You are currently browsing joaovalente’s articles.

Comentando há tempos com um cliente a eleição de um novo presidente da câmara no seu concelho e a minha fé na mudança das políticas camarárias, retorquiu-me ele que era apenas uma questão de «ementa»; os novos eleitos apenas deixaram de comer na tasca do mercado, passando a frequentar o restaurante mais fino da cidade, e o antigo poder fez o percurso inverso, regressando à tasca do mercado.

João Valente - Arroz com Todos - Capeia ArraianaFoi uma resposta desconcertante, mas porque sou frequentador ocasional dos dois locais, pude constatar, algum tempo depois, o acerto de tal diagnóstico.
De facto, as decisões humanas sempre foram governadas pelo funcionamento intestinal, mudando o poder apenas o preço e o requinte da ementa do que os políticos comem.
Já estou a imaginar o caro leitor, senão incrédulo, pelo menos de «pé atrás» com o insólito de tal afirmação.
Mas de insólito esta nada tem. É a boca que governa o mundo!
Com efeito, já Voltaire defendia esta tese, ainda que de forma mais elaborada, acentuando não o papel da boca, mas da digestão nas decisões políticas, quando pôs o anatomista Sidrac in «Os ouvidos do conde Chesterfield e o capelão Goudman», a dizer que «todos os negócios deste mundo dependem da opinião e da vontade de um principal personagem, seja o rei, ou o primeiro-ministro, ou alto funcionário. Ora, essa opinião e essa vontade são o efeito imediato da maneira como os espíritos animais se filtram no cérebro e daí até a medula alongada; esses espíritos animais dependem da circulação do sangue; esse sangue depende da formação do quilo; esse quilo elabora-se na rede do mesentério; esse mesentério acha-se ligado aos intestinos por filamentos muito delgados; esses intestinos, se assim me é permitido dizer, estão cheios de merda».
– Que acontece então a um homem com prisão de ventre? – filosofava Siderac – Os elementos mais tênues, mais delicados da sua merda, se misturam ao quilo nas veias de Asellius, vão à veia-porta e ao reservatório de Pecquet; passam para a subclávia; penetram no coração do homem mais galante, da mulher mais faceira.
É uma orvalhada de bosta que se lhe espalha por todo o corpo. Se esse orvalho inunda os parênquimas, os vasos e as glândulas de um atrabiliário, o seu mau-humor transforma-se em ferocidade; o branco de seus olhos se torna de um sombrio ardente; seus lábios colam-se um ao outro; a cor do rosto assume tonalidades baças. Ele parece que vos ameaça; não vos aproximeis; e, se for um ministro de Estado, guardai-vos de lhe apresentar um requerimento. Todo e qualquer papel, ele só o considera como um recurso de que bem desejaria lançar mão, segundo o antigo e abominável costume dos europeus. Informai-vos habilmente de seu criado se Sua Senhoria foi aos pés pela manhã.
Isto é mais importante do que se julga. A prisão de ventre tem produzido às vezes as mais sanguinolentas cenas. Meu avô, que morreu centenário, era boticário de Cromwell; contou-me muitas vezes que fazia oito dias que Cromwell não ia à privada quando mandou degolar o seu rei.»
E comprova a sua tese, Siderac, com os seguintes exemplos:
«Todas as pessoas um pouco a par dos negócios do continente sabem que o duque de Guise foi várias vezes avisado de que não incomodasse a Henrique III no inverno, enquanto estivesse soprando o nordeste. Em tal época, era com extrema dificuldade que o referido monarca satisfazia as suas necessidades naturais. Suas matérias lhe subiam à cabeça; era capaz, então, de todas as violências.
O duque de Guise não levou a sério tão avisado conselho. Que lhe aconteceu? Seu irmão e ele foram assassinados.
Carlos IX, seu predecessor, era o homem mais entupido do reino. Tão obstruídos estavam os condutos de seu cólon e de seu reto, que por fim o sangue lhe jorrou pelos poros.
Bem se sabe que esse temperamento adusto foi uma das causas da matança de S. Bartolomeu.
Pelo contrário, as pessoas que têm bom aspecto, as entranhas aveludadas, o colédoco fluente, o movimento peristáltico fácil e regular, que todas as manhãs, depois de comer, se desobrigam de uma boa evacuação, tão facilmente como os outros cospem; essas pessoas favoritas da natureza são brandas, afáveis, graciosas, benevolentes, serviçais. Um não na sua boca tem mais graça do que um sim na boca de um entupido.
Tal é o domínio da privada, que uma soltura torna muita vez um homem pusilânime. A disenteria tira a coragem. Não convideis um homem enfraquecido pela insónia, por uma febre lenta, e por cinquenta dejecções pútridas, para atacar um posto inimigo em pleno dia.
Eis por que não posso acreditar que todo o nosso exército estivesse com disenteria na batalha de Azincourt, como dizem, e que alcançou a vitória de calças na mão. Alguns soldados teriam ficado com soltura por haverem abusado de maus vinhos no caminho; e os historiadores teriam dito que todo o exército, enfermo, se bateu de bunda de fora, e que, para não mostrá-la aos peralvilhos franceses, bateu-os redondamente, segundo a expressão do jesuíta Daniel. E eis justamente como se escreve a História.»

Meus amigos, a boa e má política dependem do bom funcionamento da tripa e da vesícula de quem nos governa.
Uns exemplos para que percebam:
O Ricardo apresentava um ar de icterícia persistente, indício de problema de vesícula e de mau funcionamento da tripa.
O Tony, parecendo o mais escorreito, tinha o problema de saúde que toda a gente sabe e que logo adivinhei; resolvido o problema, o novo cargo que provavelmente vai assumir (por favor não perguntem qual; ficam a saber tanto como eu) será um bom teste à vesícula para daqui a três anos.
O Robalo tendo boa cor, sofre de inchaço da barriga, tal como eu, o que indicia digestões difíceis e morosas. Fará bom mandato, dependendo de como refrear o apetite e seleccionar a dieta dele e dos que lhe estão próximos.
Daí a minha indecisão no apoio a qualquer um.
É que, à falta de melhor critério, quando tenho de escolher um político decido sempre, segundo a teoria de Voltaire, em função da vesícula dos candidatos. Têm pele macilenta, ar enjoado, inchaço da barriga, cólicas, irritabilidade? Não voto. Têm boa cor, boa forma física, serenidade? Voto.
O problema é que, não sendo médico, e tratando-se a politica de uma ciência inexacta, às vezes engano-me.
Também não tinha à vontade para chegar ao Ricardo ao Tony e Robalo e confrontá-los com a pergunta:
– O candidato vai regularmente à privada?
Isso são coisas no segredo dos deuses e da intimidade de cada um, como percebem… Por isso é que os políticos são como os melões. Só abrindo-os é que sabemos se estão maduros! E algumas vezes enfiamos o barrete…
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

Anúncios

João ValenteEm tempo de Natal publicamos um poema alusivo a esta quadra festiva.

Natal! Noite de Natal!…
Noite sagrada!…
Festa das filhoses,
Dos sonhos,
Das fatias douradas!…

O Toco levantado no meio da praça…
Frio de rachar…
Os pingos congelados
Nos beirais
E a gente arrepiada
Só de ir à rua.

A missa do galo à noite…
A Igreja, Abarrotada de gente,
Cheirando a flores, a velas
No presépio, a Gruta, a Estrela,
O Menino, a Mãe, S. José,
O burro, a vaquinha, os magos
E o Padre Chico na sua casula branca a cantar:
«Glória no Céu, paz na terra,
Para a gente de boa vontade..
»

À saída
A gente vinha a cantar,
A rir… abraçando-se,
Ateava-se o toco…
Labaredas incendiando os muros…
Gritos,
Bombas de foguetes,
Confusão,
Faúlhas a subirem no ar,
O garrafão do Zé Santo
De mão em mão,
A concertina do Zé Laranja a tocar
E todos em roda a cantar:
«Entrai pastores entrai, por esses portais adentro…
Vinde adorar o menino, que está em palhas deitado…
»

Depois,
Cada um tomava o caminho de casa,
Espevitávamos a lareira,
Grandes troncos ardendo,
O fumeiro, por cima, a secar,
As meias das crianças penduradas na chaminé,
A família sentada, em redor da mesa,
Naquela moleza de barriga farta,
O bacalhau, as couves, as batatas, regados com o fio de azeite
O vinho novo da pipa, os doces da avó… Aletria! Arroz doce!
E lá fora grupos de rapazes, a cantarem ao desafio:
«Natal Natal… Natal Natal…
Filhós com vinho não fazem mal!…
»

A cantiga afastando-se:
O vento a trazendo, O vento a levando…
Sumindo-se com a noite…
De ali a nada… O Carlos grande e o Carlos pequeno
Rabugentos! Cabeceando de sono!
A Fátima com a sua boneca de trapo!
A irem para a cama levados ao colo…
O Avô João sentado na cadeira de palha, ao lume,
Eu nos joelhos dele a ouvir-lhe as histórias
E a avó Maria da Luz limpando os olhos com a ponta do avental
A sacudir aquela aguadilha que teimava em aparecer-lhe…
De tanta felicidade.

O lume morria…
A torcida da candeia esmorecia…
O avô tirava do bolso uma goluseima, levantava-se:
«Em Nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo, Ámen…»

E ia-mo-nos deitar…

«Arroz com Todos», opinião de João Valente
joaovalenteadvogado@gmail.com

A região da Beira Interior sempre foi marcadamente agrícola e rural, vindo a sofrer um processo de empobrecimento generalizado, fruto do abandono irreversível da agricultura.

João ValenteIsto se deve ao sistema de minifúndio, à pobreza dos solos, à escassez de recursos, baixa produtividade, falta de escolaridade e profissionalização, à falta de competitividade, de que resultou a inadaptação do ecossistema agrícola à alta capacidade produtiva.
Isto é, a agricultura tradicional, por não ser competitiva, desapareceu; a agricultura convencional e de grande escala tornou-se impraticável, pelas condicionantes locais.
As consequências foram a desestruturação da agricultura familiar tradicional e o abandono da agricultura pelos jovens.
Contudo, ainda é possível trazer qualidade de vida às nossas aldeias e campos, se optarmos por um desenvolvimento rural sustentado, baseado na agroecologia e produtos locais com valor acrescentado.
A agroecologia adapta-se mais facilmente à realidade de sistemas de organização familiar de produção agrícola tradicional, na medida em que também é baseada na mão-de-obra familiar, mas reorientada para novas práticas, não implicando grandes riscos económicos de conversão, uma vez que não utiliza o pacote agroquímico e os sobrepreços deste mercado especializado de produtos serem mais atractivos para os produtores.
A nossa região é rica na variedade de produtos alimentares tradicionais e gastronómicos. È só aproveitá-los e acrescentar-lhes valor.
É verdade que a diversificação dos alimentos processados industrialmente, o alargamento dos mercados e a produção em larga escala, ameaçaram aniquilar as pequenas produções de cariz artesanal. Mas de uma grande ameaça, resulta, frequentemente, uma boa oportunidade.
Tudo depende da forma como utilizarmos a nossa imaginação e a capacidade inovadora.
A maioria dos produtos tradicionais, surgiram para satisfazer as necessidades alimentares das populações agrícolas do interior e, embora artesanais, permitiram, em muitas regiões, criar um «saber fazer» relativo aos métodos de produção, que os conseguiu singularizar e enobrecer.
Esta singularidade nos métodos de produção, é que distingue a produção artesanal da produção industrial e, devidamente explorada, permite-lhe identificar importantes segmentos de mercado, detectar novas necessidades dos consumidores.
Foi o que aconteceu à castanha da Paradela e ao queijo da Serra da Estrela (DOP); ao salpicão de Vinhais, à cereja da Cova da Beira, etc. (IGT); à alheira de Mirandela e aos frutos em vinho do Porto (ETG), que garantindo um padrão de qualidade através da certificação, impuseram as suas marcas e conservam a sua presença no mercado de forma sustentável.
O processo de certificação é por isso importante para a garantia do padrão de qualidade dos produtos tradicionais e melhoria da sua posição competitiva, podendo a ele recorrer qualquer entidade, independentemente do seu estatuto ou domínio de actividade e consiste na emissão, junto do Instituto Português da Qualidade (lPQ), de um certificado de conformidade, que comprova que a entidade tem em funcionamento um sistema de gestão, que lhe permite garantir a conformidade dos seus produtos ou serviços com os requisitos preestabelecidos.
O escoamento destes produtos tem especificidades próprias, pelo nicho de mercado a que se destinam e é importante.
Com boas campanhas de marketing (feiras temáticas ex.: queijo, fumeiro, etc) acções de merchandising ex.: Natal, Santos Populares, ect), e o aparecimento dos grandes espaços de vendas a retalho, os Produtos Tradicionais de qualidade garantida encontram novos espaços para a sua promoção e venda.
As pequenas lojas vocacionadas para a venda de produtos regionais, também são novos espaços com características ideais para valorizar a sua comercialização, especializando-se em produtos de uma só região, ou, noutros casos, em produtos de diversas regiões.
A gastronomia portuguesa constitui uma das maiores riquezas e uma marca que valoriza, de forma particular, a nossa cultura e o nosso turismo.
É neste espaço da restauração que os Produtos Tradicionais encontram um segmento importante do seu mercado total, porque a comida regional é hoje muito procurada e apreciada.
Nas grandes cidades é possível beneficiar dessa variedade por intermédio de restaurantes especializados por região, que podem ajudar a escoar a produção local de valor acrescentado (Queijos, enchidos, carnes, vinhos e frutas) e a divulgar produtos certificados de uma região reconhecida.
Encontrando-se a gastronomia interligada ao turismo, a restauração poderá, também, constituir um factor de alavancagem para a internacionalização dos Produtos Tradicionais.
As feiras regionais, que, um pouco por todo o País, se realizam anualmente, constituem um importante veículo, no sentido de promover o encontro dos Produtos Tradicionais com grandes massas de público consumidor que, facilmente, são atraídas por esses eventos.
Esses são também espaços com significativo potencial para divulgar produto a nível de empresas, que fazem parte das cadeias de distribuição desses produtos.
Resumindo e concluindo:
– Existem alternativas à agricultura convencional, que são os produtos agro-alimentares e vegetais tradicionais de valor acrescentado, com um nicho de mercado economicamente vantajoso e alternativo;
– As entidades públicas, como autarquias e associações, podem e devem promover a certificação destes produtos, para garantir a sua qualidade e genuidade e têm um papel importante na divulgação e venda destes produtos, promovendo feiras regionais e certames;
– Os particulares podem ter mais uma fonte de rendimento alternativo e de trabalho digno, produzindo e vendendo estes bens de valor acrescentado, fixam-se ao meio rural;
– Estes produtos de valor acrescentado, além de constituírem uma fonte alternativa de rendimento, podem alavancar o turismo local.
Tudo depende da imaginação e da capacidade inovadora que se tenha.
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

Cultura é o conjunto de manifestações artísticas, sociais, linguísticas e comportamentais de um povo ou civilização. Fazem parte da cultura de um povo, por exemplo, as seguintes actividades e manifestações: música, teatro, rituais religiosos, língua falada e escrita, mitos, hábitos alimentares, dança, arquitectura, invenções, pensamentos e formas de organização social.

