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Há / havia ou não uma rede imensa de estradas romanas principais que se cruzaram em Caria (uma seguindo para Belmonte, outra para o Sabugal) e uma bifurcação de estradas secundárias no Casteleiro (uma seguindo para Sortelha e outra para o Sabugal)?

A minha opinião é que sim. E, quanto mais investigo, mais me convenço disso. Se não, vejam-se os traçados estudados por especialistas e acompanhe-se a coisa no mapa ou na cabeça onde temos gravados todos os mapas destas terras.
Refiro neste artigo uma série de itinerários que inevitavelmente batem todos em Caria e um deles no Casteleiro, como adiante se verá. E veja aí em baixo que relação tem tudo isto com um certo elefante que por aqui passou há 250 anos.
Sei que ninguém vai ter a pachorra de ler estas linhas com atenção – mas ficam aí para estudo e referenciação posterior…
Falo então de itinerários romanos, mesmo sem as aspas nas palavras latinas.

Troço 1 – De Castelo Branco à Capinha
Alcains, Vale da Vinha, Lardosa, Soalheira (calçada), Castelo Novo (calçada junto ao Chafariz D. João V), Alpedrinha (calçada para Alcongosta com 190m, parte do Largo D. João V e segue para Portela, passando debaixo do túnel da Gardunha no IP2 e Capela de S. Sebastião), Valverde (segue por Ínsuas e alto da Esparrela), Moinhos sobre a ribeira de Meimoa, Capinha.

Troço 2 – De Peroviseu até Caria
Capinha, Peroviseu (o Museu do Fundão guarda o Terminus Augustalis aqui encontrado que demarcava a divisão territorial entre os Igaeditani e os Lancienses), continuava para norte pela calçada de S. Marcos, calçada de Ferrarias e calçada da Lameira do Forno/Vale Feitoso), Ferro, Peraboa (onde entroncava na Via Braga-Mérida), Caria.

Troço 3 – Bifurcação – De Caria ao Sabugal, pelo Anascer e Vale da Sra. da Póvoa
Salgueiro (em Coito de Cima/Vale do Canto apareceu um miliário a Licínio que está hoje no Museu Arqueológico do Fundão; este miliário indicia a passagem da via ao longo da margem direita da ribeira de Meimoa, passando entre Qta. da Malta e a Villa da Qta. Prado Vasco, na outra margem, e próximo da Qta. do Lameirão e Coito de Cima, onde se achou o miliário), travessia da ribeira do Casteleiro (junto da Villa do Casal de José Francisco do Anascer; seguia paralela à ribeira de Vale de Lobo no sopé de Sortelha Velha), Vale da Sra. da Póvoa (antiga Vale de Lobo; villa e provável mansio no sopé da Serra da Opa; possível capital dos LANCIENSES OPPIDANI; 3 miliários na Serra do Lobo/Opa), Santo Estevão (vicus e provável mutatio na Tapada de Sta. Maria; miliário de St. Estevão/Mosteiros/Serra do Mosteiro a Tácito indicando a milha VII, CIL II 4638, talvez contadas a partir do rio Côa em Sabugal que seria assim o limite territorial entre civitas, apareceu na desaparecida Capela de Santa Maria e hoje está em exposição no Museu do Sabugal), Alagoas, Aldeia de Santo António (miliário de Alagoas com inscrição apagada, mas que poderia indicar a milha 4 por estar a 3 milhas do miliário de St. Estevão que indica 7 milhas; passou pelo largo da aldeia e hoje está no Museu do Sabugal; segue por Amiais, onde há calçada), Sabugal (ver os miliários de Alagoas e de St. Estevão no Museu do Sabugal), Ponte Romano(?)-Medieval do Sabugal sobre o rio Côa, Sabugal.
Tudo isto e muito mais pode ser analisado em pormenor aqui, em «Vias Romanas».
Diz-se aqui também que Caria pode ter sido cruzamento de vias romanas principais: a que de Mérida ia até à Idanha e a que da Covilhã ia até ao Vale de Lobo (Vale da Senhora da Póvoa e dali para as Alagoas e o Sabugal.

Troço 4 – Outra opção / Bifurcação – de Caria a Sortelha pela Ribeira da Cal e Casteleiro
O que hoje aí fica é um passo adiante relativamente ao que escrevi antes. E vale a pena rememorar para Tudo isto para uma clarificação relativamente à tese que venho defendendo de há uns bons tempos a esta parte: na «Rota do Elefante» há que incluir o Casteleiro. Apenas para isso. O resto é curiosidade intelectual.
Defendo que, se o elefante seguiu as pistas romanas, se da Idanha veio a Sortelha, então veio por Castelo Novo até Caria, daí até à Ribeira da Cal e Casteleiro, subindo daí pela meia encosta da Serra da Vila (aquilo que hoje é marcado como Calçada Romana, mas que poderá ser medieval, segundo alguns), até Sortelha. É o único caminho lógico.
É que «há exactamente dois anos, Saramago refez a viagem e passou por estas zonas, desde Castelo Novo a Sortelha: ia para Figueira de Castelo Rodrigo, mas, antes, quis revisitar Sortelha. Mas ninguém o esclareceu sobre a inevitabilidade de a viagem ter de passar pelo Casteleiro.
Pode ler isso aqui.
Mas eram muitas as vias que cruzavam o império do fulgor romano.
Da Covilhã seguia outra estrada romana para Belmonte.

Outra opção: Covilhã-Belmonte
Da Covilhã podia seguir-se a travessia do Rio Zêzere (Cambas?, Ourondo?), mas a partir de Paul já é possível traçar um itinerário que ia entroncar na Via Braga-Mérida,
Taliscas, Erada, Ourondinho, Tortosendo, Canhoso, Terlamonte, Teixoso, Orjais, Aldeia do Souto, Vale Formoso, entroncando na via Braga-Mérida em Belmonte.

Quem quiser pode acompanhar alguns itinerários e monumentos na «Georreferenciação do Google Maps, aqui. Mas não é simples. Só que vale a pena tentar e voltar a tentar.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

No Casteleiro, desde meados dos anos 50 e durante todos os anos 60 e 70, um complexo industrial desactivado, a que chamávamos «Os Italianos», serviu de centro de cultura popular. Nem sabíamos disso. Mas era lá que havia teatro, comediantes, circo, bailes, cinema.

Era um edifício esbranquiçado, com ar de fábrica abandonada, mas em muito bom estado de conservação.
Vale a pena descrevê-lo, antes de mais porque muita gente se lembra, mas também porque a maioria dos que me lêem nunca o viram: ou nunca foram ao Casteleiro ou tendo ido ou sendo de lá não têm idade para se lembrar.
Para quem já foi ou sabe onde fica a Casa da Esquila, o novo restaurante de marca, saiba que os Italianos eram aí mesmo, mas em frente, do outro lado da estrada, logo junto da curva.

O edifício
Era uma grande construção, bem sólida, mas já não era de pedra como era tradição no Casteleiro. Por exemplo: a igreja, construída também nos anos 40, é toda de pedra.
«Os Italianos» tinham sido construídos com tijolo burro (julgo que era isso) e o bloco fora todo rebocado com uma massa de cimento lisinha, pintada de quase branco e era enorme. Ou parecia enorme aos nossos olhos de miúdos.
O edifício foi demolido lá pelos anos 80, julgo, para dar lugar a habitações e comércio.
Da estrada ao edifício, um grande largo de uns 30 metros de profundidade e que corria ao longo de todo o edifício.
Antes da entrada, um telheiro alto, gigantesco.
A porta de entrada era larguíssima. Mas tinha três degraus – o que significa que não era para entrada de viaturas. Lá dentro, logo à entrada, um hall enorme com dois grandes blocos rectangulares altos e com o tijolo à vista. Tinham sido construídos para serem os fornos. Depois, para a direita de quem entrava o grande salão.
E, ao longo dessa sala grande, várias dependências, tudo em grande e com pé direito impressionantemente alto. Isso era uma imagem de marca da construção: o telhado ficava lá muito em cima… bem diferente das nossas casas: tipo dois ou três andares lá em cima. Era assim que eu via o edifício. Se calhar era só o meu olhar de criança a ampliar a coisa…

Os bailes
Do que mais nos lembramos é dos bailes. Enormes bailes de domingo. Toda a gente rodopiava naquele grande salão. De mim e dos meus amigos, só me lembro de andarmos a jogar à apanhada ou coisa assim por entre as pernas dos dançantes…

O cinema
O cinema que se via nesse tempo na aldeia ou era projectado numa parede da casa senhorial do Largo de São Francisco ou nos Italianos. Era cinema mudo ou lá perto, a preto e branco, naturalmente, e com histórias de amor em profundidade e muitas lágrimas.

O Delfim
Outro frequente utilizador era o comediante Delfim e a sua «troupe»: Delfim Pedro Paixão – bem me lembro do nome dele e da sua companheira e restante equipa de «actores» de rua. Muito nos ríamos com as suas brincadeiras ingénuas. Quando a mulher era viva, havia trapézio e tudo (acho que morreu de uma queda).

Volfrâmio
Já escrevi em tempos na Capeia que havia (há) volfrâmio no Casteleiro e que houve muita exploração de minérios na minha terra. Pois bem: «Os Italianos» são fruto dessa euforia. Dois italianos, irmãos, vieram para cá, instalaram-se e iam começar o seu negócio. Investiram, portanto. Ali seria uma fábrica separadora de minérios. Mas não chegaram a tirar rendimento: logo, logo, a Itália é derrotada e o negócio italiano e alemão dos minérios em causa acabou. O edifício lá ficou, entregue ao meu avô, que acabaria por aceder à propriedade 30 anos depois por usucapião: os dois italianos nunca mais deram sinais de vida. Tanto quanto se sabia na época, teriam fugido para a Argentina. Mas até hoje, nem um telefonema…
O Casteleiro ficou assim com um equipamento inesperado, que bem utilizado foi durante duas décadas. Foi o primeiro centro de cultura – mas sempre houve teatro no verdadeiro Centro (na imagem) e num recinto junto do Largo de São Francisco.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

Hoje, nestes dias em que tanto se fala de uma reforma administrativa que basicamente tende a «apagar» freguesias do mapa, estou sempre a recordar-me da reforma administrativa de 1855, implementada por Fontes Pereira de Melo.

Mapa Concelho Sabugal

Nessa ocasião, as mudanças em todo o País e também aqui na nossa zona foram gigantescas. Creio que o que aconteceu com o Casteleiro (mudar de concelho e de Distrito, passando da Beira Baixa para a Beira Alta) foi do pior que se pode fazer a uma população.
À época, houve ainda muitas outras alterações.
No entanto, já antes, em 1836, uma primeira grande reforma, a do Liberalismo, conduzida pelo legislador Mouzinho da Silveira, «dividiu o território nacional em províncias, comarcas, concelhos e freguesias. Esta política provocou no Alto Côa a extinção dos concelhos de Alfaiates e Vila do Touro».
Agora, violenta… mesmo violenta, pelo menos para o Casteleiro, foi a Reforma Administrativa de 1855 de Fontes Pereira de Melo e da Regeneração.
Nessa altura muita coisa mudou.
E muita coisa mudou para pior em termos de administração e de defesa de interesses locais.

A Regeneração foi muito dura contra esta nossa região
A Regeneração não foi generosa para com os habitantes desta zona.
Por exemplo:
– Caria
Era concelho. Deixou de o ser, passou a freguesia e foi integrada no concelho de Belmonte.
– Sortelha
Era concelho – e até do distrito de Castelo Branco. Deixou de o ser, passou a freguesia e foi integrada no concelho do Sabugal, mas agora do Distrito da Guarda. Por arrasto, as freguesias do Casteleiro, Bendada, Águas Belas, Urgueira, Aldeia de Santo António, Pousafoles, Lomba dos Palheiros, Malcata, Moita, Pena Lobo, Santo Estêvão, Sortelha e… Valverdinho mudaram de concelho. Note que esta última «localidade» de Valverdinho (que de há muito, desde toda a minha lembrança, mais não é de facto do que uma quinta e com pouquíssima gente) deixou nessa altura de ser freguesia e passou a ser uma anexa do Casteleiro – o que ainda hoje se mantém.
Sortelha era pois um concelho grande em território, disperso e diversificado. Foi extinto, transferido para a «Raia», integrado no concelho do Sabugal e passou a ser mais uma das 57 freguesias com que o Sabugal então ficou – já que se juntaram ao renovado e agora enorme concelho do Sabugal os concelhos então também extintos de Vilar Maior, Sortelha e Castelo Mendo.
– Malcata e Urgueira
Li que com Malcata e com a Urgueira aconteceram mesmo algumas cenas escabrosas. A transferência dessas duas freguesias do concelho de Sortelha para o do Sabugal ter-se-á dado já em 1851. Mas a câmara de Sortelha não esteve pelos ajustes… e só quando extinta (1855) é que se consumou essa alteração.
– Pousafoles
Quanto a Pousafoles, li duas versões: que pertencia à Guarda e que pertencia a Sortelha antes de integrar o Sabugal.
– Castelo Mendo
E quanto a boa parte das freguesias do antigo concelho de Castelo Mendo, 30 anos depois, em 1883, estavam já entregues ao concelho de Almeida.

1855 – uma reforma nada positiva para o Casteleiro
Portanto, um século XIX cheio de alterações, instabilidades e flutuações.
Consequentemente, cheio de inoperâncias.
O Casteleiro, por exemplo, sofreu a dobrar e a triplicar e ainda hoje sofre:
– de maior freguesia fora da sede do concelho de Sortelha, passou a pequena freguesia do Sabugal;
– de freguesia limítrofe da sede do concelho, passou a freguesia afastada da sede;
– de uma freguesia num concelho de sete ou oito, passa a uma no meio de 60 e tal e, depois, uma de 57 até hoje;
– passa de um Distrito em desenvolvimento e industrialização, Castelo Branco, para um Distrito rural e nada dinâmico nessa época, o da Guarda.
Portanto, uma reforma nada positiva para o Casteleiro, lamentavelmente.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

A produção de vinho – de bom vinho – é no Casteleiro uma arte secular, se não mesmo milenar, meus amigos. Querem aprender? Leiam esta peça até ao fim.

No dia 4 de Março, realizou-se um Festival em que mais um vinho do Casteleiro foi premiado, como pode ler aqui. E o mesmo já acontecera há um ano. Parabéns aos amigos produtores.
«O vinho branco produzido pelo José Joaquim Nabais do Casteleiro, alcançou o 1º lugar da sua classe (Terras Quentes) no II Festival Graminês organizado pelo Jornal “Cinco Quinas”».
«Já na primeira edição, em 2011, a dupla José Manuel Gonçalves/Carlos Gonçalves tinham conquistado o 2º lugar na categoria de tintos».

A vindima era uma festa
Não haverá ninguém dos que me estão a ler que não saiba (muitos, muito melhor do que eu) como se faz toda a faina do vinho, do cultivo da videira à venda de parte e ingestão de outra parte do próprio vinho.
Plantar videiras, tratar delas, acarinhar toda a sua vida, podar com sabedoria – coisa que poucos sabem fazer mesmo a sério, são faces de uma só moeda: fazer bom vinho.
Lá por Outubro, cavavam-se as vides (era assim que se falava).
Depois, no inverno, era o tempo de dar toda a tenção à bicharada que pode estragar as videiras e os botões que vão dar os cachos de uvas.
Lembro-me de ouvir falar do míldio e do oídio. Devem ser verdadeiras pragas, para me lembrar tão bem de palavrões tão estranhos…
A seguir à Primavera, podavam-se. Uma arte que poucos dominavam.
Depois, até à vindima, não se toca mais na planta: só para colher as uvas.
É a vindima: uma festa na aldeia, por toda a aldeia, em cada casa.

Fabricar o vinho
A uva era colhida para cestos, daí ia para a dorna e daí para o lagar, se fosse o caso. Podia ser esmagada na dorna ou no lagar.
Sempre com os pés descalços – e bem lavados, espera-se.
Em todo o caso, o vinho depois disso ferve e limpa tudo.
O que sobra é o engaço.
Se se quiser tirar algum mosto, é esta a altura: antes de ferver. Mesmo antes.
Depois ficava a ferver uns dias e finalmente era metido nos pipos ou nas pipas, dependendo da quantidade: era a estrafega, penso.
Assim ficava, bem vedado na vasilha por umas semanas.
Mas:
No dia de São Martinho,
Vai à adega e prova o vinho.

Regra sagrada. Milenar, talvez, já que o nosso vinho deve ter vindo da Grécia para Roma há quase 7 mil anos e de Roma para aqui há quase dois mil.
Uma parte, se fosse o caso, vendia-se.
O resto ficava para consumo em todo o ano.
Nada melhor, para os apreciadores.
Já há mais de dois séculos a abundância de vinho no Casteleiro era referida, a par de outras produções: «(Resposta nº) 15- Os frutos que nesta terra se colhem em maior abundância são centeio vinho e azeite castanha e linho, mas esta maior abundância apenas…a terras fortes» – isto escreveu o Cura Manuel Pires Leal no seu Relatório para o Marquês de Pombal em 1758.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

A sabedoria contida nos ditados populares continua a impressionar-me. Está bem: são frases que vêm de experiência de séculos. Uma síntese quase sempre expressa de um modo um tanto poético ainda por cima. Dado o clima que se instalou, vem a propósito recordar a impressionante sabedoria popular nesta matéria.

É óbvio que todos estão agora mesmo à espera de que eu comece pelo mais actual de todos: Em Abril, águas mil. Este ano, quem dera.
Logo, logo, uma nota inicial: os ditados que vai ler não são todos locais nem sequer regionais. Alguns deles, tenho-os encontrado noutras partes do País. Sinal de miscenização, também por aí, de certo.
No Casteleiro, estas coisas pesam ou pelo menos pesavam muito no dia-a-dia das pessoas. E por isso fazem parte de toda a nossa formação. Quiséssemos ou não, este «quadro filosófico» estava ali sempre presente – para o bem e para o mal.
Na maior parte dos casos, estes ditados apelam para vivências hoje muito distantes e mesmo desconhecidas dos mais jovens ou já transformadas em reminiscências. Mas ainda se lá vai, com alguma pequena explicação de alguém mais velho – e muitas tenho pedido ao longo de anos de registo dessas coisas por aqui e por ali…
Aliás, o que directamente motivou o conteúdo desta crónica, foi a meteorologia (uma palavra muito difícil de dizer na televisão, onde ninguém tem a caridade de explicar àquelas alminhas a coisa mais simples: vem de meteoro e não de metro).
Mas falo da meteorologia de cariz popular, claro.
Tudo, fruto de conversas recentes em roda de vizinhos nos últimos tempos. Porque não chove, mas ainda pode chover. Então não sabe daquele ditado?… E há pouco tempo não choveu tanto em Agosto?
Coisas assim. Simples. Como a vida. Quando fora do «stress» da cidade.
Do lado da meteorologia científica, vale a pesquisa recente de Ricardo Garcia, ‘Público’, quando afirma que houve arrefecimento em Portugal de 1940 a 70 e que desde então as épocas de seca são cada vez mais frequentes.
E isso é de facto preocupante.

