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A demora na recuperação do edifício do antigo colégio de Aldeia da Ponte foi a maior preocupação manifestada pelo presidente da Junta de Freguesia da localidade, no decurso da visita que o executivo autárquico do Sabugal efectuou à aldeia por ocasião da reunião de câmara do passado dia 22 de Dezembro.

Colégio de Aldeia da PonteO autarca de Aldeia da Ponte colocou a recuperação do imóvel que albergou o velho colégio dos seguidores de Bento Menin, como a sua grande preocupação, tendo em conta o interesse histórico e patrimonial do edifício. A associação local, que detém a sua propriedade, não tem capacidade financeira para executar as obras urgentes que evitem a continuação da degradação do imóvel e a sua derrocada, pelo que pediu à Câmara uma ajuda nesse sentido, pelo menos na colocação de um telhado novo.
O presidente do município, António Robalo, concordou com a importância da recuperação do edifício, e da obrigação da câmara e da junta de freguesia no apoio a essa obra, sendo porém importante que se procurassem encontrar investidores privados, tentando vender a sua atractividade e rentabilizando o espaço.
A reunião do executivo do dia 22 de Dezembro levou os vereadores da Câmara Municipal do Sabugal a Aldeia da Ponte durante a tarde, onde se procuraram inteirar dos problemas daquela freguesia.
Para além da preocupação com a recuperação do edifício do colégio o presidente da junta informou os vereadores de outros problemas muito prementes para a freguesia, a começar pela necessidade de colocar uma vedação junto à Praça de Touros para demarcar e isolar o caminho dos bois nos encerros, diminuindo o perigo para a população, bem como o arranjo do piso que se mantém em terra batida.
Outras peocupações manifestadas pelo autarca tiveram que ver com a necessiadde do arranjo do espaço envolvente à ponte romana, a recuperações dos fontanários da freguesia que se encontram degradados, a colocação de números de polícia e placas toponímicas nas ruas da aldeia, a conclusão de alguns arruamentos, o arranjo da ligação para a Rebolosa e dos caminhos agrícolas da Matrena e do Talefe, e ainda o saneamento do bairro de Santa Bárbara. Outra procupação do autarca é a conclusão da variante de Aldeia da Ponte, onde falta alguma sinalização, a iluminação da estrada e da rotunda, a colocação de grades na ponte, bem como o pagamento das indemnizações aos proprietários de alguns terrenos, cujos valores diminutos não justificam a realização de escrituras.
plb

Dissemos em crónica anterior que o general Foy esteve por quatro vezes no Sabugal por ocasião dos movimentos militares franceses ligados à terceira invasão. A primeira numa estada de 15 dias, integrado no corpo de Reynier, e outras três apenas de passagem, servindo de emissário entre Massena e Napoleão.

O general Foy acampou no Sabugal no início da terceira invasão, comandando uma brigada da divisão Heudelet, do 2.º corpo do exército francês, que ocupou os concelhos do Sabugal, Alfaiates e Vilar Maior, de 27 de Agosto a 11 de Setembro de 1810.
Esteve depois no Sabugal apenas de passagem, enquanto emissário de Massena para com o Imperador dos franceses. É pois das peripécias dessas perigosas missões que nos propomos falar.
Com o exército bloqueado pelas Linhas de Torres, Foy partiu de Santarém, a 1 de Novembro de 1810, portador de uma mensagem de Massena, à frente de um destacamento de 400 homens. Seguiu em marchas forçadas, tentando evitar os locais onde fosse facilmente atacado pelas milícias portuguesas que estavam muito activas nos territórios que não estavam ocupados pelos franceses. Os anteriores emissários de Massena, encarregados de comunicarem com os militares franceses que estavam na praça de Almeida e em Espanha, haviam sido mortos ou capturados, estando o exército invasor completamente isolado. Atravessar esses territórios, enxameados de milícias e de ordenanças, era pois aventura de altíssimo risco.
Em Abrantes tomaram o destacamento de Foy pela vanguarda dos franceses em retirada e fecharam-se na fortaleza. Dali seguiu na direcção de Castelo Branco e, já depois de passar junto a esta cidade, foi atacado por portugueses da ordenança, que lhe provocaram algumas baixas, e conseguiu livrar-se de um recontro com as milícias do general Silveira que tinham saído de Pinhel e seguiam para Abrantes.
Tomou o caminho de Penamacor e passou seguidamente no Sabugal, já com as tropas completamente extenuadas, pois seguira sempre em marchas forçadas, mal parando para descansar. Atingiu a fronteira no dia 7 de Novembro e entrou em contacto com militares franceses que o judaram a chegar a Ciudad Rodrigo e a prosseguir viagem para Paris.
O tenente Jean-Baptiste Barrés, que fez parte desse destacamento de Foy, descreveu a ousadia da missão: «Empreender uma expedição tão arriscada, com tão pouca gente, era muito ousado; mas o general era activo, empreendedor, e tinha ao seu lado um português que conhecia a região e um ajudante-de-campo que falava a língua, para interrogar os habitantes que encontrássemos ou os prisioneiros que fizéssemos.»
Voltou de França nos finais de Janeiro, em pleno Inverno, e fez o caminho inverso em direcção ao exército de Massena. Saiu de Ciudad Rodrigo com uma coluna de 500 homens, passou a fronteira e atingiu o Sabugal, passando depois por Sortelha, Belmonte, Pêraboa, Ferro, Alcaria, Freixial, procurando sempre caminhos secundários para evitar maus encontros. No dia 1 de Fevereiro, perto do Castelejo, foi impiedosamente atacado por ordenanças, o mesmo se passando no dia seguinte, perdendo aí uma boa parte dos seus homens. Porém conseguiu prosseguir viagem e no dia 5 de Fevereiro entrou em contacto com as linhas francesas junto à foz do Zêzere, perto de Punhete (agora Constância), entregando seguidamente os ofícios a Massena.
O jovem tenente Bauyn de Péreuse, que veio de França para integrar o exército de Massena, acompanhou o general Foy nesta perigosa aventura de regresso a Portugal e descreveu as jornadas nas suas memórias. Ao entrarem em Portugal pernoitaram numa pequena aldeia raiana abandonada pelos habitantes. O oficial não indica o nome da aldeia, mas era certamente uma povoação do actual concelho do Sabugal:
«Pernoitámos numa cabana de camponeses; encontrámos nas armações, colocadas sobre os barrotes que sustentavam o tecto, uma grande quantidade de castanhas secas, de que tirámos o melhor proveito e que substituíram frequentemente o pão durante a marcha.
As chaminés, nesta zona, são completamente desconhecidas. Faz-se uma fogueira e o fumo liberta-se através das telhas, contribuindo assim para secar as castanhas.
Por pouco não nos tornámos incendiários e não ficámos assados no nosso covil. Fazia frio. Lefranc encontrou uma arca velha, que desfez em pedaços; pusemos as tábuas no fogo, para o activar, num instante as chamas subiram até às aramações, incendiaram-nas e atingiram o tecto; felizmente a barraca estava isolada e o fogo não se comunicou às outras casas da aldeia.
»
O jovem tenente descreve depois as jornadas na Beira, debaixo de chuva e de neve e sob o frio intenso das terras serranas por onde a coluna deambulou, referindo ainda os ataques de que foram alvo por parte das ordenanças e dos camponeses, que os emboscavam a todo o instante. Foi assim até ao final da viagem, valendo a coragem e a tenacidade do general, que seguiu sempre em frente até cumprir a sua missão.
A 7 de Março, um mês após o seu regresso às linhas francesas, Foy parte de novo com a missão de ir a Paris com outra missiva de Massena para Napoleão Bonaparte anunciando-lhe a retirada francesa. Saiu de Tomar com apenas cinquenta cavaleiros por escolta, mas a experiência das outras expedições levaram-no a seguir de dia e de noite por caminhos pouco frequentados, evitando as povoações. Tendo pela quarta vez o Sabugal no seu percurso, consegue atingir a fronteiras sem encontros desagradáveis.
Paulo Leitão Batista

Foy serviu nas três invasões de Portugal, na primeira enquanto coronel e nas duas seguintes como general do exército imperial. Esteve no Sabugal no início da terceira invasão, integrado no corpo de Reynier e passou por três vezes nessa vila raiana enquanto mensageiro de Massena e de Napoleão Bonaparte.

Maximilien-Sébastien Foy (1775- 1825), entrou aos 15 anos para a escola de Artilharia, participando depois na campanha de Flandres com o posto de segundo tenente. Promovido a capitão, combateu em várias batalhas, mas em 1794, insurgiu-se contra os jacobinos e foi preso, devendo a sua salvação ao assassinato de Robespierre.
Foi gravemente ferido na batalha de Diersheim e na recuperação cursou direito público e história moderna.
Recomendado ao general Napoleão Bonaparte, recusou ser seu ajudante de campo e participar na campanha do Egipto. Sob as ordens de Massena foi promovido a coronel, em 1799, após se ter destacado no campo de batalha. Combateu depois nas campanhas de Marengo e do Tirol.
Opôs-se à ascensão de Napoleão Bonaparte ao poder supremo e depois ao seu consulado vitalício e à proclamação do Império, factos que o penalizaram vendo adiada a promoção ao generalato.
No início 1807 foi enviado para Constantinopla, e no final desse ano foi integrado no corpo do general Junot, participando na primeira invasão de Portugal. Na sequência da Convenção de Sintra regressou a França, onde foi finalmente promovido a general de brigada por Napoleão, sendo reenviado para Espanha, onde foi integrado no 2.º corpo, comandado por Soult e combate de novo em Portugal, na segunda invasão francesa. É ferido em Braga numa refrega com milícias portuguesas, e, ao entrar no Porto para exigir a rendição da cidade, é quase linchado pela população que o toma pelo general Loison, o célebre Maneta, salvando-se ao mostrar os dois braços à multidão. É preso, mas logo libertado com a conquista da cidade pelos franceses.
Em 1810 participa na terceira invasão de Portugal, integrado no 2.º corpo, agora comandado pelo general Reynier, que ocupou o Sabugal e Alfaiates de 27 de Agosto a 11 de Setembro, ainda na fase preparatória do movimento geral da invasão.
Já perante as inexpugnáveis Linhas de Torres Vedras, o general Foy foi o escolhido por Massena para ir a Paris levar uma missiva a Napoleão Bonaparte, para explicar a situação do «Exército de Portugal», da novidade que eram as Linhas de Torres e da necessidade de reforços.
Com um destacamento de 400 bons e corajosos caminheiros, Foy conseguiu atravessar o território que separava o exército da fronteira, completamente infestado por milícias portuguesas, que atacavam impiedosamente todos os movimentos militares dos franceses. Nessa manobra passou pelo Sabugal no movimento de ida e atinge Espanha, onde prosseguiu a sua rota para Paris. Recebido pelo Imperador, que lhe admirou a coragem e o mérito da missão, promoveu-o a general de divisão, e reenviou-o a Portugal com instruções para Massena.
Regressou pelo mesmo caminho e, acompanhado por tropas frescas que lhe admiravam a coragem e o seguiam fielmente, voltou a passar pelo Sabugal, e dali seguiu por caminhos pouco frequentados, procurando furtar-se a encontros com as guerrilhas.
Depois de mil peripécias, e com perdas consideráveis entre os seus homens, conseguiu chegar a Massena, a quem entregou a missiva.
Já no movimento retrógrado do exército invasor, Massena voltou a enviar Foy a Paris, dando conta a Napoleão da situação desesperada do exército e da sua firme decisão de não abandonar a empresa: recuará estrategicamente para bons acantonamentos e, contando com os reforços que suplica ao Imperador, voltará a avançar e ocupará Lisboa.
Foy, com uma escolta de apenas 50 cavaleiros, volta a embrenhar-se nos caminhos da Beira, com o Sabugal novamente no percurso, conseguindo atingir a fronteira. Já em Espanha é atacado num desfiladeiro, entre Burgos e Bilbau, por um forte destacamento espanhol. Foy perdeu a quase totalidade dos elementos da escolta mas conseguiu escapar completamente despido, colocando-se em fuga com os ofícios que também salvou. Prosseguiu viagem com roupas emprestadas, levando as mensagens ao seu destino.
Napoleão, irado com o conteúdo da mensagem de Massena, amarrotou os papéis e descarregou no general a sua fúria. Pouco tempo depois Foy era enviado de volta a Massena, levando-lhe uma carta do Imperador extremamente severa, manifestando-lhe o seu desagrado pelo fracasso da invasão. Foi já em Ciudad Rodrigo que Massena recebeu a missiva. Tivera sempre a maior confiança em Foy, mas verificou que os selos da carta haviam sido violados e carta fora lida antes de lhe ser entregue. Manifestou-lhe desagrado e desprezou-o a partir daí.
Porém Massena estava de partida e o general Foy reingressou no «Exército de Portugal», agora chefiado pelo marechal Marmont, comandando uma divisão. Combateu contra o exército anglo-luso, que se expandira por Espanha, sendo notado pela sua coragem e mérito. Já em plena retirada, foi gravemente ferido na batalha de Orthez, em 27 de Fevereiro de 1814, sendo esta a sua última prestação militar até ao fim do Império.
Com a França em convulsão política, Foy serviu como general durante mais alguns anos e depois aposentou-se, dedicando-se à política e à escrita, sendo autor de uma «História da Guerra da Península».
Paulo Leitão Batista

O general francês Gardanne viveu um autêntico pesadelo em Portugal, quando atravessou a fronteira com o objectivo de entrar em contacto com as tropas de Massena, que estava no Ribatejo. Enfrentando uma hostilidade sem limites, o general passou com as suas tropas pelo Sabugal, na rota de ida e na de regresso.