João ValenteUma das capacidades que diferenciam o ser humano dos animais irracionais é precisamente a capacidade de produção de cultura.
Portanto tudo o que diga respeito à gastronomia e aos costumes de um povo, é cultural e importante.
As confrarias gastronómicas e associações, defendem a preservação de produtos regionais e tradições, divulgando-os. Por isso são importantes agentes culturais.
Como agentes culturais, preservam a cultura, certificando produtos, divulgando os produtos e tradições através de eventos, levando a cabo acções de formação nos restaurantes que servem os produtos de acordo com as tradições de uma região, preservando saberes e manifestações culturais de um povo e são importantes parceiros das autarquias locais, dos agricultores e dos agentes económicos, porque incentivam a economia e produção locais.
Estou a lembrar-me, a título de exemplo da «Confraria do Bucho Raiano» que pode promover a criação do porco bízaro e a gastronomia local; ou das associações, como a dos «Amigos de Aldeia da Ponte», que divulgando as capeias, promovem o turismo.
As confrarias e associações são a afirmação de um movimento na defesa do património cultural de uma região. São cultura viva, um elo na cadeia de transmissão entre gerações, do património colectivo.
Numa sociedade rural e agrária como a nossa, marcada até à década de sessenta pelo analfabetismo, e geográfica e politicamente isolada, a transmissão oral constituiu desde sempre o processo insubstituível de transferência de saberes transgeracional, em que o património imaterial, passado oralmente de geração em geração, representou não só um mecanismo de afirmação e preservação identitária e sobrevivência da nossa comunidade.
Com a desertificação humana acelerada que actualmente se verifica no interior, nomeadamente na região de Riba-Côa, há o risco o risco de se quebrar esta cadeia entre gerações, tornando inviável, a breve prazo, até a recolha deste património, por escassez de fontes.
Por esta razão, mais do que nunca é importante o papel das confrarias e associações culturais na recolha preservação, transmissão e divulgação do nosso património colectivo.
Por isso, os nossos jovens, em vez de menosprezarem estes movimentos culturais, devem aderir a eles com entusiasmo, porque preservam e transmitem a memória dos gostos, paladares, tradições e saberes dos nossos antepassados.
E um povo se não preserva a sua memória, perde a identidade própria; e logo a seguir, morre como povo!
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

A Catarina tem 4 anos e frequenta o Jardim de Infância, onde aprende, com as tarefas diárias, as regras básicas de convivência em sociedade.

João ValenteUma das tarefas, que exercita para os cargos públicos, consiste no desempenho rotativo do cargo de chefe, no qual tem que distribuir funções aos colegas, zelar pela arrumação e disciplina na sala e ser o braço direito da educadora. Um símbolo do cargo é uma cartolina ao eito, que o chefe exibe, lembrando aos outros a sua autoridade.
Há dias, cabendo-lhe a função de chefe, quando procedia, com auxílio de um quadro com fotografias, à chamada diária dos colegas, a Catarina saltou um dos meninos.
Corrigida pela educadora, saiu-se com esta:
– Toma – e tirando o colar, entregando-o à educadora – dá-o a outro menino, que está visto; eu não sei ser chefe!
Vem isto a propósito das «guerras de Alecrim e Manjerona» que se vivem na autarquia do Sabugal a propósito da nomeação da administração da empresa «Sabugal+».
Se os nossos políticos não sabem ultrapassar as quezílias pessoais a bem do interesse público, estas eleições foram mais um adiamento das soluções para o nosso concelho e nova hipoteca do futuro.
Como era bom que, copiando o exemplar desprendimento da pequena Catarina, dessem a vez a uma geração de novos políticos, para que estes tomassem verdadeiramente as rédeas do futuro do concelho.
O poder e ambição, cegam!
Para esta cegueira e falta de bom senso, só vejo uma solução:
Na Florença do séc. XIII, digladiavam-se pelo poder três facções políticas: os guelfos, os gibelinos, e, dentro destes, os brancos e os pretos. O povo farto de tanta guerra política, alterou a constituição, obrigando os membros do concelho a viverem juntos durante os seis meses do mandato, no palácio do governo. Em suma; encontraram uma forma engenhosa de punirem a ambição e falta de senso dos seus governantes.
Não se entende o presidente e a oposição? Que se apeiem pelos tornozelos uns aos outros como se faz quando se quer amansar o gado.
Dê-se pois ao presidente e a um dos vereadores de cada partido da oposição a administração da empresa municipal.
Os quatro anos de mandato, serão castigo suficiente para todos.
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

Numa pequena vila do Interior vivia um velho médico, que totalmente abstraído da vida social, se converteu em recluso. A sua prática médica não era muito extensa, porque ao longo da vida se limitou a curar umas febres sazonais, a fazer uns partos e pouco mais. Escreveu contudo um livro, um manual de medicina natural, cujo título aqui não vem ao caso, em que expunha, além das terapias para um extenso rol de maleitas, uma estranha e curiosa teoria…

João ValenteDizia ele, que era possível, uma pessoa de boa saúde poder prognosticar a sua morte com precisão, até um ano antes de ela acontecer.
E dava exemplos concretos em que tinha feito os seus prognósticos acertados; e de pessoas que advertiu do eminente decesso e que morreram no prazo fixado, sem causa conhecida.
Pois um dia, o bom do médico recebeu a visita de um conterrâneo, homem de idade também, que lendo o seu livro, o foi consultar sobre os sintomas, do que julgava ser o decesso eminente.
Ouviu o bom médico atentamente os queixumes do homem. Depois ficaram ambos calados.
Deu-te alguma coisa hoje – perguntou o médico – alguma coisa que te fizesse suspeitar da morte?
O homem olhou-o fixamente e não respondeu.
Talvez – continuou o médico – algum gesto, um sinal, qualquer coisa, porque conhecesses o sinal da morte…
O homem ficou impaciente, um pouco nervoso.
– Sim. Li o seu livro e tratei um familiar durante três anos com as suas mesinhas. Morreu…
O médico deu umas passadas, visivelmente incomodado, pela sala e sentou-se.
Doutor – continuou o homem – o que me diz, como médico? Vou morrer?
– Não! És a pessoa mais saudável que conheço. Volta para casa. Lembro-me que tocavas concertina como ninguém. Toca uma coisa alegre e divertida e esquece este maldito assunto da morte.
Uma semana depois, o homem, que vivia numa comprida rua desabitada, foi encontrado morto em casa, a concertina no colo. Tocara um corridinho. A seguir, na Antena2, dera a marcha fúnebre de Chopin.
E no jornal sabugalense onde saiu a notícia necrológica, vinha em primeira página, que no largo principal da vila, o executivo camarário decidira erguer uma estátua à República!
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

O livro dos Génesis, que traz a história de Caim e Abel (Gen 4, 1-18), foi um dos muitos livros bíblicos, na versão sacerdotal, escritos durante o cativeiro da Babilónia. É por isso que a Bíblia traz histórias e mitos do Médio Oriente, como o mito de Abel e Caim que é uma reinterpretação do mito babilónico de Dumuzi e Enkidu, relacionando-o com o Deus dos judeus.

João ValenteDumuzi e Enkidu eram divindades do mito babilónico; o primeiro era a divindade dos povos sedentários (agricultores) e este, a divindade dos povos nómadas (pastores). Os dois ofereceram presentes a uma Deusa que ambos cortejavam. Esta aceitou apenas o presente de Enkidu. Dumuzi, com ciúmes, matou Enkidu semeando, assim, o ciúme, a vingança e o ódio eterno.
O mito nesta configuração fundamenta e legitima à partida os confrontos e conflitos entre os povos sedentários (agricultores) representados por Dumuzi e os povos nómadas (pastores) representados por Enkidu, constantes nessa época no vale da Mesopotâmia, pois muitas vezes as cabras e cabritos dos pastores comiam a produção dos agricultores, gerando conflitos.
Os pastores, nómadas foram por isso sendo afastados para locais mais remotos porque o seu modo de vida passou a ser incompatível com as regras sociais e as estruturas de poder que os povos sedentários estabeleceram.
Não esqueçamos que o patriarca Abraão era o chefe de um clã de pastores nómadas, originário da região de Ur, que em resultado da pressão agrícola das novas cidades (como Ur, Uruque, Lagach e Eridu) no crescente fértil, emigrou em busca das pastagens de Canaã.
E não é só na Bíblia que este conflito aparece. No D. Quixote, vol.I, cap. XII, XIII e XIV, Cervantes descreve a vida num acampamento desses pastores nómadas e os amores contrariados entre Crisóstomo e a bela pastora Marcela, que reflectem, ainda no séc. XVI, a diferença irreconciliável destes dois modos de vida.
Substituindo Enkidu, Dumuzi e a deusa babilónicos e pondo no seu lugar Caim, Abel e o Deus de Israel, compreendemos melhor o mito bíblico:
No mito babilónico, Dumuzi foi condenado a passar seis meses por ano no Inferno, tal como no mito grego a deusa Prosérpina.
No mito bíblico, depois da «punição» de Deus, Caim não pode mais ser agricultor, pois «Serás amaldiçoado por essa terra que abriu a boca para receber de tuas mãos o sangue do teu irmão. Ainda que cultives o solo, ele não te dará mais o seu produto. Tu andarás errante e perdido pelo mundo» (Gen 4,11-12).
Caim vai ter que andar errante e perdido pelo mundo (Gn 4,13) para ver como era a vida de seu irmão.
Apesar dos cabritos e cabras comerem a produção dos agricultores no mito de Dumuzi e Enkidu, eles adubavam o solo. Uns necessitam dos outros; complementavam-se.
Com a morte de Abel o solo torna-se infértil. E como tal, Caim tem de fazer pastor.
Por isso é muito importante conhecer o contexto em que os livros bíblicos foram escritos, para se interpretarem correctamente.
Esta passagem do Génesis não tem nada a ver com a crueldade de Deus. É também muito mais que um texto sobre a inveja entre os homens, pois apela à tolerância e cooperação entre os homens.
O que ele ensina é que a inveja é, sem dúvida, um dos sentimentos mais destrutivos. Quando nos deixamos dominar por este sentimento, perdemos a liberdade do ser e sujeitamo-nos à servidão do nada. Descemos às profundezas do inferno como Dumuzi. Andamos errantes e perdidos pelo mundo como Caim, numa vida sem o amor que dá o verdadeiro sentido à existência humana.
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

Relatório que fez Misael, anjo enviado à Terra, no ano 2009 da era de Jesus de Nazaré…

João ValenteA Terra era uniforme e vazia e as trevas cobriam o abismo. Deus decidiu fazer o céu, a terra e a luz.
Traçou um esboço a guache creme. Primeiramente pintou uma aguada em toda a área, deixando as zonas claras com a cor do vazio. A cor foi obtida misturando branco opaco, negro-de-fumo, anil e um toque de carmesim. Pintou tons mais escuros da mesma mistura sobre a aguada inicial, ainda húmida. As áreas suaves do céu, mais claras, obteve-as passando uma esponja. As colinas, os fundos e alguns recortes do céu foram acrescentados depois de o resto ficar seco.
O efeito dos raios solares e o efeito do nevoeiro obteve-os com aguadas transparentes de branco opaco e um pouco de ocre amarelo.
Afastando-se do cavalete, Deus viu que tudo isto era belo. Então pintou todos os animais que existem nos oceanos, na terra e no céu; abençoou-os e ordenou que se multiplicassem.
E apreciando a magnífica obra que saíra do seu pincel, ficou satisfeito. Disse então: «Façamos o homem à nossa imagem e semelhança, para que domine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos e sobre todos os répteis que rastejam sobre a terra.»
Depois, entre os Querubins do sétimo céu que presidem às galáxias do universo, pôs Uriel num lugar proeminente, encarregando-o do departamento da via láctea, sistema solar, coadjuvado por vários arcanjos e anjos numa cadeia hierárquica de importância em função dos continentes, terra, mar e céu, por que respondiam.
E nesta hierarquia celeste, atribuiu Deus ao arcanjo Rafael a Terra, a Gabriel a porção da Terra que viria a ser Portugal e a mim, Misael, uma língua de terra da Malcata à Marofa.
Certa manhã, enfadado da rotina da corte celestial, desceu Uriel até mim e acordou-me:
– Misael, a estupidez e as discórdias dos teus protegidos irritaram o Senhor; de forma que se reuniram em concílio os querubins para decidirem se deviam castiga-los ou destruí-los. Vai a essa terra, examina tudo e conta-me o que vires, para que decida conforme o que me relatares.
Mas, chefe – observei, ainda ensonado – não conheço ninguém naquele fim do mundo…
Melhor ainda – retorquiu Uriel – assim serás imparcial.
Disfarçando-me de viajante, montei uma nuvem, e parti. Ao cabo de alguns dias, encontrei finalmente nas margens de um rio um grupo de operários que aparelhavam umas pedras; e junto a eles um grupo de três homens que orientavam os trabalhos.
Dirigi-me primeiro a um dos operários que encontrei. Falei-lhe, e perguntei que obra era aquela em que trabalhavam.
Não sabemos – replicou o operário; e apontando para o grupo dos três homens – mas se queres saber, pergunta ali aos capatazes.
Acerquei-me então dos capatazes e perguntei-lhes que obra era aquela que faziam.
É uma ponte – respondeu o primeiro.
Qual ponte, qual carapuça – respondeu o segundo – aqui vai ser um açude.
Nada disso – respondeu o terceiro – um moinho é que faz aqui falta.
Espantado, misturei-me então com os operários, e conquistando-lhes a simpatia, pude assim saber que, por causa daquela discórdia que durava há anos, se acumulavam toneladas de pedra na margem com grande dispêndio de recursos e trabalho, sem que se visse algum resultado daquilo.
Naquela terra aliás – explicaram os operários – todos sofriam do mal de inveja, não se entendendo para coisa nenhuma. Por isso nada se fazia de útil para o bem comum, com grave prejuízo de todos.
Despedi-me dos operários e desci o rio, numa extensão de uma légua, atravessando tapadas, terras férteis cobertas de mato e giestas, alcançando um alto aberto com uma vista panorâmica, sobre uma paisagem deserta e calcinada. Numa ligeira elevação, a torre de menagem de um castelo, erguendo-se sobre os telhados vermelhos do casario, cuja ruína ofendia a vista.
Chegando à cidade, depois de outro quarto de légua a pé, atravessei as ruas completamente desertas e fui dar a uma praça onde, sentada na escadaria do chafariz, a meio do recinto, vi uma velha que gozava o sol da tarde.
Abeirando-me, perguntei-lhe:
– Boa velha, que é feito dos habitantes desta terra?
Saiba o senhor – retorquiu a velha, levantando os olhos da renda em que trabalhava – que os novos partiram e os velhos foram morrendo.
O sol começava a descer no horizonte. Seguindo caminho, pela rua principal, que tinha um aspecto abandonado e desagradável, entrei num terreiro onde brincava uma criança. Aproximando-me:
– Qual o teu nome?
– João…
E fazendo-lhe uma festa – Brincas a quê?
– Ao faz de conta…
E não avistando mais ninguém – Com quem?
– Com os meus amigos…
– Mas que amigos?
– Amigos de faz de conta…
Afeiçoando-me à criança, a única que vi no meu passeio, temi que aquela terra fosse condenada. Sentando-me num banco de pedra que ali havia, pus-me a cismar sobre o relatório que havia de apresentar a Uriel.
Eis como me desenvencilhei para apresentar esse relatório. Chamei a criança e levei-a a Uriel.
– Destruirias – disse – aquela terra, apesar deste único inocente?
Uriel compadeceu-se, deixando tudo como estava. E apanhando uma corrente ascendente, juntando-se aos outros querubins, desapareceu no espaço sideral.
É que para pior – desabafou Uriel – assim bastava!
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