Espantosa meteorologia popular
O célebre meteorologista Costa Alves, oriundo de Castelo Branco, até escreveu uma compilação de ditados populares sobre o tempo e a atmosfera – e garante que mais de 90% são verdadeiros.
Portanto, vale a pena perder uns minutos a recordar alguns nessa e noutras áreas.
É que, como são parte da tradição oral, se ninguém os registar, «bye-bye».
É verdade que não chove.
Mas é verdade que ainda pode vir a chover.
A experiência de séculos aponta nesse sentido.
Parece que ultimamente as coisas andam muito diferentes na atmosfera, fruto sabe-se lá de quantas alterações, a começar pela poluição mortífera que por aí anda.
Mas mesmo assim, vale a pena trazer aqui sem intenção «noticiosa» que
Uma velha em Abril
Queimou um carro e um carril
Uma camba que lhe sobrou
Para Maio a guardou
E um bocado que lhe sobrou como um punho
Ainda o guardou para Junho.

Janeiro e Fevereiro já passaram.
Mas sobre Março há aquela:
Março, marçagão,
De manhã, inverno
E à tarde, verão.

Já em meados de 2011 escrevi sobre estes ditados. Eles fascinam-me.
Hoje trago-os aqui por causa do clima que temos neste momento.
Isto não garante que este ano vai chover nas manhãs de Março. Mas garante que já aconteceu muitas vezes. Naquela previsão popular, este «inverno» não seria só frio, julgo eu: havia de trazer também a sua dose de chuva.

Apelo ao leitor
Toda a gente me diz que há muitos mais rifões populares na região sobre estes meses até ao Verão. Então fica aqui um desafio: quem souber algum, por favor, sirva-se e deixe-nos aqui em comentário esse contributo. Agradecemos todos.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

Quando eu era pequeno, muita gente ainda plantava linho e procedia à sua fiação. E havia na aldeia alguns teares, que, imagino, seriam como o da imagem.
Quanto mais leio coisas de antigamente, mais me convenço de que, há 270 anos ou mais, havia aqui uma espécie de indústria artesanal nascente que foi vencida pelos tecidos indianos que entravam de roldão no Pais por essa altura. E a Coroa deve ter ajudado à festa.

Hoje, o material barato vem da China, sobretudo. Naquela altura, terá sido a Índia (Goa) a origem de tecidos muito mais baratos do que os que eram feitos cá ou mesmo os que vinham da Inglaterra, onde já se usava a mecanização para produzir…
Há na nossa zona uma tradição de fabrico ligada à fiação, tecelagem e tinturaria? Só pode ser. De outro modo, por que raio havia o Marquês de criar com pompa e circunstância bem perto de nós, na Covilhã, as tinturarias da Real Fábrica de Panos, uma manufactura do Estado, fundada pelo Marquês de Pombal em 1764?
Mas isso, reparem, é 16 anos depois da data daquilo que hoje aqui me traz.
De facto, em 1758, segundo o Padre da Paróquia do Casteleiro, o «tinte» já tinha sido demolido.

Dois pisões e um tinte
Fiação, tecelagem, pisoaria, tinturaria – uma fileira de produção essencial nas aldeias da era pré-industrialização.
Sabe-se hoje que o Casteleiro chegou a ter isto tudo.
Leia-se a propósito o que escreve o Padre, quando responde ao tal «Censo» do Marquês.
À pergunta 16 do capítulo III do questionário «O que se procura saber do rio dessa terra he o seguinte», o Cura Manuel Leal Pires responde: «Tem dentro do limite desta freguesia esta ribeira sete moinhos e três lagares de azeite, dois pizoins e algum dia teve também um tinte, porém hoje se acha demolido».
No que ora me interessa, atento nos «dois pizões» e «um tinte».
Pisão: espécie de moinho onde os tecidos eram batidos para ficarem muito compactados e por isso mais maleáveis (dentro do possível, com estes processos artesanais da época).
Tinte: palavra espanhola para pintura artificial (por exemplo, ainda hoje, «el tinte del cabello»). Era a palavra usada para as tinturarias artesanais que havia lá em muitas aldeias. E aqui também.
Concluímos que em 1758 a construção que tinha abrigado o tinte já não existia.
Mas existia bem viva a memória dessa unidade de «fabricação» local.
Por que terão acabado com a industriazinha da época?
Proibição da Coroa?
Isso aconteceu muito nos arredores de Lisboa, por exemplo, sob o pretexto de que já se produzia de mais e que o consumo nacional já não escoaria a produção… balelas para dizer antes que se protegiam os interesses ingleses – cuido eu.
Concorrência?
Sobre a hipótese de concorrência, chamo em meu auxílio o ensaio de Jorge Miguel Pedreira «Indústria e negócio: a estamparia da região de Lisboa, 1780-1880», onde afirma: «Na segunda metade do século XVII e principalmente no século XVIII, os panos de algodão estampados da Índia granjearam, pela sua leveza e pelo colorido dos seus padrões, a preferência dos consumidores europeus. Eram tecidos que podiam substituir com vantagem as sedas, tanto em artigos de vestuário como de decoração. A importação das «indiennes» e dos «calicots» cresceu consideravelmente e as Companhias das Índias Orientais começaram a organizar feitorias para reunirem esses produtos».
De qualquer modo, para mim fica também claro que estava tudo contra estas «artes» aldeãs e que o nascimento e desenvolvimento da indústria nacional de estamparia acabou por arrasar estas fabriquetas isoladas como o tinte do Casteleiro.
Hoje, deixou de haver o tal tinte.
Mas a palavra ficou lá.
Tinte é o nome que ainda hoje damos àquele local. Fica próximo da Ribeira, ao pé de Cantargalo, a caminho de Gralhais.

O trabalho num «tinte»
Fui procurar saber um pouco mais sobre o que se fazia e como nas tinturarias e depois nas estamparias do Reino.
Com o autor citado fiquei a saber coisas como:
– Era elevada a concentração de mão-de-obra no sector.
– Mas mão-de-obra feminina só no século seguinte (a partir de 1800 e tal).
– A indústria de estamparia, o sector em questão, era sem dúvida uma das mais importantes em finais do século XVIII e em 1881 era ainda, de vários pontos de vista,
um dos mais importantes ramos da indústria fabril.
– O trabalho era feito manualmente através da aplicação de tinta em blocos de madeira ou directamente sobre os tecidos.
– A branqueação dos tecidos continuava a ser feita pelo método tradicional da exposição ao sol, e não por processos químicos, obrigando os fabricantes a disporem de prados junto às oficinas, o que, naturalmente, encarecia a instalação e gerava problemas de localização. Este atraso tecnológico — que não é, no entanto, superior ao de outros sectores— seria extremamente duradouro. Só em 1847 é aplicada a primeira máquina de vapor, que permitiria finalmente a introdução das máquinas inglesas de imprimir a quatro cores.
– Em 1852, só duas fábricas usavam a energia do vapor e ainda em 1881 mais de 1/3 das unidades produtivas continuavam a estampar por processos manuais
.
No tinte, os tecidos eram antes de mais bem batidos com grandes barras de madeira, de modo a ficarem mais macios e talvez um pouco menos desconfortáveis. Depois eram então embebidos em tintas feitas na base de produtos da Natureza.
Os tecidos da época iriam desde o burel das capas de pastor e outras peças de vestuário e de agasalho (feitas de lã cardada) o bragal, a flanela e a chita até à estopa e ao linho.
E como eram tinturados? Que matéria-prima se usaria? Não sei, pelo que ainda consegui encontrar num estudo publicado na Revista de Ciências Agrárias, versão digital, 2007, não errarei muito se disser que na minha terra esses produtos seriam mais ou menos os seguintes: raízes de várias plantas, bem como as corolas de algumas flores, lírios, giestas (flor amarela) e urzes.

Protecção real
Pelo que leio, o Casteleiro – e certamente outras terras por aqui – terá mesmo sido precursor… É que na Covilhã e na região de Lisboa, por exemplo, só na segunda metade do século XVIII é que a indústria vingou, mas com a protecção do Marquês e da Coroa. Deve ter sido isso que cortou as vasas à industrialização, mesmo que mínima, da minha terra. E assim o «tinte» foi demolido e tudo voltou ao «ram-ram» do costume e as pessoas voltaram a comprar os seus tecidos aos vendedores ambulantes da época, talvez trocando-os por melancias e vinho. Digo eu. Mas lá que se manteve, isso manteve, a tradição de cultivar linho, proceder à sua fiação e fazer ou mandar fazer a respectiva tecelagem nos teares simples da aldeia
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

Já tinha o tema dos cursos de cristandade alinhado, quando me cai nas teclas o tema dos sefarditas. Calma! Não vou dizer que no Casteleiro também há vestígios físicos sefarditas. Não digo que não haja. Digo que não sei se há e digo mais: que julgo que não há… Mas há, isso sim, outros vestígios – aqui como em todo o Portugal.

Na minha terra, outra religião, a «nossa», marcou o terreno com os chamados Cursos de Cristandade a década de 60. Para que não houvesse dúvidas sobre qual a marca religiosa da zona. Os Cursos de Cristandade foram um marco. Estava-se ali por 1960 e poucos, havia algum adormecimento de algumas pessoas (leia-se: alguns homens) que não iam à igreja, que se mantinham como que independentes, no seu registo de «má vida». A Igreja não gostava disso. Os párocos tentaram convencer esses «prevaricadores» de que tinham de salvar-se – indo aos cursos. Alguns, ao que sei, na Espanha: um aliciante. Mas a maioria, ali mesmo ao lado, no Santuário da Senhora da Póvoa, no então Vale de Lobo.
Um curso de Cristandade era uma espécie de retiro, segundo se ouvia. Mas muito mais intenso. E com um pendor de acção psicológica que faria inveja aos cursos de operações especiais da tropa… Um tratamento forte e radical. Uma forte lavagem ao cérebro. A pessoa vinha de lá mudada, de facto. Quase todos, se não mesmo todos. Nos primeiros tempos, era uma coisa séria: os antigos não praticantes tornavam-se fanáticos doentios. Uma espécie de tropa de choque do «regime» religioso. Eram os cursillos e até tinham um hino: De colores, que pode ouvir aqui, cantado pela diva Nana Mouskouri.
Alguém se lembra?
Começava assim:
De Colores!
De Colores se vistem los campos en la primavera.
De Colores!
De Colores san los pajaritos que vienem de fuera.
De Colores!
De Colores es el arco-íris que vemos lucir.

A partir do Curso, quando alguém dizia «caraças», aqui d’El Rei que era uma grande asneira e isso não se diz e tal… os mesmos que, antes do Curso, nem punham os pés na igreja e passavam o tempo na sueca e na lerpa.
Mas também lhes passava depressa.
Três meses depois, já tinha voltado tudo ao normal. Voltavam à lerpa e a má vida – passe a expressão.

Judeus no Casteleiro?
Agora, sim, a questão sefardita.
Na Idade Média, muitos judeus passaram por aqui e se fixaram em muitas terras de Portugal. Mas não eram bem vistos na época. Costuma dizer-se que os judeus foram sempre perseguidos: no Egipto, como por todo o Mundo.
Começo por recordar que, no meu tempo de meninice, judeu era uma ofensa. «Aquilo é um judeu». A pessoa era má. Mas isso era por influência (errada) religiosa. Para mim, judeu era também o homem das peles: um comerciante de Belmonte, sempre de motorizada, que comprava as peles dos animais mortos, sobretudo dos borregos. Julgo que ninguém sabia o nome dele: era o judeu d Belmonte. Racismos escondidos… Comprava peles, tinha bigode, uma motorizada com um reboquezito, era judeu e era de Belmonte. Coisa banal, sei hoje.
E no Casteleiro? Há ou não vestígios de presença sefardita, os judeus mais comuns na Península? Não sei. Não tenho conhecimento para avaliar, pelo menos ao nível dos vestígios físicos. Mas uma coisa sei: o meu nome e dezenas de outros do Casteleiro são de origem sefardita. Nesta área, por todos, consultei o académico brasileiro José Ribeiro da Silva Júnior, a que pode aceder aqui. Este autor garante como nomes de origem sefardita nas Beiras pelo menos os seguintes que encontro no Casteleiro:
– Abreu,
– Azevedo,
– Campos,
– Carrilho,
– Carvalho,
– Figueiredo,
– Fonseca,
– Gomes,
– Gonçalves,
– Gouveia,
– Isaac,
– Lopes,
– Machado,
– Madeira (s),
– Martins,
– Mendes,
– Nunes,
– Paixão,
– Paiva,
– Peralta,
– Proença,
– Seixas,
– Serra,
– Serveira (mas julgo que com C),
– Silva, Silveira, Tavares (de Mello, também nome sefardita): Morgado de Santo Amaro…,
– Soares.
Ou seja: por aqui, somos quase todos meio judeus (de nome, pelo menos).
Fica aí uma pequena amostra para que se saiba que, se não conhecemos património arquitectónico, podemos reclamar e muito bem o património imaterial onomástico.
Não sei se sou descendente de judeus, mas lá que eles andaram por aqui, disso não me resta dúvida.

Turismo cultural de base sefardita na região?
Fiquei encantado e admirado, quase incrédulo, quando li que 15 empresários da nossa zona se juntaram em torno de um projecto comum: valorizar e aproveitar as sinergias de um património específico: o dos judeus em geral e em especial os sefarditas que habitaram em grande número muitas destas aldeias e vilas.
Fico satisfeito e desejo o maior sucesso – isto sem branquear o sionismo, ligação que muitos pretendem, mas que é totalmente errada. É a História e a Memória contra a barbárie.
O projecto chama-se «Sepharad Lands».
Dizem-me mesmo que se trata de uma iniciativa única na região, o que me deixa satisfeito e curioso.
Os judeus por cá foram sempre ostracizados, marginalizados, em muitas épocas até perseguidos, graças à «vigilância» raivosa dos ministros da Igreja, que se sentiam ameaçados na sua autoridade pela presença de outras crenças, sobretudo da «original».
Agora, o património sefardita poderá até ser fonte de rendimento na área do turismo cultural.
Longe vão pois os tempos em que se inventavam palavras como «safardana», a significar pessoa sem vergonha – e que era claramente uma corruptela de «sefardim», o nome dos judeus da Península Ibérica.
Vou ficar atento ao e a torcer pelo Projecto Sepharad Lands / Terras dos Sefarditas.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

«Memórias Paroquiais do Castelleyro», que já antes trouxe ao «Capeia Arraiana», são um texto riquíssimo em informação. António José Marques, actual presidente da Junta, fez bem que as plasmou no sítio da Junta de Freguesia da minha terra. Tenho passado bons momentos a penetrar mais fundo no que ali leio.

A vida é muito mais rica do que parece e quando nos parece que já nada havia para descobrir sobre o Casteleiro – não por não haver passados, mas por não haver quem fosse esgatanhar e descobrir documentos, vestígios, provas, indícios… –, quando julgávamos que nunca iríamos saber nada de concreto, eis que, mercê do esforço da actual Junta de Freguesia, nos «cai no prato» da nossa curiosidade este documento fabuloso, fascinante.
Trata-se, como já antes escrevi, de uma espécie de Relatório. São as respostas de um pároco às perguntas do Terreiro do Paço. Minto, por acaso nesse ano de 1758, o Palácio do Rei e os serviços do Marquês já não estavam no Terreiro do Paço mas sim, ao que julgo saber, em Belém, em consequência do terramoto de 1755. Consequências da terramoto no País, que são também um dos móbeis do Marquês: avaliar a situação global. Já agora, digo-lhe que o Padre Leal a isso responde de modo taxativo que o Casteleiro «não padeceu ruína alguma no terramoto de 1755».
O Cura Manuel Pires Leal responde ao inquérito no dia 25 de Abril de 1758. Premonição? – dá vontade de brincar…
O resultado são as «Memórias Paroquiais do Castelleyro», como haverá as do Sabugal ou de Aldeia Velha, já que o inquérito foi dirigido a todas as «paróquias». Registo que nesse tempo não havia freguesias, por um lado e, por outro, a divisão de base da organização territorial religiosa sempre foram as paróquias, como se sabe.
Quem puder ou gostar e tiver uns minutos, por favor não deixe de ler aqui o que o Padre Leal responde ao Marquês.
Colocada assim a introdução, resta-me recomendar que cada freguesia procure as suas Memórias dessa época, desejavelmente, com apoio da CM Sabugal / Pelouro da Cultura. Daí poderá resultar uma surpresa para muitas localidades…

Quatro grandes impressões
Quando li aquele documento no «Viver Casteleiro», fiquei vidrado. Por um lado, pela organização das respostas e pelo que me parece ser o rigor de alguém que, por um lado, conhece bem a realidade local e, por outro, parece levar a sério a importância das suas respostas quer para os objectivos do Reino quer para benefício eventual da localidade. Ao ler, tive mesmo a sensação de que ele, o Padre Leal, tinha a noção de que mais tarde estas respostas poderiam ser interessantes para quem como nós queira conhecer e perceber de onde vem, como se vivia antes no mesmo lugar e que riquezas já havia nessa terra.
Fiquei, a esse propósito, com quatro impressões centrais:
1ª – O Marquês: um homem sabido e bem rodeado, para ter engendrado esta estratégia de obrigar os párocos a debitarem o que sabiam para elaborar esta espécie de censos/1758.
2ª – O Pároco: homem certamente menos rude do que habitualmente nos vende a literatura do século XIX quando coloca nos enredos os padres dos séculos anteriores.
3ª – A economia: muito mais diversificada do que se pensaria – seguramente muito mais do que eu pensava.
4ª – O território: a sua organização diferenciada no que toca, por um lado, à gestão religiosa e, por outro, à gestão do Estado: justiça, poder local, administração.
Se quiser conhecer as perguntas do Marquês (as da sua terra devem ser as mesmas), pode ir aqui.