Há duzentos anos, por este tempo, em Dezembro de 1810, as tropas da terceira invasão francesa, comandadas por Massena, estavam agrupadas em redor de Santarém, esperando reforços. Os soldados viviam da pilhagem e cometiam toda a espécie de atrocidades contra os habitantes que procuravam esconder-se dos invasores, vivendo em constante sobressalto.
O Sabugal, que estivera no percurso da invasão, continuou a ser local de passagem de tropas. Massena decidira enviar ao Imperador o general Foy, para lhe dar conta dos acontecimentos e lhe pedir instruções. O Sabugal esteve na rota deste general (de que falaremos mais tarde).
Outro comandante francês que passou pelo Sabugal foi o general Gardanne, que consta ter ali dormido uma noite. É precisamente da desventura deste general na terceira invasão que iremos seguidamente falar.
Charles Mathieu Gardanne, nasceu em Marselha em 1766. Entrou muito novo para o exército, tendo sido promovido a tenente de cavalaria aos 26 anos e a capitão um ano depois. Comandou esquadrões e regimentos de cavalaria, tendo-se notabilizado em combate. O seu alto mérito militar levou-o a ser chamado para ajudante-de-campo de Napoleão Bonaparte.
Para além de militar distinguiu-se como diplomata, ao ser enviado por Napoleão ao Irão, em 1807, como ministro plenipotenciário, para pedir o apoio do Xá da Pérsia à causa da França contra a Rússia e a Inglaterra. Após a missão diplomática o general retornou a França, em 1809, e o Imperador concedeu-lhe o título de conde do Império. De seguida enviou-o, como general de Brigada, para Espanha. Aí integrou o 9º corpo do exército francês, comandado pelo General Drouet, conde d’Erlon, que, instalado em Salamanca, deu a Gardanne o comando de uma brigada que serviu de cabeça de coluna ao seu movimento em direcção a Portugal, a fim de apoiar o exército de Massena.
O general Foy, enviado por Massena a Paris, passou por Ciudad Rodrigo, onde se encontrou com Gardanne e lhe pediu que cumprisse quanto antes a missão de entrar em Portugal e se juntar às tropas franceses. Para tanto deixou-lhe como guia o capitão de engenharia Boucherat, que conhecia bem os caminhos de Portugal.
Gardanne entrou por Almeida, no dia 13 de Novembro, à frente de uma coluna com quatro mil homens, levando o general Silveira a levantar o cerco que as suas milícias faziam à praça, em poder dos franceses. Os invasores perseguiram as milícias e atacaram-nas perto de Pinhel, infligindo-lhe grandes baixas.
Mas como o propósito de Gardanne era ir ao encontro de Massena levando-lhe homens, cavalos e munições, procurou o caminho mais directo e seguiu a linha do Côa para montante, atingindo o Sabugal, onde se instalou. Arrancou desta vila raiana a 20 de Novembro, passando por Sortelha, Capinha, Fatela, Valverde, chegando ao Fundão no dia 22 de Novembro. Nas imediações do Fundão foi alvo de emboscadas por parte das milícias de Trant, que atacaram constantemente a coluna, provocando-lhe baixas. Gardanne continuou porém a sua rota para sul, seguindo em marchas rápidas por um território extremamente hostil, infestado de milícias e ordenanças portuguesas que o atacavam a todo o instante.
A 25 de Novembro, estava em Cardigos, a um dia de Punhete (Constância). A 26 avançou nessa direcção para entrar em contacto com os postos franceses que ocupavam a margem esquerda do rio Zêzere. Porém, já a pouca distância destes recebeu informações por parte de um alegado espião francês, que lhe indicou que a ponte sobre o Zêzere estava destruída e os franceses tinham retirado, sendo vigorosamente perseguidos pelos ingleses.
Estas informações, que eram totalmente falsas, provocaram o pânico em Gardanne, que pensou estar prestar a cair numa armadilha e retirou de forma precipitada e desorganizada, vivendo então uma aventura dramática, deixando para trás muitos soldados. A 29 de Novembro estava em Penamacor, de onde enviou emissários ao general Drouet, indicando-lhe que retirava. Foi com a sua brigada completamente extenuada e em estado deplorável que Gardanne voltou a passar no Sabugal e Alfaiates, com a pressa de atingir a fronteira e juntar-se às restantes tropas do 9º corpo.
Já em Espanha o general Drouet juntou a coluna recém-chegada à sua primeira divisão, cujo comando entregou a Gardanne, que voltou a avançar para Portugal por Celorico e ponte de Mucela, atingindo a 26 de Dezembro, o exército de Massena.
A reputação de Gardanne nunca mais seria a mesma, o fracasso da sua primeira manobra em Portugal e as circunstâncias caricatas da sua retirada, quando estava a poucos quilómetros das linhas franceses, foram motivo de troça por parte de franceses e aliados, assim se desprestigiando um general que já dera noutras ocasiões provas de valentia e de sabedoria.
Paulo Leitão Batista

Continuando a leitura do livro de Arthur Thomas Quiller-Couch, verificamos como Marmont (duque de Ragusa) colocou as milícias portuguesas de Trant em retirada e como decidiu regressar com as suas tropas ao quartel-general do Sabugal, poupando a Guarda a um ataque que resultaria certamente no saque da cidade.

Marmont - Guerra Peninsular - SabugalFez-se noite cerrada e o propósito de Manuel era cavalgar para ultrapassar as colunas de Marmont e avisar Trant do perigo que corria na Guarda. A meio caminho uma escorregadela do cavalo atirou-o ao solo, tendo desmanchado um tornozelo. Bateu à porta de uma casa isolada, onde vivia um pastor que o ajudou e a quem encarregou de levar uma mensagem a Trant, informando-o da movimentação de Marmont, que em breve atacaria a cidade.
Não foi porém a sua mensagem que salvou Trant e a milícia, porque não chegou a tempo. Na verdade foi Marmont que errou ao avançar de forma desastrada. A cavalaria francesa chegou cedo às portas da cidade e o marechal, impaciente com o atraso das duas brigadas de infantaria, deu ordem aos cavaleiros para subirem a montanha. Uma sentinela da milícia, dando conta da movimentação tocou freneticamente o tambor, no que foi de imediato imitado por outros tamborileiros espalhados pelas portas da cidade. As milícias correram para os seus postos, «e o marechal francês, que poderia ter tomado a cidade com uma só investida e sem perder um único homem, retirou – são estes os absurdos da guerra.» Marmont convencera-se que a Guarda tinha alguma capacidade para resistir e resolveu esperar pela infantaria para avançar.
Isso deu tempo a Trant e a Bacelar, que já se lhe havia reunido, para abandonarem a cidade, saindo com as suas milícias pelo vale do Mondego. Marmont lançou então a sua cavalaria em perseguição dos portugueses, tendo alcançado a retaguarda da coluna a poucas milhas da cidade.
«Chovia e a milícia corria pela lama como um rebanho de ovelhas», tendo os franceses feito 200 prisioneiros. Manuel diz no seu relato que há que fazer justiça ao comandante francês, pois terá proibido os seus cavaleiros de cortarem a fuga aos portugueses e de os massacrarem.
Marmont desistiu de perseguir Trant e Bacelar, e decidiu voltar para o Sabugal sem sequer atacar a Guarda, onde Wilson ainda estava com algumas milícias preparando a explosão dos depósitos de mantimentos aí existentes. O espião foi até à cidade vestindo um casaco velho que lhe deu o pastor e falou com o general inglês, passando a compreender a alegada ira de Marmont e o seu apressado retorno ao Sabugal.
Por que razão estava Marmont zangado? Por isto:
«Em 30 de Março deixei o meu parente, o capitão Allan McNeill, com o seu criado José. Eles mantariam o exército francês sob observação e eu fui para sul a relatar o que sabia a Lord Wellington em Badajoz. Estávamos agora a 16 de Abril e muitas coisa haviam acontecido, mas dos movimentos do meu colega espião nada soubera. Estava seguro de que ele estaria algures na proximidade dos acampamentos de Marmont, mas mesmo no Sabugal nada ouvira acerca dele.
Na tarde do dia 16 o general Wilson foi até mim.
”Tenho notícias desagradáveis”, disse-me. “O seu homónimo foi preso”. “Onde?”. “No Sabugal, mas parece que foi levado para um acampamento em Penamacor. Trant disse-me que vocês, para além de homónimos, são parentes. Quer falar com o mensageiro?”
».
O mensageiro era um camponês de Penamacor que informou Manuel dos pormenores da captura do outro espião, na qual o seu criado José fora morto pelos franceses.
O relato acabou com Manuel McNeill contando a aventura do seu parente, capitão Alan McNeill, que acabara de ser feito prisioneiro pelos franceses.
Paulo Leitão Batista

Continuando a leitura do livro «The Laird’s Luck, and Other Fireside Tales» (A Sorte de Laird e Outros Contos à Lareira), de A. T. Quiller-Couch, verificamos que Manuel McNeill cumpre a rigor as indicações de Trant, procurando obter no Sabugal mais e melhores informações acerca da real força militar que o marechal Marmont tem junto a si.

O espião Manuel teria que se instalar no Sabugal para recolher informações sobre a presença dos franceses na vila. Foi primeiramente a Belmonte receber instruções do barbeiro, que conseguiu convencer a acompanhá-lo ao Sabugal para dar credibilidade ao disfarce. O irmão do barbeiro, que era vinhateiro, foi também e deu-lhes a história de cobertura perfeita, pois estava autorizado a fornecer vinho aos franceses.
Já no Sabugal o barbeiro fez uma petição ao comandante francês pedindo autorização para a reabertura da sua loja, que ficaria entregue a um amigo que conhecia a arte. Reabriram as portas da casa, que estava intacta, e o espião recebeu breves indicações quanto aos instrumentos, à forma de preparar medicamentos e de os aplicar.
Despachou o barbeiro – «pois se o plano falhasse o Sabugal não seria um bom lugar para ele» – que com o irmão abandonou a vila, ficando o espião entregue a si próprio.
Os vizinhos olharam-no algo desconfiados, mas Manuel sabia que a possibilidade de ser denunciado era pequena, pois os portugueses odiavam de tal modo os invasores franceses que dificilmente o trairiam.
Durante três dias o novo barbeiro cortou barbas e cabelos, vendeu unguentos, arrancou dentes e endireitou ossos, nomeadamente a alguns soldados e oficiais franceses que procuraram os seus serviços. «Consegui barbear razoavelmente e assim ganhei credibilidade como se fosse um autêntico barbeiro português. O mesmo sucedeu nos tratamentos aos meus doentes, que se não ficaram devidamente curados também não morreram – ou pelo menos os seus corpos não foram encontrados», escreveu o espião com ironia.
A sua maior dificuldade foi na aplicação da técnica no sangramento, ou flebotomia, muito habitual à época.
«A hipótese de ter de sangrar alguém não me tinha verdadeiramente ocorrido, e quando, na segunda manhã, um sargento que sofria das varizes se sentou na mesa de operações queixando-se de ter uma veia aberta, eu lamentei amargamente não ter ao meu lado um mestre a quem perguntar onde deveria cortar para fazer o sangramento. (…) Tomei-lhe o pulso e levantei-lhe as pálpebras com os dedos trementes. “No seu estado”, disse-lhe, “seria um crime sangrá-lo. Precisa é de sanguessugas”. “Acha?”, perguntou».
O relato contém outras peripécias passadas no exercício do ofício, incluindo o inesperado facto de barbear um hussardo que o reconheceu, pois já se haviam encontrado em Espanha, num outro momento em que se infiltrara. A solução foi colocar-lhe a navalha da barba ao pescoço e obriga-lo a jurar segredo.
Sabia que em breve seria descoberto. Colocou as portadas nas janelas, pegou
no boião das sanguessugas e saiu da vila para a margem do Côa, percorrendo as terras enlameadas pela chuva abundante, fingindo procurar «bichas». Já havia remetido um relatório a Trant com a descrição do dispositivo militar dos franceses, através do vinhateiro de Belmonte, que regressara ao Sabugal com outra carga de odres, mas agora sabia que corria perigo e tinha de tentar escapar dali sem ser notado.
Viu então duas fortes colunas de infantaria dirigirem-se para a estrada da Guarda, o que o deixou preocupado: «Estaria Marmont a executar contra Trant o mesmo golpe que este lhe preparava?». Tinha de avisar Trant do perigo que as suas milícias corriam.
Teve então um encontro inesperado com dois oficiais franceses, que numa casa abandonada se preparavam para se baterem em duelo. Um era oficial de intendência, do estado-maior do marechal Marmont, ao qual ouviu dizer que o comandante se preparava para uma movimentação militar. Do duelo resultou o ferimento grave do oficial de intendência, que o barbeiro se prontificou a tratar. Perante a saída do outro oficial que foi ao acampamento em busca de um cirurgião, o barbeiro-espião aproveitou para se apoderar do uniforme do ferido e montar o seu cavalo, assim escapando em direcção à Guarda, passando pelas sentinelas sem qualquer problema.
(Continua)
Paulo Leitão Batista

O espião que trabalhava para o exército britânico atinge a cidade da Guarda, onde tem uma curiosa conversa com Trant, que lhe dá a entender ter em mente um plano de acção para fazer frente ao marechal Marmont (duque de Ragusa), que se instalara no Sabugal.

Manuel, o espião, chegado à Guarda, encontrou-se com o general Trant a quem entregou um relatório. Descreveu o general inglês como um militar galante e inteligente, mas por vezes muito pouco perspicaz. Dias antes ajudara com as suas milicias o governador de Almeida a evitar a tomada da praça pelos franceses e estava convencido de que era capaz de ir mais longe.
Citemos esta passagem do livro com o curioso diálogo estabelecido (em tradução livre):
Trant questionou-me acerca do quartel-general francês instalado no Sabugal. Ele conhecia bem essa vila, talvez até melhor do que eu. Disse-lhe que os franceses estavam na margem do Côa e que Marmont tinha lá o seu quartel-general, mas desconhecia em que casa ou em que parte da vila.
“Mas não pode voltar lá e descobrir?”; perguntou-me.
“Como quiser”, respondi-lhe, “faço o que me ordenar”.
“Mas isso comporta riscos”, disse-me.
“Seguramente”, respondi-lhe, “mas o risco faz parte do meu dia-a-dia, pelo que procuro encontrar caminhos seguros”.
“Desculpe”, disse ele esboçando um sorriso, “mas eu não estava a pensar em si, ou pelo menos unicamente em si”. E notei pela sua expressão que planeava algo.
“Rogo-lhe que não pense em mim”, disse-lhe simplesmente. (…).
“Veja”, disse ele, “o duque de Ragusa é um homem galante”.
“Notoriamente”, disse-lhe, “toda a Europa sabe isso e ele próprio também o sabe”.
“Ouvi dizer que as suas tropas lhe admiram a auto-estima”
“Bem”, disse eu, “ele monta galhardamente e é corajoso. Começa porém agora a cometer os seus erros, e os soldados, tal como as mulheres, sabem bem o que um guerreiro deve parecer”.
“Na verdade,” disse o General Trant, “a sua perda faria toda a diferença.”
Pedira-me para ficar sentado e servia-me um copo de vinho. Mas as suas palavras fizeram-me pular de repente, o que fez tremer a mesa e derramar metade do conteúdo do copo.
“O que o diabo está errado?” perguntou o general, tirando um mapa do caminho do vinho. “Meu Deus, homem! Não pense que lhe pedia para assassinar Marmont!”
“Peço-lhe perdão”, disse eu, recuperando. “Claro que não disse isso, mas parecia…”
“Oh, parecia?” E enxugou o mapa com o lenço das mãos, olhando-me como quem diz: “Acho que parecia.”
Fiquei algo desconcertado. “Este homem não pode querer que o sequestre!” pensei.

Na verdade, Trant tinha em mente um plano para atacar Marmont no Sabugal, por saber que o grosso das suas tropas tinham seguido na direcção de Castelo Branco, mantendo junto de si apenas um pequeno contingente. Contava para isso com o reforço das milícias de Wilson e de Bacelar, aos quais tinha pedido para se lhe juntarem na Guarda.
Trant acabaria por enviar o espião ao Sabugal para que o mesmo lhe trouxesse informações mais precisas. Conhecia um barbeiro que tinha casa no Sabugal e que fugira para casa de um irmão em Belmonte. Manuel teria que ir ao Sabugal fazendo-se passar por esse barbeiro-cirurgião, simulando o seu regresso e o reinício da actividade.
(Continua)
Paulo Leitão Batista

O livro «The Laird’s Luck, and Other Fireside Tales» (que livremente traduzo por «A Sorte de Laird e Outros Contos à Lareira»), de Arthur Thomas Quiller-Couch, editado em 1901, reúne um conjunto de narrativas centradas no tempo de Napoleão, quando a Europa era avassalada pelas invasões francesas. O Sabugal também faz parte dos cenários de guerra que constam neste livro que não tem edição portuguesa.