«Deus não existe». E não existe porque nunca se deu ao trabalho em descer à dimensão espacio-temporal para falar com o grande génio da humanidade que é Saramago. É este o argumento idiota de um sofrível escritor que pensa ser o Nobel um certificado de autoridade intelectual e inteligência «erga omnes».

João ValenteA existência de Deus, até nem é uma questão de fé mas de lógica. Mas inteligência e rectidão intelectual, pelos vistos são talentos que Deus não distribuiu a Saramago. Por isso, releva-se-lhe a falta, porque não se lhe pode exigir o que manifestamente não tem.
Não se lhe exigindo inteligência e rectidão intelectual, muito menos se lhe pede a clarividência mística do porteiro da Cartuxa de Évora, que ao argumento do nascimento do mundo pela explosão do Big Bang a partir do nada, contrapunha:
– Pois… Mas se nasceu do nada, quem continha esse nada?
As provas de São Tomás a respeito de Deus, são tão brilhantes, que conseguem convencer quem tenha o mínimo de inteligência e de rectidão intelectual. Muito antes dele, homens de uma grande rectidão intelectual, como Sócrates, Platão, Aristóteles, Séneca, Virgílio e Marco Aurélio chegaram à conclusão da existência de Deus.
Sócrates, às portas da morte rezava: «Causa das causas, tem piedade de mim…»
Cleanthes, discípulo do estóico Zenão, cantava o seguinte hino: « Altíssima Glória dos Céus, Senhor de variado nome eterno, perpétuo seja o teu poder! Abençoado sejas, ó grande arquitecto da criação, que ordenas todas as coisas segundo as tuas leis! Evocar o teu nome é próprio e justo para o mortal, pois somos nascidos de ti…»
Séneca descrevia o Supremo Poder como «Deus Todo Poderoso», ou «Sabedoria incorpórea, ou Espírito Santo, ou ainda Destino», numa antecipação da doutrina cristã da Santíssima Trindade, de que a Igreja suprimiu o destino.
A existência de Deus é uma verdade evidente em si mesma, porque na preposição «Deus existe», o predicado identifica-se com o sujeito, porque Deus é o próprio ente.
Mas em relação a nós, que desconhecemos a natureza divina, ela não é evidente, precisando de ser demonstrada. Mas o que se demonstra, não é evidente e o que é evidente não precisa de ser demonstrado.
O que tornaria à partida paradoxal a demonstração da existência de Deus. Por isso São Tomás diz que a existência de Deus é antes de mais, um artigo de fé e como tal não precisa de ser demonstrado.
Mas mesmo assim, podemos chegar a Deus pela via da demonstração, das quais São Tomás distingue dois tipos:
Demonstrandum propter quid (devido a quê) que se baseia na causa e parte do anterior (causa) para o posterior (efeito);
Demonstrandum quia (porque) que arte do efeito para conhecer a causa.~

Quando vemos um efeito pela sua causa, por aquele acabamos por chegar a esta, pois o efeito depende da causa e de algum modo, tem qualidades da causa.
Assim, embora Deus não seja evidente para nós, é demonstrável pelos efeitos que dele conhecemos. Como dizia S. Paulo «A existência de Deus […] pode ser conhecida pela razão» (Rom. I, 19).
A fé assenta e pressupõe um conhecimento natural e racional, assim como a verdade pressupõe a mentira e a perfeição a imperfeição. Só quem conhece ou entende a demonstração filosófica da existência de Deus, aceita a sua existência com uma fé esclarecida.
Ora, não primando Saramago pela inteligência e honestidade intelectual, admiração seria que admitisse a existência de Deus sequer pela via da fé.
Querem ver como pela via da razão São Tomás (1.ª parte da Suma Teológica art. 3.º da questão 2) demonstra a existência de Deus?
Basta a prova do movimento no universo:
As coisas mudam; é um facto. Uma pessoa nasce, cresce e morre; as estações do ano sucedem-se; um regato corre e seca, etc.
Na mudança das coisas podemos distinguir as qualidades já existentes e as qualidades que podem vir a adquirir pela mudança. Aquelas são as existentes em acto; estas são as existentes em potência.
Vg. Uma parede branca tem a brancura em acto e o vermelho em potência porque pode ser pintada desta cor.
A mudança, ou movimento é a passagem de potência (x) a acto (x) traduzida na seguinte fórmula:
M = PX—»AX
Vg. Pintar de vermelho a parede branca.
Ora nada passa de potência a acto sem uma entidade estranha que tenha aquela qualidade em acto.
Vg. A parede branca só fica vermelha se receber o vermelho da tinta.
Concluindo; tudo o que estava em potência e muda é movido por outrem. E para mover é preciso ter uma qualidade em acto. No que decorre que é impossível que uma coisa esteja ao mesmo tempo em potência e acto para uma mesma qualidade.
V.g. Se a parede está branca em acto, ela tem potência para ser vermelha. Se ela está vermelha em acto ele não tem potência para ser vermelha.
É por isso impossível que uma coisa seja ao mesmo motor e móvel para uma mesma qualidade; isto é, que uma coisa se mude a si mesma. Resumindo: tudo o que muda, é por acção externa.
E as mudanças podem dar-se numa sequência definida de mudanças que pode exemplificar-se na seguinte fórmula invertida:
PX(6)—»AXPX(5)—»AXPX(4)—»AXPX(3)—»AXPX(2)—»AX(1)
Definida, porque se fosse indefinida, não havia um primeiro ente que originasse a sequência, o que seria absurdo porque para se produzir movimento num ente é preciso sempre outro com a qualidade em acto e porque tinha que a potência preceder o acto e nunca podia haver uma acto anterior à potência, impossibilitando-se assim o movimento.
Portanto a sequência do movimento não pode ser indefinida, e aquela tem de ser originária de um ente que seja apenas em acto, que seja o primeiro motor.
Este primeiro motor não pode ser movido, porque é puro acto (tem todas as perfeições) sem potência passiva, porque se a tivesse seria movido por um anterior, como é lógico.
Este Acto Puro, sem nenhuma potência passiva é Deus.
E como Acto Puro, não tem passado nem futuro; é, simplesmente. Por isso quando Moisés perguntou a Deus qual era o seu nome este respondeu-lhe: «Eu sou Aquele Que é», e quando Jesus discutiu com os fariseus lhes disse também: «Antes que Abraão fosse, Eu sou» (Jo. VIII, 58).
Caramba! Nem é preciso ser mais inteligente que Saramago… Os movimentos dão-se no espaço e tempo que são mensuráveis e como tal a sua sequência tem que ser finita, o que é comprovado pela teoria do Big Bang, pela lei da entropia e até pela teoria da evolução.
Deus portanto existe. É o ser em Acto Puro que não muda, independentemente da vontade de Saramago.
Até o porteiro da Cartuxa de Évora, que foi das pessoas mais simples que alguma vez conheci, no seu misticismo chegou à conclusão de que Deus é «Aquele que tudo contém…»
Mesmo a parvoíce de Saramago!
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

Li o que escreveu Joaquim Portas («Cinco Quinas») a propósito dos resultados eleitorais. Foi uma análise amarga e com sabor a ajuste de contas com o engenheiro Morgado, que só desabona a quem a fez.

João ValenteVeio Joaquim Portas das brumas do passado para nos dizer que «no concelho do Sabugal, mais do que o Partido Socialista […], o grande derrotado na noite do dia 11 de Outubro, chama-se, António Morgado.»
E referindo-se depois a este, diz que «ao trair os seus eleitores e sobretudo aqueles que o ajudaram […] deixou cair a máscara e revelou o lado mais sinistro da sua personalidade.»
Para abrir o jogo confessando que «sempre pensou que António Morgado era um balão que qualquer alfinete podia esvaziar» e que com esta derrota eleitoral «o balão encheu tanto que rebentou. O seu problema não é político nem de política, o seu problema é de carácter.»
E numa estocada à falsa fé, conclui que quem conhece o percurso do engenheiro Morgado «sabe que a sua carreira política foi sempre baseada em pequenas ou grandes traições» E enterrando a espada até ao punho pergunta se «alguém duvida que ele foi o Presidente da Câmara Municipal do Sabugal que mais se serviu do concelho e da Autarquia para satisfazer os seus caprichos e interesses pessoais e familiares».
Este artigo, que nem me atrevo a comentar pela sua cobardia, fez-me lembrar uma fábula de Esopo que me obrigaram a ler em latim na juventude para ajudar a moldar o carácter e que rezava mais ou menos assim:
De velho e enfermo jazia moribundo um leão que, em moço, havia sido o terror das brenhas.
Apareceu um javali, e, para vingar-se da antiga injúria, deu-lhe com o focinho, e foi-se; após o javali veio um touro; seguiram-se outros animais e cada qual se desforrava a seu modo. O leão sofria calado.
Veio por fim um burro, e deu-lhe um coice; o leão não pode conter-se:
Até aqui sofri resignado – disse – e a quantos insultos recebia opunha a lembrança do que tinha sido outrora, quando até do meu rugido todos esses tremiam; mas agora tu também, tu miserável burro!… Isto é morrer duas vezes!
A Moralidade é a seguinte: Quando a desgraça acomete um homem, não falta quem venha com ele ajustar contas: o homem nobre e infeliz tudo sofre resignado; há porém burro tão burro e tão vil, que torna impossível a resignação.
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

A presença judaica em território nacional é antiga; existindo já nos últimos tempos do império Romano, atravessando a dominação Visigótica e Muçulmana, para constituir no séc. XV cerca de 10 por cento da população, num total de 150.000 almas.

João ValenteA presença judaica em Cima-Côa, especialmente no Sabugal, está documentada na chancelaria de D. Dinis, que a taxou em 50 libras anuais.
A população judaica aumentou consideravelmente no século XV depois do massacre de Sevilha em 1391, no qual pereceram 4.000 judeus e do édito dos reis católicos de 1492, que expulsou 170.000 judeus, dos quais teriam entrado em Portugal, cerca de 60.000, a maioria deles em territórios de fronteira, como Bragança e Beira, onde já havia numerosas comunidades judaicas, como Alfaiates, Sabugal, Celorico, Trancoso, Guarda e Covilhã.
A política de conversão forçada de D. Manuel, que nas palavras de Samuel Usque e Damião de Góis, arrastou pelas barbas, cabelos, a poder de punhadas e espancamentos, numerosos judeus à pia baptismal e o terror infundido pela inquisição instaurada em 1536, levaram a prática do judaísmo à clandestinidade.
Mesmo depois da abolição da inquisição e da política pombalina que acabou com a distinção de iure entre cristãos-velhos e cristãos-novos, os judeus continuaram a realizar as suas práticas clandestinamente, sem sacerdotes, sem livros, transmitido apenas pela via oral, que foi paulatinamente empobrecendo os ritos e as fórmulas, que foram contaminados pelo cristianismo.
Algumas das suas cerimónias públicas, como a circuncisão, festa dos tabernáculos ou imolação sacrificial dos animais desapareceram, bem como o conhecimento do hebraico, passando as orações a ser rezadas em português, através da tradição oral, cada vez mais afastada da sua pureza inicial.
Muitas dessas orações aprecem no quotidiano do nosso povo sem sentido intelectivo, estropiadas muitas vezes, embora rezadas com a mesma noção religiosa que costumava acompanhar, nas palavras de Leite de Vasconcelos, a dicção de algumas fórmulas mágicas.
A persistência deste culto hebraico nota-se em Trás-os-Montes e na Beira, especialmente em muitas das nossas aldeias, terras por onde entraram a maioria dos judeus espanhóis e permanecerem, longe do controle e fiscalização do poder central.

Duas orações com sabor judaico, entre outras, ouvi eu recitar na minha infância à minha avó, que lhe foram transmitidas também oralmente pela minha bisavó:
Ao levantar
«Levanta-te alma minha a dar graças ao Senhor, que perdoa os nossos pecados no seu Divino amor.»
Desta oração dá-nos Leite de Vasconcelos a seguinte versão recitada em 1933 por um tal Emília Morão, Judia de Penamacor:
«Assim que me levantei com alma e vida, ao Senhor louvarei. Andarei neste dia para que o Senhor me livre do fogo e do tormento quem no Senhor confia.»

