minutos, as excursões já vão ficar em Espanha. E, deste modo, a Guarda, tão perto, é como se ficasse longe! As auto-estradas têm contribuído para a morte de um elevado número de povoações. Morte ou letargia, como logo ocorreu com quase todas as localidades à beira da antiga Estrada Nacional n.º 1 (Lisboa-Porto) logo que a auto-estrada ficou concluída. Idêntico risco ameaça outras localidades, cuja existência mal passa de um nome inscrito numa placa ou tabuleta dos topónimos adjacentes. E as povoações, com boas estradas ao pé, acabam por ser constituídas em verdadeiras ilhas, salvo nos casos em que elas são dinâmicas, e criam motivações de geral interesse.
É o que hoje em dia se nos afigura da Guarda, que dispõe de equipamentos culturais e sociais dignos de reconhecimento. Assim os estrangeiros sejam avisados. Todavia, a memória da cidade pequena está fixa e imutável na alma de quem a amou, e ama, em viva nostalgia, ciente embora de que o passado passou.
O caminho da vida é em frente e para cima.
«Carta Dominical» de Pinharanda Gomes

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Em homenagem a uma senhora que mostrou interesse em saber, com rigor, que pastel é esse, e também por respeito a Odivelas, concelho onde o nosso blogue reside, eis o que mais interessa…

Jesué Pinharanda – Carta DominicalParece que há no mercado muitos doces a que se chama «pastéis de nata», mas que talvez nem sempre sejam mais do que mistura de natas, gemas de ovos e farinha, ou creme pasteleiro. Ora, o pastel de nata não leva farinha, nem sequer maizena.
As monjas do Convento de São Dinis de Odivelas legaram-nos uma importante colecção de receitas de culinária e de economia doméstica. Essa colecção foi salva pela última monja, Dona Carolina Augusta de Castro e Silva, que lá viveu até 1886. As receitas foram publicadas, com um notável estudo de Maria Isabel Vasconcelos Cabral.
A receita dos pastéis de nata é esta (para várias pessoas):

3 litros de leite, 20 gemas de ovos, 2 colheres de chá de água de flor de laranjeira, canela a gosto e 960 gramas de açúcar.
Põe-se o leite a ferver num tacho e vai-se tirando a nata que fica ao de cima.
Misturam-se as natas com as gemas, a água-flor e a canela, e deita-se tudo num tacho onde já se preparou o açúcar em ponto de fio. Volta ao lume, continuando a mexer com uma colher de pau. Depois de pronto deixa-se arrefecer e põe-se em forminhas, que vão ao forno.

Doces conventuais do Convento de S. Dinis de OdivelasComo se vê não há farinhas. Afinal de contas, trata-se de um creme que se servia em forminhas, talvez de barro, ou de lata. A receita não diz mais nada, mas presumimos que as forminhas em massa folhada são prática posterior à receita de Odivelas. Só nesta forminha entra a farinha… mas a receita das monjas não refere a forminha de massa folhada.
Nem tudo o que parece é. O pastel de Belém é pastel de nata? E os que se compram nas pastelarias serão de nata?
Muitas outras coisas boas faziam as freiras de Odivelas. Uma delas era o tabefe que bem merecia ser restaurado e registado como produto de origem, mas ainda mais famosa era a marmelada cuja tradição se perdeu.
Quanto aos pastéis, as monjas criavam galinhas. Usavam as gemas para os doces e as claras eram, ou para engomar os hábitos brancos, ou para outras doçarias.
Quando à marmelada, vinha da cultura dos marmeleiros, plantas com que, em vez de paredes de pedra, se separavam as leivas. Cresciam nos comoros e junto de paredes. Não ocupavam espaço e davam um bom doce.
Se a Câmara de Odivelas soubesse a fama que a marmelada teve, ainda havia de a registar e de motivar os confeiteiros locais para a sua produção em marca registada.
E não é que a Câmara de Paredes está a reavivar o costume de um doce local, muito antigo, o Cavaco?
«Carta Dominical» de Pinharanda Gomes

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O mês de Novembro inicia-se com o ritual do Santoro. Talvez hoje em dia, exceptuando em digitas zonas rurais, esse ritual se haja perdido.

Jesué Pinharanda – Carta DominicalMudam-se os tempos e mudam-se os costumes. Como a vida é uma festa, o imaginário de haver um dia em que acontece algo de diferente, terá perdido o anelo com que se aguardava o dia 1 de Novembro.
Nessa festa, os padrinhos de baptismo costumavam oferecer aos afilhados o Santoro. Este nome é uma variante popular da festa litúrgica de Todos os Santos – Omnium Sanctorum, de onde: sanctorum – santorum – santoro. A lembrança que se recebia na Festa de Todos os Santos.
Pão Rosca de Todos os SantosNão era mais do que uma boa rosca de pão de trigo, amassado com um pouco de azeite e cozido no forno. Pesaria para aí uns três arrates, e quando ia ao forno já levava umas incisões que permitiam partir o bolo por fracções, sem recurso a faca.
Pão em argola, era esta largo o bastante para se pendurar no braço e ir com ele pela rua, de casa do padrinho até casa dos pais, raramente a rosca chegando inteira.
Foi um costume rural, a partilha do pão novo. O pão de Todos os Santos.
«Carta Dominical» de Pinharanda Gomes

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No seguimento do artiguinho sobre o romance «Maria Mim» ocorreu-me um pequeno problema: o da origem do verbo escanear (comer) e do substântivo escaneador (comedor, ou que come), ambos termos da gíria quadrazenha, que hoje em dia não passa de um factor arqueológico, morto e enterrado.

Jesué Pinharanda – Carta DominicalComo é natural, face aos elementos fonéticos, não deixou de nos ocorrer o verbo inglês to scan (origem da técnica de scanner, ou de compôr por digitalização), que tem origem no verbo latino scando ou scandere, que significava subir. Mas, ao tempo da formulação da giria, o verbo scan ou escanear ainda não se tornara popular como é hoje, pelo que arredámos a hipótese, preferindo outra.
Escano era a arca-banco que havia nas cozinhas de aldeia, em cujo interior se guardava a comida, sobretudo o pão, o queijo, os enchidos, e cuja tampa servia de assento. Deste modo, escanear significa ir ao escano, e o que como do escano é o escaneador.
Esta solução etimológica não põe em causa a ocorrência de termos de origem estrangeira na nossa gíria. Damos por exemplos os seguintes termos: chaira (carne), do francês chair; fromage (queijo) idêntico ao francês; méria (mãe) do francês mére; naifa (faca) do inglês knife. Há outros, porventura menos óbvios, mas estes bastam.
No seu todo pragmático, a gíria é uma nomenclatura fechada, destinada a esconder a verdade do que se diz, tornando a expressão incompreensível por estranhos. Não é uma língua literária, antes é um idioma artificial e utilitário. Umas quadras, em gíria, que circularam por volta de 1940, não são genuínas. Foram elaboradas por um senhor, funcionário das Finanças na Guarda, que foi um grande etnógrafo, e um pesquisador de músicas, muito antes de Michel Giacometti, quando não havia gravadores, e ele recolhia as melodias que escutava às pessoas e, com um banjo, identificava as notas e escrevia as pautas. Muito desse material científico perdeu-se. O senhor que ainda conhecemos, já reformado, em Lisboa, chamou-se José Franco e morreu há bem uns trinta anos. Foi ele que ensaiou o rancho de Quadrazais para os cortejos etnográficos das Festas dos Centenários (1940), compondo o hino «Quadrazenha», de muito bonita melodia. Se eu tivesse um gravador bem podia ainda entoar o hino com letra e música.
«Carta Dominical» de Pinharanda Gomes

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A primeira edição do romance «Maria Mim», de Nuno de Montemor, foi publicada em 1939. No ano anterior, Nuno de Montemor, que repartia a sua vida entre a Guarda e Lisboa (aqui, para tratar das edições dos seus escritos) passou por Quadrazais, onde nascera em 1881, embora os seus pais fossem de Pêga, para se documentar acerca da vida e da cultura aldeãs.