O conto «Os Dois Batedores» (The Two Scouts) relata as memórias de um espião ao serviço do exército inglês na Guerra Peninsular (1808-1813). Trata-se de Manuel McNeill, um espanhol de origem inglesa, que se infiltrava nas linhas francesas para conhecer os propósitos dos exércitos de Napoleão, que depois transmitia aos comandantes ingleses.
Há dúvidas quanto à autenticidade destas memórias, embora se saiba da real existência deste espião, que Napier referiu chamar-se Grant. As descrições dos factos e dos lugares por onde passou parecem atestar a veracidade aos relatos, feitos na primeira pessoa.
Manuel esteve no Sabugal, em Abril de 1812, nos dias da quarta invasão francesa, quando o marechal Marmont, duque de Ragusa, ali instalou o seu quartel-general e fez penetrar pelo território nacional as suas colunas, que chegaram a Castelo Branco.
Mas tudo começa nas margens do rio Tormes, perto de Salamanca, onde Manuel, na sua função de espionagem teve um encontro inesperado com um outro espião inglês, o lendário capitão Alan McNeill, seu parente, que detestava disfarces e se movimentava nas linhas francesas envergando o uniforme escarlate do exército britânico, sempre acompanhado por José, o seu fiel criado espanhol. Separaram-se depois, seguindo cada qual o seu destino. Manuel atravessou a fronteira portuguesa e dirigiu-se ao Alentejo, onde avisou Wellington, que punha cerco a Badajoz, das movimentações das tropas do marechal Marmont, que tentavam forçar Ciudad Rodrigo, pretendendo porventura atacar igualmente Almeida.
Depois de entregar o seu relatório a Wellington o espião regressou ao norte. Passou por Castelo Branco, onde soube que os franceses haviam reentrado em Portugal e se aproximavam daquela cidade. Continuou o seu caminho, fazendo-se passar por tropeiro, com a intenção de bater a linha do Côa para colher informações e se dirigir à Guarda, onde o general Trant estava instalado ao comando das milícias portuguesas.
Em Penamacor teve que se desviar de alguns invasores que se dedicavam ao saque e foi encontrar as forças de Marmont ocupando em peso o Sabugal, na «curva do Côa». A 9 de Abril alcançou a Guarda onde Trant se fortificara com seis mil milicianos portugueses.
(Continua)
Paulo Leitão Batista

Auguste Frédéric Louis Viesse de Marmont (1774-1852) foi um prestigiado marechal de França que serviu Napoleão em várias frentes, nomeadamente na guerra peninsular, onde substituiu Massena no comando do Exército de Portugal. Foi Marmont que perpetrou a quase desconhecida quarta invasão, no decurso da qual se instalou no Sabugal.

Marechal MarmontOriundo de uma família nobre, aos 15 anos era subtenente de infantaria. Progredindo depressa na cadeia hierárquica, tornou-se em breve assessor do promissor general Bonaparte, acompanhando-o nas campanhas de Itália e do Egipto.
Voltou para a Europa já como general de brigada, em 1799, sendo então nomeado conselheiro de Estado e, pouco depois, comandante da artilharia da reserva do exército, altura em que se tornou general de divisão.
Em 1805 combateu na batalha de Ulm e, no ano seguinte, foi nomeado comandante geral da Dalmácia, tendo como missão desbloquear os franceses sitiados em Ragusa (actual Dubrovnik) pelos russos, o que cumpriu com êxito.
Em 1808 foi distinguido com o título duque de Ragusa e no ano seguinte participou na campanha austríaca. Foi no decurso dessa campanha que Napoleão o fez Marechal de França e governador-geral de todas as províncias da Ilíria.
Em Julho de 1811 o Imperador enviou-o para Espanha, onde substituiu Massena à frente dos cerca de 50.000 homens do exército de Portugal.
Militar prestigiado e reconhecido estratega, o marechal Marmont manobrou as suas tropas com mestria e, fazendo jus a um pedido formal de Napoleão, cooperou com os demais comandantes franceses que estavam na península. Foi assim que, descendo para sul, juntou as suas forças às do general Murat e obrigou Wellington a desistir da tomada de Badajoz.
O objectivo fixado ao seu exército era o da invasão de Portugal em tempo oportuno, quando tal lhe fosse indicado por Napoleão. Porém o Imperador preparava a guerra com a Rússia e desviara as atenções da Península Ibérica. Entretanto Marmont estendia a sua responsabilidade às Astúrias, Estremadura, Castela-a-Velha e Leão.
No início de 1812, Napoleão ordena-lhe que se fixe em Salamanca e no final de Março, face a nova e fortíssima ofensiva de Wellington sobre Badajoz, manda-o desencadear uma investida em Portugal, através da Beira Baixa.
No dia 3 de Abril de 1812 Marmont inicia a operação, entrando em Portugal e atacando Almeida, que porém resistiu. Avança depois por Alfaiates e instala o seu acampamento no Sabugal, a partir de onde lança colunas para Penamacor e Fundão. Castelo Branco é saqueada a 12 de Abril, o mesmo sucedendo a Pedrogão e Medelim no dia seguinte. A 14 um destacamento atacou a Guarda, onde as milícias portuguesas de Trant foram desbaratadas.
Entretanto, no dia 7 de Abril, Badajoz caiu nas mãos do exército anglo-luso e Wellington veio para norte, a fim de dar combate aos invasores. Marmont sente que não será capaz de enfrentar os ingleses e portugueses e a 24 de Abril de 1812 começa a retirada. Esta quase desconhecida quarta invasão de Portugal durou apenas 20 dias.
Wellington passou pelo Sabugal e Alfaiates e deu perseguição a Marmont em território espanhol. Uma força com cerca de 27.000 ingleses e 18.000 portugueses, atravessou o rio Águeda, e avançou sobre Salamanca. A 28 de Abril foram conquistados os fortes que defendiam a cidade, mas no dia 18 de Julho os franceses saíram vitoriosos dos combates na zona de Tordesilhas.
A derrota francesa só aconteceu no dia 22 de Julho, na batalha de Arapiles, onde Marmont foi gravemente ferido, perdendo um braço.
Face ao ferimento o marechal regressou a França para se recuperar. Em Abril de 1813, já recuperado, recebe de Napoleão um novo comando, passando a combater na Alemanha.
No ano seguinte, quando as tropas aliadas cercaram Paris, Marmont esteve entre os comandantes que defendiam a cidade. Face às dificuldades em manter as posições, foi escolhido pelo Imperador para negociar com os aliados. A capitulação foi assinada em 31 de Março e a 4 de Abril Marmont retira com as suas tropas para a Normandia, em total contradição com as ordens que recebera do Imperador e ignorando os protestos dos seus oficiais e soldados. Este acto ditou que passassem a chamar-lhe duque de «ragusade», para significar traição.
Paulo Leitão Batista

O escritor Manuel Poppe esteve no Sabugal, onde visitou o castelo das cinco quinas, o que lhe inspirou a crónica publicada na Página de Cultura do Jornal de Notícias de domingo, dia 5 de Dezembro, intitulada «O Castelo e a Arte».

Manuel Poppe e Manuel António PinaO escritor de Lisboa, que cresceu e estudou na cidade da Guarda, e que correu mundo enquanto adido cultural em diversas embaixadas portuguesas, começou a sua crónica falando de um outro escritor português que também se maravilhou com o monumento: «Sant’Anna Dionísio escreveu, a propósito do Castelo do Sabugal: “A fisionomia da fortaleza tem a nitidez de uma iluminura de cancioneiro ou livro de horas”. E aponta-lhe a beleza despida e a harmonia que a imponente torre de menagem coroa.»
Manuel Poppe, revela que esteve recentemente na Casa do Castelo, «espécie de centro cultural, que divulga a cidade», onde almoçou com os proprietários, Natália e Romeu Bispo, visitando depois o castelo onde se impressionou com o facto do monumento estar desaproveitado.
«(…) levaram-me ao Castelo. Deslumbrante! E um lugar me impressionou e surpreendeu: o terreiro interior, espaçoso, elegante. Ali, o eco repete as palavras, prova de excelente acústica. Surpreendeu-me saber que pouco o aproveitam para iniciativas artísticas. Aquilo é um anfiteatro grego! Qual a razão do abandono? Tem, aliás, o necessário: palco, bancadas e camarins. Alguma vez o usaram, mas parece que baixaram os braços. Imaginei um ciclo de espectáculos: teatro, cinema, música. Coisa de relançar o Sabugal e atrair gente. Nada tem de impossível, tudo tem de conveniente. É um tesouro a não ignorar. Fico à espera – e serei o primeiro a querer bilhete. Ou aquela Câmara Municipal despreza a Cultura?»
plb

As crianças e jovens das escolas do Sabugal foram até à Senhora do Monte na freguesia da Cerdeira, concelho do Sabugal, para plantar 300 carvalhos assinalando a «Floresta Autóctone» agregada à iniciativa dos Bosques Centenários das Comemorações da República. Reportagem de Paula Pinto com imagem de Miguel Almeida da Redacção da LocalVisãoTv (Guarda).

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Teresa Duarte Reis - O Cheiro das Palavras - Capeia ArraianaMais uma vez, a Casa do Castelo nos surge como uma guardiã dos sussurros, da vida latente e da história de um povo como é o Povo Judeu, com a Apresentação de um livro «A República e os Judeus», do Professor Doutor Jorge Martins.

Pouco conhecedora da memória Sefardita, comecei por adquirir Breve história dos Judeus em Portugal, também do mesmo douto Professor, a fim de tomar alguns conhecimentos da história deste Povo que, todos sabemos quanto sofreu às mãos das correntes hitlerianas.
Os estudos do Professor Jorge Martins vão dar-nos s conhecer a história dos judeus e a maneira como ela faz parte da história de Portugal. Talvez nos surpreendamos os que, como eu pouco sabemos desta matéria, como também em Portugal não foi fácil ser judeu, tal como nos mostrou, de modo interessante, o actor Jorge Sequerra dramatizando a leitura dos textos do Professor.
Falando de judaísmo, não consigo fazê-lo sem pensar em Israel, um povo que sempre admirei, não só pela ligação à vida de Jesus mas também pelo sofrimento de tantos inocentes dessa região, em guerras constantes, longe da doutrina deixada pelo Mestre.
E lá vou eu à procura de algo que mostre como também gosto de pensar e abordar temas que tanto me surpreendem como me encantam.

ISRAEL

Alguém dizia… e escrevia
«Muita história
Tão pouca geografia»
E investigo sobre o Torah
O rabi, lugares onde há
Passagens de Jesus
Terra Santa
Em guerra constante.

Torah – livro Sagrado
Nos traz o que está contado
No Menorah candelabro
Como de sete semanas falasse
De pastor Jacob servia
E lembrar-nos de Maria
No seu sim sem hesitar
Abriu caminhos para a história
Duma igreja a se abrir
Como se o Shabbad apagasse
Para o Domingo surgir
Mas o Pessach não passou
Assim sempre nos lembrou
Que tudo é uma passagem
Tudo vem e tudo vai
E rezo ao Senhor Adonai.

«O Cheiro das Palavras», poesia de Teresa Duarte Reis
netitas19@gmail.com

No intuito de fomentar hábitos de leitura e de escrita, bem como preservar as tradições do território raiano do Concelho do Sabugal, foi instituído o «Prémio Literário Blogue Capeia Arraiana / Agrupamento de Escolas do Sabugal 2011». Edição de Paula Pinto da Redacção da LocalVisãoTv (Guarda).

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O Município de Trancoso comemorou, no dia 13 de Novembro, os 200 anos da 3.ª Invasão Francesa com uma parada militar com fardamento da época e a inauguração de um padrão evocativo.

Padrão Trancoso - Júlio Sarmento - Amaro VieiraA cidade de Trancoso foi, na Terceira Invasão, uma peça determinante de controle, resistência e vigilância na resistência e controle das forças francesas.
O Exército Português e a Câmara Municipal de Trancoso, em parceria com a Trancoso Eventos – Entidade Empresarial Municipal assinalaram em 13 de Novembro o Segundo Centenário da 3.ª Invasão Francesa (Guerra Peninsular) onde esta histórica cidade foi uma das localidades envolvidas neste episódio da História de Portugal.
O reconhecimento está perpetuado num padrão implantado no Largo D. Dinis, o principal do Centro Histórico de Trancoso, em homenagem que o Município de Trancoso e o Exército Portugueses prestaram aos mortos da 3.ª Invasão Francesa.
A importância desta celebração foi assinalada nas diversas intervenções realizadas no local perante forças militares do Regimento de Infantaria de Viseu, fardadas à época (1810).
O Padrão foi inaugurado pelo presidente do Município de Trancoso, Júlio Sarmento e pelo comandante das Forças Terrestres, Tenente-General Amaro Vieira. Está implantado a poucos metros do edifício que funcionou como Quartel-General do General Beresford, mais tarde Conde de Trancoso.
jcl (com Gabinete de Imprensa da Trancoso Eventos)

O historiador Jorge Martins esteve presente na Casa do Castelo, no Sabugal, no dia 7 de Novembro, para uma sessão de apresentação do seu mais recente livro « A República e os Judeus».

Jorge Martins - Natália Bispo - Casa do Castelo - Sabugal

A sessão de lançamento da obra «A República e os Judeus», do historiador Jorge Martins, teve lugar na Câmara Municipal de Lisboa, no dia 9 de Outubro e foi apresentado pelo pensador e filósofo Miguel Real, autor do prefácio.
No dia 7 de Novembro o escritor deslocou-se propositadamente ao Sabugal para fazer a apresentação do livro na Casa do Castelo. Jorge Martins considera-se «filho adoptivo do Sabugal» porque aquando da apresentação de outro dos seus livros, também na Casa do Castelo, desabafou que «era de Lisboa e por isso não podia dizer que tinha terra» foi presenteado por Natália Bispo com um saco de batatas e cebolas para levar para a capital. Também agora voltou para casa com dois lindos sacos – de batatas e de cebolas – ofertados pela dona da Casa do Castelo mantendo, assim, esta relação de amor às terras raianas do Sabugal.
A apresentação do livro – onde estiveram presentes muitos amigos da Casa do Castelo e personalidades ligadas à cultura e às artes – contou com a dramatização de alguns textos pelo actor Jorge Sequerra.
No dia 11 de Novembro, Jorge Martins deslocou-se ao Parlamento para mais uma sessão de lançamento do livro «A República e os Judeus», na Biblioteca da Assembleia da República. «Não podia deixar de realizar na Assembleia da República o lançamento de “A República e os Judeus”, pois aqui se proferiram discursos importantes a favor dos judeus, aquando da discussão do projecto de Lar Judaico em Angola», disse na ocasião.
Recorde-se, ainda, que Jorge Martins foi o moderador (3.º painel) e orador (4.º painel) no Congresso do 1.º Festival da Memória Sefardita que decorreu no início do mês de Novembro no TMG-Teatro Municipal da Guarda organizado pela Turismo Serra da Estrela. A sua intervenção sob o título «Os Judeus da Serra da Estrela nos processos da Inquisição» versou, especialmente, os judeus do Sabugal desde o século XVI até aos nossos dias.

Parabéns ao escritor Jorge Martins e à Casa do Castelo por mais esta oportunidade cultural.
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O historiador Jorge Martins esteve presente na Casa do Castelo, no Sabugal, no dia 7 de Novembro, para uma sessão de apresentação do seu mais recente livro « A República e os Judeus».

GALERIA DE IMAGENS – «A REPÚBLICA E OS JUDEUS»  –  CASA DO CASTELO – 7-11-2010
Fotos Capeia Arraiana  –  Clique nas imagens para ampliar

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A Implantação da República foi comemorada com pompa e circunstância no concelho do Sabugal. A organização dos eventos esteve a cargo da Comissão presidida pelo professor Adérito Tavares. Reportagem da jornalista Sara Castro com imagem de Sérgio Caetano da redacção da LocalVisãoTv (Guarda).