Ao lavar
«(colocando a mão direita sobe a face, cobrindo os olhos) Volvei Senhor a vossa divina face para nós e com esta água que purifica o meu corpo, (lavando as mãos, começando pela direita) purificai a minha alma, protegei-me dos meus inimigos e deitai a vossa santa bênção (fazendo o sinal da cruz) sobre mim, e sobre todos os que vivem nesta casa.»
Desta oração dá-nos também Leite de Vasconcelos a seguinte versão que ouviu a judeus de Trás-dos-Montes:
«(colocando a mão direita na testa) Adonai, Senhor, volvei vossa santa e divina face à minha. Vós diante, ou detrás de vós, não terei medo nem pavor, nem causa mal me emperecerá. Serei guiado e governado pelo grande Deus Adonai (e corre-se a mão até ao peito) Deus me deite a sua santa e divina bênção sobre mim, sobre o meu homem e sobre os meus filhos.»

O cripto-judaísmo permaneceu nas terras remotas da Beira e Trás-dos-Montes influenciando os costumes e tradições; o sangue judeu corre nas veias de muitos dos beirões, sem que tenham consciência disso.
Eu cá por mim, tenho quase a certeza pelas tradições da minha família, dos quais dei, entre outros, apenas aqueles dois exemplos concretos, que nas minhas veias corre algum sangue judeu.
E acreditem; não tenho qualquer preconceito nisso!
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

A velha cidade, onde entrei pela estrada de Carvalhelhos. Chovia a cântaros. Já cá estivera há um ano, mas de passagem, aquando da audiência preliminar. À falta de guarda-chuva, pus a toga pela cabeça e fiz um passeio pelo jardim junto ao rio, passando por casas centenárias.

João ValenteNuma rua estreita, diante de uma antiga casa senhorial, um chorão deteve-me. Baixei a cabeça para não lhe bater nas tranças. Passei também pela muralha, que se erguia imponente sobre o casario, nas suas ameias escuras, nesta chuvosa manhã de Outubro.
À excepção do largo dos correios, já arranjado, tudo estava na mesma. Em frente ao tribunal o mesmo buraco aberto com os vestígios da muralha romana. Observei as ruínas durante algum tempo e depois segui pela rua empedrada que sai da cidade pela antiga ponte, sobre o Tâmega. De ambos os lados, as mesmas casas centenárias, com varandins em madeira. Numa delas, estava pendurada uma tabuleta de madeira com letras de estilo.
Um ruído forte vinha de dentro: música, gritos, os empregados a correrem para trás e para a frente, copos a tilintarem, e na porta uma ardósia escrita a giz de cor, pratos a azul, preços a vermelho. Os preços eram acessíveis, a ementa sofrível, pelo que guardei a toga na pasta.
Ao entrar, um amplo salão, o balcão do bar à direita e uma grande mesa de correr ocupada por alegres convivas. Não valia a pena pensar em almoço sossegado, mas com aquela chuva também não me apetecia procurar outro restaurante. Sentei-me numa das extremidades, junto à porta.
No momento em que fazia o pedido, um cão que estava na rua, correu por entre as minhas pernas e entrou. Era um cão rafeiro, amarelo sujo, a pingar água, que se esgueirou por debaixo da mesa em direcção ao dono. Foi corrido a pontapés.
ChavesEnquanto comia o ensopado de cabrito, ouvi os meus vizinhos do lado trocarem impressões sobre um julgamento em que iriam prestar declarações. Um dos rostos eu já conhecera antes, quando viera com o meu cliente, anos atrás, a preparar o processo e agora, já meio alcoolizado, desfiava as estratégias da acusação ali ao meu lado.
Revi na sua cabeça redonda, de olhos vivos, rechonchuda e vermelha, bem escanhoada… com um bigode e suíças farfalhudas o António Patuleia, que era uma das testemunhas contra o meu cliente. «Tricas» de familia…
A mim não me reconheceu e foi assim que soube da acta falsificada que iriam juntar aos autos, para ganharem o processo.
Então eu considerei que já sabia o suficiente e levantei-me.
– Continuação de bom almoço, meus senhores – e virando-me para o Patuleia – já agora, as melhoras para o seu fígado também.
– Como é que você sabe isso? – Perguntou ele, confundido.
– Vejo-o na sua cara, meu amigo, sou médico.
– E como consegue ver essas coisas, assim?
– É da experiência, meu amigo!

Todos ficaram admirados e me saudaram com grande cortesia. O Patuleia com maior vénia ainda. Também podia dizer-lhe se quisesse, a origem do apelido, o nome da mulher a casa de pedra onde morava no lugar da Sainça, a par de Vidago, e até a cor do sofá da sala onde já me sentei. Não resisti, e «descosi-me»:
– Até mais logo Patuleia, e cumprimentos à Julieta!
Virei costas com um sorriso, olhei para chuva a cair lá fora, tirei a toga da pasta colocando-a pelos ombros, e já não vi a cara ao Patuleia, mas ao sair ainda reconheci atrás de mim a sua voz embriagada num claro:
– Que «ganda» filho da puta este!
Consultei o relógio: Uma da tarde; ainda ía bem a tempo de arranjar prova para impugnar a bendita acta.
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

Aparência e ilusão. Não vale a pena lutar contra moinhos de vento…

Cruzeiro da Bismula
Foto: Blogue Memória de Vilar Maior
Candidato Ravi Mahendra
Foto: Blogue Sabugal Tarrento

João ValenteI – Aparência
No Cruzeiro da Bismula a data inscrita é 1789; a mesma da revolução francesa. A interpretação dos restantes símbolos iniciáticos ficam à imaginação de cada um, mas eu neste cruzeiro leio os seguintes sinais maçónicos:
O formato é de uma ara (o templo de Salomão que os maçons copiam em loja tem um altar do «perfume»); a data corresponde à revolução Francesa, cujo lema era «Liberdade, Igualdade e Fraternidade», já antes adoptado pela maçonaria.
O nicho destinado a uma imagem religiosa, mas vazio (os maçons professam a fé no Grande Arquitecto do Universo, com tolerância para todos os credos que o aceitam – cristãos, judeus e muçulmanos).
O encaixe em forma de cubo no fuste da ara também é maçom (simbolicamente, o maçom vê-se a si mesmo como uma pedra bruta que tem de ser trabalhada com as ferramentas alegóricas adequadas para convertê-la em um cubo perfeito, podendo, assim, encaixar-se na estrutura do Templo do Grande Arquitecto do Universo) e por fim a cruz (só para disfarce), coroando o conjunto, pode simbolizar o Grande Arquitecto do Universo.

II – Ilusão
Após um tempo de angustiada reflexão no ermo da Santa Marinha, Vilar Maior, na presa dos Rasteiros, onde cresciam uns pés de liamba que mão incógnita plantou, concluí que o melhor candidato à Câmara é…
Pediram… Ora aí têm! Ravi Mahendra; ele mesmo.
Ravi Mahendra acredita na teoria da reincarnação, que defende a transmutação da alma humana nas várias espécies de seres vivos após a morte, em sucessivos ciclos temporais. Assim sendo, como o cruzeiro da Bismula é só aparentemente um cruzeiro, também a desertificação do concelho, à luz da referida teoria, é uma ilusão apenas.
De facto, sendo a população concelhia constituída por todas as espécies vivas se moventes do território geográfico e administrativo, desde a mais insignificante lagartixa ao Sol, à mais nobre águia planando no céu, é óbvio que todas as estatísticas demográficas sobre o concelho pecam por defeito ao não contabilizarem também a fauna autóctone, para onde migraram as almas dos humanos depois da morte.
Seguindo esta linha de raciocínio, é nos incêndios, na floresta desordenada e na extinção da fauna, que está a verdadeira origem e ameaça na desertificação do concelho.
Proteger a fauna, dotar os bombeiros de meios de combate ao fogo e ordenar a floresta, são por isso as medidas adequadas para combater a desertificação do concelho.
Assim sendo, reflorestar o traçado da ligação à A23 com espécies resistentes ao fogo, como pretende o candidato Ravi Mahendra, é a melhor ideia destas eleições, porque não só constituirá excelente corta-fogo e reserva de biodiversidade dividindo o concelho no sentido NE/SE, como um magnífico efeito estético às avionetas, que sobrevoando o território, aterrem e levantem na Dragoa.
Seria «matar quatro coelhos duma cajadada só»!

III – Concluindo
Não vale a pena lutar contra moinhos de vento…
Às ortigas elmo de manbrino; esporas ao rocinante até Leiria!
E passem bem!

Referências:
Blogue «Memórias de Vilar Maior». Aqui.
Blogue «Sabugal Tarrento». Aqui.
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

Há anos namorei a filha de um conhecido magistrado do Supremo Tribunal de Justiça e Tribunal Constitucional. Nessa época, tinha em casa desse ilustre juiz conselheiro, acesso livre não só à filha, como à sua garrafeira e biblioteca onde li algumas coisas sobre a «Verdade» em Bertrand Russel.

João ValenteSeria fastidioso enunciar aqui a teoria sobre as proposições e descrições russelianas, mas do que ainda me lembra, a verdade é a descrição das qualidades e circunstâncias de um objecto ou situação. E essa descrição é tanto mais real, quanto menos influenciada pelas crenças individuais, que subvertem a nossa apreciação.
Isto para dizer que falei com o António Robalo umas quatro vezes nos últimos vinte anos e não tenho qualquer afinidade política ou pessoal com qualquer dos candidatos, a não ser a partilha da cidadania e da condição humana; portanto nenhum interesse particular que influencie a minha análise sobre estas eleições, que é a seguinte:
O CDS candidata-se a duas freguesias de quarenta. Não se lhe conhece um Projecto. Não tem qualquer relevância.
Os candidatos do MPT e PS, afirmaram nas suas entrevistas à «Capeia» que não concorreriam, havendo uma recandidatura do Manuel Rito. Candidatando-se este, subentenda-se, aceitavam a continuação do seu actual modelo de desenvolvimento para o concelho. O António Robalo candidatou-se na vez de Manuel Rito e com a mesma política; Joaquim Ricardo e António Dionísio avançaram. A génese destas candidaturas não é portanto a discordância com o modelo de desenvolvimento seguido para o concelho, mas a oposição à candidatura do António Robalo. São candidaturas motivadas por antipatias e rivalidades pessoais. Como dizia Russel, «não vale a pena esconder evidências, pois as evidências inevitavelmente virão à luz.» Neste sentido, as respectivas entrevistas esclareceram o que os vagos programas disfarçam.
O José Monteiro na sua entrevista também à «Capeia», que vale a pena ser relida pela simplicidade pragmatismo, explicou o seu projecto centrado na revitalização do património histórico, cultural e natural; reabilitação dos núcleos urbanos mais importantes, com intervenções imediatas, de custos moderados e resultados visíveis a curto prazo, de que deu alguns exemplos.
O António Robalo, tem igualmente o seu projecto que é o da continuação das obras estruturantes, como as que têm sido feitas por todo o concelho, de alguma dimensão e custos, como âncoras de desenvolvimento e cujos resultados serão comprováveis apenas a médio e longo prazo.
Resumidamente, o verdadeiro desafio que se coloca aos sabugalenses nestas autárquicas, é o de escolherem entre os únicos dois modelos diferentes que os candidatos da CDU e do PSD apresentam para o concelho. Isto é, entre o património imaterial e as grandes obras.
O resto esqueçam, porque é produto das capelinhas, vaidades e rivalidades pessoais, que apenas dividem e nada trazem ao bem comum.
Se conseguirem discernir isto, já não é pouco!
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

Fazendo um périplo de fim-de-semana pela Beira Interior reparei nos inúmeros placards de propaganda das eleições autárquicas espalhados pelas terras; da mais humilde aldeia à mais conhecida cidade. Existem com as mais diversas frases, situações e ao gosto do freguês.

João ValenteNuma freguesia, o candidato da oposição foi deliberadamente tapado por um pavilhão de festa; numa vila, o placard à porta do café frequentado pelo autarca da terra, lembra-lhe provocatoriamente que «está na hora da mudança»; numa outra cidade o candidato da oposição intitula-se o «ciclone da mudança» contra a teimosia do candidato da situação que persiste em «seguir em frente».
O candidato tapado parece jogar à cabra-cega com os eleitores, mas ninguém faz caso; o autarca da pequena vila continua, indiferente, a reunir-se em tertúlia e a beber uns palhetes com os amigos, certo da reeleição; Na dita cidade corre a piada que o ciclone não é mais que uma pequena brisa de Outono que passará com a folha.
Isto das eleições autárquicas, é um engano para entreter! A multidão de candidatos leva a campanha com o mesmo ar fino da burguesia queirosiana pela ópera! Sabem tanto de política e da coisa pública como aqueles percebiam do bel canto! Vão nas listas como as damas de fins de século XIX subiam às frisas do S. Carlos para exibir as toilettes. Uma ideia coerente, pensada, um projecto global e integrado para os respectivos concelhos… Raro!
Fazem-se as listas, como um convite para uma súcia de fim de dia, uma cerveja na esplanada da esquina. O critério é a amizade, o conhecimento pessoal, a camaradagem e cumplicidade, fazer número para completar os lugares; raramente a inteligência e a competência.
Se esta gente não sabe elaborar um programa nem listas, para que se candidatam? Poupem-se os metros quadrados de placards eleitorais, na tinta, o papel!
Eis, resumidamente, o estado do concelho do Sabugal, a dados de 2004 do INE, para descermos à realidade:
– Em 14.222 habitantes apenas 2.841 são jovens até aos 24 anos! 19,7%… Há lá terra mais pobre que isto? Onde não há juventude não há futuro!
– Em 2.614 explorações agrícolas nada (3 hl vinho e 200 de azeite) se produz!
– 124 obras novas num universo de 40 freguesias! 124… uma insignificância; mas a estatística não conta as portas que se fecham… os telhados caídos…
– Capacidade hoteleira e camas, zero! Penso que já algumas actualmente… 20? 30? 40? Mas que é isso para a aptidão turística do concelho?
– Índice de poder de compra, 51,6% da média nacional! A tal qualidade de vida que falta…
– Investimentos por habitante, 549,8 euros! Trocos…
– E mais não dou ao rol, para não enfastiar o leitor…
Sabem o que diga, meus amigos? Que Deus volte os seus olhos, um momento, para esta pobre terra, e ilumine o engenheiro Robalo, para que sendo eleito como inevitavelmente parece, possa discernir e ter as soluções certas para o bem de todos.
Isto só já lá vai com intervenção divina!
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

Ai que saudades, Isabel Valério de Badamalos…

João ValenteIsabel Valério
De Badamalos,
Da casa ao fundo do povo,
Que saudades eu tenho
Daquele tempo
Em que te sentavas à lareira
A fazer o caldo!