Jesué Pinharanda - Carta DominicalImaginou um quadro social realista (o contrabando fronteiriço) no ambiente do cordão militar que, nos fins do século XIX foi instalado ao longo da Raia, para evitar o contágio da peste que assolava Castela. A presença do cordão em breve constituíu um obstáculo à vida económica dos povos raianos, que até aí beneficiavam do pouco interesse que o comércio fronteiriço, mesmo que ilegal, merecia do policiamento militar sob a protecção do liberalismo constitucional.
De facto, os povos, desde sempre praticantes do comércio transfronteiriço, mal sabiam que tal ultrapassava os seus consuetudinários direitos de passagem. Enfim, no cenário da pobreza e da ocupação militar, a história de um amor de perfil quase absurdo: a paixão mútua de um tenente do cordão e de uma quadrazenha enamorada, Maria Mim.
«Maria Mim» de Nuno de MontemorQuando o romance foi publicado, o movimento literário português recebia as primeiras lufadas do neo-realismo, ou do realismo socialista, que apostava no romance como veículo promotor do socialismo. «Maria Mim» não visou tal objectivo, mas concitou os leitores para o aspecto social, olhado de um ponto de vista cristão, num enredo que apela, não à revolta, mas à piedade. Sobretudo à piedade por pessoas e vida precária, de economia pobre, de horizontes sem horizonte. E à piedade por uma jovem que, inocente, acalentou no seio um amor impossível, mas ao qual não cedeu em termos físicos, chegando a ferir e a deixar cicatriz, no pulso do amado, quando este ousou exorbitar da sua fraqueza. E, de facto, «Maria Mim», um amor perfeito, viaja por todo o drama, como figura de pureza imaculada. Quase tragédia, o romance fecha com a heroína, abandonada pelo amor, adormecendo num tapete de relva do santuário de Nossa Senhora da Póvoa.
Belíssima peça literária e poética, o romance foi muito lido, tendo sido feitas três edições, a última das quais (parece haver agora uma quarta) há uns bons 40 anos. Há dias, indo a uma papelaria, para fotocopiar a capa do livro, logo a senhora que me atendeu, olhou e disse: «Eu li este livro. Era da minha sogra.»
Aliás, sem prejuízo da obra poética, este romance é a obra-prima de Nuno de Montemor – que constrói um jogo estético com os elementos do sofrimento, da morte e do amor.
«Carta Dominical» de Pinharanda Gomes

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A «História da Literatura Portuguesa» da autoria de António José Saraiva e Óscar Lopes é o compêndio mais utilizado no ensino secundário.

Jesué Pinharanda - Carta DominicalPudémos manusear a 16.ª edição, que se diz corrigida e actualizada. E, qual não foi o nosso espanto, ao verificarmos que os autores (não, decerto Saraiva, entretanto falecido) resolveram retirar do livro qualquer referência ao nosso mais completo romancista do século XX, Francisco Costa, e a uma das nossas mais singulares poetisas, Natércia Freire.
Ambos estes escritores tinham lugar nas edições anteriores. Porquê a omissão? Censura, por serem escritores que não se filiam nos clãs em que Óscar Lopes se filiou? Muito estranho, e estranha é também a omissão de Nuno de Montemor, cuja existência é ignorada de forma acintosa e indigna de quem se apresenta como historiador e educador. O mérito da obra é fortemente penalizado pelo sectarismo ideológico. Já estou habituado.
Não sabia que em Portugal havia Senado! De facto a Constituição Política vigente não inclui a instituição senatorial, que é constituída por senadores. Pois bem: um diário matutino de Lisboa publica regularmente umas páginas intituladas Correio dos Senadores. Esses senadores são duas personalidades do mundo político. Como senadores se apresentam, ou são apresentados, pelo jornal. São senadores de que Senado?
Que diferença com o desgraçado que lá pelas bandas do Norte, se apresentava como padre, que não era…
Vanitas vanitatum…
«Carta Dominical» de Pinharanda Gomes

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A invenção da Himlaíte, do Pirélioforo e dos painéis solares

Jesué Pinharanda - Carta DominicalO Padre Manuel António Gomes, natural de uma freguesia de Arcos de Valdevez, era um homem muito alto. Os colegas, ainda no Seminário, chamavam-no Himalaia, e ele gostou tanto do epíteto, que adoptou o nome: Manuel António Gomes (Himalaia).
Alfredo Nobel descobrira a dinamite em 1866, e o Himalaia nasceu em 1868. Mas, em dada altura da sua vida, achou necessário rebentar com uns barrocos lá pelo Alto Minho, mas a dinamite de Nobel dava para pouco. Era precisa uma pólvora de «arrebenta barrocos». Muito dado às experiências física e químicas, que lhe tiravam algum tempo da vida sacerdotal, trabalhou a dinamite, à qual deu uma energia fora do comum. Onde a dinamite falha, aplica-se a himlaíte, de mais fácil aplicação do que a complexa dinamite. Himalaia queria ajudar o povo simples sem grandes e complexas operações.
Em dada altura da sua vida foi estudar física para Paris, e lá inventou a sua obra-prima: o Pyrheliophoro (isto é : eu trago o fogo do Sol). Era uma parábola, como a das antenas circulares, dispondo de poderosos jogos de espelhos, tudo montado numa estrutura que se movia em círculo, apanhando sempre a melhor luz solar. O Pirélioforo atingia temperaturas nunca imaginadas, para cima dos mil graus centígrados. Podia mover maquinismos a vapor, mover turbinas, aquecer rios de água, etc.
Padre HimalaiaQuando, hoje em dia, todos falamos dos painéis solares como a coisa mais natural deste mundo, poucos nos lembramos que tudo isso depende da invenção do Padre Himalaia, que foi revelada em 1904 na Exposição Universal de S. Louis (USA) onde recebeu o Grande Prémio e diversas medalhas. A seguir, as indústrias copiaram e ele, inventor, veio a morrer pobre (1933) como capelão de um hospital em Braga, que lhe dava cama e mesa. Era também um grande orador sacro.
Quem muito o admirava era o Padre A. J. Fernandes, que em 15 de Abril de 1905, sendo pároco da Bismula, escreveu um artigo na revista «A Guarda» em que elogia as invenções do colega: «Um teu colega no sacerdócio te dedica cá de longe este insignificante elogio e como teu admirador pedirei ao Altíssimo pela conservação da tua saúde.» E conservou por mais 28 anos.
«Carta Dominical» de Pinharanda Gomes

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De D. Sebastião a Aristides de Sousa Mendes

Jesué Pinharanda - Carta DominicalLeio, num semanário da Guarda, que dois ilustres historiadores apresentaram documentação de chancelaria, totalmente credível, segundo a qual os restos mortais de D. Sebastião foram efectivamente transladados para Portugal, e que se encontram de facto no mosteiro dos Jerónimos. Si vera fama est, nada obsta. O que surpreende é o teor de uma entrevista ao dito semanário em que se afirma que, deste modo, se acaba com o mito de D. Sebastião.
Ora, o mito de D. Sebastião continua, porque o mito de D. Sebastião já há bem uns três séculos que não diz respeito ao sumido Rei; é o mito da esperança do Povo português em melhores dias. Os quais, pelos vistos, demoram a chegar.
Deixemos então que os ilustres autores ponham cobro ao problema das ossadas, mas, por favor, não nos matem a esperança, mesmo que à esperança chamemos vinda de D. Sebastião.
D. SebastiãoE, já agora, mesmo dando crédito aos documentos, quem nos garante que os restos mortais são mesmo de Sebastião? A quem convinha que fossem?
Leio, agora, e não apenas num semanário, mas em vários (até na Dica, na Dica!) que em certo ano da Guerra Mundial (1940) Aristides de Sousa Mendes passou nos dias 29 e 30 de Dezembro, trinta mil vistos (30000). Assinando sem interrupção durante 48 horas, teria de fazer 625 assinaturas por hora, e de cruz, sem tempo para olhar o formulário. O leitor já tentou fazer 625 assinaturas numa hora durante 48 horas? Na Guarda parece que já!
Além disso, na crise bélica, as 30000 pessoas deveriam estar todas, ou na sua maior parte, às portas do Consulado. Sem problema e sem perturbação da ordem pública. Adereços de um drama que solicita melhores esclarecimentos. Aliás, noutro tempo, lemos um artigo de uma senhora jornalista que afiançava que Aristides chegava a passar salvo-condutos nas margens de jornais. E a Polícia fronteiriça aceitava esses vistos? Grande Polícia para uma Ditadura!
«Carta Dominical» de Pinharanda Gomes

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A geografia de um jornal da manhã, ao que parece o mais lido em todo o País, parece andar algo perturbada. E perturbante. Há poucas semanas, a propósito de um tema relativo a Vila Franca das Naves, pôs a terra em Pinhel, quando toda a gente sabe que é do concelho de Trancoso.

Jesué Pinharanda - Carta DominicalDepois fomos surpreendidos com Loriga transformada em Louriga. Depois, ainda, a propósito da morte de Camilo Castelo Branco, São Miguel de Seide transforma-se em São Martinho de Seide…
Por fim, e isto bate-nos pela porta: a edição de 12 de Agosto, em artigo sobre o Sabugal, o jornalista Rogério Chambel afirma que o Castelo de Sabugal é «o único em Portugal onde se encontra o escudo com as cinco quinas» (sic).
Onde pára esse escudo? Então não se diz que o castelo do Sabugal é o único com torre de menagem com cinco quinas, enquanto as demais por esse país fora as torres só têm quatro quinas? Ninguém lhe recitou a quadrinha popular:

Castelo de cinco quinas
Só há um em Portugal
É à beirinha do Côa
Na vila do Sabugal

Também ficámos a saber que há um Vale de Espinhos (sic) e que as Termas do Cró parecem estar junto da albufeira, a cinco quilómetros. Mas isto é gralha da tipografia…
Mas houve outras indisposições. A Festa da Cerveja no Sabugal e a Festa do Bacalhau em Almeida! Ora, ora, pois é evidente que nos mares de Almeida há abundantíssima pesca bacalhoeira e que a cervejaria é capital indústria do nosso concelho.
Não haverá mais nada a festejar? Que seja lá dos sítios?
«Carta Dominical» de Pinharanda Gomes

pinharandagomes@gmail.com

Enquanto fui criança não sabia o nome do Senhor Padre Souta. Para todos era, pelo menos em Quadrazais, o senhor Abade do Sabugal.