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A Feira Franca no Largo do Castelo do Sabugal «acontece» no último domingo de cada mês. Até ao final do ano está marcada para os dias 31 de Outubro, 28 de Novembro e 26 de Dezembro.

Feira Franca - Largo do Castelo do Sabugal

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A Comissão Municipal para a Celebração do Centenário da República incluiu no seu programa uma visita de estudo à Casa-Museu dos Patudos, em Alpiarça, destinada aos alunos do Curso Profissional de Conservação e Restauro, da Escola Secundária do Sabugal.

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Adérito Tavares - Na Raia da MemóriaAcompanhados por um grupo de professores, pelo Director da Escola, Dr. Jaime Vieira, pelo Presidente da Câmara Municipal do Sabugal, Eng.º António Robalo, e por mim próprio, esta visita efectuou-se no dia 26 de Outubro.
Porquê, no âmbito do Centenário da República, uma visita à Casa dos Patudos? Porque esta extraordinária mansão, recheada com uma também extraordinária colecção de obras de arte, foi residência de um dos maiores vultos da I República, aquele que a proclamou em 5 de Outubro de 1910 a partir da varanda da Câmara Municipal de Lisboa: José Relvas.
Lembremos, em breves palavras, José Relvas, essa notabilíssima figura de cidadão exemplar, político competente e mecenas generoso.
José de Mascarenhas Relvas nasceu na Golegã, em 1858 (curiosamente, no mesmo ano em que nasceu, na Ruvina, o «nosso» Dr. Joaquim Manuel Correia), no seio de uma abastada família. Era filho de Carlos Relvas, que se notabilizou, entre outras e muito diversificadas actividades, como pioneiro da fotografia em Portugal (merece uma visita a sua Casa-Estúdio na Golegã).
José Relvas licenciou-se em Direito na Universidade de Coimbra, no ano de 1880, mas só tardiamente se interessaria pela vida política. Sendo um democrata convicto, demonstrou abertamente a sua discordância em relação ao governo ditatorial de João Franco e aderiu ao Partido Republicano, em 1908. A partir de então, dedicou-se de alma e coração à propagação e defesa dos ideais do republicanismo, tendo-se tornado um dos elementos mais activos do Directório Republicano.
Em 1882, o jovem José Relvas, então com 24 anos, mudou a sua residência para Alpiarça. Quando, em 1887, morreu a sua mãe, D. Margarida Amália de Azevedo Relvas, reclamou a respectiva herança, dispondo assim de capitais suficientes para desenvolver os seus negócios agrícolas, sobretudo a produção vinícola. Foi a prosperidade resultante desses negócios que lhe permitiu construir a Casa dos Patudos.
Esta enorme casa familiar foi projectada, em 1904, por Raul Lino, nesta altura um jovem arquitecto, com apenas 25 anos. Sendo embora uma das suas primeiras obras, a Casa dos Patudos possui já as características fundamentais da obra de Raul Lino, que haveriam de marcar indelevelmente a arquitectura portuguesa da primeira metade do século XX: um sábio doseamento de tradição revivalista e de modernidade.
Inaugurada em 1909, a Casa de José Relvas e da sua família tornar-se-ia simultaneamente uma casa-museu, que, pouco a pouco, viria a albergar uma impressionante colecção de pintura, escultura e artes decorativas, e uma mansão cultural, onde Relvas reunia habitualmente numerosos amigos, sobretudo músicos e artistas plásticos. Ele próprio era um bom violinista (teve um Stradivarius) e o seu filho mais velho, Carlos, tocava piano. Eram, portanto, muito frequentes os serões musicais na Casa dos Patudos.
Sendo por natureza um homem sensível, amante das artes, dedicou boa parte da sua vida à «nobre arte da amizade»: teve a sorte de viver numa das épocas mais fecundas da cultura portuguesa e contava entre os seus amigos artistas como José Malhoa, Columbano, Silva Porto, Tomás da Anunciação, João Vaz, António Ramalho, Rafael Bordalo Pinheiro, Soares dos Reis e Teixeira Lopes, aos quais encomendou ou adquiriu numerosas obras. Nas suas estadias e viagens ao estrangeiro foi também adquirindo quadros de alguns dos mais notáveis pintores europeus de todos os tempos, como Zurbarán e Delacroix. Para além de pintura de grande qualidade, Relvas coleccionou também preciosas obras de escultura, cerâmica, azulejaria, joalharia, tapeçaria, mobiliário, etc.
A partir de 5 de Outubro de 1910, a vida de José Relvas sofreu uma transformação radical: passou a viver muito mais tempo fora de Alpiarça, longe dos seus quadros, do seu violino e dos seus livros. Foi nomeado ministro das Finanças do Governo Provisório, em substituição de Basílio Teles. Exerceu o cargo com grande empenho, competência e escrupulosa dedicação. Algo desiludido, porém, com os rumos da instabilidade política, aceitou o cargo de embaixador de Portugal em Madrid, onde permaneceu entre 1911 e 1914. Regressado ao país, foi depois senador e, em 1919, Presidente do Conselho de Ministros, num breve governo de apenas três meses, formado na sequência do assassinato de Sidónio Pais. Este foi um tempo particularmente funesto na vida de José Relvas: já anteriormente lhe haviam morrido dois filhos e, no ano devastador de 1919, suicida-se o filho mais velho (agora único), Carlos Relvas. Entre 1919 e 1929, ano da sua morte, José Relvas abandona definitivamente a política, refugiando-se na sua actividade de agricultor e na fruição da sua imensa e preciosa colecção artística.
Foi essa vasta e maravilhosa colecção que, de sala em sala, foi encantando os alunos e professores da Escola Secundária do Sabugal.
«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares

ad.tavares@netcabo.pt

Embora pouco referida pelos historiadores, houve uma quarta invasão francesa de Portugal, a que se pode chamar incursão ou «manobra de diversão». A sortida, comandada por Marmont, passou pelo Sabugal, onde de resto ficou instalado o quartel-general, e foi marcada pela violência inusitada dos soldados franceses que, sedentos de vingança, exerceram terríveis atrocidades.

Após o fracasso da terceira invasão, Bonaparte, agastado com Massena, retirou-lhe o comando do Exército de Portugal, entregando-o ao marechal Marmont. O Imperador não desistira de invadir Portugal, aguardando contudo pelo melhor momento.
O Inverno de 1811, passou-se com a presença de Wellington na região de Riba Côa, instalado na Freineda. Foi aí que planeou, em grande secretismo, o cerco a Ciudad Rodrigo. Reconstruiu a fortaleza de Almeida, e apetrechou-a com artilharia pesada e material de cerco. A 1 de Janeiro de 1812, com um exército de 35 mil homens, munido do trem de artilharia que estava em Almeida, irrompeu de encontro à fortaleza espanhola, que foi bloqueada, cercada e bombardeada, sendo tomada a 19 de Janeiro, numa acção que custou a vida ao general Craufurd.
Após tomar Ciudad Rodrigo Wellington encaminhou-se para sul e pôs cerco a Badajoz, cuja praça foi tomada aos franceses num assalto muito caro para ambos os lados, no dia 7 de Abril, assim escancarando a porta da via directa para Madrid.
O forte ataque a Badajoz assustou Napoleão, que ordenou a Marmont a execução de uma manobra de diversão, investindo em Portugal pelo centro. Foi assim que a 3 de Abril, exactamente um ano após a batalha do Sabugal, os franceses lançaram uma forte e rápida ofensiva, tentando tomar Almeida de assalto, no que foram repelidos pela milícia portuguesa que guarnecia a praça. Marmont avançou então com 18 mil homens para o Sabugal, onde a 8 de Abril estabeleceu o seu quartel-general. Dali enviou sortidas a Penamacor, Belmonte, Covilhã e Fundão, chegando a sua vanguarda a Castelo Branco.
Entretanto o brigadeiro Trant, à frente da milícia portuguesa que ajudara o governador de Almeida, La Masurier, na defesa da fortaleza, verificando que os franceses tinham acampado no Sabugal, elaborou um ousado plano para o atacar de surpresa. Comunicou com o brigadeiro Wilson e com o general Bacelar, que igualmente comandavam milícias, e pediu-lhes para se reunirem a si na Guarda, a fim de executarem juntos o movimento de ataque aos franceses. Marmont, apercebendo-se porém da concentração das milícias, antecipou-se aos planos de Trant e enviou à Guarda uma sortida de cavalaria. O brigadeiro inglês retirou à pressa, indo instalar-se para lá do Mondego, mas na manhã do dia 14 de Abril a cavalaria francesa atacou o batalhão português que cobria a retirada, que foi rapidamente desbaratado, fazendo 150 prisioneiros.
Entretanto Wellington, face à movimentação francesa, subiu de Badajoz em marchas forçadas, o que fez Marmont abandonar as suas posições em Castelo Branco, recuando para evitar o confronto com o exército luso-britânico. No caminho da retirada Medelim e Pedrógão foram saqueadas e destruídas pelas tropas invasoras.
Trant escrevera ao comandante-chefe dando-lhe conta da retirada precipitada e do fracasso do plano de ataque ao quartel-general de Marmont no Sabugal. A 17 de Abril, Lord Wellington respondeu-lhe de Castelo Branco, censurando-o vivamente por se ter posicionado na Guarda, que considerava ser «a mais traiçoeira posição militar em Portugal», por não oferecer condições de retirada, louvando-o contudo por ter dado disso conta a tempo de salvar o grosso da milícia.
De Castelo Branco o exército continuou a sua marcha apressada, em perseguição a Marmont, porém este deixou o Sabugal e regressou a Espanha em 24 de Abril, sem que a vanguarda aliada o tivesse alcançado.
Após mais de 250 quilómetros, sem conseguir avistar o inimigo, que recuava com avanço, Wellington decidiu parar em Alfaiates, onde deu merecido descanso às tropas.
Esta fugaz invasão de Portugal, que apenas durou 20 dias, deixou um tremendo rasto de sangue e de morte. Nunca uma passagem de tropas napoleónicas pelas nossas terras raianas fora tão violenta e excessiva como a desta incursão fugaz.
O cenário nas aldeias era de pura destruição, com casas saqueadas e queimadas, igrejas pilhadas e profanadas e cadáveres abandonados no chão.
William Warre, jovem major britânico ao serviço do exército português, que veio com Wellington na perseguição aos invasores, escreveu uma carta à família a partir da aldeia da Nave, onde pernoitou:
«Meu querido pai,
É impossível dar-vos uma ideia da desgraça existente em todas as vilas por onde o inimigo passou, pois destruíram tudo aquilo que não puderam levar. Na minha presente habitação, o chão foi feito em pedaços e as janelas, portas e mobílias incendiadas, só escapando a arca e a cadeira que estou usando, que parecem ter desafiado as chamas. A fome e a penúria dos infelizes camponeses que nos cercam por toda a parte, e a caridade que fomos fazendo a alguns, já esgotou completamente os nossos meios. O dinheiro tem pouca utilidade onde nada pode ser comprado. Toda a forragem para os cavalos foi, nos dois últimos dias, aquela que conseguimos cortar nos campos, embora nem estes tenham escapado à rapacidade do inimigo.(…).
Nava (sic), na estrada entre Sabugal e Alfaiates, 24 de Abril de 1812.
»
Uma invasão quase desconhecida, mas que deixou marcas profundas na nossa região e que, por isso, não devemos deixar apagar da memória histórica.
Paulo Leitão Batista

A «política de terra queimada» posta em prática por Wellington, transformando Portugal num deserto, para que as tropas invasoras não encontrassem meios de subsistência, tornaram os esfomeados soldados franceses em verdadeiros animais ferozes, sofrendo as populações os consequentes actos de barbárie.

Fuzilamento em Madrid na Guerra Peninsular - quadro de GoyaÀ medida que o exército de Massena avançava os franceses davam-se conta de que em Portugal apenas encontrariam fome e miséria. O povo abandonara as aldeias, vilas e cidades, escondera os meios de subsistência que não pudera transportar, queimara as searas, destruíra fornos e moinhos, envenenara fontes e poços. Esta bem sucedida táctica, onde os portugueses de tudo se desprenderam por manifesto patriotismo, foi dois anos depois seguida na Rússia, onde as tropas de Napoleão Bonaparte voltaram a sentir os efeitos da fome, a que se juntaram os do frio extremo.
Nos dias de marcha o soldado comia a parca ração de biscoito que lhe era distribuída, mas quando a coluna parava e acampava, eram de imediato organizadas batidas, ou acções de saqueamento, procurando-se víveres pelos aglomerados populacionais em redor. Como não encontravam vivalma nem meios alimentícios à mão, procuravam adivinhar onde estavam escondidos. Cavavam onde houvesse terra remexida de fresco e, por vezes, eram premiados com a descoberta de uma arca cheia de cereal. Esbarrondavam as frágeis paredes das casas e encontravam nos vãos falsos arcas salgadeiras cheias de carne de porco. Entravam nas lojas e por vezes ficavam deslumbrados com pipas cheias de vinho que os seus proprietários, na pressa da fuga, não tiveram tempo de entornar. Atentos aos sons do campo detectavam o balir, o mugir e o grunhir dos animais domésticos que ficaram para trás ou que tresmalharam, apressando-se a conduzi-los ao acampamento, onde eram abatidos à medida das necessidades.
Na falta de outro alimento a soldadesca sacrificava os burros de carga que acompanhavam o exército. Nunca tanto asno foi comido nas terras portuguesas como nos dias da terceira invasão francesa. Das largas centenas de burros que as hostes napoleónicas trouxeram para transporte de carga e de feridos em combate, apenas parcas dezenas regressaram a Espanha no final.
Cada regimento organizava as suas pilhagens para buscar sustento. Chefiadas por sargentos, as colunas de saqueadores, que os generais designavam de «forrageadores», iam pelo campo seguindo direcções diferentes. Por vezes estas sortidas demoravam dias, só regressando quando tivessem deitado mão a algo capaz de matar a fome aos camaradas. As aldeias estavam desertas, e ai do desventurado que estes soldados encontrassem. Vinham-lhe ao de cima instintos de ferocidade e eram capazes de o torturarem até à morte para obterem a revelação de onde havia algo para pilhar.
Soldado francês com o resultado da pilhagemO capitão Jean-Baptiste Delafosse, que esteve integrado no corpo de Reynier, publicou as suas memórias sobre a campanha de Portugal, onde descreveu, com manifesta emoção, o que a tropa gaulesa passou, justificando assim os actos de barbárie praticados sobre a população portuguesa:
«Desgraçado do camponês que o destino fazia encontra-se com saqueadores! O pobre infeliz via-se, em primeiro lugar, despojado e, muitas vezes, cúmulo do horror, era morto… por homens a quem a fome, essa dura necessidade, tinha tornado cruéis e semelhantes a selvagens (…). Necessitavam de guias em localidades desconhecidas; apanhavam um, ordenavam-lhe que os conduzisse a uma aldeia, não era a sua, bem entendido, onde ele os levava; chegados lá, forçavam-no a indicar os esconderijos, mas, como fazer? O pobre diabo não os conhecia (…). Passavam-lhe uma corda pelo pescoço e o infeliz ouvia estas palavras: “Enforcado até que nos digas onde está o grão!”… Como não o sabia indicar, suspendiam-no até começar a ficar azulado; então punham-no em terra para que falasse! Infeliz! (…) O soldado, na sua ferocidade, dizia-lhe: “Ah, tu não queres dizer onde fica o grão? És um bandido, à forca!” E enforcado ficava.»
Mas vingança gera vingança e o mesmo capitão francês descreve um episódio atroz a que assistiu:
«Em frente de uma casa isolada encontrámos, na nossa marcha de retirada, quatro corpos enforcados numa árvore!… Entrando no rés-do-chão, um espectáculo medonho ofereceu-se aos nossos olhos: sobre a parede estava pregada a pele de um homem esfolado há pouco tempo e por baixo estava escrito em português: “Dragão francês, esfolado vivo, por ter enforcado os nossos homens!…”»
Era esta a resposta do povo português face ao saque, às sevícias, à morte por divertimento e ao abuso das mulheres constantemente praticados pelos soldados franceses.
A prática selvagem de esfolar franceses começou logo em Riba-Côa, nos primeiros dias desta infernal terceira invasão, quando em Nave de Haver foram detidos por populares dois oficiais franceses (um coronel e um tenente) e dois soldados que se haviam perdido da escuridão e ali tinham ido parar. O tenente d’Oraison, atingido com um tiro, foi de seguida esfolado pelas mulheres da aldeia, que assim exprimiram o ódio aos franceses que as violavam e lhe matavam os maridos e os filhos. O coronel Pavetti e os dois soldados foram violentamente torturados e enviados à tropa regular anglo-portuguesa, que estava do outro lado do Côa. Ao ter conhecimento do sucedido, Massena mandou cercar a aldeia e fuzilar os culpados, sendo conduzidos ao quartel francês um conjunto de camponeses, que pagariam com a vida a ousadia e a barbárie popular. Wellington, ao saber do caso, escreveu a Massena, intercedendo pelos infelizes, que eram, assegurava-o, homens da Ordenança portuguesa. Deveriam por isso ser tratados como prisioneiros, da mesma forma que ele tratava os soldados franceses capturados. Massena, agastado com a argumentação de Wellington, que na sua perspectiva apenas defendia assassinos, respondeu-lhe com azedume: «Não lhe fica nada bem falar da sua lealdade nos actos de guerra e no seu respeito pelos usos estabelecidos entre as nações civilizadas. Pois não é o senhor que obriga os portugueses, dos quais, no entanto se diz protector, a devastar as suas propriedades e a fugir quando chegam os franceses?». E os pobres camponeses de Nave de Haver foram de facto executados.
Foram tempos tenebrosos, onde a ira e a sede de vingança tomaram conta de tudo. Tempos que importa evocar na perspectiva de se tomar consciência da desumanidade que sempre acompanha os conflitos armados entre as nações e do sofrimento atroz que por essa via é imposto às populações atingidas.
Paulo leitão Batista