Algumas chamadas de atenção
Longe de mim querer trazer aqui grandes tiradas ou repetições do que o Padre Leal escreveu. Mas não deixo de salientar algumas notas que deduzo do que leio.
E começo pela que me parece mais importante: o Padre diz que esta terra «pertençe a El Rei». Como já antes escrevi, suponho que quer dizer que aqui não havia nenhum senhor «feudal» a dominar e que o Casteleiro dependia directamente da Coroa – o que era muito bom em termos de autonomia dos 525 residentes que ele refere. Por isso, escolhi para título: Casteleiro: terra livre? É que a regra em Portugal parece-me que não era essa.
Outra forte marca: o Casteleiro sempre viveu dividido entre a Beira Alta e a Beira Baixa – e está confluência das duas. O Padre Leal não deixa isso às escuras e é bem claro: «Está na província da Beira, Bispado da Guarda» (Beira Alta) e pertence à «Comarca de Castelo Branco» (Beira Baixa).
Um apontamentozinho: o Padre diz que do Casteleiro a Lisboa são 215 quilómetros nesse tempo – «43 léguas». Ou estava mal informado ou então a A23 anda às curvas por essa Beira e Estremadura. Pois se antes da A23, por Ponte de Sor, a distância era de 370 km e hoje será de 290, mais ou menos… que raio de cortes de caminho fariam naquele tempo para serem só 43 léguas?
Outro facto marcante: a água abundava no Casteleiro. O texto refere a ribeira e vários ribeiros, riachos, arroios e similares, lameiros, baixas de cultivo intenso etc., tudo agregado a várias indústrias artesanais ligadas à produção agrícola e até um tinte (tinturaria de roupa), equipamento este que se encontra no fim da fileira da fiação e da tecelagem – ver imagem que se publica. Uma surpresa para mim, que sempre falei do lugar chamado Tinte e nunca relacionei as coisas assim.
Ou seja: comparativamente, se calhar o Casteleiro dos meados do século XVIII era mais rico do que é hoje, pelo menos em termos de produção própria – isso, apesar dos modernos progressos da mecanização e fertilização.
Por fim: nunca desligo estas informações daquela outra que divulguei há tempos: a febre da corrida ao ouro no Casteleiro em 1723. Mistérios de antigamente…

Nota
Fica-me sempre aquele gosto amargo de continuar muito obscuro o passado mais longínquo do Casteleiro, por falta de investigação e de documentação que conheça.
Por exemplo: os castros e vestígios castrejos de há dois mil anos e mais o que significam de facto? Qual foi o papel do Casteleiro na rede de estradas romanas? Os senhores feudais que poder tiveram aqui? Quais deles?
Até nisto o Padre Leal me trama a curiosidade: à pergunta do Marquês sobre se a terra tem memórias passadas dignas de nota, o malandro responde apenas «Nada» – a esta pergunta como a mais 21 das 62…
Mas eu sinto outras necessidades de saber mais.
Os baldios, os morgadios, como se estruturaram por aqui? O que resta deles? O Morgadio de Santo Amaro resulta de quê? Os quase latifúndios do Dr. Guerra resultaram de quê?
E outras perguntas que por vezes me incomoda que não tenham (ainda) resposta…

«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

Há umas semanas escrevi aqui que o Casteleiro sempre foi terra de migração e que Lisboa foi dos primeiros destinos para muita gente, muito antes da França. Muitos ainda hoje se mantêm com as suas proles na grande cidade. Hoje pergunto: sabem qual o processo de deslocação para muita gente que passou a trabalhar e a viver em Lisboa? Que caminho se seguia? Adivinham que ali havia cordelinhos bem mexidos?

Até 1960, exactamente 1960, muitos casteleirenses conseguiram um emprego em Lisboa. Coisa nada simples, nada fácil. Coisa nada frequente no País. Para se chegar a Lisboa e procurar emprego era um ror de tempo sem dinheiro nem casa. Isso não era possível. O ideal era, pois, ir para a capital já com as coisas arranjadinhas.
Eram tempos difíceis, como tenho mostrado.
Tempos em que as famílias estavam muito depauperadas.
Não havia dinheiro. Havia produtos da agricultura para a sobrevivência, mas não moeda. As famílias do Casteleiro, como as de todo o interior de todo o País, viviam a angústia de saber que, naquela linha de vida, o destino dos filhos era repetir o seu próprio destino de peito sempre apertado. Era preciso dar o salto. Isso, as famílias sabiam: era preciso interromper aquele círculo vicioso.

Destino: Câmara de Lisboa
Nos anos 50, sublinho a década outra vez, no Casteleiro, algumas famílias e seus filhos respiraram fundo até 1960.
Algumas conseguiram o milagre de garantir em Lisboa um emprego para os seus filhos (mais os rapazes, mas também algumas raparigas).
Os leitores do Vale da Senhora da Póvoa estão a ficar surpreendidos com este artigo, porque já viram a foto, que conhecem muito bem (busto de homenagem no Vale), e mais admirados vão ficar com o resto do texto, porque lhes vou dizer que o caminho de muitos jovens do Casteleiro para Lisboa passava pelo Vale de Lobo. E não me refiro só à estrada, até porque a maioria desses jovens não iam de carro (se fossem passariam pelo Vale): iam de comboio, ou seja: o caminho que seguiam era Casteleiro / Caria ou Estação de Belmonte / comboio / Lisboa.
Aquele era um tempo em que sem amigos poderosos as pessoas se encontravam condenadas a repetir vidas passadas, sem passar da cepa torta.
Ora foram muitas as centenas de beirões e não só os que migraram e, mais tarde, emigraram (para fora de fronteiras). O facto de hoje as nossas terras estarem a ficar desertas tem a ver com este factor. Lamentavelmente. Com realismo, temos de encarar o seguinte: se todos tivessem ficado na Beira, hoje as aldeias estavam cheias de gente. Não sei é se a qualidade de vida das famílias seria o que é (os que saíram, em geral, puderam assegurar aos familiares que ficaram melhores condições).

Pedir o favor
Para ir para Lisboa era preciso um favor. Pedir o favor de. E ficar eternamente grato e com razão, muitas vezes subserviente para a vida toda, de uma forma até um tanto feudal… Coisas de um tempo que vai e que vem…
No Casteleiro, o circuito era simples: a D. Maria do Céu (Barreiros Mendes Guerra, da Quinta, chamada «Vila Mimosa»), boa senhora, sensível, ouvia o pedido e quase sempre respondia à mãe angustiada que lá levara a cesta de ovos com o seu rebento de 18 ou 19 anos e dizia sempre:
Deixe estar que eu falo com o meu primo. Talvez se possa arranjar alguma coisita.
E, claro, o primo arranjava.
Termino com esta informação porque o resto adivinha-se: o destino de muitos desses jovens era a Câmara de Lisboa onde mandava em tudo o Dr. Jaime Lopes Dias, que se aposentou em 1960 (daí o meu sublinhado acima: até 1960) e que era primo da D. Maria do Céu.
Para quem não saiba, este dirigente autárquico era do Vale.
Na CML contavam-se às dezenas os funcionários do Vale e do Casteleiro.
Hoje ainda restam alguns – porque há fenómenos que se reproduzem.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

Maria da Graça. Ela foi a carteira que distribuiu o correio aos meus pais e a todos os habitantes do Casteleiro durante dezenas de anos. Num tempo em que as mulheres não tinham profissão, excepto as professoras primárias, é um caso digno de registo e de estudo.

O trabalho no campo era muito pesado. Na sua maioria, as pessoas do Casteleiro ainda viviam do que cultivavam.
Na aldeia, naqueles dias calmos e rurais de 1955-60, as manhãs andavam lentamente, as tardes também e as noites morriam à nascença.
No meio do geral silêncio daquele final de manhã, um grito de alarme troou na Praça, junto do chafariz:
Ó menina Emília!
Poderia parecer a quem não soubesse do que se tratava que era um grito lancinante, de aflição. Mas não. Todos sabiam do que se tratava. Ninguém se assustou. Ninguém se preocupou. Nem a própria destinatária do trovão oral.
Não houve logo resposta e a cena repetiu-se, a voz mais aguda ainda:
Ó menina Emília!
Uma carta. Apenas isso. E chamava lá de longe por medo da cadela que guardava a casa da destinatária daquela carta.
Apenas uma carta. Mas isso (uma carta) era uma prenda dos Correios para cada família – uma prenda muito importante. Estou a falar de um tempo sem telemóvel, sem (quase sem) telefone na aldeia, sem outros meios de comunicação com a família que não fosse o postal ou a carta.
Portanto, um essencial meio de comunicação. Tão indispensável, que até os gritos da carteira eram bem-vindos.

A t’ Mari’ da Graça
E volto à autora dos gritos.
Chamava-se Maria da Graça. Devia ter já na época em que começo a ter a noção das coisas aí uns longos e mal tratados 60 e tal anos. (Não falo de maus tratos que alguém lhe infligisse: falo dos maus tratos da vida dura e sem protecções nem alívios que é a característica do tempo).
Maria da Graça. A ti’ Maria da Graça.
Distribuiu milhares de cartas.
Calcorreou cada viela, cada rua, cada caminho da aldeia em cada dia de cada ano durante muitos e muitos anos.
Era uma pessoa não muito apreciada de modo geral, até talvez um pouco menosprezada. Os miúdos e não só atreviam-se a esconder-se atrás de uma parede e chamar por ela de modo acintoso. Cobardias de criança contra uma idosa quase cega. Recebiam dela a resposta adequada em vernáculo forte.
Mas a sua função, a de trazer a toda a aldeia as cartas dos filhos, dos amigos, dos sobrinhos… isso era indispensável.
Não me perguntem se ela ganhava ou se ganhava muito ou pouco.
Não faço ideia. Talvez ninguém nunca lho tenha perguntado.
Os gritos dela eram famosos. Cá de longe, nalguns casos para não se aproximar do cão, noutros apenas para anunciar o correio, como se fosse uma festa… ela gritava para depois ter o prazer de ver as pessoas aproximar-se dela a receber as cartas e as novas de que ela era a portadora.
Estava a merecer esta homenagem recordatória a velha «t’ Mari’ da Graça».
Porque acho que ela foi uma rara precursora das carteiras dos dias de hoje (não serão muitas, mas penso que já haverá alguns milhares no País).

Nota:
Com as fotos que vê, procurei apenas repor a entrega do correio no ambiente rural desses anos longínquos…
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

Cantar as janeiras, hoje, só por reposição cultural. E isso é o que felizmente vem acontecendo. Mas em tempos a coisa era feita à séria. Recordo aqui essa saga.

No mês de Janeiro, era sagrado: tinha de haver sempre um grupo que se lançava na encenação de, por brincadeira, mas a sério porque em nome da tradição arreigada, ir de porta em porta cantar uns versos aos moradores de cada casa.
Não estou a imaginar hoje um grupo de adultos juntar-se e percorrer a aldeia a cantar as janeiras. Se isso se fizer por iniciativa lúdico-cultural do Centro de Animação Cultural, do Lar ou da Junta de Freguesia, já é um ganho. Mas instalar novamente a tradição seria um milagre.
Como eram as janeiras – o cantar as janeiras?
As pessoas juntavam-se, á noite, e iam de casa em casa. Rapazes e raparigas, sobretudo. Melhor: sobretudo as raparigas. Em frente das portas, ao fundo das escadas, um começava e os outros iam atrás:

Levante-se lá, senhora,
Desse banquinho de prata.
Venha nos dar as janeiras,
Que está um frio que mata.

Refrão:
Naquela relvinha
Que o vento geou,
A Mãe de Jesus
Tão pura ficou.

Havia mais estrofes. Como esta, por exemplo, agora com a grafia regional:

Levante-se lá, senhora,
Desse banco de cortiça.
Venha nos dar as janêras:
Ò morcela ò chòriça.

E repetiam o refrão.
Cantavam durante quatro ou cinco minutos.
Acabada a cantoria, lá vinha um copo, umas castanhas, às vezes uma morcela, uma chouriça.
Isso, tudo junto ao fim-de-semana, dava para um convívio da «troupe» de cantadores de janeiras.
Mas claro que não é só na nossa zona que se canta(va)m as janeiras. Por exemplo, a foto que fui buscar é de um grupo do Arez, em Nisa – uma terra que repôs a tradição e por isso registo aqui o meu apreço. Mas também nestas nossas terras da «antiquérrima» Lancia Oppidana encontro o mesmo apreço pelas janeiras de antigamente, como aqui, num sítio dedicado a Malcata, por exemplo.
Quanto ao Casteleiro, se tiver interesse, pode aceder a outros pormenores aqui, no Viver Casteleiro (ver também mais estrofes nos comentários a um desses «posts»).
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

Quando comecei esta peça, cheguei a escrever «terra de migração», porque pensei que, antes da França, já Lisboa (sobretudo Lisboa) atraía muitos dos meus conterrâneos. Desde que me conheço que conheço famílias inteiras que um dia partiram para a capital e ali criaram raízes até hoje, já na quarta geração.
Mas sem dúvida foi a França que mais marcou os anos 60 e 70 do Casteleiro – a par da guerra colonial, claro, guerra que também determinou algumas partidas dramáticas de jovens em fuga da tropa.

Começo por situar o meu raciocínio e o meu entendimento do fenómeno da emigração e suas causas: o baixíssimo nível de vida, a vida impossível de muita gente. Não foi turismo. Não foi divertido. Não foi uma aventura ligeira. Não: foi muito pesado. Foi duro, foi dramático, foi fruto do desespero.
É certo que foi uma janela aberta – mas no alto de uma serra muito difícil de subir… Antes de mais, porque o regime não permitia a saída do País. Era preciso ir «a salto» – uma travessia dramática de serranias através de toda a Espanha e depois até Paris, Lyon, Pau, Dijon, Clermont Ferrand… «quoi que ce soit» (seja o que for, fosse o que fosse).
Vamos primeiro às causas, para evitar as visões românticas e nos atermos ao realismo duro da vida real e bem dura.

Causas e consequências
Naquela altura, poucas eram as famílias que tinham sequer uns escudos de rendimento. Podiam ter batatas, couves e feijões para comer – e algumas famílias nem isso, porque nem sequer tinham um pequeno terreno para isso. Mas os produtos da terra nem bastavam para a alimentação. Havia que comprar os condimentos e as bebidas. Nem todos, mas em geral eram os mesmos que não tinham nem terra nem vinha nem cabras ou ovelhas… se é que me faço entender. São esses, os desprotegidos de toda a «sorte» (chamavam-lhe sorte) que têm de um dia tomar a mais dramática de todas as decisões das suas vidas: partir, arriscar tudo, abandonar os seus. Ir de noite até para lá da fronteira, numa qualquer serra próxima, boa parte do caminho a pé, quilómetros e quilómetros, a ser mal tratados pelos homens de mão dos engajadores, a quem pagavam e por quem eram humilhados. Primeira humilhação. Uma brincadeira comparada com o que lhes vai acontecer quando chegarem aos «bâtiments» (batimãs) de Paris: ver foto, roubada ao «Restos de Colecção».
Atenção. Primeira travagem: nem tudo é negativo.
Da emigração resultaram em contradição duas consequências paralelas principais: por um lado, um grande sacrifício pessoal dos envolvidos (os que iam e os que ficavam); por outro lado, a melhoria da qualidade de vida, gradualmente, paulatinamente, mas melhoria. Indiscutível. Mesmo que à custa de coisas essenciais, como a saúde (muitos «rebentaram» por lá) e a dignidade: os franceses e não só atreviam-se a humilhá-los e a espezinhá-los – fosse discretamente, fosse às escâncaras…

Os primeiros anos
Vários membros da minha família se lançaram na aventura da emigração. Os primeiros anos foram de uma dureza incrível. Não que eles se queixassem. Não. Parece-me hoje e já o descobri tarde, quando eles começaram a contar umas coisas soltas e o meu cérebro ia ligando as coisas, parece-me hoje, dizia, que eles nem se davam conta da dureza e da humilhação.
Aprendi isso com a malta mais nova, fugida da tropa, seja do Casteleiro, seja de outras terras: soube quanto os franceses desprezavam os seus escravos idos da terra pobre de Portugal. Pensavam eles assim, os incultos, totalmente contra a corrente histórica da terra da Revolução Francesa, feita contra a humilhação e pela Igualdade etc..
A vida profissional dos nossos lá foi sempre complicada para quase todos: primeiro era preciso ser muito dócil, muito submisso, a fim de ficar legalizado. Os trabalhos em que estavam eram dos piores: construção civil, caminhos-de-ferro – coisas assim.
Mas há pior: o medo permanente de ser posto na fronteira dava cabo do sistema nervoso de todos eles.
Para quase todos, a França significou também as artroses, as pernas partidas e «soldadas», as costas derreadas, os joelhos duros, os pulmões arruinados, muito álcool, muita complicação. E vários anos sem ver a família.
Mas a maioria sobreviveu a isso, em nome do objectivo: dar vida melhor aos filhos e aos netos.
Praticamente todos o conseguiram. E isso é uma vitória sobre o que tinham passado em Portugal e sobre a má formação de muitos franceses.

Hoje
Por via da emigração, no Casteleiro, criou-se em certa altura um ambiente especial, pelo menos no mês de Agosto.
Falava-se aquele dialecto engraçado que era uma mistura do português, quer dizer, do português falado nos anos 50 numa aldeia beirã, com umas arranhadelas de algo parecido com o francês da rua e da obra em Paris – nos «bidonvilles» / bairros de barracas/ de Champigny ou em Clermont Ferrand…
Hoje, as famílias emigrantes, a maioria da aldeia, ou estão completamente adaptadas na França onde permanecem (pelo menos as terceira e quarta gerações) ou voltaram e vivem uma pacata vida rural, de padrão tradicional.
Encontro de tudo.
Os adaptados à vida francesa têm hoje netos que ou não sabem ou não dizem uma palavra de português.
E, nos poucos dias que passam na terra, têm na aldeia em geral boas casas, boa vida.
Os que voltaram cedo, muitos por razões de saúde, voltaram ao que eram antes, mas agora com dinheiro de bolso: reformas, poupanças etc..
Seja como for, a aldeia depois da emigração nunca mais foi a mesma: ficou mais diversificada, mais completa.
Muito mais e mais se devia dizer. Mas um tal fenómeno não cabe em letras. Nem em espaços razoáveis de um artigo que possa como tal ser lido. Há já imensas teses de mestrado e doutoramento – algumas bem longe do que vi e ouvi, digo com pena. Há já muitos livros, há músicas e há filmes. Mas a mim, do que conheço, parece-me sempre que as coisas passaram longe de quem escreveu ou divulgou.
Provavelmente, erro de análise da minha parte.
Finalmente, um registo da minha parte: as minhas homenagens sinceras aos emigrantes e suas famílias. Sejam os do Casteleiro, sejam os de toda a região.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

Contei aqui, há umas semanas, a lenda das três mouras encantadas que à noite estendem seus alvos lençóis no alto da Serra d’Opa. Entretanto, palavra puxa palavra, a investigação oral e escrita levou-me a outras «paragens». Hoje, quem vai ficar mais satisfeito são os amigos do Vale da Senhora da Póvoa, já que incluímos uma foto da encosta do lado da «antiquérrima» Lancia Oppidana – como adiante explico… A Serra, essa, concentra o protagonismo de numerosas histórias, lendas, contos, narrativas. Sempre com um misterioso ambiente de grandeza, riqueza, ouro. Para trás fica a história verdadeira da exploração de minério nas suas duas encostas, o que fez tal riqueza de muita gente que um dia um grupo de novos-ricos do Vale comprou o comboio ao… revisor de bilhetes… mas isso é uma história malandreca de brincar com a rapaziada do Vale.