Jesué Pinharanda - Carta DominicalDe resto, creio não ter conhecido outro além do Padre António Teixeira Souta (ou, como alguns escrevem Soita).
Menino ainda, recordo os sermões de Semana Santa que ele proferia na Matriz quadrazenha, sucedendo a um afamado pregador de tom dramático, o Padre Fatela, pregador pedâneo da Raia. O senhor Abade do Sabugal soava em outra nota – mais afectiva, e porventura mais pastoral. Creio que só tive a graça de falar pessoalmente com ele, sendo já adulto, mas não esqueço que, sendo eu um adolescente atrevido, publicou na página «Sabugal» do semanário «A Guarda», uma pequena série de artigos, de quase estreia literária, acerca de etnografia quadrazenha.
A vida trouxe-me por caminhos de imigração, longe do concelho natal, mas, através dos jornais, sempre acompanhei a vida do bom amigo senhor Padre Souta. Depois, encontrámo-nos e falámos algumas vezes, sempre em dia de festas concelhias, nas minhas passagens-relâmpago.
Soube agora que o senhor Abade do Sabugal, e pároco de outras terras em volta, vai ser reformado da actividade paroquial, e que outro será o novo senhor Abade, o Padre Manuel Igreja Dinis, a quem damos as boas-vindas e desejamos uma longa e rica história pastoral, continuando os frutos do seu antecessor.
Todavia, estas linhas são destinadas ao louvor de um amigo, e de um padre exemplar. Aliás, bem merece o desencargo. Nascido em Belmonte, em 9 de Março de 1921, já passou a marca dos 86 anos, digo 86, graças a Deus. Foi ordenado sacerdote em 19 de Dezembro de 1943, na juvenil idade de 22 anos, pelo que já conta com mais de meio século (64 anos) de vida sacerdotal, creio que sempre ao serviço da comunidade sabugalense, como pároco e como arcipreste, ao serviço de todo o concelho. Conheceu um tempo em que não faltavam padres, e vive agora este em que eles se contam pelos dedos. Percorrendo o Anuário Católico, de padres ordenados em 1943, só leio o nome do senhor Padre Souta! Ele cuidou da igreja de pedra, da sua época ficando a Casa Paroquial e a renovada Matriz do Sabugal, e renovada para comodidade dos fiéis. Outras obras lhe pertencem, mas de modo especial a construção da igreja das pedras vivas. Quem do Sabugal, não passou pela catequese, mesmo os que não seguiram a vereda que lhe haviam ensinado, ou optaram por algo de muito diferente doutrina? Nem podemos esquecer o culto de Santa Teresinha do Menino Jesus, que ele tanto promoveu, celebrando as festas da comunhão das meninas e dos meninos em Maio, no dia em que se festeja a primeira comunhão de Teresinha. E também não podemos esquecer a renovação do culto de Nossa Senhora da Graça que durante alguns anos andara como que apagado.
E do ponto de vista cultural, o Sabugal deve-lhe a criação do «Amigo do Sabugal» (1964) que continua a publicar-se, agora como página especial do «Amigo da Verdade». Neste e nas páginas de «A Guarda», o senhor Padre Souta combateu a favor dos interesses da vila (agora cidade) e de todo o concelho, cujos homens de letras, ou literatos, têm para com ele uma dívida, por sempre ter uma palavra para homenagear os escritores do concelho, nas páginas do «Amigo».
O senhor Padre Souta fica, segundo lemos, a residir no Colégio do Sagrado Coração de Jesus, na Cerdeira. Não sai da nossa terra e lá, com outro ritmo, continuará a dar frutos, como aquele ancião a que se refere um dos Salmos.
Todos lhe devemos muito.
Importa que a saída do Sabugal não seja uma saída a seco. Convém, é digna e justa, a homenagem das forças vivas: Junta de Freguesia, Câmara Municipal, Misericórdia e Paróquia. Um gesto de gratidão, um aceno de simpatia. Assim o desejamos ao senhor Padre Souta a quem envio fraternal e filial saudação.
«Carta Dominical» de Pinharanda Gomes

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A freguesia de Gagos do Jarmelo e a cidade da Guarda homenagearam, no pretérito dia 15 de Agosto (Festa da Assunção) o Cardeal D. José Saraiva Martins, celebrando as bodas de ouro da sua ordenação sacerdotal, em Roma, no ano de 1957.

Jesué Pinharanda - Carta DominicalO Cardeal Saraiva Martins é uma personalidade ecuménica, nem nos ficaria bem vir a este blogue escrever a biografia, ainda que breve, ou a fazer a apresentação de quem não precisa de ser apresentado.
Nomeado há anos atrás, pelo saudoso Papa João Paulo II, presidente da Sagrada Congregação para a Causa dos Santos, é decerto o Cardeal mais conhecido em todo o Mundo.
Os postuladores de milhares de processos de beatificação e de canonização carecem do seu visto comprovativo. E muita gente pensa que tudo depende dele, quando, na verdade, dele depende apenas uma parte: a mais crucial, antes de os papéis irem à assinatura do Santo Padre.
Toda a gente recorrea Sua Eminência. E agora, não faremos o seu elogio. À sombra do seu nome queremos somente lembrar que os Claretianos, nome vulgar da Congregação dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria (C.M.F.) fundada por Santo António Maria Claret, entrou em Portugal pela Raia, nas duas vezes em que se fundou.
A primeira fundação, preparada pessoalmente por António Maria Claret, abriu em Aldeia da Ponte (12 de Maio de 1898) na casa que antes fora dos Irmãos Hospitaleiros de S. João de Deus. Dedicaram-se às missões populares e de lá se expandiram, até 1910, ano em que as Leis da Separação os expulsaram e lhes tomaram conta da casa e igreja. A Congregação só voltou em 1920, abrindo uma nova comunidade na freguesia de Freineda.
Cardeal José Saraiva MartinsConhecendo a região, trabalharam muito bem, durante anos, as vocações na Raia beiroa, logo encaminhadas, ou para Espanha, ou para o Seminário dos Carvalhos, perto de Gaia.
Pelo convívio que, durante anos (graças a Deus), mantivemos com o famoso e ilustre Padre Joaquim António de Aguiar, no Colégio Universitário Pio XII de Lisboa (onde se reunia um grupo de amigos do qual ele quis que fizéssemos parte), conhecemos claretianos da nossa região, alguns deles retornados das missões em São Tomé e Príncipe: Francisco Vaz, escritor (de Alfaiates), Padre Esteves e Padre António Ambrósio (da Torre) e outros. Nesta congregação floresceu o Irmão Manuel Gonçalves Barbosa, do Soito, apóstolo dos índios na América do Norte, que o têm por santo. Enfim, e não menos, claretiano é o Zé Pires Diz, um ano mais novo do que nós, o único quadrazenho que, na nossa memória, chegou a Padre, e agora é pároco no Porto, depois de missionário nas Ilhas Atlânticas.
Páginas de glória. Merecem a luz que nelas projecta o mais universal dos seus filhos, o nosso Cardeal. Por muitos e bons anos!
«Carta Dominical» de Pinharanda Gomes

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Alguém nos questionou como terá sido possível que, no 12.º volume do «Portugal Antigo e Moderno» publicado em 1890, Valverde del Fresno tenha sido identificado como lugar da freguesia de Quadrazais.

Jesué Pinharanda - Carta DominicalÉ quanto lá consta. E bem pior do que isso. O autor da notícia que, após a morte de Pinho Leal, foi o Abade de Miragaia, Padre Augusto Ferreira, escreve que ali se travou a batalha de Valverde, em que Nuno Álvares Pereira, seguindo com as suas tropas desde Estremoz por Vila Viçosa e Olivença, acabou por ficar cercado, pelo inimigo. Mas, ajudado pela fé e pelo génio, Nuno Álvares desbaratou o exército castelhano, maior do que o de Aljubarrota, numa batalha em que, do lado castelhano, combateram os Mestres das Ordens Militares de Alcântara, Calatrava e Santiago, nela morrendo os Condes de Niebla e de Medinaceli.
Onde o anacronismo? O Abade de Miragaia confundiu a povoação espanhola de Valverde de Mérida, perto do Rio Guadiana, com Valverde del Fresno, povoação vizinha, na Raia do Sabugal. Assim a lenda se faz História. E não é por mal…
Com esta nos ficamos, com sua licença, durante o Verão, pelo menos durante os meses de Agosto e de Setembro.
Depois, estando bom tempo, voltaremos.
Boas Férias! Boas-vindas aos emigrantes! E, no mercado do Sabugal não comprem logo tudo o que é enchido e queijo. Deixem um tanto para os que já cá estamos!
«Carta Dominical» de Pinharanda Gomes

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A Confraria de Nossa Senhora do Carmo de Alfaiates foi talvez a mais importante das muitas em que as nossas paróquias abundaram.