O Museu Judaíco de Belmonte foi o cenário escolhido para a conferência de Imprensa de apresentação do 1.º Festival Internacional da Memória Sefardita que decorre entre os dias 1 e 7 de Novembro na região da Serra da Estrela.

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«São esperados cerca de 500 participantes no 1.º Festival Internacional da Memória Sefardita que vai ter lugar, entre os dias 1 e 7 de Novembro, nos concelhos de Belmonte, Guarda e Trancoso», anunciou esta quinta-feira, 7 de Outubro, no Museu Judaíco de Belmonte o presidente da Turismo Serra da Estrela, Jorge Patrão.
Na mesa estavam presentes os presidentes Jorge Patrão (Turismo Serra da Estrela), António Mendes (comunidade Judaíca de Belmonte), Amândio Melo (Belmonte), Joaquim Valente (Guarda), Júlio Sarmento (Trancoso) e António Robalo (Sabugal).
O presidente da comunidade judaica de Belmonte, António Mendes, confessou nunca pensar que fosse possível a realização de um festival sobre judaismo como o que estava a ser ali apresentado. «Os judeus sempre se esconderam», lembrou.
Este festival vai permitir aos descendentes de judeus sefarditas, originários de Portugal e Espanha e espalhados pelo Mundo, ouvirem falar sobre as suas raízes numa região que tem uma grande herança judaica.
Jorge Patrão considerou que «o Museu Judaico de Belmonte, onde se mantém uma comunidade activa com a respectiva sinanoga, as rotas de antigas judiarias na vila, na Guarda e em Trancoso, o azeite, o vinho e queijos Kosher, alimentos que obedecem à lei judaica, produzidos nas Beiras permitem apostar num turismo durante todo o ano alternativo à sazonalidade da neve da serra da Estrela».
«O Sabugal começa agora a dar os primeiros passos a fazer um levantamento de uma história muito importante ocorrida nesse concelho. Os primeiros levantamentos intra-muralhas, e não só, já foram feitos e um deles foi posto a descoberto e está aberto ao público numa casa muito próximo do castelo que fazia parte da antiga judiaria – a Casa do Castelo – onde foi preservado durante as obras um Aron Hakodesh, um local dedicado à oração de uma casa sefardita, de um habitante judeu, que o manteve escondido com taipas ou portadas por causa da Inquisição. Quando descobrimos peças destas estamos a descobrir o nosso passado. Penso que foi isso, também, que deu motivação à Câmara do Sabugal para integrar as rotas judaicas da serra da Estrela», divulgou durante a conferência de Imprensa Jorge Patrão.
Em resposta a uma questão da Rádio Caria o presidente da Câmara Municipal do Sabugal, António Robalo, esclareceu que «o concelho do Sabugal ainda não está no patamar destes três municípios que participam no primeiro festival sefardita mas a minha presença é uma manifestação de solidariedade com a criação de uma rede temática pelos municípios presentes – destaco a capacidade do Turismo Serra da Estrela de concretizar este iniciativa – e a minha convicção, na sequência de estudos e a actividade que alguns particulares têm desenvolvido no concelho, que esta é uma área que temos de trabalhar com a ajuda de todos contribuindo para esta causa e para a promoção desta rede» porque em consequência do fluxo turístico que vai gerar «a região e a serra da Estrela vão ficar mais conhecidos e mais promovidos».
O autarca sabugalense aproveitou ainda para dizer que «há empenho da Câmara em coordenação com o belo gabinete de arqueologia e o pelouro da cultura e o apoio de outras entidades que já têm um trabalho mais avançado e mais experiência nesse ramo e estamos a equacionar as opiniões dos especialistas que recentemente visitaram o centro intra-muralhas do Sabugal e identificaram mais algumas casas judaicas de grande valor histórico».
O primeiro evento em Portugal focado na memória sefardita inclui um congresso que decorre nos dias 2, 3 e 4 de Novembro no TMG-Teatro Municipal da Guarda. As palestra contam com a presença, entre outros, do ilustre historiador Jorge Martins (cronista no Capeia Arraiana) nos painéis «A fronteira da vida de Aristídes de Sousa Mendes» e «O impacto da herança judaica no turismo» onde vai falar sobre a presença dos judeus no Sabugal e o Aron da Casa do Castelo. O programa inclui ainda visitas culturais (com possível passagem pelo Aron Hakodesh na Casa do Castelo no Sabugal) e concertos evocativos do passado judaico.
O programa do congresso destaca a presença de personalidades de renome nacional e internacional. Na Guarda está prevista a apresentação da Casa da Memória, Identidade e Património Aristídes Sousa Mendes, visitas à sé catedral, antiga judiaria e igreja de São Vicente.
No dia 2, em Belmonte, os participantes são recebidos na Comunidade Judaica de Belmonte, com palestra do Rabino Elisha Salas e dirigentes da Shavei Israel com visita à sinagoga, bairro judaico, castelo, museu judaico e museu à descoberta do Novo Mundo.
Em Trancoso, no dia 4, vai ser apresentado o Centro de Interpretação Judaica Isaac Cardoso, feita a aposição de carimbo e lançamento de selos comemorativos da Memória Sefardita e um concerto de encerramento pelo coro misto da Beira Interior.
De referir ainda que o 1.º Festival Internacional da Herança Sefardita tem o Alto Patrocínio de Sua Excelência o Presidente da República Portuguesa, Professor Aníbal Cavaco Silva e do Alto Comissário para os Refugiados, António Guterres.

«Mas que os há, há» é o que me apraz dizer perante o reconhecimento unânime da importância da herança histórica das comunidades judaicas no Sabugal. Este reconhecimento público do Aron da Casa do Castelo e das casas judaicas intra-muralhas é, também, o reconhecimento do trabalho e da persistência de Natália e Romeu Bispo na preservação dos seus achados arqueológicos e judaicos. Chegou tarde mas chegou.
jcl

Na manhã do dia 6 de Outubro foi plantada a Árvore da República na Escola Secundária do Sabugal.


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O canteiro do pátio da entrada da Escola Secundária do Sabugal tem mais uma árvore. Mas não é uma árvore qualquer. É a Árvore do Centenário da República e foi plantada na manhã do dia 6 de Outubro.
Participaram neste momento simbólico das Comemorações dos 100 anos da República em representação da Câmara Municipal do Sabugal o presidente António Robalo, a vice-presidente Delfina Leal e os vereadores Ernesto Cunha, Joaquim Ricardo, Luís Sanches, Sandra Fortuna e Francisco Vaz. O director, Jaime Vieira, os professores e alunos da Escola Secundária do Sabugal concentraram-se no largo da entrada e colaboraram na plantação da árvore que se pretende chegue, também ela, a centenária.
As primeiras Festas da Árvore iniciaram-se em Portugal na fase muito final da Monarquia por iniciativa de organizações republicanas. A 26 de Maio de 1907 realizou-se no Seixal a 1.ª Festa da Árvore, promovida pela Liga Nacional de Instrução, criada para promover a instrução nacional e principalmente o ensino primário popular.
Destacam-se na sua organização duas figuras ilustres da Maçonaria – António Augusto Louro (natural do Sabugal) que presidiu à Comissão que promoveu a Festa da Árvore e Manuel Borges Grainha da Liga Nacional de Instrução.
A Festa foi um enorme sucesso ao qual aderiram alunos, professores e população do Seixal mas também destacados cidadãos e populações das proximidades.
A implantação da República a 5 de Outubro de 1910 trouxe à sociedade portuguesa um conjunto de novos valores e símbolos. Entre estes destaca-se o culto da árvore que se associa a outros valores centrais do republicanismo como a fraternidade, a educação e o culto da pátria.
jcl

Na manhã do dia 6 de Outubro foi plantada a Árvore da República na Escola Secundária do Sabugal.

GALERIA DE IMAGENS  –  PLANTAÇÃO DA ÁRVORE DA REPÚBLICA   –  6-10-2010
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jcl

Sir Arthur Wellesley, mais tarde Lord Wellington, comandou as tropas aliadas durante a guerra Peninsular, tomando por base o território português. Por mais de uma vez esteve na região de Riba-Côa, estabelecendo o seu quartel-general na Freineda e chefiando as forças alglo-lusas nas batalhas do Sabugal e de Fuentes de Oñoro.

Wellesley nasceu em Dublin, em 30 de Abril de 1764, no seio de uma família nobre. Ficou órfão de pai ainda criança e foi com a mãe para França, onde frequentou a Academia de Equitação de Angers, preparando-se para o serviço militar.
Em 1787 foi nomeado alferes de infantaria na Escócia. Em 1789 era tenente de um regimento de dragões e, no ano seguinte, subiu ao posto de capitão.
Em Abril de 1793 foi promovido a major e, sete meses depois, a tenente-coronel.
Em 1797, já coronel, foi enviado para a Índia, onde foi designado governador. Foi na Índia que atingiu o posto de major-general e se afirmou enquanto estratega nas campanhas militares.
De volta à Europa, participou, em Abril de 1808, no cerco e bombardeamento de Copenhaga, onde se destacou em combate, sendo por isso promovido a tenente-general.
Nomeado comandante de uma força expedicionária, desembarcou em Portugal e venceu o exército de Junot na Roliça e no Vimeiro, impondo a assinatura da Convenção de Sintra, pela qual os franceses embarcaram para França em navios ingleses.
Após um curto período em Inglaterra, voltou a Lisboa em Abril de 1809, para ajudar a expulsar Soult, que entrara pelo norte. Foi então nomeado marechal-general do Exército Português.
Marchou para o Porto e forçou Soult a abandonar Portugal, pondo termo à segunda invasão. Instalou-se depois no Alentejo e avançou por Espanha, travando a batalha de Talavera de la Reyna. Ao cabo de dois dias de carnificina os franceses abandonaram o campo e Wellesley, sem provisões, recuou para Badajoz.
A 26 de Agosto de 1809 é designado Visconde de Wellington, em reconhecimento dos seus feitos militares (seria depois, sucessivamente, conde, duque e marquês), passando a ser designado por Lord Wellington.
Entretanto Napoleão concentrou em Espanha uma poderosa força militar, cujo comando entregou a Massena. Wellington, antevendo a invasão, foi até à fronteira, instalando-se em Celorico da Beira e enviando parte das suas tropas para lá da linha do Côa, onde ficaram em observação. Face ao avanço dos franceses o exército aliado recuou, sendo Wellington muito criticado por portugueses e espanhóis por nada ter feito para auxiliar as praças de Ciudad Rodrigo e de Almeida.
Mas Wellington tinha um plano guardado em segredo, que nem os seus mais próximos conheciam: oficiais engenheiros haviam fortificado a cadeia de montanhas que rodeia Lisboa na margem direita do Tejo, desde a foz do Lisandro até Alhandra, para onde tencionava recuar para aí defender a Capital.
Ao mesmo tempo que recuava, o comandante inglês aconselhava os portugueses a destruírem tudo o que pudesse servir ao invasor. Esta política de «terra queimada» desesperou os franceses que dificilmente encontravam abastecimentos.
Wellington esperou Massena na montanha do Buçaco, com as suas tropas bem posicionadas, travando um combate onde os aliados obtiveram uma importante vitória. Continuou porém a recuar, deixando os franceses perplexos. Mas tudo perceberam quando verificaram que o exército anglo-luso se fortificara ao redor de Lisboa, em local inexpugnável.
Na retirada francesa, Wellington deu perseguição a Massena, tendo disputado combates em Pombal, Redinha, Condeixa, Casal Novo, assim como no Sabugal.
Comandou em pessoa a batalha do Sabugal, em que atacou o corpo de Reynier, que se posicionara no lugar do Gravato. Wellington acabaria por afirmar que este foi «um dos mais gloriosos combates das tropas britânicas». De facto a sua divisão ligeira, comandada por Erskine, cobriu-se de glória ao dar luta renhida, que chegou a ser de corpo a corpo, no meio de um denso nevoeiro.
À batalha do Sabugal seguiu-se a de Fuentes de Oñoro, pela qual evitou que Massena reentrasse em Portugal para reabastecer Almeida.
Passou o Inverno de 1811-1812 na Freineda, no actual concelho de Almeida, onde instalou o seu quartel-general e planeou novas manobras. Em Janeiro de 1812 tomou Ciudad Rodrigo, que guarneceu, e dirigiu-se para sul, indo envolver-se no cerco a Badajoz, e na sanguinária batalha de Albuera, em que houve pesadíssimas baixas de ambos os lados.
Em Abril, face ao avanço de Marmont, que entrou em Portugal e avançou até Castelo Branco, Wellington subiu de novo para norte, e perseguiu esse exército invasor. No rasto de Marmont, passou pelo Sabugal e instalou-se em Alfaiates, onde pernoitou e emanou a ordem de continuação das manobras em Espanha.
A 13 de Junho atravessou o Águeda e, dias depois, travou a famosa batalha de Salamanca, que venceu e lhe abriu as portas de Madrid. Tomada a capital de Espanha, o exército de Wellington, composto por muitos batalhões portugueses, avançou para Burgos, retrocedendo depois para Salamanca.
A fim de dar descanso às suas tropas, Wellington voltou a instalar-se em Riba-Côa, na Freineda, onde durante meses preparou a campanha que expulsaria os franceses da península.
Em Abril de 1813 recomeçou a guerra, dirigindo-se para o Douro, onde destroçou o exército francês, que se colocaria em retirada. Já em Vitoria travou batalha com o marechal Jourdain, que venceu em toda a linha, desorganizando os exércitos franceses.
Em 1814 a paz foi estabelecida, e Wellington, que tinha sido um dos heróis da campanha, partiu para Paris na qualidade de embaixador. A 10 de Junho voltou ao seu quartel-general, em Bordéus, para se despedir do exército peninsular.
O seu maior feito militar, porém, consistiu na vitória sobre os franceses em Waterloo, em 1815, onde pôs termo ao breve regresso de Napoleão Bonaparte.
Wellington ficou conhecido pela visão estratégica e a forma como colocava as suas hostes perante o inimigo. Evitava sempre correr riscos desnecessários, esperando os momentos e as posições oportunas para entrar em combate. Em Portugal, em reconhecimento do seu valor, foram-lhe atribuídos os títulos de conde de Vimeiro, marquês de Torres Vedras e duque da Vitória.
Na Inglaterra, Wellington foi aclamado herói nacional, gozando de um prestígio sem precedentes. Em 1827 foi nomeado comandante-chefe do exército britânico e tornou-se figura preponderante da política londrina, ocupando o cargo de primeiro-ministro de 1828 a 1830.
Morreu em Walmer Castle, a 14 de Setembro de 1852, sendo sepultado, com grande pompa, na Catedral de S. Paulo, em Londres.
Paulo Leitão Batista

«Os heróis do mar, o nobre povo, a nação valente e imortal celebra os 100 anos da República Portuguesa no concelho do Sabugal.» Reportagem da jornalista Paula Pinto com imagem de Sérgio Caetano da redacção da LocalVisãoTv (Guarda).