É sabido que se contam em cada aldeia milhentas histórias sobre a Serra d’Opa. Naqueles anos 50, a rapaziada do Vale (assim chamávamos ao Vale de Lobo de então) tinha muito acesso ao alto da Serra porque daquele lado ia-se lá bem até de bicicleta: a encosta é muito menos íngreme e até havia terrenos cultivados mesmo lá no cucuruto… ao contrário do que acontecia do lado do Terreiro (das Bruxas) e do Casteleiro que, sendo muito a pique, tornava a escalada muito difícil para a rapaziada dessa banda. Mas muita gente lá ia (não eu: como já disse, tenho comigo essa lacuna: esta serra é a única dali a que nunca trepei…).
Bem no alto, haveria três castros (pequenas fortificações lusitanas). Um deles, designado como Sortelha Velha, pode ver-se na foto obtida via Américo Valente, citado adiante.

Mula de ouro
As lendas populares falam muto de ouro, moedas de ouro, potes de ouro.
Pois para a Serra d’ Opa também se arranjou no Casteleiro uma história que mete ouro.
Reza assim:
«No alto da Serra d’ Opa, há um haver: uma mula de ouro com selim, freio e tudo. E quem a há-de encontrar é rabo de ovelha ou ponta de relha».
Eu explico.
A mula tem os arreios todos: até selim e freio, portanto está completa e é muito valiosa.
E está ali mesmo à superfície. Reparem: quem a há-de encontrar é rabo de ovelha (ou seja: não é preciso arranhar muito o solo) ou ponta de relha (a relha é a parte do arado que rasga a terra – mas a relha não vai muito fundo, anda mais à superfície).
Portanto esta mula de ouro está mesmo ali à mão de semear…
É só ir buscá-la.

Mouras de tranças de ouro
Por seu turno, Lopes Dias, que era do Vale, conta a história das mouras encantadas que vivem lá no alto da Serra. Mas esta lenda não mete lençóis e sim tranças de ouro… Mais uma vez e sempre o ouro.
Ouro que, se bem se lembram, o Rei mandou procurar no Casteleiro em 1723: mandou explorar as terras para ver se de facto ali havia ouro ou não. Recordo que, mesmo não havendo tanto ouro assim, a verdade é que não falta lá, nas duas encostas da Serra, volfrâmio, estanho e quejandos minérios bem conhecidos, que na Segunda Guerra deram muito dinheiro a muitas famílias da zona.
Retomo Lopes Dias.
Destas mouras, conta ele que «no sitio da Penha, no cimo da Serra d’Opa (Vale de Lobo) lá vivem elas, lindas entre as mais lindas, escondidas entre enormes penedias, para uma só vez em cada ano — di-lo o povo — na noite de São João, saírem a estender preciosas meadas de ouro que guardam e que só entregarão a quem, naquela noite, à meia noite, apanhar a semente do feto real».
Mas ninguém se atreve.
«E por isso, lá entre penhascos, junto de enormes penedias, continuam encantadas, lindas, muito lindas mouras, de tranças de ouro, a guardar, pelos séculos dos séculos, grandes, enormes riquezas».
Consultar o Dr. Jaime Lopes Dias, aqui.

Grutas misteriosas e barulhos telúricos
Nem só de histórias vive o mito da Serra d’Opa: os visitantes falam também de minas, grutas profundas, buracos enormes pela rocha abaixo até às profundezas.
Num dos casos, contam-me até que lançavam uma pedra pelo buraco abaixo e que a mesma demorava muuuuito tempo a bater lá em baixo ou nem mesmo se ouvia a tocar no fundo. Sinal de que o buraco não tem fim.
Mais: ouve-se sempre lá no fundo um barulho parecido com o marulhar das ondas do mar. Até há quem diga que ali passa um braço de mar…

Oppidana > Opa
De que palavra poderá vir a designação da Serra (Opa)? Já li algures que de «lupa», loba, em latim. Aliás, havia muitos lobos na Serra. E o medo era enorme e quase religioso, naqueles tempos. Contam-se histórias do diabo sobre lobos e medo naquelas bandas – como esta, que é verdadeira e que pode ler aqui.
Opa poderia então vir de loba, em latim.
Mas esta origem que aí vem agrada-me muito mais.
Em 71 antes de Cristo poderá ter havido nas faldas da Serra d’Opa, mas do lado do Vale, uma cidade celta fortificada que lutou contra a ocupação romana. No local onde fica o Santuário da Senhora da Póvoa. Na década de 30 do século XX terão ali sido encontrados vestígios de muralha fortificada.
Do nome dessa cidade (Lancia Oppidana) terá derivado o nome da Serra: Oppidana > Opa.
Ver Américo Valente, aqui.
Mário Saa, aqui.
Duas notas minhas: lancienses eram os habitantes desta região do Côa (Cuda, donde: transcudanos); «oppidum» era qualquer das aldeias grandes do Império Romano. Muitas deram em grandes cidades romanas.

Compraram o comboio
A propósito da grande quantidade de volfrâmio que se recolheu nas duas encostas da Serra d’Opa na altura da II Guerra Mundial, quando eu era pequeno, contava-se que nesses tempos muita gente fez muito dinheiro. E, nalguns casos, esse dinheiro de bolso fez perder as estribeiras a muitos. Por exemplo: um grupo de rapazes do Vale de Lobo, na altura, foi a Lisboa onde nunca tinha ido. No regresso, vinham já quentes (de certeza, estou mesmo a ver) e eis que metem conversa com o revisor. Nem imaginavam qual o seu papel no comboio. Mas como tinha farda, pensaram que era pessoa de grandes poderes. Palavra puxa palavra e apalavraram a coisa: quando desceram em Belmonte, já tinham dado ao revisor todo o dinheiro que lhes sobrou da viagem. Era o sinal para a… compra do comboio – que fazia falta no Vale, diziam-lhe.
E fazia: ainda hoje faz, claro.
Uma historieta maldosa mas bem popular, bem ingénua e que não prejudica ninguém.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

O órgão da igreja do Casteleiro ainda hoje «farranfona» as músicas sagradas. Desafina muito? Não importa. A verdade é que traz um pouco de cor aos dias. Com base na música e na ligação religiosa entre as pessoas e não só, houve música, teatro e animação no Casteleiro. O Centro, hoje sede do CACC, era palco dessas manifestações interessantes de cultura popular.

Estava-se lá por 1950 e tal. Não era só no âmbito da igreja que se faziam coisas da área cultural ou próximo. Havia teatro e chegou a haver uma espécie de rancho folclórico por ocasião da inauguração da luz eléctrica, com a presença do Governador Civil. Não se pode deixar de referir essa manifestação, mesmo que esporádica: ainda hoje as pessoas da época se lembrarão desse momento.
Mas havia também algumas representações de peças de teatro – fosse no âmbito do grupo da igreja ou noutro quadro.
O Neca e o Ti Nàciso (Narciso, claro) eram os ensaiadores, tanto quanto me lembro. O palco era montado ou no Centro ou no Pátio arrendado pelo Ti Fermino (sic) Ferreiro – mesmo ali ao pé do Terreiro, hoje Largo de São Francisco. Havia teatro – isso é que importa. Mesmo que ao ar livre. Mesmo que com palco improvisado. O Ti Nàciso era o ponto, que ia lembrando o texto aos actores. Por vezes ouvia-se mais a voz dele do que a dos actores…
Foram muitas as peças que se viram neste quadro.
Ficaram na história.

Havia como que duas aldeias
Se calhar, acontecia o mesmo em todas as terras. Mas lembro-me bem de ainda muito pequeno notar que ali havia gato: por um lado, o Padre e as mulheres; por outro, os homens. Nós, miúdos, éramos uma espécie de terra de ninguém: connosco tudo estava sempre bem.
Víamos os mais velhos a ensaiar as peças com o Ti Nàciso, apoiado pelo intelectual de serviço, o Neca, compincha de farras do actual Procurador-Geral (Pinto Monteiro). E víamos as nossas amigas da mesma idade ou pouco mais e as nossas mães a ensaiar coisas na igreja ou no salão do Centro.
No fim, para nós, aquilo batia tudo certo, porque íamos ver as peças todas – ora ao Pátio ora ao Centro. As «da igreja», digamos assim, eram representadas ao fim-de-semana e às vezes o sucesso era tanto que repetiam no domingo seguinte, segundo me recordam. Nuns casos, a temática era a velhice, noutros as noivas ou as «criadas de servir».
Os «teatros» (assim falávamos) eram verdadeiramente os do Neca e do Ti Nàciso, pois eram de autores bem conhecidos (deles, mas sobre os quais os ouvíamos falar).

O som daquele órgão domina-me até hoje
Não foram coisas que deixassem muitos frutos para muitos anos, sinceramente. São mais do género de manifestações culturais soltas. Mas lá que eram muito vividas e muito sentidas, disso não tenho dúvidas. Como a vida de Cristo, de que ainda hoje se recordam cenas… Lembro-me bem da zanga dos ensaiadores com os pretensos actores porque nunca sabiam o papel, nem mesmo já em plena representação «oficial». Como não conseguiam fixar as deixas, isso deixava o «ponto» muito irritado. De tal modo que ele desatava a berrar lá de dentro do seu buraco:
– Diz-lhe agora que tem de ir à luta pela rapariga se quer casar com ela…
Ou coisa do género…
Mas nem só de «construções profanas» vivia a cultura aldeã nessa época.
A organização religiosa, que abrangia sobretudo jovens raparigas e mulheres, também deu em algumas manifestações culturais a registar.
Por exemplo, e no estrito quadro dos ritos sagrados: impossível ver e ouvir a diferença entre as missas, terços etc. com e sem órgão. Bem ou mal tocado (o que é que isso importava?), o som do instrumento, parecido com o da foto, alegrava os ritos, dava outra cor à vivência religiosa. O coro da igreja, formado e dirigido sempre pelas mulheres mais influentes do arco religioso, fazia um sucesso. O som daquele órgão domina até hoje uma parte do meu imaginário.
Como já disse, havia peças de teatro ensaiadas pelo Padre e depois representadas no Centro, onde até havia um verdadeiro palco, já nessa altura.

Até um rancho chegou a haver
O mesmo grupo organizava passeios de carácter religioso mas também cívico, com as normas da época, evidentemente. Por exemplo: ir a Fátima (turismo religioso) – ou ir a Lisboa saudar Salazar, mas pisgarem-se quase todas as participantes para verem Lisboa e nem quase saberem onde estava o Ditador…
Mas não só.
Chegou a haver um rancho folclórico (mais ou menos isso). Coisa esporádica. Foi por ocasião da «inauguração» da luz eléctrica. Era assim que se falava no Casteleiro. Creio que em 1955. Como vinha o Governador Civil, coisa que naquela altura era algo digno de nota (…), não fizeram a coisa por menos e ensaiaram umas danças populares e umas cantigas para o ilustre.
Pena foi que não tivesse continuidade. Mas são embriões que ficam nos genes dos Povos. E não acredito que a actual dinâmica do Casteleiro não radique nessas diversificadas e múltiplas experiências de antanho…

Bailes e Santos Populares
Impossível falar aqui de todas as manifestações culturais populares (muito simples, muito ingénuas, algumas delas).
Mas não quero deixar fora de registo duas das que mais me lembram sempre.
Os bailes, com a concertina, no Terreiro e as brincadeiras e tradições do dia de São João. Não sei porquê, mas lá «não queriam nada» com os outros santos populares (Santo António e São Pedro – este até era muito celebrado no Sabugal, como os mais velhos se lembrarão bem). O São João é que era. E lá se montava o mastro para arder no Terreiro, tudo com muito rosmaninho, para animar e dar mais cor às celebrações. E bailes, claro. Dançar muito e bem, sempre.
Já agora: não sei se sabem mas o mastro como o da foto e as fogueiras de São João a arder são tradições que vêm do fundo dos tempos: simbolizavam a entrada no solstício de verão. Alta cultura popular, portanto.

…Tempos do caneco – garanto.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

Será que as três moiras ainda lá continuam encantadas dentro daquele barroco da Serra d’ Opa? Será que ainda saem de lá todas as noites, à meia-noite em ponto? Será que o príncipe árabe que ficou de vir libertá-las já apareceu e as levou?

Tudo isso se passava na Serra d’Opa. Já conto, mas, primeiro, quero pôr os pontos nos «is» acerca do nome da serra.
Cada terra pronuncia a seu modo. Muitos de vocês chamam a este monte a Serra da Opa. Da. Outros chamam-lhe, na melhor das circunstâncias, Serra de Opa. De.
Muito de vocês impuseram isso na blogosfera. Pior: já levaram a coisa para documentação oficial. Sei, por exemplo, que há em Penamacor uma Associação de Produtores Florestais da Serra da Opa. Da. Estão a ver? É assim que as coisas se deterioram.
Pois bem: estou farto de ler e calar. Chegou a minha vez de pôr os pontos nos is.
Em toda a vida, o Povo do Casteleiro – que, a par dos Povos do Vale de Lobo (Vale da Senhora da Póvoa), do Terreiro (das Bruxas) e da Moita (Jardim) são as pessoas que mais de perto lidam com a mesma serra e sabem o seu nome e lhe chamam, tanto quanto sei, Serra d’Opa. Nada de «de» e muito menos de «da»: «d’Opa», lido como «Dopa». Ponto. Não cedo mais. Passo a falar (escrever) da Serra d’Opa e nada mais.
Acho que se no Casteleiro alguém disser «da Opa» é logo olhado de esguelha.

A lenda
Agora, a lenda. Cai bem, em época natalícia, trazer aqui um mito que nos encantava a meninice. Muita gente «sabe» que ali há moiros. Mas a história que se conta não é a mesma em todas as aldeias dos arredores. Cada terra tem a sua lenda. Neste caso, sei, por exemplo, que na Moita se fala de um moiro encantado Não tem tanta graça, temos de concordar. Pode ler isso aqui, de onde retirei a foto.

A lenda que me contavam era outra, com muita piada, mas, sobretudo, com muito «suspense» à mistura. Era contada em voz baixa aos miúdos de cinco, seis anos, com os olhos muito arregalados, todos a imaginar as cenas lá longe (era tão longe), bem lá no cimo da Serra d’Opa (aí uns 600 metros de altitude, imaginem…).
Então a história era assim:
– Há muitos anos, quando ainda havia moiros, antes de eles fugirem, ficaram lá em cima três moiras. Jovens e muito bonitas. As moiras vestiam sempre vestidos brancos. Eram três e não havia lá mais ninguém. E sabes onde é que elas estavam? Dentro de um barroco muito grande que lá há.
(Paragem minha, hoje: sempre quis ir lá ao barroco. Mas acreditam que nunca subi a esta serra? Fui à do barroco riscado «ver» a rocha onde estava gravada a frase «Bem haja quem me virou que já há tantos anos deste lado estou»; fui ao Cabeço Pelado; fui à Serra da Presa; fui várias vezes à Serra da Vila – de Sortelha. Mas nunca subi à das três moiras encantadas. Retomo a narrativa:)
– As três moiras nunca podiam sair de dia. Nem podiam ver a luz do Sol. Só podiam sair do barroco encantado de noite e só quando havia luar. E todas as noites à meia-noite elas saíam, vestidas de branco e vinham cá fora pôr a roupa a corar à luz da Lua. E a dançar. Elas todas as noites dançavam as danças dos moiros lá em cima, ao pé do barroco. E quem as queria ver tinha de ir de dia lá para cima e ficar lá escondido e depois, à meia-noite, espreitar. Mas nunca lá foi ninguém, porque as moiras eram encantadas e se alguém as visse desfaziam-se logo no ar. E ainda hoje estão à espera do moiro que fugiu da guerra que cá havia e que ficou de cá voltar para as vir buscar.

…Imaginam a pequenada a ouvir tal história de encantar?
Eu nunca me fartava de que ma repetissem noite após noite.
E bem me lembro das tantas vezes em que antes da meia-noite vinha à janela espreitar lá para cima a ver se via as moiras encantadas e a dançar ao luar.

Nota:
Quando, há cerca de um ano, fui desafiado a escrever neste sítio, o Casteleiro tinha aqui apenas 50 referências em quatro anos. Hoje tem 100. Um crescimento de 100% num ano. Valeu a pena, pelo menos em termos de estatística: a ideia era pôr o Casteleiro neste mapa. Dos conteúdos, cada um falará. Note que no mesmo período as referências às seguintes terras cresceram como indico: Sabugal – 10%; Soito – 18%; Sortelha – 14%; Aldeia da Ponte – 10%; Aldeia do Bispo – 3%. Isto, para referir apenas as que registei na altura neste mesmo sítio.
Boas Festas para todos.

«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

A camioneta da carreira. O seu motorista. Eis mais duas marcas de água daqueles idos de 1950/60. O Casteleiro, situado na estrada nacional, era ainda assim beneficiado por viagens diárias deste meio de transporte.