Jesué Pinharanda - Carta DominicalNossa Senhora do Carmo, ou do Monte Carmelo, tem festa na Igreja, e solenidade nas Ordens Carmelitas (Calçadas e Descalças) no dia 16 de Julho. Os Frades Carmelitas estabeleceram-se em Portugal no século XIII, mas o seu convento mais importante só foi criado no século XV, em Lisboa, por Nuno Álvares Pereira.
Pouco ou quase nada se expandiram para o Interior, sendo Coimbra uma das comunidades mais importantes a Norte. No entanto, de Espanha recebia-se na Raia considerável influência carmelita, sobretudo das reformas descalças do século XVI, com o prestígio de Teresa de Jesus e de João da Cruz.
Populares se tornaram então as Confrarias do Carmo, mesmo em povoações onde os Frades não tinham residência. Acontece que o hábito carmelita envolve um escapulário (faixa de pano burel de enfiar pelo pescoço, com duas abas) acerca do qual no tempo do Papa João XXIII, se criou a piedosa lenda segundo a qual Nossa Senhora lhe tinha prometido que, quem usasse o escapulário e morresse em graça, ela com o Filho levariam do purgatório para o Céu quem morresse nessas condições, logo no primeiro sábado após a morte. Era o famoso privilégio sabatino, uma espécie de apólice de seguro para ir para o Céu.
A piedade popular aderiu. Em Alfaiates fundou-se, bem cedo, uma Confraria, talvez a mais importante da Raia, com irmãos em quase todas as paróquias, que pagavam quota anual, e usavam o escapulário na vida e na morte.
Ainda existirá essa Confraria?
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Na nossa raia, até há pouco, para se comer, era batatas e pão, quer dizer patatês e pão de centeio, moreno, escuro. O centeio é cultura antiga, juntamente com o painço, milho miúdo. Trigo é mais moderno. Vinho também antigo, mas pouco…

Jesué Pinharanda - Carta DominicalPor curiosidade, percorremos as respostas das 40 paróquias do concelho do Sabugal ao «Inquérito do Ministério do Reino», feito em 1758. À pergunta sobre quais os produtos agrícolas cultivados, achámos pão em todas, trigo em poucas, vinho numa ou noutra (mas sempre pouco, algum), azeite, só na esquerda do Coa, para os lados da Beira Baixa. Quanto a batatas, zero. Em 1758, das duas uma: ou já se faziam batatais e isso foi ocultado ao Ministério, ou, o que é mais provável, a batata ainda não era cultivada. De facto, a batata, já cultivada na Inglaterra nos finais do século XVI, só se tornou corrente na agricultura europeia nos finais do século XVIII, na sequência das grandes plantações levadas a efeito na Rússia.
Viajando em Portugal, o sábio alemão Henrique Frederico Link, autor de um diário notável sobre botânica, publicado em 1801, relata a sua viagem e, num dado passo escreve que ainda não se cultivam as batatas. Era o ano de 1797, e, noutro passo, relatando a viagem no Gerês, escreve: «Também se começa a plantar batatas.»
Tudo indica que a cultura das batatas só se generaliza no século XIX, e cremos que as invasões francesas terão contribuído para essa generalização, abrindo os campos ao que veio a ser o pão dos pobres: pão e patatês.
Dizemos patatê e patatês. A palavra originária do Haiti (Antilhas), de onde os ingleses trouxeram a batata, soava com a consoante inicial p, que é labial explosiva. Por isso os ingleses escrevem potato (singular) e potatoes (plural). De modo análogo, os franceses escreviam patate, acabando depois por traduzir a palavra para pomme de terre, enquanto patate ficou de serviço para o calão. Patate é um palerma. Os castelhanos do povo pronunciam patata, tal como nós, arraianos e, embora nos Dicionários se registe a variante batata (o b é uma labial branda) continuam em uso as formas patata, e patatal, e não se confunde a patata de Málaga com outras variantes de batata. Portanto, quando pronunciamos patatê, não cometemos regionalismo. Apenas respeitamos as origens etimológicas da palavra. Embora seja mais meigo o som de ba, o som de pa é mais sonoro e puro. Queremos pom e patatês.
«Carta Dominical» de Pinharanda Gomes

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As joaninas é o nome dado às tradicionais festividades de culto a São João Baptista, o percursor de Jesus Cristo, e seu primo, uma vez que Nossa Senhora era prima de Santa Isabel, mãe de João Baptista.

Jesué Pinharanda - Carta DominicalA sua missão espiritual liga-se aos símbolos da água e do fogo, motivo bastante para que a Igreja fixasse a sua festa em pleno solstício de Verão, a 24 de Junho, que é o dai mais longo do ano, a par da noite mais curta. No espaço da cristandade, celebrando o Verão, e os dons das ceifas e do pão novo, os cultos pagãos já faziam a festa do fogo, mas a história de João Baptista permite um culto novo, no cenário o Evangelho, associando a água e o fogo, de modo que a sua festa é de carácter baptismal. Celebra-se o baptismo de Jesus nas águas do Jordão, por João Baptista e a descida do fogo do Espírito Santo no momento do baptismo, com as palavras de que o neófito era o seu filho muito amado.
A par da liturgia eclesial, mantiveram-se os cultos pagãos antigos, sobretudo nos meios rurais. A queima do carvalho significa um exorcismo, ou um acto purificatório: queimar o mal no fogo. A matrafona que se põe no cimo da árvore corresponde à Eva, por quem o pecado entrou na história. O cheiro do rosmaninho e da bela luz ardendo, purificava os ares das povoações, por instantes libertas dos odores de uma sociedade que não tinha sistemas de saneamento. Defuma-se o povo, cura-se a sarna.
A água. A mocidade toma banho, ou nada, na ribeira, ou no largo, entre a meia noite e a madrugada, mas antes da aurora. Este banho é também um gesto purificatório: lavar as mazelas do corpo, libertar os males para a corrente. É o banho orvalhado, que, aliás, se encontra aludido no Salmo 109: «Antes da aurora, como orvalho, te gerei.» O banho equivale à procura da santidade, já que ser santo é ser são, separado e escolhido.
«Carta Dominical» de Pinharanda Gomes

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Temos para nós que seria muito valioso (e muito curioso) estabelecer as origens etimológicas de muitas das nossas povoações da Raia.

Jesué Pinharanda - Carta DominicalHá topónimos evidentes (Sabugal, Fóios ou Fôjos, Moita…) mas há diversos outros, verdadeiros e enigmáticos arcaísmos, decerto com origem nos dialectos cudanos-leoneses (Bismula, Malcata, Quadrazais, etc.).
Hoje, porém, e em homenagem ao «pivot» da Capeia Arraiana,
dr. José Carlos Lages, olhamos para Ruivós e Ruvina.
Ruivós é terra antiquíssima. Do latim rubeóla que é um diminutivo de rúbea, derivara o castelhano rúbio e o português ruivo, pelo que as terras da localidade pertenceriam a uma família de ruivos, no português acentuado na última sílaba, ao modo de outras palavras agudas terminadas em a, e, o. No Oeste ribatejano há exemplos análogos, como em Arranhó.
Quem seriam os ruivos? Em modesto parecer, julgamos fossem cristãos nórdicos, francos ou bretões, que se estabeleceram na região durante a Reconquista. Louros avermelhados ou sardentos, eles eram pelos mouros apelidados de rúbios, ruivos, ou ainda noutra expressão, franjos (ler: frangos) ou francos.
Loures tem equivalente origem – À-dos-Louros – sintetizado em Loures, porque não se verificou o fenómeno de acentuação que deveria ser Lourós. No Oeste ribatejano também há os sítios A-dos-Ruivos, A-dos-Francos e, em paradoxo, A-dos-Cães. Neste topónimo conjecture-se a origem cristã, uma vez que para estes, cães eram os agarenos, pelo que o sítio seria ocupado por saloios, ou mouros puros, ou mouros conversos, mogárabes.
O artigo inicial A com o determinativo dos significava a terra de… por exemplo, «Vou a casa dos Louros» e, resumindo e poupando «vou à dos Louros» ou «vou à dos Ruivos».
Por analogia, depreendemos que Ruvina tem idêntica origem. Ruvina, isto é, diminutivo de rúbeo + sufixo diminutivo feminino ina: a jovem ruiva, Ruivinha, Ruvina, ou, conforme a documento de 1258, Rubim, ou Ruvim, nome de um ribeiro na região de Idanha-a-Nova. Enfim, pelo topónimo não se duvida que face aos mouros, Ruivós e Ruvina eram povoados cristãos, e por aqueles nomes identificados pelos mouros.
«Carta Dominical» de Pinharanda Gomes

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Em Vale de Lobo, ao fundo da Serra d’Opa, foi a mais concorrida das Romarias arraianas e ponto de convergência dos povos leoneses de Riba Coa com o Reino de Portugal.