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jcl

Comemorar os 100 anos da implantação da República, é comprometer-nos na construção de um Sabugal Melhor!

Ramiro Matos – «Sabugal Melhor»Em primeiro lugar, lembramos a atitude de um punhado de portugueses que, transportando a vontade de todo um Povo, souberam dar-se pela causa pública, acreditando nos ideais progressistas e modernistas das ideias republicanas e por elas se dispondo a lutar com risco da própria vida.
Mas lembramos também, e sobretudo, os ventos de progresso, libertação e democratização da sociedade portuguesa que, todos acreditavam, a República transportava no seu seio.
A igualdade perante o Estado e os seus órgãos político-administrativos; o fim dos privilégios ligados às condições de nascimento; a liberdade de consciência e de crença; o fim das perseguições por motivos de religião; a universalidade do ensino primário obrigatório e gratuito; a total liberdade da expressão de pensamento e do direito de reunião e associação; o direito à assistência pública;
Eis todo um ideário de progresso e de modernidade que os republicanos traduzem de imediato na Constituição de 1911.
E no que ao Poder Local diz respeito, a mesma Constituição consagrava, pela primeira vez, o princípio da não ingerência do Poder Executivo na vida dos corpos administrativos locais.
É também na Constituição de 1911, que se definem como princípios a seguir pela legislação ordinária, no que ao Poder Local diz respeito:
A separação dos poderes distritais e municipais em deliberativo e executivo; o exercício do referendo; a representação das minorias nos corpos administrativos locais; a autonomia financeira dos corpos administrativos.
Lamentavelmente, não houve a coragem política para se ir mais longe no que diz respeito à total autonomia do Poder Local, mantendo-se os magistrados administrativos, subordinados ao Governador Civil.
Igualmente, e como isto nos é hoje familiar, a luta entre os «federalistas» e os «centralistas», levaria ao abandono das teses republicanas que defendiam uma forma de regionalização do País assente no tripé «Freguesia-Município-Província».
Mas comemorar o centenário da implantação da República tem hoje, e no contexto do Concelho do Sabugal, outra e fundamental razão.
Em 1911, o Concelho tinha 34.778 habitantes; hoje tem somente 13.261, quase um terço.
Em 1911 as maiores freguesias, todas com mais de 1.000 habitantes, eram 12, por ordem decrescente: Sabugal, Quadrazais, Vale de Espinho, Soito, Alfaiates, Aldeia Velha, Casteleiro, Aldeia da Ponte, Bendada, Pousafoles do Bispo, Sortelha e Santo Estêvão; em 2001 eram duas: Sabugal e Soito.
E no que dizia respeito às freguesias de menor dimensão, com população inferior a 300 habitantes, eram em 1911, Ruivós, Vale das Éguas, Lomba e Vale Longo; no último censo realizado, contavam-se 22 freguesias (mais de metade do total de freguesias do Concelho) com menos de 300 habitantes…
Este é um cenário que nos obriga àquilo a que chamo de «refundação do Concelho do Sabugal».
Os sabugalenses de cada lado do Côa, possuidores de uma história de milénios, caldeados pelo frio e pelo calor, pertencem à classe dos que «antes morrer que torcer», daqueles que, nas tempestades sabem escolher o seu rumo.
E por isso, lembrar a gesta heróica de mulheres e homens que fizeram o 5 de Outubro, estou certo que todos, independentemente da sua ideologia, perceberam já que esta é a hora.
É a hora de definir para onde queremos ir e como lá chegar;
É a hora de usar os recursos vastos que temos para tornar o Concelho mais competitivo e qualificado;
É a hora de afirmar o Concelho no quadro regional, mas também no quadro transfronteiriço;
É a hora para a qual todos somos chamados e na qual todos devemos participar!
E, permitindo-me parafrasear José Relvas na sua proclamação às 11 horas do dia 5 de Outubro de 1910 nas varandas dos Paços do Concelho de Lisboa:
«Unidos todos, numa mesma aspiração ideal» os sabugalenses vão reconstruir o Concelho do Sabugal tornando-o num território sustentável e competitivo, atractivo para viver, trabalhar e investir, preservando as memórias, as tradições e a natureza!

Nota: Esta crónica reproduz no essencial a intervenção feita no dia 5 de Outubro no Auditório Municipal, na qualidade de Presidente da Assembleia Municipal.
«Sabugal Melhor», opinião de Ramiro Matos
(Presidente da Assembleia Municipal do Sabugal)
rmlmatos@gmail.com

5 de Outubro de 1910. 5 de Outubro de 2010. Os 100 anos da República foram assinalados com pompa e circunstância no concelho do Sabugal. A Comissão do Centenário, presidida por Adérito Tavares, preparou com muita dignidade – e qualidade – um programa comemorativo que destaca os valores republicanos da educação, liberdade, igualdade e justiça para todos.

Centenário República - Sabugal

A sessão solene das comemorações do Centenário da Implantação da República no concelho do Sabugal, no dia 5 de Outubro de 2010, teve lugar no Auditório Municipal. A mesa foi constituída por António Robalo, presidente da Câmara Municipal do Sabugal, por Santinho Pacheco, governador civil da Guarda, por Ramiro Matos, presidente da Assembleia Municipal do Sabugal, por Adérito Tavares, presidente da Comissão Municipal para as Comemorações e por Jaime Vieira, igualmente da Comissão Municipal.
A sessão solene foi aberta pelo presidente da Câmara Municipal do Sabugal, António Robalo. O autarca raiano deu as boas-vindas a todos os convidados e felicitou os membros da Comissão Municipal e todos os que colaboraram, nos serviços do município e da Sabugal+, para a organização das cerimónias dos 100 anos da República que decorrem até ao dia 30 de Outubro.
«Faz hoje 100 anos que foi implantada a República, na sequência de um processo revolucionário de republicanização progressiva do país. Finda a monarquia, institui-se a república, que mais não é que o regime político em que ainda, e felizmente, vivemos e em que os cidadãos exercem o poder por intermédio de representantes por si eleitos e em que não existem cargos hereditários», afirmou António Robalo no início do seu discurso. De seguida foram destacadas pelo autarca as principais medidas da República como a «expulsão do país das ordens religiosas, erradicação de qualquer conteúdo religioso do ensino público, na legislação ou nos órgãos do Estado, universalidade e obrigatoriedade do registo civil, mudança da unidade monetária, mudança dos símbolos nacionais (bandeira e hino), instituição do casamento civil obrigatório e do divórcio, igualdade perante a lei, livre expressão do pensamento, instrução obrigatória e gratuita para todas as crianças dos 7 aos 12 anos, autorização e regulamentação da greve, instituição do descanso semanal e obrigatório dos trabalhadores ou a limitação dos horários de trabalho».
Houve, contudo, no entendimento do autarca, «excessos» praticados pela revolução republicana «próprios de quem quer dar novos rumos ao País» mas que «permitiram implantar valores, princípios, ideiais e… a visão da República onde deve prevalecer o interesse público sobre os interesses particulares. O autarca sabugalense recordou o exemplo de Manuel de Arriaga que «não teve direito a habitação como primeiro Presidente da República e só ocupou o palácio de Belém mediante o pagamento de renda».
Para os tempos de crise que vivemos António Robalo aconselhou a «valorizar princípios que orientem a sociedade, a dar o nosso melhor, a trabalhar em prol da comunidade, a esquecer as diferenças e a reforçar o espírito de cooperação» e celebrar os valores republicanos como «igualdade, fraternidade, liberdade, solidariedade, austeridade e não ostentação, preocupação, sacrifício e dedicação ao bem comum».
O presidente sabugalense aproveitou para deixar alguns conselhos «locais»: «Quer a nível nacional quer a nível local que cada um sirva a sociedade. Como eleitos ou como eleitores, os ideais republicanos devem balizar o rumo que queremos para o País, para a região, para o município, para a freguesia. Privilegiar o interesse público acima dos interesses particulares, gerir a coisa pública com determinação, com visão, administrando com zelo o esforço dos contribuintes, dando o exemplo. Às oposições pede-se colaboração no sentido de promoverem o bem comum e não a satisfação dos interesses particulares, os interesses dos seus eleitores. Quantas vezes as oposições estão contra, entre outras razões, porque o poder está a favor? Ao celebrar o centenário da República são estes os valores que devemos celebrar, valores de igualdade, de fraternidade, de liberdade, de solidariedade, de austeridade e não de ostentação, de preocupação, sacrifício e dedicação ao bem comum».
A finalizar e antes do «Viva a República!» o presidente António Robalo recordou o grande Almeida Garret para quem «tudo o que se fizer há-de ser pelo povo e com o povo… ou não se faz».
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Discurso do Presidente da Câmara Municipal do Sabugal. Aqui.
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1 – As cerimónias do Centenário mereceram uma atenção especial por parte dos responsáveis municipais. O cartaz, da autoria de Manuel Morgado, é belíssimo e recebeu os parabéns de todos. Santinho Pacheco, governador civil da Guarda, quando foi presenteado pelo artista com uma serigrafia surpreendeu com uma tirada soberba: «Daqui a cem anos ninguém se vai lembrar dos nossos nomes mas tenho a certeza que vão recordar o de Manuel Morgado.»

2 – Excelente trabalho da Comissão Municipal para as Comemorações do Centenário presidida pelo professor Adérito Tavares. A exposição no Museu é historicamente valiosa. E o que falta cumprir do programa promete…

3 – A República «paga» para ter ao seu serviço centenas de mulheres e homens eleitos para representar o povo. O concelho do Sabugal tem 40 freguesias. As juntas de freguesia são constituídas por três elementos (executivos). A Assembleia Municipal tem, além dos 40 presidentes de Junta, 41 deputados (ou membros). Mas… estiveram presentes na sessão solene no Auditório Municipal do Sabugal, no dia 5 de Outubro, salvo melhor contagem um total de: 3 presidentes de Junta de Freguesia e menos de 10 deputados municipais. É simplesmente lamentável a falta de sentido de responsabilidade de alguns eleitos.

4 – Entre a insustentável leveza e ligeireza da indiferença de uns e as obscuras e bafientas tentativas de tudo tentar manter na mesma de outros há coisas que são difíceis de perceber no republicano concelho do Sabugal.
jcl

5 de Outubro de 1910. 5 de Outubro de 2010. Os 100 anos da República foram assinalados com pompa e circunstância no concelho do Sabugal. A Comissão do Centenário, presidida por Adérito Tavares, preparou com muita dignidade – e qualidade – um programa comemorativo que destaca os valores republicanos da educação, liberdade, igualdade e justiça para todos.

Adérito Tavares - Santinho Pacheco - António Robalo

Na sessão solene do 5 de Outubro de 2010 no Auditório Municipal do Sabugal discursaram António Robalo, presidente da Câmara Municipal do Sabugal, Ramiro Matos, presidente da Assembleia Municipal do Sabugal e Santinho Pacheco, governador civil da Guarda. A oração de sapiência esteve a cargo de Adérito Tavares, historiador e presidente da Comissão Municipal das Comemorações do Centenário.
O presidente da Assembleia Municipal, Ramiro Matos, foi o segundo a discursar. Dirigindo-se aos presentes começou por dizer que «comemorar os cem anos da implantação da República é comprometer-nos na construção de um Sabugal melhor» e lembrando «a atitude de um punhado de portugueses que, transportando a vontade de todo um povo, souberam dar-se pela causa pública, acreditando nos ideais progressistas e modernistas das ideias republicanas e dispondo-se a lutar com risco da própria vida» e finalizou parafraseando José Relvas na sua proclamação nas varandas dos Paços do concelho de Lisboa: «Unidos todos, numa mesma aspiração ideal os sabugalenses vão reconstruir o concelho do Sabugal tornando-o num território sustentável e competitivo, atractivo para viver, trabalhar e investir, preservando as memórias, as tradições e a natureza».
«Viva a República! Viva o Sabugal!» aclamou Santinho Pacheco, governador civil da Guarda, a finalizar o seu discurso no Auditório Municipal do Sabugal no dia 5 de Outubro de 2010.
O representante do Governo português no distrito da Guarda começou por lembrar a toda a plateia do Auditório Municipal que estavam ali para «assinalar num gesto cultural da maior importância – o centenário da República».
Na sequência das duas intervenções anteriores Santinho Pacheco insistiu na importância do concelho do Sabugal no contexto distrital. «Permitam-me que pegue nas palavras dos dois oradores que me antecederam. Estamos num ponto de viragem. Temos que acreditar que vamos dar a volta por cima no concelho no Sabugal. Conheço poucos concelhos como o Sabugal com gente com genica, com garra. Vamos fazer deste concelho um território rural. Temos de envolver a população. Uma das lições que aprendemos com 100 anos de República é que não cabe aos poderes políticos fazer tudo», pediu o governador civil reafirmando que «em vários lados tenho dado o exemplo do Sabugal. Acredito na refundação do concelho do Sabugal como terra onde vai valer a pena viver e trabalhar».
Sobre as comemorações do centenário Santinho Pacheco recordou que «a República de 1910 insere-se nas correntes libertadoras da revolução francesa. Foi na revolução de 1820 que se deram os primeiros sinais da revolução que se avizinhava. O republicanismo foi utópico como são todas as ideologias que consideram que o homem é perfeito. O que se faz politicamente fica sempre aquém daquilo que se prometeu».
Na sua análise o governador civil considerou que «a situação política durante a monarquia tinha-se tornado explosiva porque em Portugal havia um rei mas já não havia monárquicos» e destacou «a democratização do ensino num país onde havia apenas 1800 estudantes liceais ensinados por 600 professores».
A República criou as universidades de Lisboa e do Porto num tempo em que a taxa de anafabetização nas mulheres atingia os 95 por cento mas a cartilha sociológica que invocavam os republicanos não passava de um espelho onde viam não o país real mas os seus ideais.
«Os republicanos revolucionários cometeram erros. Num país maioritariamente católico, rural e analfabeto quiseram impor em meio-ano um regime laico e com educação ao contrário da França onde foram precisos 20 anos para o alcançar» disse Santinho Pacheco acrescentando que «a questão religiosa, a participação na guerra, a pneumónica e as dificuldades económicas trouxeram o descontentamento das populações e criaram condições para o aparecimento do Estado Novo de Salazar».
A terminar o governador civil da Guarda, Santinho Pacheco pediu «mais responsabilidade e menos conflitos partidários».
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Discurso do Governador Civil da Guarda. Aqui.
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jcl

5 de Outubro de 1910. 5 de Outubro de 2010. Os 100 anos da República foram assinalados com pompa e circunstância no concelho do Sabugal. A Comissão do Centenário, presidida por Adérito Tavares, preparou com muita dignidade – e qualidade – um programa comemorativo que destaca os valores republicanos da educação, liberdade, igualdade e justiça para todos.