Posso garantir que as estradas mais usadas – embora muito pouco usadas, de facto – pelos habitantes do Casteleiro à época seriam, por esta ordem:
– 18-3 (EN 18-3): Teixoso, Caria, Casteleiro, Terreiro das Bruxas;
– EN 233: Terreiro das Bruxas, Santo Estêvão, Sabugal, Pega, Barracão;
– Ramal Quintas do Espinhal-Belmonte.
Ou seja. Os trajectos Casteleiro-Sabugal, Casteleiro-Caria, Casteleiro-Belmonte.
De resto, uma ou outra pessoa, uma vez ou outra ia até à Covilhã ou à Guarda, pouquíssimos iam uma ou duas vezes na vida a Lisboa, talvez apanhando o comboio em Caria ou em Belmonte. E era tudo.
Isso, repito sempre, antes da emigração. Aí as coisas mudaram bastante.
Estou a falar de um tempo em que a acessibilidade das pessoas do Casteleiro às terras próximas era muito, mas muito reduzida e em que a sua capacidade de locomoção era ainda mais limitada.
Exemplo: hoje em 80% das famílias haverá alguém com um carro. As deslocações pareceriam assim mais simples. Mas hoje o problema é outro: é que os idosos estão na terra sozinhos e as famílias, muitas delas, vivem fora. O problema é esse. Naquela altura (anos 50 e 60), ninguém, quase ninguém, tinha carro.
Por isso, a viagem pendular da camioneta da carreira ganhava importância especial.
Trata-se pois de uma época em que para se ir de casa aos terrenos, perto ou longe, os meios ao dispor eram: a caminhada (hoje já quase só com uma dimensão de desporto e saúde, mas, à data, algo bem mais usual e diário, por necessidade mesmo), às vezes em cima da burra, ou, para quem tinha, o carro de vacas. E era tudo.
Para se ir à Vila (hoje Cidade do Sabugal), onde se ia às feiras e onde se tinha mesmo de ir para lidar com o Estado, em sentido lato (a Câmara, as Conservatórias e as Finanças), em geral ia-se na camioneta da carreira:
– Vou na carreira.
A mesma carreira servia para se ir a Caria ou a Belmonte.
Raramente, ia-se de carro de aluguer (táxi).
Nos anos 60 começam a aparecer os carros dos emigrantes e tudo muda a partir daí.

Camioneta Viúva Monteiro - Foto Empresa Viúva Monteiro

O ícon da carreira
Mas este meio de deslocação, a carreira, foi uma marca de água daquelas terras naqueles tempos. Antes de mais, por ser um dos poucos sinais de que havia mais mundo. Mas mais ainda por ser o meio de se poder ir a algum sítio. Por necessidade. O motor de 90% das deslocações, estou convicto, era a necessidade: pagar as contribuições, comprar os remédios nas farmácias – coisas assim obrigatórias.
O mundo terminava onde terminava o circuito da carreira: Belmonte para um lado, Sabugal para o outro.
A carreira passava às tantas, para um lado e para o outro, como um pêndulo, devagar, longas horas de trajecto, de e para o Sabugal, de e para Belmonte.
A viatura, parecida com a da foto, se bem me lembro, era muito antiga, mas raramente avariava.
Era da Empresa de Transportes do Zêzere, creio.
O condutor (motorista) merece aqui uma referência específica: era o Ti’ Saraiva, gordo, de todos conhecido, bonacheirão, simpático, sempre na calma.
O Sr. Saraiva não tinha aquecimento no inverno nem arrefecimento no verão. Quando estavam 2 ou 3 graus era um drama naquelas viagens; quando estavam aqueles dias do diabo do pino do verão, era outro sarilho.
Como era é que era: tudo ao natural.
A hora de chegada da carreira era um momento alto no Terreiro de São Francisco (hoje Largo): muitos de nós, se não estávamos na escola, íamos dar de comer aos olhos – mesmo sabendo que pouco haveria para variar as vistas…
A camioneta da carreira dava para os mais velhitos irem espreitar alguma beldade e para para nós, os pequenitos, treinarmos o skate da época, que funcionava assim: estávamos ali três ou quatro à espreita nos bancos do largo de São Francisco, ninguém se aproximava da viatura, não fosse o Ti’ Saraiva dar conta e estragar a festa. Mal ele arrancava, devagar, devagarinho, zás: corríamos para a escada que a carreira tinha lá atrás e pendurávamo-nos nos banços (degraus). Depois, a camioneta andava um pouco mais depressa e vai de pôr os pezitos na estrada, a arrastar, para tentar saltar antes da curva do Largo do Chafariz, lá em baixo… era cá uma adrenalina…
Ou seja: apanhávamos boleia, pendurando-nos lá atrás e indo uns minutos pendurados, com os pés mais ou menos a arrastar pelo chão. Aliás, não era só com a carreira que apanhávamos essa boleia. Fazíamos isso também com a camioneta do peixe e um ou outro caso de camionistas que por ali paravam.

Recorde as «carreiras» da Viúva Monteiro. Aqui.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

Todas as terras têm aquelas figuras típicas que toda a gente conhece. Na maior parte dos casos por bons motivos. Às vezes, pelas más razões (também acontece). O Casteleiro não foge a essa regra. Trago-lhe aqui alguns desses tipos populares da minha aldeia de há 50 anos, com a minha homenagem a cada um deles.

Muitas pessoas me ficaram gravadas para sempre e recordo-as muitas vezes. Quando se é pequeno parece que as pessoas, os factos, as coisas ganham uma dimensão especial. E ficamos uma vida toda a ver como eram. Estas pessoas são figuras populares, são os nossos heróis de infância.

O médico da terra
O Sr. Narciso (meu tio por afinidade) foi uma das pessoas que mais marcou toda a minha infância, bem antes de ser da família. Foi com ele que sangrei a bom sangrar para arrancar os primeiros dentes. Eu e todos os miúdos. Era ele que nos ia ver a casa quando tínhamos sarampo, febre, dores de garganta, varicela… fosse o que fosse.
Era o curandeiro, o médico, o enfermeiro daquela aldeia. E o amigo de toda a gente.
Era um bom homem. Só para ele é que não. Era um bom malandro.
Bebia tudo o que havia.
Foi também o barbeiro principal da terra durante décadas.
Todos o conhecíamos. Todos gostávamos dele.
Sobre ele, que era de Alfaiates, arraiano de gema, contam-se histórias do arco-da-velha. Uma dessas passa-se em noite escura de breu. O nosso herói andava todo o dia fora de casa e ia a casa só para comer à pressa e regressar à taberna para a mesa de jogo que só largava por uns minutos enquanto comia e à pressa. Pois nessa noite, tinha havido obras e havia um grande buraco no Largo onde morava, mesmo defronte do agora Centro Cultural (na foto). A mulher, que já o conhecia distraído, deixa-lhe um candeeiro à janela (não havia ainda luz eléctrica). Ele, distraído mesmo, foi atraído pelo candeeiro e então é que não viu de facto o buraco e, claro, zás: cai lá dentro sem apelo nem agravo. Teve de ser ajudado para sair de lá. Mas nem isso o interrompeu: comeu, limpou-se e voltou para o Café, que a mesa de jogo não podia arrefecer.
Esta era a personalidade de um homem bom da minha meninice.

A primeira figura dos Carnavais
Nos dias de Carnaval, o t’ Zé Balbino e seu irmão eram únicos. Ainda hoje os recordamos. Travestiam-se, fazendo jus pleno àquela espécie de festa da maluqueira. O chefe daquela orquestra era sempre o t’ Zé Balbino. Quando digo travestir-se era: roupa da mulher, a t’ Mari’Balbina, peitaça enorme (tipo previsão do silicone de hoje), lenço de mulher na cabeça, guarda-chuva bem estragado, com as varetas todas rebentadas, burra (coitada) todo o dia aparelhada e enfeitada a rigor (caldeiros velhos e tal) e a aturar-lhe as malandrices. O homem passava aquele santo dia a passear-se pelas ruas todas da aldeia – provocando risadas bem dispostas de toda a malta. Graúdos e pequenos, todos adoravam.
T’ Zé Balbino acho que merecia uma estátua ao bom humor e ao bom vinho (…), apesar dos apesares – que a vida de então não era nada para grandes alegrias. Mas o pessoal esquecia isso e defendia-se: era para isso que o homem se artilhava e se pavoneava.
Uma verdadeira figura típica. Nunca mais houve outra igual.

O poeta da terra
Neca Pinto: uma figura gravada no nosso imaginário. Filho do comerciante mais bem sucedido da terra, o Neca era um bom-vivant. Um boémio, sempre disposto a uma farra, um paleio com os amigos.
Quando chegou ali pelos 30, achou que tinha de escrever um livro.
E escreveu. E publicou.
Eu tenho um exemplar, com dedicatória. Sou dos poucos que leram o «Nada do Meu Nada», livro de poemas minúsculos como se de uma escola poética miniaturista se tratasse. São cerca de 140 a 150 páginas, com 100 poemas de quatro a cinco linhas cada um (os maiores), com pensamentos do Neca sobre a vida em geral e as suas angústias da época em particular… Uma façanha claro, para a aldeia e para a época. Mas poucas pessoas chegaram a lê-lo…
Contam-se histórias radicais sobre ele.
Um dia, o meu pai vinha da estação da Guarda às 6 horas da manhã e, ao passar na estrada junto do lameiro enorme que existe à saída de Pega, pareceu-lhe ver a carrinha 4 L (Renault) mais famosa da zona: a do Neca.
Parou, foi lá ver. E era. Era mesmo a 4 L dele, ainda a trabalhar e lá dentro duas figuras típicas da minha aldeia: o Neca e outro compincha. Dormiam os dois a sono solto… e as rodas da frente, no ar, a rodar, a rodar…
O Neca ficou-nos a todos os adolescentes como que um herói desaparecido cedo demais.
Outra figura inesquecível dos meus anos de meninice.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

Fim do século XIX na aldeia. Esta é uma história violenta, de bolinha vermelha ao canto do ecrã. Depois de muitas perguntas, muitas dúvidas tiradas com os mais velhos, depois de muitas contas de geração em geração para trás, apurei datas, factos e algum imaginário do Casteleiro de há cento e tal anos. De certeza antes da República.

Como saberá, nos últimos vinte anos antes da implantação da República, houve muita convulsão social em Portugal.
O Casteleiro não escapou a essa situação. Eis um caso sério disso mesmo.
Havia duas facções na aldeia, como em todo o País, pelos vistos: monárquicos de um lado, republicanos do outro. Essa era a regra da cartilha. Mas na minha aldeia, com honestidade, depois de muita conversa com os mais idosos e de muita comparação de dados, não posso afirmar que assim tenha sido. Acho que eram todos monárquicos, como demonstro adiante, embora rivais por outras razões que não essas do alinhamento político em que estamos treinados por toda a escola.
Os chefes de facção (de partido?) eram o Calheiros e o Guerra: de um lado, o sr. Calheiros (julgo que este é que era o Conde Calheiros, título verdadeiro ou não, de que ouvia falar em criança) e o seu filho é que chefiavam o seu partido; do outro, o sr. Manuel José e o ti’ Jaquim Cameira.
Todos monárquicos, julgo. Mas aqui, peço a ajuda do leitor informado. É que, pelo que sei, a família Guerra era monárquica. E como é que o Conde (?) Calheiros ia ser outra coisa? Mas vá lá: admitamos que uns eram republicanos e outros monárquicos… Só que isto não vai lá por manuais: ultrapassa os manuais e os estereótipos…
E já agora repare no tal valor das palavras no linguajar do Povo – deixo aí de propósito o tratamento popular: um, o mais rico, é «senhor» Fulano, o outro, o menos rico, é ti’ (= tio) Beltrano.
A família Calheiros desapareceu toda de repente: a tuberculose não deixou ninguém.
A casa onde a família habitava fora construída no século XVIII: uma boa e ampla construção de granito, muito próxima da igreja.
A família do sr. Manuel José Guerra vivia «em frente», mas pelas traseiras dessa Casa, no edifício mais hoje designado como o «Centro». Mais tarde mudaram-se para a «Quinta». O filho, o Dr. Guerra e a nora, D. Maria do Céu, não tiveram filhos. A fortuna foi sempre gerida pelo Sr. João Rosa.

A campanha foi violenta
Voltando à história da campanha partidária forte: decorria a campanha eleitoral para os deputados da Nação. Conto como ouvi. Tradição oral, portanto. Estaremos no final da década de 1890 ou mesmo nos primeiros anos de 1900. Esta foi uma campanha violenta.
Parece que o episódio que aqui trago foi sempre só meio cochichado, dadas as consequências trágicas que teve.
O filho do sr. Calheiros queria meter os adversários em casa e dominar a rua.
Para tanto, usava apenas isto: uma barra de ferro pesada. O alvo: as cabeças dos adversários políticos.
Uma noite, numa ruela que é mais um beco estreito, a Rua dos Cardadores, altas horas, o ti’ Jaquim Cameira foi agredido com a barra de ferro pelo Calheiros jovem. Mas as coisas correram mal para o lado do Calheiros: o ti’ Jaquim Cameira era possante (como, aliás, o filho, o ti’ António Joaquim Cameira, que, quando se passeava na aldeia imponente no seu cavalo alto, metia todo o respeito do mundo: a miudagem ficava mesmo embasbacada com a cena).
Com a mesma barra de ferro, que lhe tirou das mãos – os dois absolutamente sozinhos na noite escura como breu numa aldeia que dormia dos trabalhos do campo e se preparava para novo dia de labuta muito dura – «deu-lhe umas cacetadas valentes», como se contava na família com orgulho. Mas o resultado foi fatídico: o jovem Calheiros esteve uns meses doente, de cama até, e acabaria por morrer disso. A sorte do ti’ Jaquim Cameira é que não havia viv’alma na rua, não houve testemunhas e tudo não passou de um susto na família…
Hoje, mesmo sem sabermos desta e de outras histórias, nós somos os herdeiros deste Casteleiro de sempre – certo?
Note que daí por 70 ou 75 anos, nas campanhas de 1975 e 76, houve na minha terra muito debate e muita garra – mas nunca nada que se pareça com agressões físicas e menos ainda com mortes… Felizmente!

Nota pessoal
O acima referido ti’ Jaquim Cameira (pai do ti’ António Joaquim Cameira), era tio-avô da minha mãe (meu tio-bisavô, portanto). Mas já não o conheci: só ao filho, um homem imponente, de facto, sempre montado no seu cavalo.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

Grandes notícias na aldeia: a junta tem instalações novas, os chafarizes e outro património foram valorizados, as instituições locais fazem as suas assembleias gerais de fim de ano, uma eleitoral e a outra para aprovação do plano e orçamento para o próximo ano.

É fim do ano e, naturalmente, as assembleias gerais são momentos importantes desta época por todo o País e no Casteleiro também.
No caso do Lar São Salvador, a assembleia é eleitoral. Realiza-se no dia 11, domingo, das 10 às 18 horas.
No Centro de Animação Cultural, onde houve eleições há ano e meio, a assembleia vai realizar-se a 10, às 20 horas, tendo como ponto central da ordem de trabalhos a apresentação, discussão e votação do Orçamento e Plano de Actividades para o ano de 2012.
Registo com especial carinho o facto de a Junta ter decidido valorizar o nosso património, iluminando as fontes e uma das capelas que estava mais às escuras: «Com o objectivo de valorização do património edificado da aldeia, a Junta de Freguesia procedeu à instalação de um sistema de iluminação em todas as fontes e ainda na Capela do Reduto».
Quanto à vitória recente da Junta de Freguesia, resumo-a numa frase:
– Parabéns, Tó Zé (António José Marques) e restante equipa: cumpriram o sonho de muitos de nós desde tempos imemoriais.
Ou seja: a JF adquiriu as suas próprias instalações, deixando de ser hóspede seja do Centro, seja da antiga escola masculina seja de terceiros.
No Largo de São Francisco, bem no centro da terra, na antiga casa dos Mourinha, vai ser a nova sede da Junta, depois de obras necessárias de reabilitação.
Mas vai ser uma sede digna e bem central.
Toda a gente fica satisfeita com esta aquisição, certamente.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

Os cheiros na aldeia – em qualquer aldeia de Portugal, tenho a certeza –, naqueles anos 50 e 60, são um elemento definidor de ambientes e de vivências. E marcam para toda a vida.

Na aldeia da minha infância, há cheiros bons, inesquecivelmente bons, que, de facto, me ficaram para toda a vida. Exemplos: o do micro-ambiente da tarimba, de que falarei adiante, ou o dos lençóis de linho fino e puro.
E há cheiros maus. Hoje vejo-os, imagino-os, de certeza, piores do que os sentia na altura: o cheiro terá uma dimensão cultural?
Pois: de facto, como é possível que na altura não dimensionasse como péssimo o cheiro geral de uma aldeia sem saneamento? E onde os currais (pocilgas) ficam mesmo dentro da aldeia, praticamente dentro das casas – quando não era mesmo dentro delas, nas lojas? E, no entanto, por mais esforço que faça, não «sinto» que, na altura, tenha sentido como péssimo esse ambiente «odórico». Se calhar, na altura, isso parecia-me inevitavelmente normal para a situação.
Mas era assim.
O saneamento, com a construção de fossas, começou nos anos 60. E só muito depois chegaram os esgotos.
Já agora: a luz eléctrica chegou à aldeia em 1955 ou 56, creio.
A água canalizada, em 60 e tal.
A televisão, talvez em 1960.

Bons cheiros: cheirinhos para uma vida!
Há cheiros bons. E é mais desses que me apetece falar aqui.
Por exemplo, repito, o da tarimba. Sabe o que é a tarimba? Não sabe o que perde.
É a cama onde se dorme na palheira das vacas – ou seja: no estábulo. Logo à entrada, lá estava, à esquerda, essa tal «tarimba». As vacas e a burra, ao longo da manjedoura, do lado direito, a todo o comprimento do estábulo.
Cheirava a palha e cheirava a feno.
Por cima, o «parame»: o sótão onde se guardava para o Inverno a comida para o gado: imagens eternas, estas da minha infância…
Quem estiver a ler, e desconheça estas realidades, está a pensar – e bem:
– Grandes porcos! Então punham o garoto a dormir no estábulo?
É verdade. E nem imagina que bom que era. Nada ali cheirava só ao que você pensa que cheira um «estábulo». Mas devia cheirar «mal», claro, pelo menos pelos parâmetros de 2011. Tudo cheirava intensamente e a mistura dava um cheiro bom. O bafo das vacas e a sua baba ia caindo na palha seca e davam aquele odorzinho especial…
Os meus tios acolhiam-me nesta tarimba sempre como se fosse uma festa. Lembro-me tão bem.
Quando a minha mãe me deixava, o que era raro, lá estava eu caído na «tarimba».
Ficou até hoje essa sensação de céu na terra.
Quis concentrar-me e fazer um grande esforço para descrever este cheirinho da «tarimba». Mas não é fácil. Ficam-lhe aí os elementos todos: imagine-o você – como diz o Poeta…

E o cheiro da “bobrais”?
É que a isto tudo juntava-se outro cheiro tão bom! Era o cheirinho da «bobrais».
A palavra certa será aboboragem»? Não sei explicar nem se existe a palavra nem de onde vem nem como se escreverá de facto. Mas não me enganarei muito se pensar que vem de abóbora.
Mas eu explico o que é a «bobrais»: é o preparado especial de comida para os animais de grande porte: as vacas e a burra, no caso. É feita ao lume – o caldeiro (balde) grande pendurado nas cadeias, uma espécie de trança feita de arame grosso, que desce do tecto e vem até ao lume.
É nas cadeias que se penduram as vasilhas em que se aquecem coisas como água e comida para o «vivo» (o gado).
Pois a «bobrais» é uma mistura de produtos da terra e farelo que vai cozendo em água a ferver e dá aquele cheiro inesquecível também…
Leva nabos, couves, batatas, abóbora (cá está: a abóbora que deve ter dado a «aboboragem – e daí até à bobrais é apenas um passo de elipses populares do linguajar desenrascado deste povo. Mas ninguém sequer chamava abóbora à coisa. Era só a «botelha», claro). Mas havia mais: a «bobrais» também levava ainda maçãs e farelo, pelo menos. Portanto um alimento muito rico para os animais. Aquilo é que era agro-pecuária biológica, hein! E o cheirinho? Huuummm!! Que bom!
Finalmente, outro cheiro bom: o dos lençóis de linho que, no inverno, ao entrar na cama eram frios como gelo, mas, passados cinco minutos… «hummmm!», que bom – e que cheirinho!
Só lhe digo: não há cheiro nenhum de hoje que possa apagar estas reminiscências da nossa infância.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

Há dias entram-me pela casa dentro uns miúdos a pedir o «Pão Por Deus». Isso fez-me lembrar que no Casteleiro, quando eu tinha a idade deles, se pedia o «Santoro» (o dia 1 de Novembro é o Dia dos Santos, de Todos os Santos, «Sanctorum», em latim – vem daí). Esse e outros momentos levaram-me a pensar nos jogos de infância. Quando era pequeno, a que jogávamos nós?