Jesué Pinharanda - Carta DominicalA romaria já não é o que foi. Ainda se inaugura no Domingo de Pentecostes, uma vez que a principal festividade tem lugar na imediata segunda-feira, mas os três dias de antigamente estão reduzidos para dia e meio. O peso da cultura profana desapareceu desde o tempo do bispo D. José Mattoso, ficando apenas o culto sagrado.
Outrora, toda a Raia, incluindo a espanhola, peregrinava ao Vale de Lobo, que, desde 1957, por iniciativa do falecido e prestigiado sábio e amigo, dr. Jaime Lopes Dias, se chama Vale da Senhora da Póvoa.
Três dias de culto, dois dias de folia. Ranchos chegavam de toda a parte, com as mocidades das aldeias, suas alabardas, tambores e cantigas ao Divino e à Senhora. Folguedo e também rixas, quando as folias das várias aldeias disputavam umas contra as outras o fôlego do repertório e da energia. Muitas vezes tudo acabava em combates, tendo sido necessário, em dada altura, proibir os rapazes de levarem varapaus para o arraial.
Vale da Senhora da Póvoa - PenamacorEm livros de Joaquim Manuel Correia (da Ruvina) e de Nuno de Montemor (de Quadrazais) encontram-se belíssimas e pitorescas páginas acerca da Senhora da Póvoa, ainda que no romance de Nuno de Montemor pese a dor angustiada de Maria Mim, abandonada, no arraial, pelo alferes a quem dera o seu terno coração.
A ponte do Sabugal tornou-se a passagem capital de Riba Coa para Portugal. E a Senhora da Póvoa o atractivo inevitável. Ainda nos lembra, da nossa infância, os carros de bois floridos e acolchoados, transportando desde a Raia os peregrinos com seus refastelados comeres para três dias. E cantavam-se as loas da Senhora da Póvoa, com o refrão colectivo:
«Viva a Velha! Viva a Nova!»
Enfim:

Nossa Senhora da Póvoa
tem um galo no andor
Cada vez que o galo canta
acorda Nosso Senhor.

Viva a Velha, viva a Nova. Da Póvoa, quer dizer, Senhora do Povo, festejada junto do Esposo, o Divino Espírito Santo.
«Carta Dominical» de Pinharanda Gomes

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Quem gosta de preencher «Palavras Cruzadas» enfrenta, com muita frequência, os falsos sinónimos, por exemplo, o autor propõe a palavra «aparato», e pede que se responda «alarme». Não é bem a mesma coisa.

Jesué Pinharanda - Carta DominicalHá ainda o exemplo de «assar no forno» e os quadradinhos só dão para um sinónimo «queimar». Ora, queimar não é nem arder, nem assar… E há os regionalismos.
Há dias, num exercício, o autor das Cruzadas pedia um sinónimo de quatro letras para «nome da quantidade paga ao moleiro para moer o cereal». As quatro letras vieram a dar, e no juízo do autor do exercício, a palavra «poia». O que é óbvio disparate. Por aqui, no nosso quotidiano linguajar, bem distinguimos «poia» de «maquia». «Poia» é o pão que se entrega ao forneiro pelo uso do forno, enquanto a paga ao moleiro se chama «maquia», quantidade que o moleiro retirava da saca do cereal antes de o moer para o freguês. Mais difícil é saber qual o nome do pedaço de carne que, no Alentejo, era devido aos trabalhadores do campo para cozinharem a sopa. Chama-se «tora», e esta palavra tem que se lhe diga. Tora significa lei. Era de lei, tora, que o trabalhador a recebesse. Ocorreu aqui um fenómeno de paronímia: o nome da lei (tora) passou a designar o próprio objecto tornado obrigatório.
De todo o modo, é útil fazer «Palavras Cruzadas». Elas ajudam-nos a não esquecer o vocabulário, sobretudo quando pouco falamos com outras pessoas.
«Carta Dominical» de Pinharanda Gomes

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Alguns anos atrás, um sacerdote claretiano de Alfaiates – Francisco Vaz – revelou-nos a vida de um soitenho cuja história transcende a dos comuns mortais. Chamou-se Manuel Gonçalves Barbosa, nascido em 1880.

Jesué Pinharanda - Carta DominicalNa infãncia recebeu influência dos Padres Claretianos, então ainda residentes em Aldeia da Ponte, de onde, como se sabe, foram expulsos. O Manuel ganhara o sonho de ser missionário e, um dia, com 19 anos, meteu-se a caminho para fazer a pé mil quilómetros, a distância que o levou a Cervera (Catalunha) pedindo para ser aceite na Congregação Claretiana. Foi aceite. Tornou-se irmão leigo. Missionou na África e, por fim nos Estados Unidos da América, onde missionou principalmente junto da população índia da Califórnia. Morreu com fama de santidade em 1944.
Veio-nos à memória, porquanto sabemos que Riba Coa tem dado muitas vocações missionárias. É fácil encontrar um claretiano, um espiritano, um «boa nova», um hospitaleiro, que são nossos conterrâneos. Entre eles os mártires, como o irmão Artur Paredes, do Baraçal, missionário leigo da Boa Nova, que desde 1946 até à morte (1985) missionou em Moçambique e em Angola. Aqui se santificou na acção apostólica e, por fim, recebeu a confirmação pelo baptismo de sangue. Veio ele no dia 5 de Janeiro de 1985. Uma bala o feriu de morte. O futuro fala por este nosso compatrício do Baraçal.
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Zitas tornou-se um nome internacional.

Jesué Pinharanda - Carta DominicalUm dia, lá por voltas de 1929, foi colocado na Guarda um padre novo, natural de Casegas, que em breve, em visitas ao hospital, se apercebeu do frequente internamento de mulheres da má vida, algumas delas a braços com sequelas pós-abortivas, quase sempre jovens, oriundas das aldeias, que tinham procurado trabalho doméstico na cidade, e eram vítimas de estupro, de exploração e de violação. Em noite gélida de Inverno, passando numa rua, ouviu gemidos que vinham da escada de um prédio. Abeirou-se. Era uma criada de servir, posta na rua, ao abandono. Vítima do senhor da casa? Vítima de qualquer outro cujo fruto a dona da casa se negava a receber? O problema das criadas de servir era, na Guarda, uma realidade moral e social solicitando um bom samaritano. Veio ele na pessoa do Padre Joaquim Alves Brás (falecidoem 1966). Começou por fazer umas reuniões para criadas (empregadas domésticas) na Igreja de São Vicente, por volta das seis da manhã. Depressa arranjou um braço direito, uma mulher, Maria José Lucas (Zézinha), também criada em boa família, mas que tinha uma casinha modesta perto da Igreja. Aí se fundou um larzinho de acolhimento. Um ovo de onde nasceu a OPFC (Obra de Previdência e Formação de Criadas), sob a protecção de Santa Zita.
Convento da Cartuxa em Évora (Foto de Carlos Tojo)A obra, actualmente, Instituto Secular, nasceu oficialmente em 1932, no meio da antipatia dos senhores que achavam a obra um braço da revolução social. Cresceu, expandiu-se no País e no estrangeiro. Evoluiu, formou, preparou, salvou da desgraça milhares de raparigas a quem arranjou sério emprego e justo modo de vida. As Zitas celebram este ano 75 anos de vida. O distrito da Guarda, é o seu primeiro devedor, juntamente com os concelhos em redor, de onde saíam raparigas à procura de emprego como criadas. Algumas terão caído. Milhares de outras mantiveram-se firmes, de pé, e de honra. A OPFC é a obra social mais importante nascida na nossa região.
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O TMG poderia ler-se como o Tempo do Meridiano da Guarda e de facto, por analogia, o Teatro Municipal da Guarda como que se tornou um meridiano. De vida e de cultura.

Jesué Pinharanda - Carta DominicalQuase ameaçado de encerramento, por respeitáveis causas de ordem económica, tudo indica, segundo lemos no jornal «Terras da Beira» que a ameaça foi ultrapassada, mediante uma gestão de rigor que nem sequer levou a despedimentos.
O TMG funciona num edifício de grande arquitectura e de vastos e plurais cómodos, nem sendo de minorar os espaços de convívio e de estudo, muito utilizados pela população académica.
TMG - Teatro Municipal da GuardaO TMG funciona como empresa, procura utilizar as condições logísticas em pleno e, pelo que temos visto e lido, é um foco de cultura sem émulo na região. Ignoramos até que ponto as populações concelhias do distrito da Guarda procuram beneficiar das actividades do TMG, mediante organização de excursões, de visitas e, até de compra de bilhetes em quantidade para espectáculos.
Carismática empresa, é carismático o seu mais do que director, pois em algum tempo foi dele o inventor e o defensor – o poeta e actor Américo Rodrigues, que, um dia, subiu do Barracão à cidade para aqui desenvolver uma actividade de incomparável qualidade e extensão. Oxalá os ventos da economia não lhe travem o passo. Dele, Américo, esperamos a arte, e desejamos que a imersão nas contabilidades por dever de oficio não lhe prejudiquem o que dele, como artista, esperamos.
«Carta Dominical» de Pinharanda Gomes

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Nossa Senhora da Alegria tem festa própria na segunda-feira da segunda semana da Páscoa. Também se invoca Nossa Senhora com o título dos Prazeres, como no Soito, cuja festa é muito importante em toda a Raia.