Adérito Tavares

A oração de sapiência na sessão solene no Auditório Municipal do Sabugal esteve a cargo do ilustre historiador Adérito Tavares, natural de Aldeia do Bispo, no concelho do Sabugal. Adérito Tavares preside à Comissão Municipal para as Comemorações do Centenário da República e é responsável pela recolha e classificação de muitos e valiosos documentos disponíveis na exposição sobre a história da República no Museu.
«No dia 12 de Maio de 2010 assisti no Largo da República, no Sabugal, à representação de um jovem que da varanda dos Paços do Concelho encarnou José Relvas e gritou – Está proclamada a República. Viva Portugal!», recordou Adérito Tavares no início da sua oração de sapiência que vamos reproduzir na íntegra.

«Intervenção na sessão solene de comemoração do Centenário da República no Sabugal
Na manhã de 5 de Outubro de 1910, da varanda da Câmara Municipal de Lisboa, José Relvas e Eusébio Leão, membros do Directório Republicano, anunciavam o estabelecimento do regime republicano e a composição do Governo Provisório, enquanto as suas palavras eram vibrantemente aplaudidas por uma multidão delirante.
Poucas horas depois, um suplemento do Diário do Governo «oficializava» a revolução: «Hoje, 5 de Outubro de 1910, às onze horas da manhã, foi proclamada a República de Portugal no salão nobre dos Paços do Município de Lisboa, depois de terminado o movimento da revolução nacional.»
No dia seguinte, o rei e a família real embarcavam na Ericeira a caminho do exílio.
O triunfo do levantamento republicano deveu-se menos aos méritos das diferentes forças empenhadas no derrube da Monarquia e mais às fragilidades desta. As condições objectivas eram extremamente favoráveis aos republicanos: o País encontrava-se mergulhado numa profunda crise económica, financeira, social e institucional. Por outro lado, a «republicanização» de vastas camadas da população urbana tinha também criado as condições subjectivas para a mudança de regime: a alternativa desenhada pelos ideais republicanos apontava para uma sociedade mais progressiva e mais justa, criando enormes expectativas na população. Mas seria justamente a frustração de muitas dessas expectativas que haveria de criar grandes dificuldades ao novo regime implantado em 1910.
No Sabugal, as notícias da proclamação da República chegaram depressa. Uma semana depois, um grupo de respeitados cidadãos republicanos formou um executivo camarário provisório, presidido pelo Doutor Aurélio de Almeida Santos e Vasconcelos, Morgado de Sortelha. No livro de actas da Câmara podemos ler:

Acta de instalação da Câmara Municipal Republicana, no dia 12 de Outubro de 1910
Presidência do cidadão Aurélio de Almeida Santos e Vasconcelos.
Presentes os senhores vogais João dos Santos Forte, Aníbal Esteves, José Augusto Rodrigues, Manuel António da Mota, José Casimiro da Costa Quintela e Alexandre Lourenço Leitão.
Sendo duas horas da tarde, o senhor Presidente abriu a sessão.
E, um pouco mais adiante:
[A Câmara] deliberou, finalmente, que se enviassem [telegramas] aos Excelentíssimos Presidente Provisório da República e ao Governador Civil deste Distrito, felicitando-os pela proclamação da República e dando-lhes conhecimento de que [esta Câmara] tomou hoje [posse] da Administração Municipal.
No dia seguinte, 13 de Outubro de 1910, voltou a reunir o novo executivo municipal republicano. O entusiasmo com que a República foi recebida transparece na seguinte passagem da acta dessa sessão:
… pedindo e obtendo a palavra, o cidadão vereador [José Casimiro da Costa] Quintela […] disse que se sentia muito à vontade no seu lugar, orgulhoso de pertencer à nova Câmara Republicana deste concelho, composta de cidadãos de uma envergadura moral acima de toda a suspeita e presidida por um dos [cidadãos] mais distintos que conhece.
Pouco tempo depois, em 27 de Outubro de 1910, o Governador Civil da Guarda, Dr. Arnaldo Bigotte de Carvalho, nomeou José Casimiro da Costa Quintela Presidente da Câmara Municipal do Sabugal e o Doutor Aurélio de Vasconcelos Administrador do Município. Lembro que o Administrador do concelho, que existia nos últimos tempos da Monarquia e continuou a existir durante os primeiros anos da República, era o representante do Governo central, o equivalente concelhio ao Governador Civil distrital.
Vale a pena determo-nos ainda noutro destes interessantes documentos, que ilustram bem os acontecimentos ocorridos há cem anos: na sessão do dia 17 de Outubro, ainda sob a presidência do Doutor Aurélio de Vasconcelos, encontramos estas palavras:
A Câmara deliberou que, na acta desta sessão, se lançasse um voto de profundo pesar pelo falecimento dos grandes democratas Doutor Miguel Bombarda e Vice-Almirante Cândido dos Reis, e das demais vítimas que houve para a proclamação da República.
A morte trágica destes dois líderes carismáticos da Revolução cobriu de luto o país republicano e impressionou vivamente as novas autoridades municipais. Por isso, as vilas e cidades de Portugal se encheram de ruas e praças com os nomes do Almirante Reis e do Doutor Miguel Bombarda. A começar, desde logo, pela grande Avenida Almirante Reis, em Lisboa, que até então se chamara Avenida Rainha D. Amélia.
Porque nestas breves palavras não se pode falar de tudo e de todos, detenhamo-nos um pouco sobre estes dois notáveis chefes do movimento republicano.
Miguel Bombarda foi um eminentíssimo médico psiquiatra, professor e ensaísta de renome internacional. Os seus ideais humanistas levaram-no a fundar, em 1906, a Junta Liberal. Impulsionada pelo ardor combativo do Professor Bombarda, esta Junta haveria de se destacar na luta contra a ditadura de João Franco e contra o clericalismo, particularmente contra o jesuitismo. Miguel Bombarda foi igualmente membro proeminente da Maçonaria. No entanto, a sua actividade política só se tornaria verdadeiramente empenhada e comprometida quando aderiu, em 1909, ao Partido Republicano.
O almirante Carlos Cândido dos Reis, a mais alta patente militar comprometida no movimento revolucionário, foi um membro activo da Carbonária e um dos mais empenhados conspiradores republicanos. Na madrugada de 4 de Outubro foi incorrectamente informado por um subordinado, que dava por perdida a batalha em terra. Tendo concluído que a revolução falhara, o almirante suicidou-se. Morreu ingloriamente.
Também Miguel Bombarda teve uma morte trágica, nas vésperas da revolução. Na manhã de 3 de Outubro foi procurado por um antigo doente, Aparício Rebelo dos Santos, oficial do Exército, que sobre ele disparou vários tiros de pistola. Atingido no ventre, foi levado para o Hospital de S. José, onde seria operado pelo prestigiado cirurgião Francisco Gentil, seu colega e amigo. Ao fim da tarde, porém, o seu estado piorou. À mesma hora que a revolução republicana estava na rua ia Miguel Bombarda a enterrar. Herói da República, mártir da ciência.
Nas ruas, a República foi aclamada porque prometia muito. Alguns dias depois da Revolução, um jornal noticiava: «Isto está bom! O feijão já desceu um vintém!» Infelizmente, porém, o caminho não era tão fácil, num país pobre, endividado e quase analfabeto.
No plano ideológico, a República trazia consigo a revalorização dos ideais democráticos, defendendo que o homem só se tornaria verdadeiramente livre quando quebrasse os grilhões da ignorância e da superstição. A herança da Revolução Liberal Francesa encontrava-se ainda no cerne do republicanismo, com a sua trilogia «liberté, egalité, fraternité». Lembremos, no entanto, que, apesar das sucessivas revoluções ocorridas um pouco por toda a Europa durante o século XIX, em 1910 apenas existiam duas repúblicas: na França e na Suíça. Portugal era a terceira.
Para além da consolidação do novo regime e da criação de um clima de pacificação nacional e de ordem pública, o governo provisório e os governos que se lhe seguiram procuraram dar cumprimento a algumas das promessas do Partido Republicano. Foram convocadas eleições para a Assembleia Nacional Constituinte, que elaborou a Constituição de 1911. Procedeu-se à publicação de alguma legislação extremamente corajosa mas polémica, com vista à laicização do Estado, como a Lei de Separação da Igreja do Estado, o estabelecimento do registo civil obrigatório e a legalização do divórcio. No entanto, se a laicização do Estado, em si mesma, constituía um passo positivo no caminho da modernização da sociedade portuguesa, os excessos anticlericais e o desrespeito pelas tradições e convicções da maioria da população, profundamente católica, geraram um perigoso e escusado clima anti-republicano. O objectivo anunciado por Afonso Costa, de erradicar o catolicismo do País em duas gerações, apenas serviria para criar uma questão religiosa. Na exposição que hoje mesmo iremos inaugurar podemos ver duas cartas de D. Manuel Vieira de Matos, Bispo da Guarda, dirigidas ao Presidente da República Manuel da Arriaga. Escritas em 1911, numa linguagem serena e inteligente, denunciam desde cedo o clima de intolerância que o anticlericalismo jacobino estava a semear por todo o País e que apenas se atenuaria a partir dos anos da Grande Guerra.
No plano social, os governos republicanos procuraram também satisfazer muitas das reivindicações mais prementes, através da autorização e regulamentação da greve, da instituição do descanso semanal obrigatório e da limitação dos horários de trabalho; mas deixaram vastas camadas sociais descontentes, sobretudo o operariado. Sucederam-se as greves, muitas vezes reprimidas com bastante violência, o que criaria condições favoráveis ao crescimento do anarco-sindicalismo e do comunismo.
Foi, porém, no domínio da educação que a acção dos primeiros governos republicanos se revelou mais eficaz e duradoura. No dealbar do século, a taxa de analfabetismo, em Portugal, andava pelos 78%, fazendo do País um dos mais atrasados culturalmente. A República decretou a instrução obrigatória e gratuita para todas as crianças entre os 7 e os 12 anos, tendo também procedido à reforma do ensino superior, nomeadamente através da fundação do Instituto Superior Técnico e de duas novas universidades, em Lisboa e no Porto. Os governos republicanos colocaram igualmente entre as suas prioridades as questões da saúde pública, procedendo a uma profunda reforma do ensino médico.
Em síntese: o que hoje celebramos não é apenas uma mudança de regime, é também o começo de uma mudança de mentalidade. Não existem revoluções perfeitas nem regimes perfeitos. E, se a República trouxe consigo excessos e retrocessos, trouxe também indiscutíveis avanços para a modernização de Portugal.
A eclosão da I Guerra Mundial, em 1914, e a intervenção de Portugal no conflito, em 1916, travaram esse processo evolutivo. A participação na Grande Guerra foi um processo suicidário. Se o País se tivesse mantido afastado dos campos de batalha europeus, tudo poderia ter sido bem diferente. Mas a história contrafactual não é senão isso: imaginarmos aquilo que poderia ter acontecido mas que não aconteceu. Em história não há ses. E a verdade é que a Guerra contribuiu pesadamente para acentuar o desequilíbrio financeiro e os desentendimentos políticos, abrindo as portas ao messianismo de Sidónio Pais, essa espécie de “ensaio geral” da Ditadura Militar de 1926 e do Estado Novo salazarista.
Para além da instabilidade política e da incapacidade dos sucessivos governos de equilibrar as contas do Estado, que outras razões ajudam a explicar a queda da I República? A frustração das esperanças do operariado e das classes médias; a militância anti-republicana dos saudosos da Monarquia; o descontentamento da Igreja Católica, provocado pelos excessos do jacobinismo anticlerical; a instalação de um persistente clima de violência urbana, de que a tenebrosa “noite sangrenta” foi o clímax. Foi a conjugação de todos esses factores que acabou por lançar o País nos braços dos militares, em 28 de Maio de 1926. Chegava deste modo ao fim a I República, nascida faz precisamente hoje cem anos.
Pouco depois, em Dezembro de 1928, escrevia Fernando Pessoa:

«Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer.
[…]
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro.»

Também hoje o País parece mergulhado numa cerrada neblina. Saiamos do nevoeiro, sem esperar por D. Sebastião. E o melhor caminho para sair é o da Escola e dos centros de investigação científica. Sabiam-no todos os grandes republicanos. E sabia-o também o poeta João de Deus, que dizia que todas as revoluções, para triunfarem, deveriam começar pelo a, e, i, o, u. Era esse, do mesmo modo, o lema de um notável republicano sabugalense, o Doutor António Augusto Louro, que foi autarca, homem de ciência e pedagogo: ele acreditava também devotadamente nas potencialidades da educação e da cultura como forma de libertação do Homem. Termino com as suas palavras:
«Não há democracia sem liberdade. Não há liberdade sem educação.»
Adérito Tavares»

O Capeia Arraiana destaca o enorme trabalho dos profissionais da Câmara Municipal do Sabugal e da empresa municipal Sabugal+ que tornaram possível celebrar o Centenário da República com muita dignidade e valor histórico. Ao ilustre professor e historiador Adérito Tavares aqui deixamos um grande bem-haja pelo «brilho» da exposição e o «peso» do programa das comemorações.
jcl

5 de Outubro de 1910. 5 de Outubro de 2010. Os 100 anos da República foram assinalados com pompa e circunstância no concelho do Sabugal. A Comissão do Centenário, presidida por Adérito Tavares, preparou com muita dignidade – e qualidade – um programa comemorativo que destaca os valores republicanos da educação, liberdade, igualdade e justiça para todos.

GALERIA DE IMAGENS  –   COMEMORAÇÕES DA REPÚBLICA   –  5-10-2010
Clique nas imagens para ampliar

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«Imagem da Semana» do Capeia Arraiana. Envie-nos a sua escolha para a caixa de correio electrónico: capeiaarraiana@gmail.com


(Clique na imagem para ampliar.)