Ponho-me a olhar para trás. As imagens são muito claras, mas não muito diversificadas. Os jogos da nossa meninice eram um bocado monótonos. Mas tem piada que na altura achava-lhes piada. Deixo aqui alguns exemplos de jogos: uns masculinos, outros femininos.

Futebol
A loucura. Podia andar seis ou sete horas seguidas a jogar com a malta. Qual comer, qual quê? Sempre a abrir.

Ao pião
Jogar ao pião. Toda a gente sabe: enrolar bem a baraça, soltar o pião com muita garra e acertar no do adversário ou simplesmente deixá-lo rodopiar o «mais tempo» possível.

À chôna
Jogar à chôna (leia tchôna). Duas pedras com intervalo no meio, um pau pequeno em cima das duas, uma «belharda» (pau grande), levantar a chona e… zás: trancada na chona no ar para o mais longe possível. A distância mede-se em bilhardas.

Andar «de» arco
Assim mesmo: andar «de» arco. Esse era um desporto bem popular: uma roda feita de arame ou ferro miúdo, bem redondinha é o arco e uma gancha para impulsionar o arco – e já está… Correr com aquele «zingarelho», o mais rápido possível: era esse o objectivo.

Às escondidas
«Jogar às escondidas». Não tinha nada que saber: um de nós, à vez e conforme o resultado do jogo anterior, punha-se de «pivot», cabeça baixa sobre uma esquina de casa ou um banco do Terreiro de São Francisco. Dava o grito de guerra e os outros, ala que se faz tarde: toca a esconder por ali. Uns segundos para a operação de esconder. O «pivot» desatava logo à procura e ganhava quando os encontrasse a todos… Às vezes andava horas seguidas nisto, ali, num olival ao pé de casa!

À brôcha
(Leia: «À brôtcha»: jogar à brôtcha.)
Um coloca-se de cara escondida e de mão no rabo (palma para cima, de modo a poder ser massacrada). Os outros, um deles e só um de cada vez, vão-lhe mandando uma palmada a sério. Aleijava mesmo. Tratava-se de descobrir quem é que tinha batido, por entre os risinhos mal contidos, tanto mais fungados quanto mais dura tinha sido a palmada. Mas em geral era jogado em silêncio: para camuflar o autor da palmada…

Dos jogos femininos, lembro estes três exemplos:

A cantarinha
As miúdas punham-se todas em fila, de costas umas para as outras e iam andando e atirando para a parceira de trás um vaso (uma cantarinha: um pequeno cântaro de barro – já nem sei se com ou sem água. Mas sei que, sendo de barro, era naturalmente um objecto muito frágil que não aguentava a queda – se a houvesse –, e havia tantas…).

O anel
Põem-se todas numa roda, sentadas, mas viradas para dentro. Estendem as mãos em concha. Uma vai andando por dentro, com o anel nas mãos justapostas e passa com as suas mãos por dentro das mãos de cada uma. Num par de mãos deixou o anel. Pára. Pergunta a uma ao acaso: «Onde está o anel». Acerta, vai ela para o centro. Não acerta: a outra continua.

O lenço
Muito semelhante ao jogo do anel, também sentadas. Mas a que tem o lenço nas mãos e o vai deixar circula por fora da roda e deixa-o atrás de uma. O resto é igual.

O descanso
Um desenho de quadrados no chão, todos interligados. As jogadoras tinham de saltar de forma seguida ou interpolada – com regras que nunca foram claras para mim…

Na altura, isto divertia-nos. Pelo menos não nos lembramos de andarmos chateados. Até por falta de termo de comparação.
É hoje que, ao olhar para trás, isto me parece uma grande pasmaceira… Mas isso é agora, com as consolas, e toda esta parafernália empobrecedora de espíritos…
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

Que há ouro na nossa zona, não duvidem. Não dará para exploração rentável, mas que o há, há. Trago-lhes aqui hoje uma história documentada de burla, ouro e bruxaria que meteu Inquisição e tudo…

Hoje, ao abrir o jornal «Público» e ao ver na página 8 o mapa de Portugal onde estão indicadas as zonas em que há minérios e quais, eis que dou com uma confirmação: aqui na nossa região, mesmo sem valor económico hoje, há mesmo alguns minérios. Designadamente: urânio, estanho e volfrâmio, pelo menos.
Nada de novo, apenas a confirmação.
No Casteleiro, isso sabe-se desde os anos 40 do século XX, como já escrevi.
Mas essa recordação que o jornal nos trouxe hoje, levou-me, há meia hora atrás, neste domingo de algum sol e muito frio, a uma pesquisa no Google para as palavras «Casteleiro / urânio / ouro».
E eis que dou de frente com um documento antigo que lhe mostro hoje aqui e em que se conta uma história mirabolante que mete fraude contra todo um povo, promessas de «El Dorados», ouro, Inquisição e rezas e curas marginais naquele «dito lugar de Casteleiro, termo de Sortelha», de há quase 300 anos.
É um documento espantoso. Conta uma história à moda do século XVIII. O documento é de 1723 e tem a designação de «Denúncia dos habitantes do lugar de Casteleiro, termo de Sortelha, contra José Bernardo» (clique aqui para ver o documento), do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.
A estória, conto-a em poucas linhas:
– José Bernardo é o acusado.
– Os acusadores são alguns habitantes do Casteleiro.
– O relatório é, presumo, de um funcionário da Santa Casa da Misericórdia de Castelo Branco que terá sido enviado para investigar a denúncia.
– A acusação consiste em dois crimes. Um que ainda se mantém hoje como crime e que se traduzia numa fraude: esse tal José Bernardo andou durante três ou quatro meses a prometer mundos e fundos ao povo deste «dito lugar» para que procurasse ouro por estas serranias. Uma miragem, pelos vistos. Cavaram, escavaram, «derribaram» penedos por todo o lado e do ouro, nada. Até que o denunciaram. Provavelmente nem ouro nem pagamento do trabalho escravo que fizeram.
– A outra acusação é mais à moda da época. Claro que uma personagem destas tinha de ser também meio bruxo. E acusavam-no de duas coisas basicamente: de, com palavras tentar curar os doentes (bruxaria, portanto); e de, com ferros em brasa, fazer experiências (suponho que em seres humanos).
Resta dizer que esta acusação era dirigida à Inquisição – ou, de forma mais doce: ao Tribunal do Santo Ofício.
Tudo, em 1723. Hoje, no Casteleiro, não há nem ouro nem bruxas – que eu saiba. Mas naquele tempo, sendo ali mesmo perto o Terreiro das Bruxas (se é que já existia), sei lá.
Mas continuo convencido de que esse tal José Bernardo não era dali. Algum arrivista. Mais um. É que o autor do documento não diz se o acusado também era do «dito lugar de Casteleiro, termo de Sortelha, comarca de Castelo Branco».
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

O Casteleiro é / era uma terra rica? As famílias viviam todas bem naqueles anos 50? Não. Mas conheço terras onde havia maior percentagem de pobres muito pobres e bem menos famílias a viverem bastante bem. Agora dizermos que se vivia bem, não. Se não, não tinha havido tanta fuga para a emigração. Nem tanta migração para outras zonas do País.

Na minha aldeia, aliás, sempre houve emigração. Nos anos 20, duas ou três pessoas foram para a Argentina. Depois, nos anos 40 e sobretudo «nos» 50, sazonalmente iam trabalhar para o Ribatejo e para o Alentejo. Muita juventude «fugiu» sempre para Lisboa – e por cá se organizou a vida toda. Alguns, para Angola; poucos, para Moçambique. Mas o «boom» mesmo foi nos anos 60. Do Casteleiro, como de todo o interior Centro e Norte, para a Suíça e Alemanha, mas sobretudo para a França, saíram pessoas aos milhares. Tudo o que era gente jovem, rapazes e homens até aos 40… fronteira, a «salto», e ala que se faz tarde. Sofreram, trabalharam, foram escravizados. Mas singraram. Melhoraram a vida deles e das famílias – muitas das quais depois se juntaram aos pais. De caminho, meia dúzia de pessoas foram ainda para o Canadá nessa mesma época.
Falo da emigração apenas para referir a vida difícil e para concluir uma coisa: se havia tanta ocupação em artes, ofícios, agro-pecuárias, agro-indústrias… se isso fosse rentável, as pessoas não tinham fugido para as Franças…

Pagamento em espécie e maquia
Claro: muitas destas ocupações que aqui trago hoje eram de subsistência. Não davam dinheiro. A maior parte das pessoas pagava em géneros: um pouco de batatas, umas cebolas, uma parte do produto agrícola em causa – e estava pago.
Falo, neste caso, do que se designava por «maquia»: pagamento com farinha por ter sido moído o centeio, por exemplo. Era a maquia: a parcela que ficava na moagem, nesse caso.
Mas muitas outras tarefas e serviços eram pagos assim.
Por exemplo: o nosso barbeiro mais famoso, o ti’ Nàciso (o Sr. Narciso, aliás oriundo de Alfaiates), também era uma espécie de enfermeiro e quase médico. Pois os seus serviços nessa área eram pagos em géneros, muitas vezes. Ou porque ele queria ou porque as pessoas não tinham mais nada para pagar.
Era uma economia muito de trocas directas, embora se vendessem produtos: muita batata, milho, centeio, azeite e vinho com seus derivados – aguardente, agua-pé e jeropiga; depois veio a era dos pomares e vendia-se muita fruta; vendia-se algum trigo, alguma castanha (há mais é nas terras mais frias do que o Casteleiro); vendia-se madeira, melancia nas feiras das redondezas. E pouco mais. Nos anos 40 vendeu-se imenso minério pois a aldeia tem muito (volfrâmio e estanho, segundo dizem).

Artes e ofícios, indústrias e artesanatos
Sempre houve ocupações diversificadas nesta terra. Havia uma moagem, vários pedreiros, alfaiates, sapateiros (três), costureiras/modistas – mas cada mãe era a costureira da sua própria casa, não esquecer. Muitas mulheres davam ao fuso da roca no trabalho do linho (fiar, chamava-se). Havia duas ou três tecedeiras – tecelãs –, para trabalharem o linho já pronto para fazer tecido e depois vestuário ou roupas de cama etc..
Havia quem preparasse as tiras de tecidos para fazer as mantas de farrapos, que eram encomendadas aos farrapeiros que vinham de fora. Do Dominguiso, penso.
Havia então uma moagem e havia dois fornos.
Havia ferreiros, latoeiros. Havia carpinteiros. Mas os «artistas» (!) eram os da pequeníssima «construção civil»:
– Amanhã trago cá um artista a fazer a parede.
Havia um sector de transportes (táxi, carrinhas, camionetas).
Mas, por exemplo, não havia tractores para alugar: apenas duas ou três famílias tinham tractor e era nesse tempo para seu serviço.
No campo das agro-indústrias e do agro-artesanato, honra seja feita ao Casteleiro que sempre teve muitas unidades dessas áreas. Aliás, isso não era novo no século XX: já em meados do século XVIII havia «sete moinhos e três lagares de azeite, dois pizoins e algum dia teve também um tinte, porém hoje se acha demolido» – como dizia o tal Padre Leal no relatório ao Marquês. Ele fala de lagares à beira da ribeira. Eram os de azeite. Duzentos anos depois, no meio do século XX havia pelo menos três ainda.
Falta dizer que muitas casas tinham também lagares de vinho. Mas muita gente o fazia em dornas, como se sabe.
Na minha meninice, havia três a quatro comerciantes estabelecidos (tabernas e lojas do tipo mini-mercado com comidas e tecidos) e havia mais uns três que compravam e transportavam produtos da terra ou madeiras.

Fabriquetas
Nos anos 40, como já escrevi há tempos, houve no Casteleiro uma «separadora» de minério. Eram uns «fornos» de alta temperatura para o volfrâmio e outros metais recolhidos nas ribeiras e linhas de água no meio das serras.
Nas «Memórias Paroquiais», que já acima referi, o Cura Manuel Pires Leal fala então muitas formas de artesanato, como transcrevo.
Esclareço que um pisão (os tais «pizoins» do Padre Leal) é uma fabriqueta em que o pano era compactado, para ficar mais consistente e tapado. E o tinte era afinal uma tinturaria – no local ainda agora chamado Tinte por essa razão, tinturaria essa que já não existia em 1758.
Mas como se vê o Casteleiro mexia muito. E havia bastantes artes e ofícios e muito quem fizesse outras actividades complementares que não apenas o cultivo agrícola.
Ah! E queijos de toda a espécie: de leite de vaca, cabra, ovelha.
Fresco ou curado.
E requeijão.
E coalhada.
E soro.
Eh, pá. Que delícia…
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

Uma coisa são as quintas que rodeiam o Casteleiro e de que hoje aqui falo e outra os lugares muito famosos de boa produção agrícola em torno da aldeia: a Ribeira da Cal, os Lagares, a Serra, as Cruzes, a Estrada – esses são bons locais de cultivo e muito famosos. Mas não eram habitados. Nas quintas, além de boa agricultura, havia e há casas com gente dentro…

Trago hoje aqui uma referência a lugarejos habitados e cultivados que faziam boa parte da riqueza agrícola da minha aldeia. Hoje ainda têm gente, mas a agricultura intensiva já foi. Estamos na era do quanto menos melhor – ou quase isso.

Gralhais
As quintas de Gralhais distam do Casteleiro uns 10 km, se não me engano. Hoje vai-se de carro. Mas de há 10 anos para trás, nem pensar. Ia-se a pé, levavam-se os burros e os carros de vacas e nada mais. No Casteleiro nunca houve muitas carroças. Duas ou três. E não tenho a ideia de que alguém com carroça fosse até Gralhais. Esta quinta fica no extremo da nossa freguesia em direcção aos e confina com a Benquerença e os Três Povos.
Era uma área de terrenos cultiváveis e muito produtivos. Tenho a ideia de que desde o centeio ao milho, das melancias ao tomate ali havia de tudo em grandes quantidades. Ah, e o vinho e o azeite: muito e bom. E água sempre abundante para regar tudo.

Vila Mimosa
A quinta a que sempre se chamou Vila Mimosa fica mesmo à saída do Casteleiro, na direcção de Caria, um pouco desviada da estrada nacional (500 metros). O Dr. Joaquim Guerra e a Dona Maria do Céu foram a geração de que me lembro e que deram vida a esta unidade agro-industrial (tinham lavoura farta, lagares de azeite e lagares de vinho de grande nomeada).

Quintas do Anascer
Esta anexa sempre foi muito marginal e se calhar marginalizada. Algumas famílias ali fazem (faziam) a sua vida agrícola. Do Casteleiro também alguns proprietários se deslocavam para o Anascer duas a três vezes por semana para cultivarem os seus longínquos terrenos, mas bastante férteis.

Valverdinho
É a quinta mais afastada em direcção a Caria. Tínhamos muito pouco contacto com Valverdinho. O que mais se sabia era que meia dúzia de pessoas ali davam o seu contributo para que os terrenos e os gados vingassem.

Carrola
Não será bem uma quinta, acho eu. É mais uma espécie de pequenino agregado, com meia dúzia de casas habitadas e com terrenos bem férteis e muito bem tratados. Ainda hoje perduram essas casas habitadas – o que dá a ideia da força daquelas famílias. Tenho ali bons amigos de toda a vida que devo elogiar.