Jesué Pinharanda - Carta DominicalIr à Senhora dos Prazeres era uma devoção de muito povo, e causa para consideráveis deslocações de gente, em seus burrancos ou cavalos, ou a pé, e respectivos farnéis, que se devoravam após as solenidades litúrgicas. A Senhora dos Prazeres não tem, apesar disso, a importância pastoral da Senhora da Póvoa de Vale de Lobo – santuário regional – mas ombreia sem favor com a sedutora Senhora da Graça do Sabugal cuja imagem é de longe a mais bonita da Raia, excepção a Santa Eufémia, mas agora falamos de imagens da Senhora.
Enquanto estivemos na diocese de Pinhel, que era abrangida pelo rito ou costume bracarense, os Ribacudanos usávamos celebrar a Senhora da Alegria, cultuando as sete alegrias, depois de termos contemplado as suas sete dores na Quaresma. A festa do Soito deve provir desse tempo, mas o ciclo da alegria começa antes. Logo na primeira quarta-feira a seguir ao Domingo de Páscoa inicia-se esse ciclo, que se concluirá em meados de Agosto com a festa da Assunção. De uma ponta à outra, e do Norte a Sul, é o tempo comum de Nossa Senhora com as mais diversas e por vezes insólitas invocações.
Esta coisa da quarta-feira tem que se lhe diga. Em Castelo Branco, realizava-se, e ainda se realiza, a festa de Nossa Senhora de Mércoles, forma portuguesa de dizer o castelhano Miércoles, ou seja, Nossa Senhora na Quarta-feira. Mércoles, Almortão e Póvoa dominam a Raia baixa. Com reflexos ainda na zona do Sabugal, pois uma localidade de Sortelha chama-se Quarta-Feira, o que nos leva a admitir que ali se festejava Nossa Senhora da Quarta-feira (de Páscoa). Não vemos outra razão para esse topónimo. Aliás, motivo de adivinha: um homem comprou um queijo no mercado de quinta-feira no Sabugal e comeu-o na quarta-feira da mesma semana. Como é? Enigma difícil, mas óbvio: quinta-feira é tempo, Quarta-Feira é lugar…
Caminhemos com alegria…
«Carta Dominical» de Pinharanda Gomes

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Agostinho da Silva, saiu de Barca d’Alva e correu para o mar, tal como o Rio Douro.

Jesué Pinharanda - Carta DominicalAgostinho da Silva, sério pensador, gostava de se esconder por debaixo de pseudónimos. Há multidão de escritos assinados por nomes que só alguns conseguem identificar como sendo de Agostinho. Um desses escritos remete-nos para Barca d’Alva e o autor identifica-se como João Cascudo de Morais. Editou dois fascículos, que pagou de seu bolso, e distribuiu gratuitamente por conhecidos e amigos, ainda que no verso do fascículo pusésse a tiragem e o que pagou à tipografia, na esperança de que os bafejados pela oferta, lhe remetessem o equivalente, quer dizer, o preço da unidade, que se obtinha dividindo o custo pela tiragem. No caso, 300 exemplares, custaram (há quantos anos) 2.400$, pelo que Agostinho esperava receber oito escudos.
Agostinho destinava estes fascículos à imprensa regional. Depois que voltou do Brasil e de ter sido entrevistado na RTP, recebeu pedidos dos jornais para colaborar e alguns até se prontificaram a pagar. Mas Agostinho não estava disposto e, para compensar, publicava estes fascículos, autorizando os jornais a transcreverem deles o que quiséssem. De uma forma geral versava problemas de actualidade. Ora, o que mais importa é o seu regresso imaginado à terra onde cresceu, junto de seus pais, Barca d’Alva, a última terra da nossa Raia beiroa, e última estação portuguesa antes de os comboios terem de subir a dramática vertente da Fregeneda em que, indo o comboio muito carregado, eram precisas duas locomotivas.
Agostinho manteve a fidelidade às raízes. Correu para o mar, tal como o Rio Douro. Cresceu na Barca e nela vogou, ao alvor, rumo ao Porto, onde se doutorou. E, depois, vogou para o Atlântico. Via-se português do mundo mas não ibérico. Chegou a defender, por escrito, que o maior acto da nossa história foi, não a gesta dos Descobrimentos, mas a libertação do jugo castelhano. Quis Portugal puro e real, e de Barca d’Alva o levou para o Brasil. A barca, chamada de alva, porque era logo ao nascer da aurora, que passava as pessoas de um lado para o outro do rio, serviu a Agostinho para navegar no mar profundo e levar com ele a barca de uma nova alva.
É raiano, mas ecuménico.
«Carta Dominical» de Pinharanda Gomes

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Quando se entra numa idade avançada, tendemos ao esquecimento das palavras menos correntes.

Jesué Pinharanda - Carta DominicalUm dia destes acordei com a ideia de milhafre, mas o despertar foi perturbado, porque milhafre não era palavra que, na minha infância raiana, se dizia. Fiz então um teimoso esforço e, por fim, veio a palavra antiga: milhano, pronunciado m’lhano que assim designávamos os migratórios milhafres.
Ocorreu-me então que as crianças das culturas urbanas, que aprendem a língua portuguesa, mas que não conseguem ver as coisas em concreto, sabem que existe a palavra ovelha, mas muitas nunca terão visto tal coisa… Há quem pense que os melões têm origem no supermercado.
Então ocorreu relembrar, até para ajudar ao Campeonato da Língua Portuguesa, chamar à mesa do banquete uma sublime composição poética, da autoria do erudito professor do século XIX, Pedro Dinis, que foi director da Biblioteca Nacional. Essa composição, intitulada «Vozes dos Animais» encontra-se num livro de textos para uso das Escolas, publicado em 1855. No meu tempo de escolar, ainda sabiamos estes versos de cór. Muito belos e, sobretudo educativos. Por eles aprendemos a distinguir os conceitos de língua e de fala. Todos falamos, mas só a criatura humana dispõe da palavra. Eis o poema, de Pedro Dinis, para decorar:

As vozes dos animais

Palram pêga e papagaio,
E cacareja a galinha;
Os ternos pombos arrulham;
Geme a rola innocentinha.

Muge a vacca; berra o touro;
Grasna a rãa; ruge o leão;
O gato mia; uiva o lobo;
Tambem uiva e ladra o cão.

Relincha e nitre o cavallo;
Os elephantes dão urros;
A timida ovelha bala;
Zurrar é proprio dos burros.

Regouga a sagaz rapoza,
(Brutinho muito matreiro;)
Nos ramos cantam as aves;
Mas pia o mocho agoureiro.

Sabem as aves ligeiras
O canto seu variar;
Fazem gorgeios ás vezes,
Ás vezes põem-se a chilrar.

O negro corvo crocita;
Zune o mosquito enfadonho;
A serpente, no deserto,
Solta assobio medonho.

O pardal, damninho aos campos,
Não aprendeu a cantar;
Como os ratos, e as doninhas,
Apenas sabe chiar.

Chia a lebre; grasna o pato;
Ouvem-se os porcos grunhir;
Libando o succo das flores,
Costuma a abelha zumbir.

Bramam os tigres, as onças;
Pia, pia, o pintainho;
Cucurica e canta o gallo;
Late e gane o cachorrinho.

A vitellinha dá berros;
O cordeirinho, balidos;
O macaquinho dá guinchos;
A criancinha, vagidos.

A falla foi dada ao homem,
Rei dos outros animaes:
Nos versos lidos acima,
Se encontram, em pobre rima,
As vozes dos principaes.

«Carta Dominical» de Pinharanda Gomes
pinharandagomes@gmail.com

O novo bispo do Porto acaba por ser nosso confrade da Fraternidade da Beira Côa. De facto, ao ser eleito bispo auxiliar do Patriarcado de Lisboa, recebeu o título de bispo de Pinhel, um bispo sem diocese, mas com o respectivo título. Agora, no Porto, tem diocese, tem título.

Jesué Pinharanda - Carta DominicalA diocese de Pinhel foi extinta em 1882 e integrada na diocese da Guarda. Foi uma instituição muito precária. Para animar a vida no Interior, o Marquês de Pombal, com o consentimento do Papa, elevou a cidade a vila de Pinhel e fez dela, em 1772, a cabeça de uma nova diocese. Ficou esta constituída pelos povos da margem direita do Côa, actualmente incluídos nos concelhos de Almeida, Figueira de Castelo Rodrigo e Sabugal, e que pertenciam ao bispo de Lamego; e também pelas paróquias dos actuais concelhos de Pinhel e de Trancoso, que pertenciam à diocese de Viseu.
D. Manuel ClementeQuando o bispado de Pinhel foi extinto, a Santa Sé reservou o título (honorífico), concedido eventualmente e, por fim, atribuído a D. Manuel Clemente, que sabemos ter gostado. Na qualidade de titular visitou a cidade. Aliás, quando o Grupo de Amigos de Manigoto publicou o livro «A Diocese de Pinhel (Antologia Documental, 1772-1882), D. Manuel acedeu a colaborar e ainda a redigir o prefácio que tanto valorizou o livro, que pode ser obtido no grupo já citado.
Fazemos votos pelo êxito pastoral de tão excelente amigo numa diocese tão grande, tão prestigiada, mas com tantos problemas, que é o Porto, terra natal, aliás, da mãe de D. Manuel. Daqui, da Raia, sempre o acompanharemos.
«Carta Dominical» de Pinharanda Gomes

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Maria Alice Lopes Moreira (Almeida pelo casamento), reside em Rio Maior, mas veio de Vale de Espinho, tendo completado o Magistério Primário na Guarda, ao tempo em que éramos pouco mais do que adolescentes.