A água fervia,
As batatas coziam primeiro,
Esmagadas na colher de pau,
Depois a carne, o feijão, as couves,
E aquele cheirinho
A cozido,
Subia do borralho,
Invadindo a casa
E saía pela janela,
Para a rua.

Quantas vezes nas férias
Fazia o caminho a pé
Só para ir assistir àquele ritual
Sagrado
De te ver fazer
O caldo
Com aqueles gestos calmos,
Medidos, ancestrais,
Que eu já sabia de cor,
E no fim,
A concha a mergulhar na panela
Bem fundo,
E a emergir
Com o melhor naco de carne,
A tigela a fumegar,
O fiozinho de banha
A nadar à tona
Com a carne, o feijão
E as couves.

Ai que saudades,
Isabel Valério de Badamalos,
Da casa ao fundo do povo!
Que saudades do teu caldo
A fumegar na tigela,
Libação dos homens
Aos deuses,
Aconchego do meu estômago,
Regalo da minha alma
Satisfação dos meus olhos…

E saudade…

Muita saudade…

Grata lembrança de alguém
Que já foi embora.

«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

Acto Único com três cenas. Os tempos são actuais e passam-se na capital de Portugal. Personagens: Joana (psicóloga), marido, Campos e Manuela. Cenário: sala, secretária, relógio de mesa, etc., etc.

João Valente

Cena I – Joana, Marido (vestidos para a cerimónia e prontos para sair). Uma paciente (Que logo sai, à porta do fundo).
Joana – Sim, senhora sim, senhora! Avie essa receita. Maracamos nova sessão para daqui a oito, pela mesma hora.
Paciente – E estes comprimidos são para tomar como de costume? (exibe o papel da receita.)
Joana – Reduz a dose… meio cumprimido ao deitar e chega!
Paciente – Concerteza senhora doutora. (sai.)
Marido – (Entrando por uma porta interior e sentando-se.) – Sempre entras nas listas desta vez?
Joana – Duvido…
Marido – Porquê?
Joana – O Louçã ainda está de trombas por causa da campanha!
Marido – Para que te meteste nessa treta?
Joana – (Ainda passeando.) – E quem imaginava que o Soares estava acabado?
Marido – Bem te avisei…
Joana – Se não for no Bloco, vou noutro… Verás!
Marido – Fia-te na Virgem e não corras.
Joana – Estamos atrasados para sair…
Marido – (Consultando o relógio de mesa.) – Há duas horas e dois minutos.
Joana – (Embonecando-se ao espelho.) – Creio que não chegamos a tempo.
Marido – E o táxi na porta há tanto tempo? Vamos?
Joana – Vamos. (Vão saindo. Batem palmas.)
Ambos – Bateram.
Marido – Quem é?
Campos – Sou eu.
Joana – Eu quem?
Campos – (No mesmo.) – Um amigo.
Joana – Entre quem é.
Marido – (Espreitando à janela.) É o Campos das obras públicas! Conheces… (Entra Campos. Pisa macio e fala descansado.)

Cena II (Os mesmos e Campos)
Campos – (À porta do fundo.) – Dás licença, Joaninha?
Joana – Entra. (Vai outra vez por a mala na secretária.)
Campos – (Entrando e sentando-se numa poltrona que deve estar no meio da cena.) – Não te incomodes. Estou muito bem. E tu como tens passado desde a campanha do velho?
Joana – Bem, obrigado. O que pretendes?
Campos – Ah! Passava na rua… Vais no bloco?
Marido – Que bloco?
Joana – O de esquerda, qual havia de ser?
Joana – Não.
Campos – Pois estás com azar! (Sinais de impaciência em Joana e Marido.) O Louçã ainda não esqueçeu as presidenciais… (Recosta-se na poltrona.) Estou a ver…
Joana – (Interrompe-o.) – Ó Campos, temos muita pressa e não, podemos perder tempo. Íamos sair quando chegaste…
Campos – (Erguendo-se.) – Nesse caso… Fica para outro dia… Eu vim só trazer um recado, mas… (Cumprimenta.) Joana… Caro amigo… (Vai saindo.)
Joana – Vem cá; explica já agora o que pretendes.
Campos – (Voltando-se e preparando-se como para um discurso, sibilino.) – Somos amigos…
Joana – Nem tanto…
Campos – Há um lugar em aberto na lista por Coimbra… Que me dizes?
Joana – Digo-te o quê?
Campos – Estarias interessada?
Joana – E tu a dar-lhe!
Marido – Deixa-o para lá. (Vai para junto de Joana.) Que maçador! Não chegaremos a tempo.
Joana – E quem faz o convite?
Marido – (Olhando o relógio.) – Estamos atrasados.
Joana – Estamos com pressa…
Campos – O nosso primeiro… É evidente…
Joana – Não sei… Assim de repente… Bem vês!…
Marido – (Olhando o relógio.) – Estamos atrasados.
Campos – Se aceitares… Arranja-se mais um tacho de bónus… Que dizes?
Joana – Não sei…
Marido – (Olhando o relógio.) – Que seca!
Campos – Assim na tua área… Que achas?
Joana – Passa bem.
Campos – Mas, Joana…
Marido – Viva. (Volta-lhe as costas.)
Campos – Olha que te arrependes… (Saída falsa.)
Joana – Safa!
Marido – Vamos, Vamos quanto antes! pode vir outro… (Vão saindo.)
Campos – (Voltando.) – Já agora…
Joana – Outra vez?
Marido – Assustou-me até!
Joana – (Agarrando a mala.) Que pretendes agora?
Campos – E que dizias com um lugarzinho no governo também?
Ambos – Irra!
Campos – Tableau. (Desaparece.)

Cena III (Joana e Marido)
Joana – Vês, homem; vês como uma pessoa perde a cabeça?
Marido – Sim, sim, mas vamos, anda daí!
Joana – (Caindo na poltrona.) – E que dor de cabeça me fez este gajo!…
Marido – Espera… vou buscar a garrafinha de água-flórida. (Sai e volta com a garrafinha.)
Joana – Depressa… depressa, homem! (O marido esfrega-lhe as frontes com água-flórida.) Bem… chega… aliviou… Aí! que ferroadas! deita a garrafinha em cima a mesa e vamos, vamos! (O marido deita a garrafinha sobre a mesa e vai dar o braço a Joana.)
Marido – Vamos! (Saem e voltam.) Esqueci-me das chaves. (Entra à direita baixa.)
Joana – (Falando para dentro.) Que demora, homem, que demora! Ainda há- de vir mais alguém, verás! (Passeia.) Então não achas essas chaves! Aí! minha cabeça! (Quebra-se alguma coisa dentro.) O que foi isso?! O que foi isso?! (Corre também para a direita baixa.)
Marido – (Dentro.) – O meu frasco de água de colónia!
Joana – (Dentro.) – Que pena!
Marido – (Dentro.) – Ah! cá estão as chaves! (Voltam à cena, de braço dado e dirigem-se para a porta.)
Joana – Já estou cansada. (Procura na mala.) Não tenho lenço.
Marido – Oh que maçada! Quanto mais pressa, mais vagar. (Sai correndo pela direita baixa.)
Joana – Vê na cómoda!
Marido – (Voltando com um lenço na mão.) – Toma, toma… Gaita! (Dá-lho.)
Joana – Vamos! (Encaminham-se para a porta. Batem à porta.)
Ambos – Não!…
Joana – (Fora de si.) – Não estou em casa!
Manuela – (Aparecendo.) – Dão licença?…
Joana – (Caindo extenuada na poltrona.) – Uf!
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

O Dr. Manso num interessante artigo sobre as autárquicas 2009, no Cinco Quinas, alude ao Pato-coelho de Wittgenstein e à Ilusão de Müller-Leyr, e cita Hobbes e González Calero, para elaborar a premissa de que a verdade depende da perspectiva de cada um e por conseguinte, «cada um vê o que quer ou o que consegue».

João ValenteÉ pertinente esta observação do Dr. Manso. De facto quem está na oposição tende a criticar o executivo camarário. Quem depende dos empregos oferecidos pela câmara, defende as políticas desta.
A vida é mesmo assim… Todos querem mamar! Quem tem a mama, segura-a com todos os dentes; quem não a tem, berra porque também quer mamar!
A verdade, «depende do que cada um quer ver e consegue», pois depende: Cada um vê conforme sente a barriga; cheia ou colada às costas.
Era também com os olhos da barriga que João da Mata, personagem do Normalista de Adolfo Caminha, dizia que da política só queria Dinheiro e, não lhe falassem em política sem interesse pessoal:
«… O que se quer é dinheiro, o santo dinheirinho, a mamata. Qual pátria, qual nada! Patacoadas! Ele, João, trabalhava, lá isso era inegável: dava o seu voto, cabalava, servia de testa de ferro, mas… tivessem paciência… era mão p’ra lá, mão p’ra cá. Porque – argumentava – a política é uma especulação torpe como qualquer outra, como a de comprar e vender couros de bode na praia, a mesmíssima cousa; pois não é? P’ra tudo é preciso jeito, muito jeitinho…»
Quanto a política, estamos conversados. Quem quiser mamar, come e cala. Uma mão lava a outra.
«A Porca da Política» de Rafael Bordalo PinheiroAcrescenta ainda o Dr. Manso que «não basta pregar boas ideias de combate à desertificação. São necessárias práticas que materializem essas ideias, participação activa na vida cultural, social, económica e política, participação no associativismo, empenho na dinamização das actividades, etc. Não se combate a desertificação pregando no Sabugal os caminhos para o desenvolvimento… Há muita gente que só se lembra do Sabugal de 4 em 4 anos. Há muita gente que aqui nasceu, que aqui trabalha mas que não se fixa no concelho. Há muita gente que daqui não é natural, que aqui trabalha mas não fixa aqui a sua residência.»
A falta de emprego e de mama levou a que muita gente valida e competente emigrasse. A desertificação que assola essa terra é precisamente isto: Deserto de gente, de ideias e de competência.
É muito fácil exigir participação activa na vida cultural, social, económica e política, participação no associativismo, empenho na dinamização das actividades, a quem vive fora e não teve a mesma sorte do Dr. Manso em arranjar um emprego na terra natal. Há muita gente que não fixa residência porque não tem emprego nem qualidade de vida no Sabugal.
Que venham de Lisboa, do Porto, do Litoral, do estrangeiro participar… Deixem os empregos para viver do ar… comerem bolotas… É o que exige o Dr. Manso no conforto do seu emprego na empresa municipal «Sabugal+».
Já percebemos que para o Dr. Manso a política para os que não mamam é dar o voto, calado, e que passe muito bem até daqui a 4 anos!
E isto, meus senhores, porque o Dr. Manso possivelmente seja dos que falam de barriga cheia…
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

João ValenteO Carlos Paredes foi algumas vezes meu companheiro de mesa e almoço num restaurante familiar que havia na esquina da Rua da Atalaia com o Largo Camões, de nome «Pucherus». Fomos apresentados pelo proprietário, o Sr. Manuel. É desse tempo este poema.

Composição em ré menor
A cabeça sobre a guitarra,
Como se lhe escutasse os gemidos.

Disseram-lhe: «Soa bem essa guitarra,
quando toca é uma maravilha.»

E o Paredes na sua modéstia desculpou-se:
«Acha amigo? Mas olhe que as mãos estão perras»

E eles insistiram: «Toque uma canção, vá,
Que nós queremos ouvi-lo.»
Faz-se roda à volta da mesa
O Senhor Manel levou o galheteiro, os pratos, a travessa.

No tampo da guitarra poisou, a mão do Paredes
os dedos soltaram acordes de oiro.
A guitarra chorou monótona como o vento
Chorou como os pingos da neve derretida

E ao calor da mão que lhe embalava o corpo
Impeliu navios como se fossem canções
Repousou ao cansaço das lavadeiras,
Catou pecebes na cais das rochas,
Apregoou sardinha no Chafariz d’Alfama,
Subiu a Costa do Castelo na manhã soalheira

E no fim, despiu, para deleite dos meus olhos,
A moça de blusa azul,
Sentada na mesa em frente.
A mão do Paredes quando tocava,
Perra ou não, fazia milagres!
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

O tema de hoje é sobre o processo de Galileu porque é sempre actual e interessante, quanto mais não seja, pela controvérsia que suscita.