Santo Amaro
Deixo para o fim uns apontamentos sobre a Quinta e o Morgado de Santo Amaro, cujo brasão se publica. Cresci convencido de que o Dr. Eduardo Tavares de Melo da Costa Lobo era descendente do Marquês de Pombal (Sebastião José de Carvalho e Melo). Hoje, não consigo afirmá-lo. Por várias vezes tentei confirmar ou infirmar essa convicção. Sem sucesso. Fica o registo.
Sobre o Morgado, há que dizer pelo menos que na sua Quinta muita gente do Casteleiro trabalhou, sempre com ordenados baixinhos, como era norma nessa época. Mas dava trabalho. Na rega, nas ceifas, na azeitona, nas sementeiras, no cultivo, em geral. Cereais e milho «eram mato» por aquelas bandas. Uma zona de muita, muita água. Havia sempre uma dezena de trabalhadores do Casteleiro na Quinta de Santo Amaro. Que nesse tempo era enorme. Hoje, reduzida a um terço, ainda é muito grande: vai da Ribeira da Cal até à Catraia.
A pessoa do Morgado era, segundo dizem, divertida. Imagino que fosse um grande «bon vivant». E eventualmente, aquilo que nos anos 70 chamaríamos um «play boy».
Em 1905 compra um carro que era muito moderno para a altura. E meteu-se na máquina, viajou por essa Europa fora. Tinha a carta nº 1 do Automóvel Clube de Portugal (as cartas nesse tempo eram reconhecidas pelo ACP).
Depois de quase 2 000 km, chega à Bélgica e… passa para a Flandres. Na outra parte da Bélgica, como se falava e fala francês, ele ainda se desenrascava. Mas depois, quando chegou à região onde lhe falavam flamengo… veio-se embora. Mais tarde, a contar por que é que se veio embora, sai-se com esta para um amigo:
– Vim-me embora porque pensei cá para mim: «Aqui me ladram, além me mordem».
Assim era a personalidade de Tavares de Melo, o Morgado de Santo Amaro.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

Os nomes dados pelo Povo aos locais e às ruas são uma parte significativa da nossa memória. Até porque as palavras usadas saem directas da naturalidade popular. Mais tarde, vem a toponímia oficial que, muitas vezes, felizmente, até respeita a tradicional. É assim no Casteleiro e é assim no mundo todo. Sei que hoje isto é muito virado para a terra-mãe e pouco vai interessar a outros «co-bloggers» e leitores sabugalenses… mas quero fazer esta deriva e fugir das economias, que mais tarde retomo com o cereal, o azeite e o linho, pelo menos. Hoje: prioridade aos nomes dos sítios…

Se nos dizem que Fulano mora na Rua do Poço, ninguém duvida de que ali há ou houve mesmo um poço. A verdade acima de tudo também nos topónimos tradicionais. Sabemos isso muito bem.
Venho rememorar algumas destas designações de locais e ruas, porque faz bem à alma: só por isso.
Primeiro os lugarejos em volta e os sítios da minha aldeia. Depois os «bairros» (palavra que ninguém ali usa) e algumas ruas. Nalguns casos com explicação adicional por necessária, noutros em singelo, porque as palavras falam clarinho…

Os lugarejos envolventes
É interessante ver que o Casteleiro está rodeado de anexas e lugarejos desde há séculos.
Em meados do século XVIII, o Cura Leal, pároco desta terra, nas respostas ao Marquês de Pombal, citou pelo menos a Ribeira, Vale de Castelões (eventualmente os construtores dos castros pré-históricos que, dizem, por lá existem).
E ainda: o Tinte (onde dantes havia uma tinturaria – cultivava-se muito linho para aquelas bandas e faziam-se os tecidos), Cantargalo e Gralhais (terra de gralhas?).
Interessante que esses locais ficam todos para Sul e Sueste. Para Norte e Nordeste, ele não parecia conhecer tão bem a aldeia. Um enigma que não consegui até agora decifrar mas que se mete comigo desde que li aqueles documentos das «Memórias Paroquiais do Casteleiro».
Há para esses lados esquecidos pelo Padre locais como a Várzea, a Ponte (já havia ponte naquele tempo), a Malhadinha ou o Fojo.
Há ainda a Ribeira da Cal, a Carrola, a Estrada (caminho antigo, que ligava a Caria mas pelas Cruzes e pelos terrenos designados mesmo por «Estrada»).
Há as Alvercas, o Poio ou o Marineto.
Há a Quinta, mesmo à saída do Povo, há a Quinta do Morgado de Santo Amaro e há ainda Valverdinho.

Os sítios (bairros) do Casteleiro
A Estalagem é o bairro à saída para as Cruzes e a Estrada.
Escola Nova era e é o bairro lá em cima, à saída para Caria.
O Baturel é junto do que hoje é o Centro Cultural.
O Ribeirinho é mais abaixo, da Praça para o Cemitério.
A Carreirinha é lá para baixo, ao pé da Vinha.
O Carreçal (Carriçal) fica lá para a saída para a Ponte.
As «lajas» (lajes) eram pontos de referência: «Fica ali para os lados da Laja tal» – e estava o sítio mais do que identificado…

Largos e ruas
Largos, eram muitos: o Largo de São Francisco, o principal da terra, o Largo do Chafariz, o Terreiro da Fonte, a Estalais (= Estalagem: é o nome do bairro, mas também o nome daquele largo), o Reduto (porque muito fechado – dantes as touraditas eram feitas aí), o Largo da Igreja e a Praça.
Quanto às ruas, a maioria tinha o nome de um ou dois moradores… Mas havia (há) topónimos arreigados: a Rua Direita, a Estrada (Nacional 18-3), a Quelha do Medo, a Rua do Cemitério, a Rua do Forno – julgo que eram e são as principais.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

Nos anos 50 e 60, quando no Casteleiro ainda se cultivava qualquer «chãozinho» que a família tivesse, a água desempenhou um papel económico central. Era fonte de vida humana: directa (bebia-se) e indirectamente (com ela se alimentavam os animais domésticos e se regavam as produções agrícolas). Por causa da água se vivia e se morria (sem exageros).

Antes de mais, há que dizer que a água no Casteleiro sempre foi um bem muito escasso, excepção feita para a Ribeira e suas margens. Hoje ainda mais – mas há pelo menos dois factores que reduzem o impacto real desse facto sobre a vida das pessoas: primeiro porque há abastecimento público de água canalizada em todas as casas desde há muitos anos (os miúdos de hoje já nem imaginam o que seja ir de cântaro à fonte buscar água); e depois porque o cultivo de terrenos hoje é mínimo.
Dantes não era assim.
As fontes, os poços, as charcas, a ribeira, os regatos, as presas (represas)… fosse o que fosse, se tivesse água, era um filão.
Os modos de extrair a água da Natureza não são muito diversificados: vão apenas do cântaro ou qualquer outra vasilha quando se apanha directamente, até à «burra» (picota) ou à nora, esta puxada por burros ou por vacas.
Acho que a maior parte das pessoas – por não terem burro nem vaca – tirava a água da ribeira ou dos poços com a tal «burra», mas a maior parte da terra seria regada na base da água tirada com nora (porque, claro, cada proprietário de burro ou de vacas teria muito mais terra do que os outros).
Nas meias encostas, a presa era a safa: era só abrir e a água – se a havia – vinha por aí abaixo.
Toda a alimentação humana se baseia na água. Toda a higiene humana se faz à base de água.
Os animais domésticos dependiam da água, fossem os de companhia, fossem os de criação para matar e servirem de alimento.
Daí, a importância da água em todas as horas de todos os dias.
«Regar à adua» era quando os vizinhos de uma presa ou de um poço, em geral por razões de herança, tinham de partilhar entre si a água para regar as suas produções agrícolas.
Resumindo: a água esteve presente de forma bem vincada e sempre falada pelos adultos em toda a minha infância. Ou faltava ou era tão pouca que as culturas chegavam a ser regadas aos bocados, uma parcela em cada manhã ou em cada tarde. Isso constituiu sempre uma grande preocupação das pessoas que se referiam ao assunto com grande angústia, se bem interpreto hoje a coisa.
Ali por alturas de Junho-Julho, quando o calor começava a apertar e as culturas a secar desalmadamente, portanto quando a terra cultivada precisava mais da água – era exactamente quando a água começava a rarear nos poços e nos regos e se tornava preocupação constante e sem solução.
Assim era a vida angustiada de muita gente na minha aldeia nesses tempos duros e complicados – para não dizer desumanos.

Água radioactiva
Marginalmente, vou referir um aspecto que podia ter transformado para melhor toda a vida de muitas pessoas do Casteleiro – mas que deu em nada, ou por burla ou por desleixo.
Tem a ver com a história das Águas Radium.
Foi um caso que aconteceu antes de eu nascer.
Toda a zona do chamado «Marneto» (Marineto), que se localiza nas costas da Serra da Bica e que do nosso lado nós já chamamos impropriamente Serra da Vila, tem água com o mesmo tipo de composição química, mesmo que menos acentuada. Ou seja: trata-se da mesma serra que, do lado da Azenha e da Quarta-Feira, tem urânio em dose apreciável ao ponto de os ingleses ali terem aberto e gerido a célebre Mina da Bica (mais tarde fechada por razões de pouco interesse económico e, depois, por causa do perigo de contaminação). Desse lado, a composição química da água permitiu a abertura da exploração de águas radioactivas pelos espanhóis e depois pelos ingleses com a criação do grande Hotel cuja ruína ainda ali permanece a enfeitar a serrania, para nossa miragem saudosa.
Na mesma serra, do lado do Casteleiro, as águas têm urânio mas não em quantidades que as tornassem economicamente dignas de exploração. Para muita gente, prova disso é o número de pessoas que no Casteleiro tinham problemas de estômago, talvez mesmo o que hoje se chama cancro.
A composição química das águas é ligeiramente parecida à das da Serra da Pena.
Tanto é assim, que os ingleses terão chegado a estabelecer contratos de exploração com alguns proprietários para que os camiões ali viessem encher – os engarrafamentos eram sempre feitos na Serra da Pena. Esta água tinha nessa altura muita saída e a quantidade existente lá não chegava para as vendas em Castelo Branco e em toda a região.
Mas o negócio nunca deu em nada: por um lado, os ingleses eram de más contas e, por outro, o negócio das Águas Rádium foi abaixo muito cedo.
Uma oportunidade histórica perdida para muitas famílias do Casteleiro.

Nota final
Ironicamente, quando o sistema de rega da Cova da Beira chega, com o canal que atravessa hoje uma parte do Casteleiro… já não há ninguém para cultivar e precisar do canal para regar…
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

Na semana passada escrevi sobre a produção de batata no Casteleiro. Hoje, sobre o azeite. Mas nada que se compare: enquanto quase todas as famílias cultivavam as suas batatas, poucas eram as que supriam as suas necessidades em azeite.

Haverá ainda oliveiras centenárias no Casteleiro. Mas com o tratamento que hoje levam, se ainda as há, não vão durar muito. Isso é pena.
Esta impressionante árvore dá um fruto, a azeitona, de que sai um óleo especialmente apreciado na economia local: o azeite.
Este fruto bem mediterrânico, a azeitona, vem dessa bela árvore chamada oliveira, trazida do Médio Oriente sabe-se lá quando e como e por quem. Mas seguramente há muitos séculos. Podem e devem ter sido os romanos, mas também os árabes e os judeus: há muitas em todas as suas terras (Roma, mas, antes de mais Egipto oriental e, sobretudo, Palestina, incluindo o local onde hoje fica Israel – a Bíblia não me deixa inventar nada: está tudo pejado das respeitadas oliveiras).
Ter oliveiras, ter azeite – são marcas de estirpe elevada: mais elevada ou menos, consoante a produção final e o modo de colheita, ou seja, contam para essa classificação: o número de oliveiras, a sua localização, se eram colhidas pelos próprios com ou sem ajuda de familiares e amigos, ou se a colheita era simplesmente efectuada como trabalho assalariado…
Era também por esses limites que se sabia se essa família era remediada, abastada ou mesmo rica – ponto final.
Só hoje, a grande distância, vejo que era assim. Na época (anos 50, é deles que falo), tudo me parecia natural e normal. E, se calhar, assim era…
Ou seja: se calhar, Deus e a Pátria queriam isso assim mesmo e assim é que estava certinho.

Azeite: fundamental na economia
Ironias à parte: o azeite é fundamental. É uma gordura que acompanha toda a vida da pessoa:
– com azeite se tempera a comida,
– com azeite se conservam os enchidos,
– é o azeite que serve para fritar as batatinhas que assim ficam tão saborosas,
– a própria azeitona, como fruto, é um bom condimento – apeguilha mesmo bem…
– etc. etc..
Famílias menos beneficiadas esperavam sempre azeite sobrante dos fritos ou da conserva dos enchidos para suprirem as suas próprias necessidades.
Mas o azeite foi importante não só na alimentação:
– com as borras do azeite e potassa, fazia-se sabão para lavar aquelas grandes quantidades de roupa na ribeira e deixá-la lá a tarde toda a corar;
– e com azeite se untavam as fechaduras das portas para não rangerem tanto – fazia de óleo à época.
Sabemos que em épocas mais recuadas se alumiavam as casas com azeite (eu já só apanho isso em meia dúzia de casas: o petróleo já tinha entrado nas vidas locais).
Mas lembro-me muito bem de as pessoas terem a tarefa de pôr azeite nas luminárias dos altares na igreja ao santinho da sua devoção: aqui o azeite é um elemento do ritual.
Da importância da colheita da azeitona e do fabrico de azeite falam antes de mais os três lagares que chegou a haver no Casteleiro. Lagares de azeite que, já no século XVIII, eram três. Portanto, a coisa vem de longe…
E constou sempre na minha meninice que o nosso azeite era do melhor da região toda.

Qualidade de vida
O azeite é, pois, sinal de mais qualidade de vida.
Sem azeite, a vida era mais triste, menos saborosa.
Muitas famílias, por não terem oliveiras suas, arrendavam terrenos de oliveiras. Por baixo das oliveiras semeavam batatas e legumes. Mas lembro-me de que, da sua colheita de azeite, tinham de dar uma parte ao dono do terreno como forma de pagamento de rendas.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

Hoje vou «falar» de – imagine – batatas. Não de batatas como realidade gastronómica. Não: a batata como um ente importante da economia regional. Cresci a ouvir falar de três tipos de batata, conforme a origem da semente: a) batata de Montalegre; b) batata «rambana»; c) batata «ranconse».

É sabido como nesse tempo dos anos 50 a batata assumia proporções de grande consumo e portanto de grande produção no Casteleiro e arredores. Eram leiras e leiras, terras baixas e meias encostas: onde houvesse água para as regar, vai de cavar, cavar, cavar ou lavrar (alguns mais abastados) e vai de encher tudo de batata.
Essas grandes quantidades davam para dois objectivos centrais: 1º – comer batata todo o ano lá em casa; 2º – vender a que se podia e juntar alguns escudos para… produzir mais batata no ano agrícola seguinte.
As melhores batatas, sempre ouvi dizer, eram exactamente as de Montalegre e, claro, a «estrangeira»: a «ranconse» e a «rambana».
Ouvia estas duas últimas palavras como se fossem adjectivos anexados ao substantivo batata e sempre se meteu comigo o facto de não me parecerem palavras nossas.
Mas, quando se é pequeno, isso fica entre nós e os nossos botões.
Assim sucedeu comigo até que, ali pelos 14 ou 15 anos (sei que já tinha Inglês), no armazém do Sr. Tó Pinto, que por acaso era na parte de baixo da casa do meu bisavô Pedro, um dia vejo algo que me fez luz no cérebro naquela exacta zona dos neurónios onde as sinapses ligavam então os conceitos de batata e de «ranconse». O que vi nessa tarde? Coisa simples: uma saca de serapilheira cheia de batata (eram às centenas, lá) com esta inscrição a preto sumido: «Arran-Consul».
Fez-se luz.
Nunca vi o nosso Povo enrascado com palavras ou com modos de falar. Isso, sempre me impressionou quando, depois da adolescência, comecei a tomar consciência dos processos evolutivos da língua, mesmo que por caminhos ínvios.
Se não vejam: arran-consul deu ranconse; arran-banner deu rambana.
Nada mais simples. Nada mais directo.

Batata «rambana»: batata «non grata»
Mas a «rambana» nem sempre terá sido uma batata benquista.
Por exemplo: em Novembro de 1975, já ano e meio depois do 25 de Abril, e no meio do mês quente que aquele foi, para proteger a batata de semente nacional, obrigava-se os importadores a garantir antes de mais o escoamento da dita e só depois poderiam importar. Mas não a Arran-Banner. Não sei porquê, mas é isso que consta de uma Portaria daquela data: «É livre a importação de todas as variedades de batata de semente incluídas na lista a que se refere o artigo 20.º do Decreto-Lei n.º 36665, de 10 de Dezembro de 1947, com excepção da variedade Arran-Banner. / Só serão autorizadas importações iguais ou superiores a 50 t por cada variedade».
Sei que em 1947, os ministros de Salazar já protegeram a batata nacional.
Mas é já com Marcelo, em 1971, que é publicado um Decreto-Lei que liberaliza a importação de batata de semente.
Mas as tais duas, só por contingentes: «É livre a importação de todas as variedades de batata de semente (…)» mas «a importação da batata de semente das variedades Arran-Banner e Arran-Consul será efectuada segundo o regime de contingentes».
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

Carros em barda, no Casteleiro, só depois da década de 60, ou seja, depois do surto migratório – melhor, só quando os emigrantes começaram a juntar dinheiro para comprar carro.
Antes disso, poucas viaturas particulares.

O Morgado de Santo Amaro tinha comprado carro muito cedo. No início do século (XX).
Tinha fama por ter sido titular da primeira carta de condução do Automóvel Clube de Portugal (entidade à data credenciada para tal) em 1905.
Mais tarde, tinha havido um Mercedes na Quinta da Dona Maria do Céu, um VW carocha e pouco mais.
Depois, um carro Fordson, uma carrinha Austin e mais dois ou três.
Mais cedo, lembro-me de um Chrysler de 1928 na minha casa e, depois, um Studebaker gigantesco. Mas isso era lá pelos meados dos anos 50.
O que hoje venho aqui recordar é outra viatura.
Fim dos anos 40, início dos anos 50. A Citroën constrói uma «espada» e peras. Chamaram-lhe 11 BL. Nós, em Portugal, chamámos-lhe simplesmente assim: a arrastadeira.
No Casteleiro houve um.
Este carro lindíssimo, em tom de castanho-escuro, marcou a nossa infância porque o táxi da terra, por esses dias, era mesmo uma arrastadeira.
O carro foi comprado, penso que novo, pelo titular do alvará na época, o Sr. Quim Paiva. Mais tarde foi vendido com esse mesmo alvará ao novo taxista, Quiel – que se desfez dele e em sua substituição comprou um Plymouth americano e que ficou famoso porque consumia gasolina à medida de 20 e tal aos 100 km.
A arrastadeira ficou para sempre gravada na nossa memória.
Linhas francesas, harmoniosas, pujança estética, conforto qb.
Veja a foto e diga se não era uma beleza…
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

Quando eu era pequeno, a malta da minha idade toda tinha uma gorra – os rapazes, claro. Ter gorra era como ter caderno para levar para a escola: era obrigatório. Mas o que era a gorra, de onde vinha, como chegou até nós?