Jesué Pinharanda - Carta DominicalFilha do senhor Tenente Moreira, pessoa muito conhecida na Raia, é irmã de uma outra senhora, que foi professora em Quadrazais, quando o autor destas linhas era uma criança da segunda classe: senhora Dona Ester, que viria a casar com o professor Evaristo Teixeira, natural de Monte Novo (Pousafoles) também ele a ensinar em Quadrazais.
Maria Alice terá surpreendido muitas das pessoas que a conhecem, quando se estreou na vida literária com o primeiro volume de poemas intitulado Desabafos, que já vai em três volumes, o último publicado nos finais de 2006.
Maria Alice Lopes Moreira de AlmeidaNa sua arte convivem a poesia e a pintura. Se nesta a essência das cores e dos motivos é as paisagens que, do Coa e da Raia lhe ficaram na retina da alma, o mesmo diremos da poesia. Desabafos poderia intitular-se Livro das Saudades.
Longe de nós ousarmos critica literária neste espaço, destinado sobretudo à informação.
Por isso deixamos apenas, por um lado, o retrato da poetisa e, por outro, um cheirinho da sua poesia, com uma ode a Vale de Espinho. Que pinte e rime por muitos anos…

À minha aldeia (Vale de Espinho)
Minha velha aldeia
Como estás diferente!
As tuas casinhas
Outrora de pedra escura,
São hoje quase palácios
De cores berrantes,
Que alegram os olhos
Dos teus visitantes
E são o orgulho
Dos teus emigrantes!
Minha velha aldeia
Como estás diferente!
Pelas tuas calçadas,
Quelhinhas, vielas,
Passa pouca gente
E ecoam saudades
Dos que já partiram
E tantas, tantas vezes
Palmilharam nelas…
Minha velha aldeia
Como estás diferente!
Conservas ainda
O teu lindo Côa,
Tua boa gente
E o teu campanário
Com o mesmo sino
A repicar contente
Em dias de festa
E com som dolente
De arrepiar,
Quando alguém, p’ra sempre
Nos vais deixar!
Minha velha aldeia
Como estás diferente!
Mais vistosa,
Mais enriquecida,
Mas deixa-me lembrar-te ainda
Como antigamente!

Maria Alice Lopes Moreira de Almeida, in Desabafos III

«Carta Dominical» de Pinharanda Gomes
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Retomando o tema da vida e da morte, ocorre-nos o facto de, nos últimos tempos, cada um de nós já ter lido, nos media, uma palavra aparentemente nova: tanatologia.

Jesué Pinharanda - Carta DominicalMorte (tanatos) + ciência (logia) vem a ser, em rude definição, a ciência da morte, que se destina a averiguar sobretudo as causas da morte de pessoas, causas essas objecto da antiquíssima prática da autópsia, considerado no âmbito da Medicina Legal.
Confesso que é tema bem obscuro para o subscritor desta carta, que em toda a sua vida só vislumbrou, ainda criança, com outras encarrapitadas num castanheiro, o desmancho total de um homem, cadáver, efectuado no próprio cemitério, à beira da sepultura, na presença da Guarda e os portões do cemitério fechados. Pequeno, pouco vi, mas deu para entender.
Cristina MendonçaAgora, quem sabe de tanatologia tem costela quadrazenha e soitenha. É a doutora Cristina Mendonça, neta do senhor Nunes (do Soito) e da Senhora Dona Ritinha (de Quadrazais). Deste casal nasceram filhos, sendo uma filha, Branca, nascida em Quadrazais e casada em Moçambique, que vem a ser mãe de Cristina de Mendonça (Mendonça por parte do pai, Alcino) que em princípio já não usará o sobrenome dos Pinharandas, mas que tem deles o sangue.
Em diversos jornais têm aparecido artigos e entrevistas com a doutora Cristina, segundo se conclui a nossa mais reputada médica legista, facto atestado pelas missões que, no âmbito da União Europeia e da ONU lhe têm sido cometidas: enviada à Tailândia para identificação das vítimas do tsunami, projecto de exumações no Kosovo e Bósnia, para identificar as mortes eventualmente acontecidas como crimes de guerra, a preparação de especialistas no Kosovo, e idêntica missão no Chile.
Segundo entrevista concedida a um jornal do Porto, a sua vida é um convívio diário com a morte. Em razão do direito à vida, uma vez que as mortes provadamente derivadas de crime serão objecto de julgamento em tribunais internacionais. E eleva a nossa terra.
«Carta Dominical» de Pinharanda Gomes

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Há mais de meio século, num estudo notável sobre a assistência materno-infantil no concelho do Sabugal, o cientista António Pereira Marques anotou, para além de inúmeras carências, cada mãe entregue a si mesma, quase sempre os maridos negligentes, a existência das tecedeiras de anjos. O tema é actualíssimo.

Jesué Pinharanda - Carta DominicalTecedeiras de anjos era o nome dado às parteiras, também chamadas comadres, com uma radical diferença: a tecedeira produzia, ou ajudava a produzir, anjos, quer dizer, criaturinhas humanas que não chegavam a criatura da terra, sendo desde logo enviadas para o reino angélico. Não há provas, mas a oralidade, registou que alguns desses anjos chegavam a ser baptizados em artigos de morte, pelo que iriam directamente, não para o limbo, mas para o céu.
Sempre houve tecedeiras de anjos e continuará a haver, por mal dos nossos erros e da humana incompetência para vencer as dificuldades, por vezes mais imaginadas do que reais.
No recente inquérito acerca da nova legislação do problema em vista também se deveria ter enunciado o problema da despopulação. É elucidativa uma reflexão sobre o mapa de resultados na orla raiana, mapa esse que junto reproduzimos: verde, não; roxo, sim.
Nem todos entenderemos os argumentos de cada um no momento do voto, mas torna-se evidente que, nos concelhos mais castigados pela despopulação, e porventura menos industrializados, se deu voz à vida.
Mapa dos concelhos do distrito da GuardaNinguém pode ser juíz em tamanhos enigmas, mas cumpre ter noção das categorias jurídicas e canónicas das situações. As igrejas cristãs adoptam o princípio da canonização das leis civis, sempre que estas assentam no princípio do bem e da verdade. Em contrapartida, não canonizam as leis que fogem a tal princípio. Trocando em miúdos: um delito que, no quadro do Direito Civil e Penal deixa de ser delito, pode não deixar de ser pecado no quadro do Direito Eclesial. Por isso, a prática da tecelagem de anjos, se exercida à luz da protecção cível, deixa de ser delito, cumpre saber que não perde a natureza de pecado relativamente ao quinto mandamento. Isto vale para todas as pessoas que respeitam as normas do chamado direito natural, como expressão do direito divino. Na certeza, porém, de que, neste aspecto, como em todos os outros, só a consciência de cada um é responsável.
«Carta Dominical» de Pinharanda Gomes

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Retomamos o motivo Raia, ainda a pretexto da economia e do povoamento, porque há dias, folheando um jornal, vimos um mapa de Portugal demonstrativo da densidade de clubes de futebol (importantes).

Jesué Pinharanda Gomes - Carta DominicalMapa mais do que demonstrativo, dramático: da fronteira norte (transmontana) até à do sul (algarvia), uma divisória. Para oeste, a glória, para leste, o deserto, como se Portugal acabasse numa raia tirada a régua, desde Chaves a Faro. Outrora, na raia beiroa, ou arredores, ainda tínhamos o Sporting da Covilhã mas, anos a esta parte, apenas clubes secundo e tertio divisionários. Não há gente, não há movimento. E as populações residuais tendem a encostar-se às mais próximas. Decerto estudantes que se candidatam a uma Faculdade, e que residam na raia beiroa, se questionam o que fica mais perto, se Lisboa, se Salamanca, excluída que for Coimbra, ou excluídas também a Covilhã e os Politécnicos. Nestas coisas do futebol, talvez haja motivo para formular dois campeonatos nacionais, o do interior e o do litoral, o campeão sendo apurado numa final com um clube de cada área. Os poderes do litoral sempre venceriam, mas os parcos poderes do interior seriam chamados a sede de competência e de justiça.
Ocorre-nos, por idêntico motivo, o problema da Raia em termos de comércio legal. Sempre houve portagens, ou direitos de passagem, mas a fiscalização das fronteiras sempre foi deficiente e, em muitas épocas, efectuada na ignorância, ou nos usos e costumes. A fronteira luso-espanhola ainda hoje se acha algo turvada, pois a Comissão das Fronteiras nunca foi capaz de resolver alguns problemas, incluindo o caso de Olivença, que, nos mapas escolares portugueses se encontra alienatoriamente cedida a Espanha.
Em Riba Côa, a fronteira demorou a fixar-se. O Tratado de Alcanizes foi generalista e, ainda no tempo de D. Fernando (século XIV) este oficiava ao Corregedor de Castelo Branco para inquirir sobre a situação dos impostos que eram devidos, mas não pagos, pelos criadores de gado da Ginestosa. Da Ginestosa, quer dizer, das serranias leonesas onde se criavam vacas, bois e cavalos, e onde os portugueses iam enlaçar muitas reses, até para as capeias. Considerava-se a Ginestosa terra de soberania lusa. Quanto aos povos mais próximos da Raia, houve direitos de avoenga para o livre trânsito. Alcanizes manteve sob jurisdição do bispo de Ciudad Rodrigo, os povos de Riba Coa, que só passaram para jurisdição do bispo de Lamego no primeiro quartel do século XV. A jurisdição eclesial acaba por fracturar a jurisdição temporal. Aliás, numa obra de referência centenária tão histórica e importante como ainda é o Portugal Antigo e Moderno, de Pinho Leal, no último volume há uma surpreendente entrada: Valverde del Fresno, que o continuador de Pinho Leal, o Abade de Miragaia, descreve como povoação anexa de Quadrazais!
O que diria um juiz que julgasse alguém por contrabando, se o arguido lhe lesse a informação de tão notável dicionário de terras?
«Carta Dominical» de Pinharanda Gomes

pinharandagomes@gmail.com

Esmaecem os clamores e os gáudios de Carnaval. Caminhamos para o fim do dia, e entramos em vésperas de tempo santo, que durará pelo menos doze semanas, com tendência para as treze – as cinco/seis da Quaresma e as sete entre a Páscoa da Ressurreição e o Domingo de Pentecostes, ou do Espírito Santo.