Data: 5 de Outubro de 2010.
Local: Auditório Municipal do Subugal.
Legenda: Após a sessão solene no Auditório Municipal e antes da inauguração no Museu da exposição sobre a história da República foi apresentada e explicada publicamente a serigrafia alusiva à República da autoria do ilustrador sabugalense Manuel Machado.
Manuel Morgado aproveitou para entregar a Santinho Pacheco, governador civil da Guarda, um exemplar numerado e autografado.
As cerimónias terminaram com todos os presentes a entoar «A Portuguesa» (hino composto em 1890, com letra de Henrique Lopes de Mendonça e música de Alfredo Keil) rematado no final com um «Viva a República! Viva o Sabugal!»
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Especialistas da França, Grã-Bretanha, Portugal e Espanha vão apresentar a importância do Vale do Douro durante a Guerra da Independência na Conferência Internacional «A Guerra de Independência no Vale do Douro: os cercos de Ciudad Rodrigo e Almeida». O congresso histórico realiza-se nas cidades amuralhadas de Almeida e Ciudad Rodrigo entre os dias 5 e 8 de Outubro.

Congresso Internacional Almeida Ciudad Rodrigo«La Guerra de Independencia en el Valle del Duero: Los asedios de Ciudad Rodrigo y Almeida» é um congreso histórico que analisará a importância da fronteira luso-espanhola por onde chegaram as tropas de Napoleão a Portugal e que serviu ao mesmo tempo para o contra-ataque do Duque del Wellington que culminaria na batalha de Arapiles (Salamanca).
O congresso será presidido pela professora de História Moderna na Universidade de Burgos (UBU), Cristina Borreguero, pretende analisar de forma «minuciosa» a importância do Vale do Douro e Ciudad Rodrigo que foram nos últimos 200 anos a porta de acesso à meseta de Castilha.
O Congresso, coordenado pelo Grupo de Estudos sobre Guerra (HM-1), da Universidade de Burgos, procuram explorar questões tão variadas como a terra ea estratégia da Vale do Douro, as chefias militares, diplomacia, cercos, o governo e as placas, e o fluxo da vida quotidiana durante a guerra: a música, medicina e cirurgia de material de campanha, e publicações periódicas de arte dedicada ao conflito.
O encontro reparte-se entre o Palácio de Los Águila em Ciudad Rodrigo e o auditório do Centro de de Estudos de Arquitectura Militar de Almeida, que será visitada pelos participantes a 7 de Outubro. A organização pretende publicar em 2011 os textos e fotografias do congresso.

Programa do Congresso. Aqui.
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Jean-Louis Ebénézer Reynier nasceu a 14 de Janeiro de 1771 em Lausanne, na Suíça, tendo-se destacado enquanto militar ao serviço de Napoleão. Na terceira invasão de Portugal coube-lhe ocupar o Sabugal e Alfaiates, onde permaneceu no período preparatório do avanço para Lisboa. Na retirada voltou a acampar no Sabugal, onde enfrentou as tropas anglo-portuguesas comandadas directamente por lord Wellington.

Reynier foi um oficial talentoso, que porém era por vezes acusado de ser muito inseguro e de trato difícil.
Formado em engenharia civil, ofereceu-se para servir no exército francês em 1792, tornando-se oficial de artilharia. Serviu abnegadamente em combate, o que, aliado aos seus conhecimentos, lhe valeu ser promovido a general de brigada com apenas 24 anos.
Integrou a expedição ao Egipto, onde serviu na batalha das Pirâmides e foi nomeado governador de uma província. Tomou parte na expedição à Síria, e, de volta ao Cairo, desentendeu-se com o comandante-em-chefe, o general Menou, o que lhe valeu ser preso e acusado de traição.
Já em Paris, bateu-se em duelo com o general Destaing, a quem provocou a morte. Napoleão expulsou-o então da cidade. Mas o reconhecido talento de Reynier fez com que estivesse de volta pouco tempo depois.
Em 1804 integrou o Corpo de Observação de Nápoles, e, no ano seguinte, venceu os austríacos. Em 1806 serviu sob as ordens de Massena e, em 1807, assumiu o comando do exército francês na Calábria, cuja campanha o levou a Grande Oficial da Legião de Honra. Em 1808 foi nomeado Ministro da Guerra e da Marinha do Reino de Nápoles.
No decurso da importante Batalha de Wagram, o Imperador retirou o comando ao Marechal Bernadotte, chamando Reynier para o substituir à frente de um dos corpos.
No final de 1809 foi enviado para a Península Ibérica, onde tomou o comando do 2º corpo, que integrou o Exército de Portugal, sob as ordens de Massena. Apesar dos reveses desta campanha, Reynier tornou-se Conde do Império, em reconhecimento dos seus méritos.
Em Janeiro de 1812 retornou a França para preparar a campanha da Rússia, na qual participou. Na retirada, já na Alemanha, ficou prisioneiro dos russos, que, sabendo-o suíço de nascimento, lhe ofereceram uma comissão no seu exército. Reynier recusou, permanecendo fiel à França, e retornou a Paris, graças a uma troca de prisioneiros. Desgastado pelas campanhas adoeceu gravemente e morreu pouco depois, em 27 de Fevereiro de 1814.
No decurso da terceira invasão de Portugal foram diversos os momentos de tensão entre Massena e os seus comandantes dos corpos, incluindo Reynier. Massena considerava-o um general com muito talento, mas que era tímido e desesperava perante a menor dificuldade.
Antes da invasão se iniciar, coube-lhe cobrir a linha do Tejo, sustendo as tropas do general Hill. Depois o marechal comandante ordenou-lhe que viesse para norte, entrasse em Portugal pela Idanha e atingisse o Sabugal e Alfaiates, onde deveria instalar os seus 18 mil homens. Esteve no Sabugal de 27 de Agosto a 11 de Setembro de 1810. Seguiu depois para a Guarda e desceu o vale do Mondego, acompanhando os outros corpos no movimento geral.
Na batalha do Buçaco Reynier formou a esquerda do ataque francês, tendo sofrido pesadas baixas. Passando Coimbra e Leiria o exército invasor chegou às célebres linhas de Torres Vedras, também chamadas de Lisboa, que não conseguiu ultrapassar, espraiando-se em toda a sua extensão, cabendo a Reynier ocupar Vila Franca de Xira e Castanheira do Ribatejo. Recuou depois para Santarém, cidade que ocupou enquanto os franceses esperaram por reforços que nunca chegaram.
Reynier era admirado pelos seus soldados, dado o rigor com que manobrava as tropas e os estratagemas a que recorria para iludir o inimigo. Em Santarém, passando grandes privações, por falta de víveres, Reynier pensou numa incursão à margem esquerda do Tejo para recolher algum do gado. Wellington tinha soldados guardando toda essa margem, sem porém se conhecer o seu número. Reynier concretizou então um plano, que consistiu em fazer subir um balão de ar quente que mandou fazer com papéis, facto que despertou a curiosidade dos soldados portugueses e ingleses, que saíram dos seus refúgios para observarem o artefacto. Munido do seu binóculo o general contou então as tropas inimigas, planeando depois uma incursão que foi muito bem sucedida.
Aquando da retirada, Reynier voltou a surpreender ao montar um estratagema que iludiu as linhas luso-britânicas e lhe garantiu um avanço considerável. Mandou fazer manequins vestidos de soldados, colocou-os nos locais das sentinelas e abandonou os postos durante a noite. Só ao amanhecer os aliados deram conta de que as linhas francesas estavam desertas.
Na véspera da batalha do Sabugal Reynier fez mais uma vez desesperar Massena, que estava em Alfaiates. O Marechal ordenara-lhe que garantisse a ponte do Côa, dando tempo a Loison para recuar com o seu corpo. Porém Reynier mostrava-se nervoso e impaciente, face aos movimentos que os seus postos avançados observavam ao exército anglo-luso, que vinha de Vale Mourisco em direcção ao Sabugal. Os ajudantes de campo de um e outro oficial cruzavam-se incessantemente com missivas. Reynier dizia estar defronte de toda a vanguarda do exército aliado e queria retirar durante a noite, mas Massena ordenava-lhe que se mantivesse firme e escrevia-lhe: Não penso que o inimigo nos queira atacar; colocou-se na estrada de Penamacor para ver se queremos ir por ela. (…) o 6º corpo está à sua direita e o 8º atrás de si, e ou um ou o outro lhe dará apoio em caso de necessidade. (…) Para lhe dizer a verdade, não creio que lord Wellington esteja à sua frente. Mas estava, e em pessoa, preparando um ataque vigoroso às linhas francesas. Atacado, Reynier resistiu quanto pôde, até receber enfim autorização para retirar.
Massena elogiou porém o esforço do seu general: o combate do Sabugal honra Reynier, pois este general recuperou toda a sua energia logo que a acção começou, escreveu o general Koch nas «Memórias de Massena». Na verdade cumpriu a sua missão e conseguiu retirar em boa ordem, sem perdas consideráveis.
O nome de Reynier está escrito no lado sul do Arco de Triunfo.
Paulo Leitão Batista

Massena comandou a terceira invasão de Portugal em 1810, à frente de um exército que se propunha enviar os ingleses para o mar e tomar conta de um território e de um povo que se mostrava indomável. Porém, tal como as anteriores, esta invasão fracassou e com ela esmoreceu a chama do ilustre Marechal de França.

André Massena nasceu numa aldeia dos Alpes a 6 de Maio de 1758, no seio de uma família humilde, em que o pai era curtidor e fabricante de sabão. Foi o terceiro de cinco irmãos e teve uma infância dura. Aos 14 anos embarcou num navio mercante como grumete e aos 16 ingressou no exército francês. Passados dois anos era sargento, patente de que nunca passaria, dadas as suas origens humildes, não fosse a revolução de 1789, que o catapultou para o topo da hierarquia militar. Os seus elevados méritos no campo de batalha levaram-no a Marechal de França, e a acumular os títulos de Duque de Rivoli e Príncipe de Essling.
Cobriu-se de glória nas campanhas da Áustria e de Itália, o que lhe valeu ser chamado por Napoleão Bonaparte de «filho querido da vitória», e tido como o melhor estratega francês, cuja fama apenas era suplantada pela do próprio imperador.
Em 1810, após o fracasso da segunda invasão de Portugal, comandada por Soult, Napoleão decidiu acabar de vez com a resistência deste rincão ocidental da Europa, onde os ingleses se haviam instalado, ajudando a que se mantivesse como o único país do continente que não estava submetido à vontade dos franceses. Em 17 de Abril, ordenou a formação do Exército de Portugal que ele próprio comandaria. Porém os afazeres da politica prenderam-no em Paris, e nomeou comandante-em-chefe do novo exército o Marechal Massena, tido como o seu melhor e mais prestigiado lugar-tenente.
Massena tudo fez para evitar a nomeação. Não via com bons olhos que o exército fosse formado por corpos comandados por oficiais generais que estavam há muito na Península. Desconfiava especialmente de Ney e de Junot. O primeiro porque era também Marechal e era demasiado orgulhoso e irascível, e o segundo porque havia comandado a primeira invasão e não apreciaria reentrar em Portugal numa posição secundária. Napoleão recebeu porém Massena em audiência e convenceu-o a aceitar a missão.
Escolheu os oficiais do seu estado-maior e os comandantes de engenharia e artilharia e, em 29 de Abril, partiu de Paris, chegando a Valladolid a 10 de Maio, onde se correspondeu com os chefes dos três corpos que formavam o Exército de Portugal: o marechal Ney e os generais Junot e Reynier. Passou depois a Salamanca, onde organizou o seu exército e ordenou a tomada de Ciudad Rodrigo, que capitulou a 9 de Julho, criando-se assim as condições para que cumprisse com segurança a missão de submeter Portugal.
A tropa lançou-se sobre Almeida, cuja praça foi tomada após a infeliz explosão do paiol, e dali seguiu pela estrada da Beira, travando um primeiro combate no Buçaco, em 27 de Setembro, onde as forças anglo-lusas levaram a melhor sobre um exército francês que caiu no erro de tentar forçar linhas bem posicionadas. Massena perdeu ali um pouco do seu brio, mas prosseguiu com a invasão levando os ingleses e os portugueses da sua frente. Só as célebres Linhas de Torres Vedras, autêntica barreira defensiva inexpugnável, fez parar o movimento de Massena, que se quedou à espera de reforços para forçar a tomada de Lisboa.
Até Março de 1811, o exército francês subsistiu como pôde, com as tropas depauperadas e desmotivadas. Sem meios para atacar Lisboa, desiludido e desconfiado dos seus lugar-tenentes, Massena decidiu retirar. Planeou cada movimento com o maior rigor, conseguindo evitar grandes perdas, mau grado a perseguição tenaz que o exército ango-luso lhe deu. Sem força para avançar, soube controlar a retirada, demonstrando neste particular os seus dotes de estratega. Mesmo assim, quis evitar abandonar Portugal, planeando deixar os feridos e o material pesado em Almeida e avançando sobre o Sabugal e Penamacor, tomando o caminho do Sul, onde se reuniria ao Marechal Soult, que operava no sul de Espanha, para relançar a invasão pelo Alentejo. Contudo a insubordinação de Ney não lhe deixou margem para executar esse projecto, tanto mais que Wellington o interceptou no Sabugal, onde lhe deu combate, obrigando-o a recuar para Espanha.
Massena perdeu na batalha do Sabugal um obus, não se cansando de dizer que essa foi a única peça de artilharia que lhe foi retirada pelo inimigo em Portugal, assim provando que retirara sempre em boa ordem, nunca se considerando literalmente derrotado.
Já em Salamanca decide voltar a Portugal para abastecer a praça de Almeida, e trava com grande vigor a batalha de Fuentes de Oñoro, onde não conseguiu romper as linhas aliadas, assim se gorando a derradeira tentativa de reentrar em Portugal. Face ao fracasso, Massena caiu no desfavor de Napoleão, que lhe retirou o comando do Exército de Portugal, substituindo-o por Marmont. Para o humilhar o major general do exército francês envia-lhe de Paris uma missiva com as ordens expressas do imperador: «É desejo de Sua Majestade que se apresente em Paris imediatamente. O Imperador ordena expressamente que só traga consigo o seu filho e outro dos seus ajudantes-de-campo.»
Muitos franceses consideram Massena como o responsável pelo fracasso da invasão, fosse por ausência de uma estratégia ousada, por não ter conseguido submeter os seus comandantes de corpo ou por não ter dado combate vigoroso aos ingleses entrincheirados nas Linhas de Torres.
Mas são também muitos os militares franceses do seu tempo e os historiadores que vêm em defesa de Massena. Houve desde logo o mérito de lord Wellington que ao retirar para se fortificar junto a Lisboa, lhe deixou um território deserto e sem recursos, onde não pôde subsistir. Depois há a questão da dimensão do exército que Napoleão lhe entregou, porque ao invés dos 70 mil homens prometidos, Massena nunca teve mais de 45 mil. Fulcral foi também a constante insubordinação do Marechal Ney, que comandava o 6º corpo, que se recusou por diversas vezes a cumprir as ordens literais de Massena, colocando em causa as manobras do exército invasor.
André Massena, que morreria tuberculoso em 4 de Abril de 1817, esteve nas nossas terras raianas no momento em que preparava a execução da invasão e também aquando da retirada. No movimento retrógrado instalou o quartel-general em Alfaiates, de onde intentou a manobra de evolução para o sul. Porém o avanço dos aliados para o Sabugal, pela margem esquerda do Côa, gorou-lhe esses planos. No dia da Batalha do Sabugal, a 3 de Abril de 1811, foi de Alfaiates que enviou a ordem de retirada a Reynier, que comandava o corpo que foi atacado pelo exército anglo-luso. Foi ainda em Alfaiates que concentrou os seus corpos de exército e fez de seguida a manobra de recuo para Espanha.
Paulo Leitão Batista

JOAQUIM SAPINHO

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