João ValenteA verdade é que a Igreja não «condenou» Galileu Galilei por este acreditar na mobilidade da terra, e na centralidade e imobilidade do sol como se diz. Passo a explicar:
O sistema heliocêntrico, como hipótese astronómica baseada em cálculos matemáticos e observações reais, já havia sido formulado por Copérnico no seu De Revolutionibus orbium coelestium e há dois séculos e meio pelo Bispo de Lisieux, Nicolau de Oresme, e era aceite, como hipótese astronómica, por membros do clero como o cardeal Giovanni Ciampoli, o cardeal Maurizio da Savóia e o padre Orazio Grassi, grande adversário das «heresias» de Galileu.
Os motivos pelos quais estes membros do clero, embora o aceitando como hipótese, ainda não defendiam o heliocentrismo abertamente, eram dois: Prudência , pelo facto de não haver, até então, provas suficientes a tornar o heliocentrismo seguro (a completa superação do sistema tradicional Ptolemaico pelo heliocentrismo, atemorizava pela novidade revolucionária); e pela eficácia das medidas astronómicas baseadas no sistema geocêntrico (o sistema Ptolemaico baseava-se também em cálculos matemáticos e astronómicos a que se contrapunham os do heliocentrismo).
Esta reserva prudente explica-se também porque a Igreja, seguindo a «teoria da boa ciência» de Santo Alberto Magno entendia que a prova pelos sentidos [a indução] era a mais segura no estudo da filosofia natural, e situava-se acima da teoria sem observação (Meteoros 3, tr. 1, c. 21) e que a experiência, através de repetidas observações, é a melhor mestra no estudo da natureza (Sobre os animais 1. c. 19) competindo à ciência natural não aceitar simplesmente o que foi narrado. Cabendo-lhe, muito mais, a serviço da filosofia natural, buscar as causas das coisas naturais (Sobre os minerais 2, tr. 2, c. 1).
Resumindo: Para os membros da Igreja que já admitiam no tempo de Galileu a hipótese do heliocentrismo, este ainda não possuía observações que o comprovassem seguramente, nem experiências, com observações repetidas, e muito menos buscava a sua demonstração em causas naturais.
O Padre Cristophoro Grienberg, matemático jesuíta, interlocutor científico favorável a Galileu e seu contemporâneo, também admitia como hipótese científica o heliocentrismo, mas expressou algumas reservas, precisamente porque nenhuma experiência ou demonstração permitia tornar certa e segura a verdade copernicana (Apud. Pietro Redondi, Galileu Herético, Editora Schwarcz Ltda, São Paulo, p.18.).
Por isso se compreende que o próprio inquisidor de Galileu, São Roberto Bellarmino (cardeal), afirmasse numa carta ao padre Foscarini, que também havia publicado uma teoria sobre o heliocentrismo, o seguinte:
«[…] eu digo que se houvesse uma demonstração verdadeira de que o Sol está no centro do Mundo e a Terra no terceiro Céu, e que o Sol não circula a Terra, mas a Terra circula o Sol, então, ter-se-ia de proceder com grande cuidado em explicar as Escrituras, na qual aparece o contrário. E diria antes que nós não as entendemos, do que, o que é demonstrado é falso. Mas, eu não acreditarei que exista tal demonstração até que esta me seja mostrada.» (Carta do Cardeal São Roberto Bellarmino ao padre Foscarini, 12 de Abril de 1615).
Isto é; para São Roberto Bellarmino, a haver qualquer discordância entre o heliocentrismo e as Sagradas Escrituras, seria porque não as entendíamos e não porque estas fossem falsas. Contudo, admitindo-o como hipotético, não acreditava que o heliocentrismo estivesse provado, até que lhe fosse cabalmente demonstrado.
GalileuEsta doutrina do cardeal Bellarmino sobre a relação complementar e não necessariamente antagónica entre a ciência e a fé, viria a ser consagrada alguns séculos depois na seguinte passagem da encíclica Providentissimus Deus de Leão XIII:
«Nenhum desacordo real pode certamente existir entre a teologia e a física, desde que ambas se mantenham nos seus limites e segundo a palavra de Santo Agostinho, tomem cuidado de nada afirmarem ao acaso, nem tomarem o desconhecido pelo conhecido» e «Quanto a tudo o que, estribando-se em provas verdadeiras, nossos adversários nos puderem demonstrar a respeito da natureza, provemos-lhes que não há nada contrário a esses fatos nas nossas Santas Letras. Mas, quanto ao que eles tirarem de certos livros seus e que invocarem como estando em contradição com essas Santas Letras, ou seja, com a Fé católica, mostremos-lhes que se trata de hipóteses, ou que absolutamente não duvidamos da falsidade dessas afirmações.» (In Gen.op. imperf.,IX,30) (Documentos Pontifícios, Providentissimus Deus, pg.28).
Isto é; se alguma tese da ciência moderna contradiz as Sagradas Escrituras, isso abre duas possibilidades: ou a contradição é aparente, ou a ciência moderna errou.
Como vemos, é o próprio inquisidor de Galileu, muito antes de Leão XIII, que afirma que o heliocentrismo nunca porá em causa as Escrituras. Não foi portanto esse o motivo da condenação de Galileu.
A verdade é que as teorias de Galileu eram muito mais do que científicas; tinham um profundo misticismo com raízes cátaras e pagãs.
Para Galileu, havia um espírito que aquecia e fecundava todas as substâncias corpóreas, o qual partindo do corpo solar se propagaria com enorme velocidade pelo mundo inteiro.
Este espírito que aquece e fecunda é curiosamente a mesma Luz Primordial e agente criador, adoptado no simbolismo maçónico, que irradiando por todos os lados em simultâneo, emana de um centro que não está localizado em parte alguma, mas que cada ser pode encontrar em si. (Oswald Writh, O Simbolismo Hermético Na Sua Relação Com A Franco-Maçonaria; Hugin Editores Lda. 2004, pág.122).
Falando dessa mesma Luz, numa carta ao padre Pietro Dini (felizmente os sábios do renascimento trocavam correspondência entre si), dizia Galileu que era uma substância espiritualíssima, sutilíssima e velocíssima que difundindo-se pelo universo penetra tudo sem resistência, aquece, vivifica e torna fecunda todas as criaturas viventes. (Carta de Galileu a monsenhor Pietro Dini, 23 mar.1615, Opere, V, p.289).
A substância espiritualíssima de que fala Galileu é também curiosamente o Fogo Vital da simbologia maçónica, «inerente a toda a célula orgânica e a todos os átomos minerais», que «propaga indefinidamente os seus raios, de tal modo que de todos os seres individualizados desprende-se uma radiação luminosa difundida através do espaço.» (ainda Oswald Writh na obra citada, pág. 123). A substância espiritualíssima ou fogo vital, seriam o «sopro divino» que existe em todas as criaturas.
Galileu defendia portanto mais que o heliocentrismo. Defendia, exemplificando com este, uma metafísica do Sol como símbolo de Deus, um verdadeiro triunfo da Luz, com referências textuais ao livro do Génesis e aos salmos:
«No princípio, quando Deus criou os céus e a terra, a terra era informe e vazia, as trevas cobriam o abismo… Deus disse: Faça-se a luz. E a luz foi feita. Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas…» (Génesis)
«Deus colocou no sol o seu tabernáculo (…). Ele tal qual esposo que sai do próprio tálamo, saltou como um gigante para escapar.» (Salmo XVIII).
É certo que, sob a escolta de Dionísio Areopagita, Galileu fez a concordância do Génesis e do Salmo XVIII com as ideias sobre a emanação da luz celeste e terrestre, baseada em Hermes Trimegisto, que via a Luz como um espírito emanado de uma fonte eterna; o Sol.
Mas de facto, para Galileu, o Sol simbolizava Deus; e contemplar a Luz era apreciar o «sopro divino» que emana de todas as criaturas.
A condenação de Galileu nunca foi portanto a negação do heliocentrismo como verdade científica, mas a forma de eliminar este simbolismo hermético, que ao difundir-se através de uma figura de prestígio, ameaçava tornar-se uma séria heresia pela semelhança com o pagão culto de Mitra (Deus-Sol).
Sendo assim, a Igreja condenou em Galileu as crenças esotéricas; nunca a teoria do heliocentrismo que ela própria já admitia com hipótese.
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

Os dois compadres do jornal «Amigo da Verdade» encontraram-se uma vez mais debaixo do velho castanheiro que existe à entrada da sua aldeia.

João Valente– Louvado seja Nosso Seja Jesus Cristo! – saudou o que vinha no caminho.
– Para sempre seja louvado e Sua Mãe Maria Santíssima! – Correspondeu o outro, descansando à sombra do vetusto castanheiro.
– Já sabe da novidade, compadre? – Meteu conversa o primeiro.
– Qual novidade, compadre?
– Parece que saiu um estudo a dizer que já não somos o concelho com menos qualidade de vida…
– Ah sim, compadre?
– Pois é como lhe digo, compadre. Diz esse tal estudo que subimos vinte e três lugares e somos agora os duo centésimos quinquagésimos quintos da tabela…
– Duo quê, compadre?
– Duzentos e cinquenta e cinco, em duzentos e setenta e oito…
– Então temos mais qualidade de vida; é isso?
– Sim, compadre…
– E isso quer dizer – indagou o segundo, que desconhecia também o que significava qualidade de vida – que temos mais dinheiro?
– Não, compadre.
Castanheiro– Empregos?
– Não, compadre.
– Juventude?
– Não, compadre.
– Mais gente?
– Não, compadre.
– Escolas?
– Não, compadre.
– Melhor saúde?
– Não, compadre.
– Menos velhos?
– Não, compadre.
– Afinal quer dizer o quê, compadre?
– Hum… Ora, compadre… Quer dizer que, estatisticamente, melhorámos…
– Mau… Melhorámos como, se nada mudou?
– Da forma como põe as coisas… Não mudou nada, mesmo.
Breve silêncio, interrompido pelas badaladas das cinco horas na torre da matriz.
– Então o primeiro compadre, percebendo que a conversa chegara a um impasse e lembrando-se que ainda tinha de ir regar os pimentos, despediu-se:
– Adeus, compadre!
– O outro, recostando-se e traçando as mãos sobre a pança, – Vá com Deus, homem! – Ficou a ruminar à sombra do velho castanheiro, acerca da relatividade nos critérios de alguns estudos académicos…
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

Bravo João! Até parece encomenda porque de facto a qualidade de vida no Sabugal – de fazer inveja ao resto do País – não se alterou. Está, como sempre esteve, no primeiríssimo lugar. Só depende dos crítérios. Porque, segundo explicou o sábio nascido nos Fóios e a leccionar na UBI, apenas depende dos critérios escolhidos. Pois…
Aqui deixamos um grande voto de louvor e reconhecimento ao «Amigo do Sabugal / Amigo da Verdade», ao padre Souta e seguidores. Foi para todos nós durante décadas a única forma de «sabermos» notícias do nosso Sabugal. Para quando o reconhecimento da Câmara Municipal do Sabugal?
Não temos que ter medo de dizer «Graças a Deus!» Mas a vida ensinou-me que devemos ter cuidado com os que batem com a mão no peito.
jcl

O Senhor Ventura tem deixado aqui uns artigos que têm suscitado muito interesse pela forma polémica como trata os assuntos.

João ValenteNo último deles discorre sobre homossexualidade, como um costume «contra-natura». Fiquei sem perceber, contudo, se também defende os castigos correccionais para os homossexuais.
Não critico esta posição, porque cada um é a circunstância do meio em que nasceu e em que cresceu. A opinião do Senhor Ventura é fruto do meio em que a sua mentalidade se formou. É heterossexual, católico e retrógrado porque foi esta a matriz da sociedade em que foi educado.
Não se pode exigir portanto ao senhor Ventura aquilo que, por circunstâncias alheias, ele não é. Temos de o compreender e tolerar por este motivo.
Mas o senhor Ventura ao subscrever o seu artigo desconhece que a homossexualidade é costume antigo, aceite em muitas civilizações avançadas, da antiguidade aos nossos dias. Muitas figuras conhecidas da humanidade foram homossexuais ou lésbicas. Cito apenas Leonardo Da Vinci, Bayron, Dante, Thomas Mann, Oscar Wilde, Tchaikovsky, Greta Garbo, Marlene Dietrich, Gertrude Stein entre muitos que podiam ser nomeados.
Este assunto é demasiado complexo para ser tratado de ânimo leve por quem não sabe. E eu, por ignorância, também não o faço, porque «não pretendo, sendo sapateiro, tocar rabecão!»
Só para o amigo leitor fazer ideia, explico resumidamente como a homossexualidade em Dante era, para além de uma opção sexual, uma verdadeira filosofia de vida:
Dante na sua obra, designadamente no «Convívio» e na «Divina Comédia», opõe continuamente os homens que têm alma nobre aos que são vis.
Nobre seria aquele homem que conhece não muitas ciências, mas o conhecedor de que seu intelecto é uma partícula divina, aprisionada na natureza humana, e que se deixa dirigir por ela.
Essa parte da alma, a mente ou intelecto divino, seria sempre oposto ao sexo de quem o conhece, correspondendo à dualidade que em muitos conhecimentos gnósticos têm respectivamente o elemento masculino e feminino, o Sol e a Lua.
Assim, num homem, a partícula divina – aquilo que os gnósticos chamavam de éon, pneuma ou atman – seria feminina e o dominaria como uma Domina (dama). Daí os poetas do Dolce Stil Nuovo, a que Dante pertencia, chamarem-na – como os cátaros – de Donna ou Dame, dando-lhe nomes próprios femininos, para enganar o vulgo, isto é, os homens grosseiros e vis, que ignoravam a Divindade que neles habitava. Dante a chamava de Beatriz, Boccaccio di Fiametta, Petrarca chamava-lhe de Laura, na verdade, l’Aura, a Aura, que para alguns gnósticos era a Luz.
Dino Compagni, outro poeta contemporâneo de Dante, chama a esta Donna «La sovrana Intelligenza»:
Dante e Virgil no Inferno«Ó voi c’avete conoscenza,
più è nobile auro che terra:
amate la sovrana Intelligenza,
quella che tragge l’anima di guerra,
nel conspetto di Dio fa residenza,
e mai nessun piacer no le si serra;
ell’è sovrana donna di valore,
che l’anima notrica e pasce ‘lcore,
e chi l è servidor giammai non erra.»

[Ó vós que tendes conhecimento,
mais nobre é o ouro do que a terra
amai a soberana Inteligência,
aquela que tira a alma da guerra,
na presença de Deus ela faz residência,
e jamais nenhum prazer lhe é proibido,
ela é soberana senhora de valor,
que nutre a alma e apascenta o coração,
e quem é servidor dela jamais erra.]

(Dino Compagni, Poesias para Dona Intelligenza estrofe 307, apud Luigi Valli, Il Linguaggio Segretto di Dante e dei Fedeli d´Amore, p. 53).

Portanto, para Dante, como para muitos outros, o domínio do lado feminino que existe em cada homem, era uma forma de atingir a beleza, que é a sabedoria perfeita.
A relação homossexual entre Dante e o poeta Forese Donatti era um aspecto deste auto-conhecimento e não uma simples opção sexual.
Assim sendo, ao contrário do senhor Ventura, para Dante o que era «contra-natura» era a heterossexualidade e não a homossexualidade.
Estou convencido que o senhor Ventura, confrontado com a profundidade desta questão, não voltará a criticar de ânimo leve a homossexualidade, ou pelo menos condescenderá na sua homofobia primária…
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

Elaborar um programa de acção não devia ser demasiada metafísica para qualquer candidato; mas falta em pragmatismo o que sobra em teoria aos programas dos candidatos à Câmara do Sabugal.