Jesué Pinharanda Gomes - Carta DominicalPerpassam na memória os tempos sagrados da Quaresma em Riba Coa e nas terras de Sabugal. Suspendiam-se as dances nos terreiros, vestia-se roupa mais escura, comia-se mais pão e batata e couves, e menos carne, nas liturgias omitia-se o pregão aleluia e as missas não tinham Gloria. Os sinos deixavam de repicar as melodias de júbilo tocando mais discretamente. Durante estas semanas, fazíamos romarias secas, só rezadas, sem música, algumas delas sem a presença do pároco, e entre todas era maior a Ladainha de 25 de Abril, ou rogações de S. Marcos, em que, pela madrugada, o povo ia ao monte, e de lá o pároco benzia os campos, vaticinando boas colheitas. Por fim as procissões dos Passos e do Enterro. Logo vinha o sábado de aleluia, e o alegre repicar dos sinos, anunciando a Ressurreição. Ciclo da alegria. A mocidade, em magote, percorre o povo e pára às portas dos mordomos de Nossa Senhora cantando as alvíssaras: «Dai-me alvíssaras Senhora, / Num raminho de loureiro / Que o Vosso amado filho / Já desceu daquele madeiro». As mordomas ofereciam bolos de trigo e ovos doces, e os mordomos, copos de tinto. Nesse Domingo de Páscoa iniciavam-se as sete romarias dominicais às ermidas do Espírito Santo, onde as houvesse. Eram sete as romarias, a última das quais já constituindo a festa do Divino.
Missa cantada, foguetes, e a saída da folia, ou alabarda, que voltava a sair em Junho, na festa de Santo António, mas que era própria do Espírito Santo. Esta festa tinha cunho regional em Quadrazais, e na terceira oitava de Pentecostes, as de Malcata, Vale de Espinho e Fóios. Era nesta que os povos reconheciam a jurisdição do Município de Sortelha sobre a margem esquerda do Coa, onde a ermida se situa, dando de jantar aos edis que se apresentassem.
A elaboração de qualquer estudo sério sobre o culto do Divino em Riba Coa requer a consulta do «Dicionário Geográfico» (1758) da Torre do Tombo, e toda uma série de monografias locais já publicadas. Em jeito de aperitivo, alguma informação de base acha-se na nossa já esgotada História da Diocese da Guarda e no extenso rol intitulado Cultos Portugueses do Espírito Santo (Contributo Bibliográfico), que pode ser consultado na Biblioteca Nacional.
Claro, a desertificação não ajuda à prática das antigas alegrias.
«Carta Dominical» de Pinharanda Gomes

pinharandagomes@gmail.com

Consultámos há tempos, os volumes do «Dicionário das Freguesias», editado pela ANAFRE. Eis um choque frontal: o Dicionário informa que o orago de Quadrazais é Santa Eufêmia! Quem, e quando, nomeou a Santa Eufémia orago de Quadrazais? A paróquia existe desde antes do século XIV, sendo uma das poucas da Raia com dignidade de Abadia, de onde o pároco tem direito ao tratamento de Abade, no mesmo plano do pároco do Sabugal.

Jesué Pinharanda Gomes - Carta DominicalA imagem de Quadrazais foi (talvez hoje não seja) controversa. Polémica. Quem leu o «Maria Mim» de Nuno de Montemor não deixa de sentir algum tremor face aos testemunhos que ele registou, depreciativos para a freguesia. Sentimos a depreciação em carne viva, quando, identificando a nossa naturalidade, com frequência vinha à baila o ápodo de contrabandistas. Tomavam, os estranhos a parte pelo todo, e faziam gala de acusar os quadrazenhos por uma actividade que só no Liberalismo deveio efectivo crime. A Raia do Côa foi secularmente aberta, e talvez voltemos a este assunto.
O tema de hoje é, porém, a negligência de Quadrazais na apresentação da sua imagem. Consultámos há tempos, os volumes do «Dicionário das Freguesias», editado pela ANAFRE. Eis um choque frontal: o Dicionário informa que o orago de Quadrazais é Santa Eufêmia! Quem, e quando, nomeou a Santa Eufémia orago de Quadrazais? A paróquia existe desde antes do século XIV, sendo uma das poucas da Raia com dignidade de Abadia, de onde o pároco tem direito ao tratamento de Abade, no mesmo plano do pároco do Sabugal.
Em antiquíssimo documento régio, de 1320/1321, lá aparece a paróquia de «Santa Maria de Quadrazais». De facto e de direito o orago quadrazenho é Santa Maria, do título de Santa Maria Maior, ou seja, Nossa Senhora da Assunção, que se venerava no trono principal da igreja matriz. Santa Eufêmia tem jus à fama de imagem das mais populares da Raia, mas não é orago. Aliás, quem redigiu o artigo sobre Quadrazais devia ter conferido as informações em qualquer enciclopédia (que habitualmente dedicam várias linhas à freguesia, com grande rigor) ou perguntar ao pároco qual o nome do orago.
Motivo de perplexidade é também a pequenez da notícia do dicionário da ANAFRE. Quadrazais mais parece ali uma quinta, quando a sua notícia se compara com a de freguesias em volta, como Malcata, que ocupa uma boa página, contra Quadrazais, ocupando talvez 1/8. E, no entanto, acerca de Quadrazais há inúmeros estudos publicados, uns generalistas, outros especialistas.
Há atenuante para tão magro e errado tratamento da nossa imagem?
«Carta Dominical» de Pinharanda Gomes

«Temos gente a menos e menos economia? Que relação entre as duas parcelas? Que fazer? Eis uma pergunta que o senhor bispo da Guarda deixou na nossa mente quando, há dias, num encontro ocasional em Lisboa, revelou a sua preocupação com Quadrazais, cujo definhamento temia. Tempo de morrer, ou tempo para nascer?»

Jesué Pinharanda Gomes - Carta DominicalA Raia da Beira está despovoada. Já na Idade Média, perante o avanço das hostes muçulmanas, a Raia sofreu um fenómeno chamado «ermamento» também significado no termo jurídico «fogo morto». Este termo referia a existência de casas (lares) desabitadas. Os povos haviam-se refugiado mais para Norte e Oeste, deixando as terras à disposição do invasor. Emigração forçada, tal como, por diferentes razões, a que tem afectado a região sobretudo desde os meados do vigésimo século.
Alguma vez a Raia terá albergado gente a mais, quer dizer, gente para cujo número as disponibilidades económicas eram amplamente insuficientes. A relação economia/população é um binómio inevitável: o excesso populacional torna problemática a deficiência económica, mas, de modo análogo, a deficiência económica põe em causa a suficiência populacional. Parece serem elas inversamente proporcionais e, por isso, se diz elas desenharem um círculo vicioso, significado na expressão «pescadinha de rabo na boca». Ora não há gente por não haver condições económicas, ora não há condições económicas por não haver gente. Na verdade, se não houver gente não haverá economia, ou esta será um espécie de «mão-morta». Existe, mas não serve.
Esta reflexão vem na sequência de uma breve estatística publicada no jornal «Nordeste» envolvendo apenas três freguesias: Quadrazais, onde foram baptizadas cinco crianças (decerto uma que outra nascida fora) e se verificaram 22 óbitos, sabemos que alguns na emigração. O Soito apresenta uma relação de 11 baptismos para 20 óbitos, e Vila Boa três contra oito. Esta estatística tem mais do que uma curiosidade: a fraca natalidade do Soito, apesar da sua eficácia económica, pondo em causa o princípio economicista, e a progressiva extinção(?) de uma freguesia que foi deveras populosa. Mais se morre do que se nasce, o fenómeno da despopulação está à vista. Aliás, confrontando os censos de três mais modernos, o concelho do Sabugal, com 23.371 habitantes em 1970, aparece com 18.927 em 1981 e, pasmemos, no censo de 2001 com apenas 14.871 – quer dizer, pelo menos 8500 pessoas ou faleceram, ou emigraram nos últimos 30 anos.
Temos gente a menos e menos economia? Que relação entre as duas parcelas? Que fazer? Eis uma pergunta que o senhor bispo da Guarda deixou na nossa mente quando, há dias, num encontro ocasional em Lisboa, revelou a sua preocupação com Quadrazais, cujo definhamento temia. Tempo de morrer, ou tempo para nascer?
«Carta Dominical» de Pinharanda Gomes

JOAQUIM SAPINHO

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