A palavra gorra vem do espanhol e as gorras vinham da Espanha. Uma gorra é uma boina. Mas não uma boina qualquer. Nada como as boinas dos Páras, dos Comandos ou dos Fuzileiros. Nada como as boinas que hoje as meninas usam.
Gorra que se prezasse era preta, à medida da cabeça, tinha um atilhozinho no cocuruto e andava meio de lado. Assim como depois todos vimos nas fotos de posteridade do Che Guevara. Essa era a gorra que nos anos 50 inundava o Casteleiro.
Mas, se falo do objecto, é também para falar da pessoa que as trazia para a nossa terra.
Não sei o nome dela. Era uma contrabandista. Chamávamos-lhe a Ti’ Quadrazenha. Imagino que era de Quadrazais, claro – mas nem sei se era, porque, para nós, tudo o que fosse para lá de Santo Estêvão era arraiano e, mais provavelmente ainda, se vendia coisas que vinham da Espanha, era quadrazenho.
E o que é que vinha da Espanha, para lá da gorra?
Vários bens de contrabando. Atravessavam a fronteira clandestinamente, eram baratos e muito úteis. Exemplos de que todos se lembrarão: caramelos, cacau, chocolate, alpercatas («alpragatas» – era assim que se dizia), entre outros.
De cá para lá, atravessavam café e tabaco, leio num trabalho publicado sobre o tema – que pode consultar aqui e ler algo interessante na pág. 25, nota 8, sobre o Soito, muito dinheiro e o contrabando…
Da Espanha, pela mão da Ti’ Quadrazenha, chegavam-me ainda as celebradas galletas. Coisa boa, saborosa, doce e macia…
Assim era há mais de 50 anos no Casteleiro: uma senhora vinha da Raia e era muito bem-vinda porque nos trazia algumas delícias e guloseimas espanholas. Ah, e trazia sempre as tais gorras com que tapávamos a cabeça: uma imagem de marca que se perdeu nos confins do Tempo…

Nota
Coincidência interessante: andava este texto a bailar-me na cabeça e uma manhã sento-me e despejo para as teclas. Quando vou à procura da minha «assinatura» editada pelo PLB, abro o «Capeia» e qual o artigo de frontpage? Uma peça sobre contrabando. Ri-me – mas mantenho o que já tinha escrito, mesmo arriscando a imagem de in-orignalidade temática… A verdade é a coincidência: porque elas, as coincidências, existem, sim. Agora vejo que sim…

«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

Talvez não imagine, caro leitor, que a palavra fetiche que nós usamos vem directamente do francês «fétiche», mas que os franceses criaram essa palavra a partir do nosso «feitiço»…

Há tempos falei aqui de um mito, outro fetiche: o talefe. Hoje é a vez de me referir a mais um desses nossos mitos: a Ribeira.
A Ribeira do Casteleiro foi a nossa piscina, o nosso jacuzi mas também o nosso campo de jogos e de pesca: um local de encanto, de facto.
Para muitos dos leitores do «Capeia» terá sido «a Côa». Para nós, no Casteleiro, foi a nossa «Ribeira».
Nada mais adequado, então, do que eu vir aqui chamar à Ribeira do Casteleiro um fetiche, um local de feitiço, de encantamento – e já explico porquê.
Para mim e para as pessoas da minha idade, a Ribeira era ao mesmo tempo um mito e uma atracção irresistível.
(A minha tentação é deixar a maiúscula da palavra Ribeira, escrever simplesmente «ribeira» e fazer como recomendava Rodrigues Lapa, o gramático revolucionário dos meus tempos juvenis: «Entre o estilo e a gramática, morra a gramática».
Porque na ribeira é que se está bem
Acabavam as aulas?
Ribeira.
Era dia sem escola?
Ribeira.
Uma escapadela?
Ribeira.
Vamos nadar?
Açude da ribeira.
Uma corrida?
Ribeira.
Porque na ribeira é que se está bem.
Quando crescemos e já tínhamos mais «autonomia», a ribeira era o nosso viveiro de barbos pequeninos e de rãs: íamos para lá apanhar esses seres inocentes e trazê-los para em casa se fazerem as patuscadas de pernas de rã e de peixinhos fritos.
Havia quem para tanto usasse métodos proibidos e anti-Natureza: fosse à bomba fosse com um produto estonteante chamado «coca»… O «embude» já era um método natural: «substância (espécie de cicuta) que se deita na água para entontecer o peixe, de modo a apanhá-lo depois à mão» (in Dicionário on line).
Nessa altura tudo era normal na ribeira.
Porque na ribeira é que se está bem.
Para as famílias, a mesma coisa:
– na ribeira é que se lava a roupa;
– na ribeira é que se estende a roupa ao sol;
– na ribeira é que se comem uns «petiscos»;
Porque na ribeira é que se está bem.
Do Casteleiro até ao mar
Nós chamávamos-lhe Ribeira do Casteleiro. Melhor: quando, mais crescidinhos, já estávamos longe da terra, fora da região para estudar, trabalhar… para o que quer que fosse, chamávamos-lhe Ribeira do Casteleiro. Mas ela vem da Serra do Mosteiro, da parte de trás da Serra, melhor: da Ribeira da Nave, passa ao pé do Poio, atravessa as Alvercas, vem pela Ponte da Estrada Nacional, pela zona da ponte do Cemitério (que relvado obsessivo, aquele, à beira da água), vai pelo local a que eu sempre chamei propriamente «Ribeira», ao pé do Alvarcão, serpenteia pelos prédios todos até ao Tinte e segue o seu caminho: vai juntar-se à Ribeira da Meimoa, para depois seguirem ambas para o Zêzere, seguirem para o Tejo, desaguarem em Lisboa e penetrarem no Atlântico…
Faço notar duas coisas:
– Os documentos do Padre Leal, de 1758, dedicam à ribeira e seus afluentes (três ribeiros) mais de 40% das linhas de interesse de todas as respostas que ele deu nessa data ao Marquês de Pombal. Ele era o Cura do Casteleiro, não esquecer.
– Há nos textos do Padre Leal referência a uma tinturaria, que à data se chamava simplesmente «um tinte» – e essa fabriqueta ficava à beira da ribeira, no sítio ainda hoje chamado Tinte. Ainda agora o referi, algumas linhas aí em acima.
Por estas e muitas outras razões, como seja, a título de exemplo, a genética atracção que a água na Natureza exerce sobre os humanos, a Ribeira (do Casteleiro) foi um dos nossos fetiches de meninice e juventude, há muitos anos atrás.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

Foi meio a brincar meio a sério que há tempos escrevi que o elefante Salomão (o tal do livro de Saramago) passou no Casteleiro.
Para mim, isso é indiscutível e não pode ter passado de Caria para Sortelha sem passar na Ribeira da Cal, no Casteleiro, na Serra da Vila: é a calçada «romana» (ou medieval? – e aqui começam as dúvidas).

A verdade é que desde esse dia o problema não me tem largado.
E lancei-me numa micro-investigação.
Li bastante.
Reflecti.
Concluí algumas coisas que quero partilhar com o leitor do «Capeia». Fiquei com muitas dúvidas.

Primeiro.
Há factos que provam que os romanos estiveram no Casteleiro?
Há.
Exemplos: foram encontrados em escavações e registados oficialmente pesos de tear e pedaços de loiça fina de tempos recuados – seguramente da era romana –, como os referidos por Pedro Carvalho («Por terras do Sabugal na Época Romana»), e essas descobertas provam-me duas coisas: que os romanos passaram aqui, que se estabeleceram aqui – e que construíram aqui as suas «indústrias» de artefactos úteis, como era seu timbre por toda a parte onde chegaram. Ver Aqui.

Segundo.
Estiveram aqui. Mas: onde? Em que locais?
A acreditar nas investigações deste arqueólogo, que coloca a questão no condicional («haveria»), a verdade é que parece provável que nos limites dos actuais concelhos de Belmonte e do Sabugal houvesse um importante vicus (povoado) mesmo ao fundo das terras do Casteleiro, na fronteira com as Inguias, parece.
Outras provas da presença romana por estas bandas foram encontradas em locais como a Quinta do Espírito Santo, Gralhais e a Quinta de Santo Amaro. Esses são os locais da Freguesia do Casteleiro referidos nos registos do Museu do Sabugal. Ver Aqui.

Terceiro.
Parece pacífico e por muitos investigadores aceite que a grande via romana que ligou a Idanha a Castelo Branco, Caria, Sabugal e daí até Ciudad Rodrigo e até Salamanca passou pelo Casteleiro.
O circuito, desde Caria, seria mais ou menos este: Caria, Inguias, Santo Amaro, Ribeira da Cal, Casteleiro, Serra do Mosteiro (Santo Estêvão), Aldeia de Santo António, Sabugal.
Terá sido assim?

Quarto.
Mas aqui cumpre acrescentar uma nota muito importante.
É que para lá desta via eventualmente principal, havia outra: a via secundária que, do Casteleiro (ali por volta da Escola Feminina) arrancava em direcção a Sortelha. Isso é indiscutível.
Ainda lá está, e não tão mal definida como isso: é a Calçada Romana que vai do Casteleiro à Serra da Vila, pelos campos do Marineto e pelas encostas em direcção à Serra da Vila.
No Casteleiro pode pois ter havido um importante entroncamento de vias romanas: uma que vinha do Sul e seguia para a Hispânia; outra que se iniciava nesta, no local em que hoje fica o Casteleiro e seguia para Sortelha.

Quinto.
Ora a viagem do elefante Salomão, na versão de José Saramago, seguiu, quanto a mim, pela via principal até ao Casteleiro e daí subiu a Sortelha por essa outra via secundária.

Gostaria de saber mais sobre o assunto. Mas as fontes são muito vagas. Como disse, alguns investigadores chegam a colocar as questões no condicional – o que retira as certezas da matéria.
Fiquemos pois por aqui neste momento, e continuemos a ler e a reflectir.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

Deixem-me ser muito sincero. A verdade é que, em toda a minha vida já longa, nem antes nem depois do 25, nunca dei qualquer importância à Câmara do Sabugal. Cresci num ambiente e numa terra em que era assim. Sem desprezo: apenas com indiferença. Só de há uns três ou quatro anos a esta parte é que dou pela existência dessa Câmara.

Durante a minha adolescência, desde que me lembro de ter consciência das coisas, a Câmara do Sabugal não passava do sítio onde tinha de se ir tirar a licença da bicicleta.
Nada de melhoramentos no Casteleiro. Nada de ruas. Nada de jardins. Nada de equipamentos urbanos.
Nada de nada – passe a caricatura, que resulta mais da revolta do que de erro de análise.
Mas sei que para o Soito e não só a Câmara era uma fonte de bem-estar.
Mas nem pensem que me incomodava. Não, nada disso. Tanto se me dava. Para mim, vejam bem, era quase uma lei da vida: a Câmara servia mesmo para dar melhores condições de vida à Vila e, quando muito, ao Soito.
Nem sabia nessa altura que havia um orçamento municipal. Nem imaginava que esse orçamento vinha dos impostos das pessoas do Casteleiro (e das outras, sei hoje).
Meteram a água canalizada e vá lá. Saneamento – nem pensar…
Passaram anos e, depois do 25 de Abril, vieram as juntas democráticas e seus cadernos reivindicativos… Que eu saiba, pouco se alterou. Honra seja feita às Juntas de Freguesia e às suas iniciativas. Porque, por iniciativa da Câmara do Sabugal, nada que se veja. Vieram mais tarde uns dinheiritos para calçadas, caminhos e uns fontanários.
E penso que até há uns três anos atrás, pouco mais do que isso. Mais: nunca tinha visto no Casteleiro as autoridades civis locais. Só mesmo os guardas da GNR – que, estranhamente, sempre me foram ou neutros ou mesmo simpáticos, por mais estranho que isso hoje me pareça.
Depois criámos no Casteleiro o Centro de Animação Cultural. Era uma boa ocasião para a autarquia mostrar que valia a pena pertencer ao concelho. Mas nada, ou quase nada.
E assim tem sido a minha vida toda: nem dou pela existência da Câmara do Sabugal.
Logo eu que dedico a minha vida quase toda ao Poder Local.
Ora, bolas!
Quem me dera poder vir aqui elogiar a atitude da Câmara do Sabugal para com o Casteleiro a vida toda.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

Hoje, 15 de Agosto, celebra-se, como todos os anos, perto do Teixoso, a caminho da Covilhã, a festa e romaria da Senhora do Carmo. Em tempos idos, muita gente do Casteleiro deslocava-se neste dia para acorrer em massa a esta romaria – uma das cinco ou seis da região que concitavam a adesão das gentes da minha terra.

Santuário de Nossa Senhora do Carmo - Teixoso

José Carlos MendesNos anos 50 e 60, se bem me lembro, eram cinco as romarias a que as pessoas do Casteleiro aderiam em massa: Senhora do Bom Parto, no Terreiro das Bruxas; Santo Antão, em Sortelha; São Bartolomeu (Sã’ Bert’Lameu, como diz o Povo), nos Três Povos; Senhora da Póvoa, no então Vale de Lobo (hoje Vale da Senhora da Póvoa); e a já referida romaria da Senhora do Carmo.
Alguns também iam à Senhora da Graça, no Sabugal, mas eram poucos. Outros, menos ainda, iam à Senhora da Quebrada, na Benquerença.
Algumas linhas sobre cada uma destas festas profanas e romarias religiosas, no espírito de um tempo em que o místico e o ritual católico dominavam as mentes nestas terras da Cova da Beira.

Senhora do Bom Parto
Uma procissão da Moita para o Terreiro das Bruxas, missa e regresso era o ritual suficiente. O primeiro domingo de Maio é a data da romaria. O pessoal do Casteleiro, sobretudo os rapazes, faziam desta festa um campo de batalha com os rapazes das aldeias vizinhas – julgo que foi por isso que o Casteleiro deixou de marcar presença forte como já aconteceu antes, há 50 anos.

Santo Antão
É em Sortelha, na segunda-feira de Pascoela – domingo a seguir à Páscoa. Naqueles tempos, como se bebiam uns copos bem bebidos, às vezes também havia uns sopapos entre «amigos» dos arredores. Mas era uma festa e peras.

São Bartolomeu
Ia-se aos Três Povos, julgo que em Junho, para comprar sementes e produtos do género, destinados à faina agrícola. O São Bartolomeu teve muita fama no Casteleiro. Muitas pessoas deslocavam-se até lá, indo por Gralhais, uma anexa do Casteleiro, já nos limites da Freguesia que confinam com os Três Povos, concelho do Fundão.

Senhora da Póvoa
Esta era a rainha das festas e romarias para as pessoas do Casteleiro. Celebra-se sete semanas depois da Páscoa. Lá, valia tudo: para lá das cerimónias, havia a grande merenda familiar, os «sorvetes», as guloseimas para os mais pequenos, uns copos para os mais velhos e o monumental baile regional final no Largo do Casteleiro – como noutras terras dos arredores.
Se quiser ler alguns pormenores sobre esta romaria, pode aceder a este texto bem descritivo…

Senhora do Carmo
Uma romaria à moda antiga. O local é um ermo fora dos dias da festa. Mas nesse dia, é (era nesse tempo) um mar de gente. Pessoas de todo o lado, da Covilhã a Caria, do Casteleiro à Capinha, do Teixoso a toda a região da Serra. Era de facto muita gente.

E por fim…
Acrescento, à margem, que a ida todos os anos à Feira de Setembro, ao Sabugal, no primeiro domingo de Setembro, era para mim um momento ainda mais elevado e arrebatador do que as idas a qualquer das outras festas. Ia com os meus tios em cima de um carro de vacas carregadinho de melancias. Toda a noite a dormitar lá em cima, sobre uma «faxa» (feixe) de palha. Isso é que era vida. Daí por um mês, em fecho de ciclo das festas nos arredores, «Escola!» – e acaba-se o bem-bom das férias (nesse tempo as aulas recomeçavam em Outubro).
Se o leitor quiser, faça uma ronda por uns resquícios desta feira aqui.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

Casteleiro, Verão de 1941: centenas de jovens e não só dedicam-se há dois ou três anos à recolha de minérios vários pelas serras. Sobretudo, volfrâmio. Depois, vendem a recolectores intermediários que se deslocam às várias aldeias em volta, lhes compram os minérios e o vendem depois ou aos donos das «separadoras» ou a agentes italianos e ingleses estacionados na região.

Não é uma notícia, pelo menos não uma que eu conheça. Mas podia ter sido. De facto, naqueles tempos, já com a Segunda Guerra Mundial no seu terceiro ano, a falta de metais apropriados para as necessidades da guerra fez com que por todo o lado se procurassem essas matérias-primas para fazer armas. Os inimigos que se digladiavam no terreno (de um lado, o Eixo: alemães e italianos; do outro, os Aliados: americanos e ingleses) precisavam dessa matéria-prima.
Não esquecer: o nosso País manteve-se neutro neste conflito. Isso devia querer dizer que não ajudávamos nem uns nem os outros.
Mas no caso concreto, para o bem e para o mal, acabámos por ajudar ambos lados desta gigantesca barricada que foi a II GG.
Ao Casteleiro e arredores acabaram por vir parar todos eles.
Os ingleses assentaram arraiais mais ali do lado da Serra da Pena que terão comprado aos espanhóis que a construíram e, durante a guerra, acabariam por se dedicar também à exploração da mina da Bica (mina de urânio, um metal que, como se sabe, é radioactivo e que começava a conhecer as suas primeiras aplicações bélicas, depois da aplicação medicinal bem publicitada em conjunto com o Hotel da Serra: eram as Águas Rádium, lembram-se?).
Do outro lado, estacionados mesmo no Casteleiro, os italianos irmãos Menegoni, que compravam o volfrâmio e o separavam para vender ao seu Estado que dele precisava para fabricar canhões. O tungsténio, nome científico do volfrâmio, é um metal muito duro. Misturado com outros, forma uma liga que resiste pela sua dureza e que aguenta a temperatura do momento da explosão do canhão para lançar o projéctil a longa distância.
Portugal era o principal produtor mundial de volfrâmio.
Ou seja: ouro sobre azul: nós tínhamos, ingleses e italianos precisavam e compravam.
No Casteleiro, sobretudo nos ribeiros e linhas de água da Serra da Preza e em Vale de Castelões, a actividade de busca, nesses dias, era frenética.
Jovens rapazes e raparigas de 16 e 17 anos (nesse tempo, com estas idades, eram mesmo muito, muito jovens) dedicavam-se a recolher o mineral – por vezes também algum estanho e outros metais.
Depois era só vender aos intermediários.
O resto era a trajectória industrial da época: separadoras, comboio, Inglaterra ou Itália, fábrica de armamento, campos de luta na França ou no Leste europeu.
No Casteleiro, onde os italianos chegaram a construir uma separadora (havia outra a funcionar no Terreiro das Bruxas), ficou muito dinheiro dessa frente de guerra: a guerra das transacções comerciais dos materiais com que se fabricam os materiais de guerra.
No livro «O Estado Novo e o Volfrâmio (1933-1947)», João Paulo Avelãs Nunes refere a existência da Companhia Mineira do Casteleiro, Lda. (constituída em 1937 e exploradora de nada menos do que 17 minas), da qual era sócio o engenheiro judeu formado em Paris, de origem polaca chamado Samuel Schwartz, que era sócio de dezenas de empresas mineiras e que nunca deve ter ido ao Casteleiro (não se fala dele: tudo isto funcionava apenas para registo em Lisboa e legalização, presumo).
Estava-se em 1941-42. O acordo de Portugal com a Alemanha sobre fornecimento de 3.000 toneladas de tungsténio seria denunciado pela parte portuguesa em 1944, devido à pressão dos Aliados. Acabava-se aí o El Dorado da juventude (e não só)do Casteleiro e arredores.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

JOAQUIM SAPINHO

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