João ValenteEu, leitor amigo, habituado por formação à liberdade e por dever de ofício a dizer o que penso com clareza, vou direitinho ao assunto:
O concelho só teve peso reivindicativo junto do poder central quando fez lobby na histórica «Irmandade de Riba-Côa», com os restantes concelhos da região. Isoladamente nunca teve voz. Por isso tem que concertar estratégias com os concelhos limítrofes na resolução dos problemas comuns.
E os seus problemas, já toda a gente sabe, são a baixa qualidade de vida, falta de oportunidades de emprego, que levam à emigração e consequente desertificação e envelhecimento da população.
A fixação da população obtém-se pela qualidade de vida. A qualidade de vida surge com mais rendimento disponível. O rendimento com mais emprego e negócios. As oportunidades de empregos e negócios com mais necessidades de consumo.
A população residente tem um baixo rendimento e portanto nenhuma capacidade de consumo, o que torna a actividade empresarial incipiente e de pouca importância. E não existindo actividade empresarial também não há empregos e criação de riqueza. E sem riqueza não há qualidade de vida. É um ciclo vicioso!
Não havendo consumo interno que dinamize a economia do concelho, tem de se captar consumo externo. É uma verdade de la Palisse!
Temos para vender a vizinhança com Espanha, o património cultural (capeia, romaria dos «encoratos» a Sacaparte, etc), gastronómico (bucho, enchidos, castanhas, ciclo do linho, do azeite, do pão), Histórico (os cinco castelos, sítios arqueológicos de Carya Tallaya e Sabugal Velho, aldeias históricas de Sortelha, Vila Touro, Alfaiates, Vilar Maior), natural (rio côa, Cesarão, barragem do Sabugal, trilhos de contrabando).
Os programas dos candidatos falam em combate à desertificação, melhorar a qualidade de vida da população, ajudar as empresas. Isso também propuseram os candidatos e os presidentes anteriores e foi o que se viu. Parra, muita; uva nenhuma! Fogo bonito; no fim, canas…
Pois meus amigos, eu cá se fosse candidato, definiria umas quantas medidas concretas, baseadas nas potencialidades que temos para oferecer, para atrair consumo, gerar oportunidades de emprego e indirectamente aumentar o rendimento disponível da população e por conseguinte a estabilidade demográfica.
Apenas alguns exemplos, de iniciativas que, enquadradas numa estratégia global, poderiam atrair consumo e criar oportunidades de emprego:
– Museu do linho em Aldeia Velha;
– Trajecto eco-turístico em Vilar Maior descendo as fragas do castelo ao rio;
– Oficinas de artes tradicionais em Alfaiates conjugadas com a feira mensal;
– Museu do Azeite em Santo Estêvão;
– Fluviário no Sabugal e praia artificial ou piscinas naturais. Provas de canoagem;
– Dinamização dos pólos arqueológicos de Caria Talaya e Sabugal Velho;
– Uso dos poderes administrativos para recuperar os núcleos urbanos históricos;
– Feira agrícola no Soito conjugada com certame de Capeias divulgado a nível nacional e internacional;
– Prova desportiva de BTT e de hipismo a nível nacional da rota dos cinco castelos;
– Comemorações anuais da batalha do Graveto;
– Feira medieval em Sortelha e feira de gastronomia associada à «Aldeia das sopas»;
– Definição, demarcação e sinalização de alguns trilhos pedestres e para ciclo turismo aproveitando as veredas de contrabando, leitos dos rios e belezas paisagísticas;
– Feira de Gastronomia no Sabugal associada ao bucho raiano;
– Bienal de artes e certame de teatro no Sabugal;
– Revista mensal de qualidade divulgando a cultura e tradições da região;
– Criação e divulgação da marca «Transcudânia» em todos os produtos e actividades ligadas à região;
– Formação de uma equipa multidisciplinar para criação, coordenação e divulgação de projectos turísticos, culturais e desportivos;
– Coordenação de políticas com os restantes concelhos limítrofes, reeditando a antiga irmandade dos concelhos de Riba-Côa, definindo um espaço geográfico próprio no contexto regional, nacional e internacional;
– Campanha agressiva de marketing divulgando todas estas iniciativas e projectos, feita por uma equipa de profissionais.

Isto é, amigos leitores, a diferença entre a teoria e o pragmatismo: Reconhecer que não há recursos e tempo para acudir a tudo; estimular a economia do concelho com iniciativas pontuais e bem orientadas ao consumo externo. A iniciativa privada indo ao encontro às necessidades de consumo, criará o emprego e a riqueza de que precisamos.
Se assim não acontecer… Ramo de oliveira, caldeirinha e água benta, aos pés!
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

«Senhor presidente, às vezes não basta fazer e nem sempre fazer muito. É preciso que se faça bem. É que também há doentes que morrem da cura… E o Sabugal morre mesmo, se não lhe acodem com o remédio certo!»

João ValenteSenhor Presidente da Câmara,
Fizeram-se muitas obras no concelho. As estradas arranjadas, saneamento e vários equipamentos urbanos em muitas freguesias, recuperação das Termas do Cró e um novo Centro Empresarial, entre outras, que o senhor presidente já enumerou num post anterior publicado aqui no Capeia Arraiana.
Para quem o conteste, as obras estão no terreno, são realidade que não se pode varrer para debaixo do tapete; o efeito pelo menos, já que mais não seja, reflecte-se no orçamento camarário, com o encargo na rubrica dos empréstimos contraídos para o efeito.
Nunca um executivo camarário foi tão dinâmico e deixa tanta obra feita. «Contra facta non rimenda!» [Contra factos, não há argumentos!]
O problema é que não há consenso sobre a vantagem das obras que o executivo fez, porque não resolvem os problemas estruturais do concelho; a saber: Desertificação, desaparecimento do sector produtivo tradicional, envelhecimento da população.
Refém do seu isolamento geográfico como terra de fronteira, o concelho apresenta esta patologia crónica persistente, que se vem inexoravelmente agravando e se revela impossível de travar.
Lembra um paciente, cujo diagnóstico sendo pacífico, mas que estando gravemente doente, não tem cura fácil.
Chama-se o médico à cabeceira do moribundo e o sábio esculápio toma-lhe o pulso onde a custo apalpa um fraco latejar da vida que não quer despedir-se; observa-lhe a língua esbranquiçada; ausculta-lhe a farfalheira dos brônquios; examina-lhe com vagares científicos o bacio; a cor anormal das fezes, a espessura vermelha da urina.
Encolhe os ombros resignado. O quadro é complicado: Anemia, fraqueza geral, apatia, prostração; Falham os sinais vitais; a morte aproxima-se, inevitável. Para justificar a deslocação e os honorários, receita cataplasmas, sangria e caldos de galinha.
Pois, senhor presidente, receio bem que as obras que este executivo fez, não tenham sido mais que cataplasmas, sangrias e caldos de galinha para as maleitas que afligem o concelho.
Não fixam população; não invertem a desertificação e envelhecimento da população; não atraem investimento para transformar e renovar o tecido produtivo.
V. Exa. trata a caldos de galinha quando devia prescrever vitaminas. Erra na terapêutica; morre-lhe o paciente.
As estradas, o centro empresarial, as termas e o saneamento não estimulam a iniciativa num concelho sem pessoas qualificadas, empreendedoras e sem pólos de atracção.
As obras de saneamento e urbanização de mais de um milhão de euros em Vilar Maior, por exemplo, não evitam que em dez anos a população residente esteja reduzida, pela lei natural da vida, a uma vintena de habitantes. Este exemplo é paradigmático.
Quem partiu já não volta; quem ficou acaba por morrer um dia; e ainda ninguém descobriu a forma de transformar giestas e barrocos em gente…
Concelhos com os mesmos problemas do Sabugal já não fazem estas obras, pela mesma razão de que já ninguém receita cataplasmas, sangrias e caldos de galinha a um anémico. Definem vários clusters sustentados no património histórico, cultural e natural do território, que servindo de pólos de atracção urbana, estabilizam a população e fomentam a iniciativa empresarial pela criação de novas oportunidades de negócio.
O vizinho concelho de Belmonte, por exemplo, criando os museus judaico e do azeite, e recuperando o centro histórico ligado aos descobrimentos, tem anualmente 275.000 visitantes, susteve a desertificação, aumentou a população residente e obteve um crescimento económico de 8%.
Senhor presidente, às vezes não basta fazer e nem sempre fazer muito. É preciso que se faça bem.
É que também há doentes que morrem da cura… E o Sabugal morre mesmo, se não lhe acodem com o remédio certo!
Atentamente,
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

O Viriato Tágico é uma espécie de novela de cavalaria, como a novela do rei Arthur, mas sob a forma de poema clássico. Escreveu-o Braz Garcia de Mascarenhas no contexto das guerras da restauração, que tinham alguma analogia com as guerras da conquista da Lusitânia pelos romanos.

João ValenteA trama resume-se assim:
Antes de partir para a Serra da Estrela (foi a partir daqui que começou o mito de Viriato seria natural da Serra da Estrela), Viriato convidou para um torneio os cavaleiros que pretendessem demonstrar o seu valor, a troco de um prémio. Acorreram cavaleiros de todo o mundo.
Além do torneio, as festas compunham-se de uma regata e uma tourada, cuja descrição, sendo a parte principal do poema, é de uma grande beleza, pela retrato dos cavalos, do colorido e do movimento, mas em que não nos detemos, porque sendo o poema autobiográfico e o seu verdadeiro herói Braz Garcia de Mascarenhas e não Viriato, a parte que nos interessa é aquela em que relata as suas qualidades e a sua longa vida aventureira, que culminou no governo da praça de Alfaiates.
Braz Garcia, era natural de Avô, na confluência do Alva com a ribeira do Moura, nas faldas da Estrela onde viveu uma infância feliz e despreocupada, antes de ingressar na universidade em Coimbra.
Da altiva Estrella nasce altivo infante
Meu pátrio Alva, como de Almathêa

(Viriato Trágico, Canto IV, Estância 90)

E tu filha do Alva cristalino
Minha mais natural, que culta musa,
Em cujas praias o senil menino
Me ensinou a tocar a cítara lusa

(Canto I, Estância 4)

Bem de onde o Alva cristalino abraça
O pomifero Moura, que correndo
Pobre de cabedal, rico da graça,
Censo estivo lhe está sempre oferecendo.

(Canto XIV, Estância 104)

Foi um homem de sangue quente e de tão fácil manejo da espada como da pena, o que o levaria a envolver-se em desordens, a refugiar-se em Madrid, a participar na guerra dos países baixos a regressar a Avô e depois emigrar, na sequência do casamento do seu amor de infância com um rival, para o Brasil onde teve participação assinalável na defesa de Recife e Olinda, contra os Holandeses.
Entro, na adolescência, ponho a espada,
E d’ella apprendo uma e outra regra,
Ramo não fica em que não vá provada,
Nem cabello, em que me não dêem com a negra.
O tanger, o dançar muito me agrada
Mais o cavalo brincador me alegra
De festa em festa ao néscio encaretado
Aqui senhor me finjo, ali criado.

(Canto XV, Estância 34)

E achando-me formiga entre elefantes
Por não servir, depois de ser servido,
Deychei a corte por abismo cego
Enfadado da terra ao mar me entrego

(Canto XV, Estância 49)

Tendo as coloneas já reconhecidas,
Na de Olinda parei, tendo a de Olinda
Por maior, por melhor e por mais linda.

(Canto XV, Estância 56)

Foi também por causa de zaragata em que se envolveu quando regressou ao reino, que a troco de amnistia participou nas guerras da restauração como guerrilheiro.
A ter estranho Rei longe, era certo
Que poderão traidores derrocar-me
Como o ter natural, tão justo e perto,
Atropeli quem quis atropelar-me
Vendo-me livre com ditoso acerto.

(Canto XV, Estância 102)

Com muitas velas e muito vento
Aqui e ali confusamente errando;
Pela agulha do humilde entendimento,
De Viriato os princípios penetrando

(Canto V Estância 34)

E foi na sequência do seu desempenho na guerra de restauração e anterior experiência militar, que foi nomeado governador de Alfaiates, e desbaratou numa cilada que montou no porto de S. Martinho, junto ao rio Águeda, uma grande força invasora que se retirava com um saque de mais de 20.000 cabeças de gado.
Mas já donde uma estrada outra cruzava,
De gente satisfeita e chocarreira,
Distante sentem vir tropa infinita
Que ao som de carros, baila, canta e grita.
Llogo Viriato com a prompta orelha,
Cauto, de longe nota o seu descuido,
Sua gente, desvia e aparelha
Tudo antevendo e prevenindo tudo.
Occulta gente de uma e outra banda
Por que a romana tarde a reconheça,
A qual da certa morte descuidada,
Vem a cahir no meio da cilada.
De cada lado, foi logo investida
Atraz cercada, e bem cortada avante
Pagando seu descuido com a vida
Que da morte se faz sempre distante.


Viriato, que vê desbaratada
A gente que a bagagem conduzia,
E quanta em sua guarda vinha armada,
Que um excessivo número fazia,
A viva perdoou, que manietada
Com toda a carruagem que trazia,
Armas, cavalos, mulas tudo encerra
Entre sua gente e marcha para a Estrela.

(Cap II Estâncias 58 a 72)

Vitória que suscitou a inveja de D. Sancho Manuel, governador militar da província e a prisão de Braz Garcia no Castelo do Sabugal onde ficou rigorosamente incomunicável. Pedindo um livro para matar o tempo, deram-lhe a flos santorum, do qual, com miolo de pão e água conseguiu recortar as letras e ridigir uma carta que enviou em segredo a D. João IV. Libertado e cumulado de algumas honras, mas cansado de intrigas, retirou-se para a sua Avô natal, onde faleceu.
Como estes Reinos teus se levantaram
Sua conservação, te não relato,
Por ser um dos que a peitos a tombaram
Tão mal m’o satisfez o vulgo ingrato
Tanto émulos inúteis mo invejararam


Retiro-me a estes vales e a estas fontes,
A estes frescos jardins e pátrios rios.

(Ib. Estância 101)

Braz Garcia foi, como se pôde ver, um homem de engenho e ousadia. Engenho que lhe deu uma vida aventureira e o livrou de muitos apuros sobejamente documentados no Viriato Trágico; a ousadia com que, achando-se digno dos feitos de um herói mítico, escreveu uma autobiografia elogiosa que ficou para a posteridade. As qualidades que Braz Garcia tinha e transpõe para o herói no Viriato Trágico, vemos nos dias de hoje por aí em muita gente conhecida, mas no inverso.
É o sinal dos tempos, caros amigos: Ao engenho, agora chama-se esperteza; à ousadia, lata!
Por isso Braz Garcia escreveu o Viriato Trágico e João Rendeiro escreveu Uma História de Sucesso…
Alguém se lamentava, há uns posts atrás, de já não haver Guarda Republicanos como antigamente… Quero lá saber dos Guarda Republicanos! Eu, cá queixo-me é dos homens que há agora!
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

A margem direita do Côa só foi «de jure» encorporada em Portugal após o tratado de Alcanizes.

João ValenteEsta faixa de território foi sempre região de fronteira; primeiro da nação lusitana, depois do reino suevo, depois do condado Portucalense, reino de Leão e de Portugal. Daí que tenha sofrido várias influências e conservado várias particularidades nos costumes e língua.
A Língua falada foi um misto entre o leonês e galaico, que vários filólogos (Lindley Cintra, Leite de Vasconcelos, etc.) estudaram e que, sendo falado para além da fronteira, ainda tem remeniscências no malaguenho do Vale do Elges e no falar característico de Almedilha e da Bouça, que são mais parecido com o português do que com o castelhano.
No entanto, a linguagem tabeliónica do território, pelo menos dos documentos que se conhecem, sempre foi o Galaico, pela razão de que o leonês raramente era utilizado na escrita (o próprio Afonso X escreveu as «Cantigas de Santa Maria» em Galaico) e assim continuou depois da reunião de Leão com Castela a partir de 1230.
Existem alguns documentos do período de dominação leonina, como os forais e cartas de povoação e doações dos quais os mais conhecidas são as do cartório do convento de Santa Maria de Aguiar, que exerceu durante muito tempo grande influência cultural no território de Riba-Côa, e se encontram actualmente na Torre do Tombo.
Um desses documentos em galaico é interessante porque é anterior ao tratado de Alcanizes e refere muitos locais da actual Riba-Côa (como Caria Talaia na Ruvina, Alfaites, Vila Bôa, Vilar Maior, Castelo Bom, Caria, Vila Bôa, Freineda, Sabugal e Castelo Rodrigo) atestando o seu florescente e antiquíssimo povoamento, porque se refere a uma mesma família com bens em todo o território de Riba-Côa e revelando que a influência portuguesa em Riba-Côa é anterior ao tratado de Alcanizes; trata-se da partilha da meação de Maria Gonçalves com seus filhos (1266), que, resumidamente, transcrevo:
«Conoçuda cousa a todolos que esta Carta ujrē Como eu maria Gonçaluez fiz tal particiõ com meos filos e com esteuā suarez meo gĕro A meo pagamēto e a seu deles. Recebj por mja mejade nas herdades que aujia… meeo marido dō Mēedo. Coujē A saber quanto aujamos em Sabugal e en seu termjno. Saluo de Caria Talaya. E quanto aujamos en Alfayates e em seu termjno e a torre com seu termino. Esto sobredito receby eu Maria gonçalues por mya meyade. E por esto quito a meus filos. E recebē na outra sa meyade quanto al eu auya com meo marido dō Mēedo en Caria talaya e en termjno de ujlar mayor e de Castello bóó e as fresnedas com todo seu termjno e com quanto a ellas pertence e quanto aujamos en Castell rodrigo e en seu termjno e com todalas outras cosas que aujamos en Portugal e quanto aujamos desde vilar Major ata nas aguas de doyro en Regno de Leō…» […] Esta partila e esta cōnposiciō sobredita foy feyta.iiij feyra.iiij.dias andados de Mayo nos palacios de vila bōa a pagamento danbalas partes. Perdante Martin Domingez de Sabugal e perdante Pasqual perez canonigo de badaloz e perante Pedro esteuanez dalfayates que forō ties desta partició e desta conposiciō e desta Auenencia asi como sobredito e per mandado dos alcaldes de Sabugal. Ts…», Mosteiro de Santa Maria de Aguiar, Maço X, n.º 18.
Um pormenor delicioso nesta escritura, atesta a fertilidade e disseminação das famílias entre o território de Riba-Côa e de Portugal:
«… e eu Maria Gonçalves outorgo sou pēa de .C. mareuedis pólos meos filos que nō son de edade e por Maria mēedez meã fila que os faça outorgar esta particiō quando forē de edade. E eu esteuā suarez me obligo e outorgo so pea destes .C. mareuedis sobreditos que eu faça outorgar a mīa moler Chamoa mēedez esta particiō ata dia de San Martino primeiro que uē per ella ó per carta aberta Seelada do selo de Celorico e depoys que chegar Chamoa mēedez a otorgar esta particiō seer quite desta pea destes .C. mareuedis e darē me mya cart […]E en outro dia .v. feyra .v.dias andados de Mayo Eu Meen Gonçalves com meo filo fernā mēedez e por meos filos aqueles nō son edade e com Esteuā suarez meo gēro uēmos a Sabugal e nas mias cajsas outorgamos esta particō…»
Da escritura depreende-se que a família se encontrava espalhada por Riba-Côa e Portugal, pelo que se reuniu no Sabugal, onde Maria Gonçalves tinha casas, para acordarem na partilha.
Da escritura depreende-se ainda, que Maria Gonçalves e o marido D. Mendo, tinham património disseminado por toda a Riba-Côa e vários filhos menores e três maiores; Maria Mendes, que ficou por fiadora dos menores, Fernando Mendes e Chamoa Mendes, casada com Estevão Soares e a residir em Celorico da Beira.
Mas sobretudo o que se depreende desta escritura, é que a fronteira entre Portugal e Riba-Côa era apenas uma linha imaginária, tal como o passou a ser depois a fronteira entre esta e Espanha.
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

Naquele tempo…

João ValenteA gente saía da escola, atravessava a ponte do matadouro,
poisava os bibes e as mochilas no muro do chafariz
– defronte ao comércio do senhor Melo – e com uma bola de jornais
bem atada com guita
… a gente fazia uma partida…
O Tó Fernando
Que era vizinho da Maria S. Pedro
E vivia no Largo do Chafariz
O Etelvino
Que morava numa casa muito estreita, a subir três andares em altura
Acima da farmácia do Braulio
Era o capitão
E chamava-nos das escadinhas do Luís «estofador»: Faraó; Cabito; venham!
Andou por esse mundo fora, esteve emigrado na Suíça
(casou agora aos quarenta e picos)
«Finalmente, assentou; trabalha na serração, quando se vai par a o campo da bola»
– informaram-me na antiga casa Anita.
O Aires «Pacharra» era o guarda-redes
(Quantos frangos, meu Deus!
Có có ró có! – gritava em delírio a malta a cada golo)

Morava à esquina da Igreja da Misericórdia,
Trabalhou na ‘Sotave» como o pai e depois emigrou
Dizem que nunca mais voltou
Depois que os pais morreram.
Mas eu lembro-me bem é do João «Pelado»
Sempre de calças a meia canela
Franzino na sua fome constante o João «Pelado»!
Havia também
O Zezinho «Pepe», o João do café Sky…
– Coitado do João do Sky!
Morreu afogado na Lagoa Escura
(uma congestão depois de almoço
num dia quente de Verão, há muitos anos);
– O Sérgio «Brasileiro» foi para Lisboa
E o «Passa e Anda», que uma vez encontrei no comboio,
Também lá ficou por Lisboa.

– E o Sérgio «Cariano»? Que é feito do Sérgio «Cariano»?
– Sei que foi para África do Sul, como empresário
Estive com ele há uns tempos mais o Luís Vinagre.

É verdade, e o Policarpo?
Que é feito, que é feito do Policarpo?
Aquele rapaz corpulento apertado num bibe curto,
Com braços de sobra, parecia um gigante!
Fujam… Fujam todos!
Quando ele pegava na bola era um carro de assalto
Naquelas botas cardadas de pastor da serra.

E o António? Que era pitosga
E vivia no Eiró?
Ninguém sabe do António.

Nunca mais! Nunca mais!
O tempo da minha feliz meninice, não volta mais!…
Que bons tempos, aqueles!
Que boa era a vida de gazeta aos trabalhos da escola, a nadar no rio nu,
a roubar a fruta na quinta dos Portugais,
a jogar o berlinde no jardim
A brincar aos soldadinhos na praça:
Alto! Meia volta, volver!
tinham sabor emocionante de aventura
as descidas do Eiró nos carinhos de rolamentos
fugindo aos guardas
– Que cagaçal por ali abaixo, até ao ensaio da «Banda Nova»!
…os muros dos quintais que pulávamos…
– Vamos fazer escolha; vamos medir!
…e a gente jogava uma partida…

Oh, como eu gostava!
Eu gostava de um dia destes
de voltar a fazer a medição com o Etelvino
– O Aires «Pacharra» perdeu-se nesse mundo de ninguém –
escolhia o Policarpo, o João de Deus, O João «Pelado», O Sérgio «Cariano»
o Zezinho «Pepe» e o Arlindo do Matos & Prata
e íamos fazer uma partida como antigamente!
Ah, como eu gostava…
Mas talvez um dia…
quando as cerejeiras do Jardim pintarem
quando as mimosas tingirem de amarelo a vertente do Vale de Leandres,
para lá da Casa do Guarda, até ao Poço do Inferno,
quando a sombra dos amieiros for mais agradável
no Açude de S. Gabriel
E as macieiras da quinta dos Portugais
Que agora são do Luizinho Melo, estiverem carregadas,
nos encontraremos como antigamente no Largo do Chafariz
talvez a gente poise despreocupadamente
o nosso saco cheio das amarguras da vida
no mesmo muro do chafariz
defronte ao comércio do senhor Melo,
e o meu pai assome de bivaque à janela do posto como antigamente
e a minha mãe atravesse o largo a caminho da horta de Santa Luzia
vamos então fazer um grande partida…
E depois
Vamos saltar o muro dos Portugais,
Para roubar maças
Como naquele tempo…
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

O evolucionismo é um dos «dogmas» da mentalidade moderna relativista, e de que este ano muito se fala, porque nasceu há exactamente 150 anos com o lançamento do livro «A Origem das Espécies» do biólogo e naturalista Inglês Charles Darwin e que tem abalado o mundo científico e religioso no último século e meio.

João ValenteNuma série de homílias sobre os primeiros capítulos do Gênesis, o então arcebispo de Munique, o cardeal Joseph Ratzinger, escreveu em 1981: «A fórmula exacta é criação e evolução, porque as duas coisas respondem a duas questões diversas. O relato do pó da terra e do alento de Deus não nos narra em efeito como se originou o homem. Diz-nos o que é o homem. Fala-nos de sua origem mais íntima, ilustra o projeto que está detrás dele. Vice-versa, a teoria da evolução tenta definir e descrever processos biológicos. Não consegue ao contrário explicar a origem do projecto homem, explicar sua proveniência interior e sua essência. Encontramo-nos portanto ante duas questões que se complementam, não se excluem.»
Ratzinger fala do carácter racional da fé na criação, que continua sendo, ainda hoje, a melhor e mais plausível das hipóteses.
Com efeito, continua dizendo o texto e Ratzinger, «mediante a razão da criação, Deus mesmo nos olha. A física, a biologia, as ciências naturais em geral nos proporcionaram um relato novo da criação, inaudito, com imagens grandiosas e novas, que nos permite reconhecer o rosto do Criador e nos faze saber de novo: sim, no princípio e no fundo de todo o ser está o Espírito Criador. O mundo não é o produto da escuridão e do absurdo. Provém de uma inteligência, de uma liberdade, de uma beleza que é amor. Reconhecer isto nos infunde o valor que nos permite viver, que nos faz capazes de enfrentar confiantes a aventura da vida».
É significativo que, numa sua homília de início de seu ministério petrino, o papa Bento XVI tenha dito: «Não somos o produto casual e sem sentido da evolução. Cada um de nós é o fruto de um pensamento de Deus. Cada um de nós é querido, cada um é amado, cada um é necessário.»
Por sua vez, Dom Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura, que é também presidente da Comissão Pontifícia para os Bens Culturais da Igreja, a propósito do recente congresso internacional realizado em Março deste ano em Roma sobre «Evolução biológica: fatos e teorias. Uma avaliação crítica 150 anos depois de ‘A origem das espécies’», explicou que esta reunião magna de filósofos, teólogos e cientistas convocados pela Igreja buscava enfrentar o debate com três atitudes básicas: antes de tudo, pesquisa séria – que supere os lugares comuns –, humildade e optimismo.
O arcebispo explicou que teólogos, filósofos e cientistas se movem em «terrenos diferentes», mas «o importante é que a linha de demarcação não se converta em uma ‘muralha chinesa’ em uma ‘cortina de ferro’, desde o qual se vê o outro com desprezo».
«A distinção – advertiu – não é separação. A distinção é necessária!»
«Portanto – declarou –, é necessário um acto de humildade também por parte do teólogo, que deve escutar e aprender; por outro lado, é necessário superar a arrogância de alguns cientistas que esbofeteiam quem tem fé e que consideram a fé e a teologia como uma herança de um paleolítico intelectual.»
No que concerne à questão do evolucionismo está portanto claro que o Magistério da Igreja não entra em questões propriamente científicas, que deixa à pesquisa dos especialistas, mas sente o dever de intervir para explicar as consequências de tipo ético e religioso que tais questões comportam e que não contrariam os seguintes princípios da fé:
O primeiro princípio que se sublinha é que a verdade não pode contradizer a verdade, ou seja, não pode haver um verdadeiro contraste ou conflito entre uma verdade de fé (ou revelada), e uma verdade de razão (ou seja, natural), porque as duas têm como origem a Deus.
Em segundo lugar, sublinha-se que a Bíblia não tem uma finalidade científica, mas sim religiosa, pelo que não seria correcto tirar consequências que possam implicar a ciência, nem a respeito da doutrina da origem do universo, nem enquanto a origem biológica do homem. Há que fazer, portanto, uma correcta exegese dos textos bíblicos, como indica claramente a Pontifícia Comissão Bíblica em «A interpretação da Bíblia na Igreja» (1993).
Em terceiro lugar, para a Igreja não há, em princípio, incompatibilidade entre a verdade da criação e a teoria científica da evolução. Deus poderia ter criado um mundo em evolução, o que em si não tira a causalidade divina, ao contrário pode enfocá-la melhor quanto a sua riqueza e virtualidade.
Em quarto lugar, sobre a questão da origem do ser humano, poder-se-ia admitir um processo evolutivo com respeito a sua corporeidade, mas, no caso da alma, pelo fato de ser espiritual, requer-se uma acção criadora directa por parte de Deus, já que o que é espiritual não pode ser originado por algo que não é espiritual. Entre matéria e espírito, há descontinuidade. O espírito não pode fluir ou emergir da matéria, como afirmou algum pensador. Portanto, no homem, há descontinuidade com respeito aos outros seres vivos, um «salto ontológico».
Por último, e aqui nos encontramos ante o ponto central: o facto de ser criado e querido imediatamente por Deus é o único que pode justificar, em última instância, a dignidade do ser humano. Com efeito, o homem não é o resultado da simples casualidade ou de uma fatalidade cega, mas é o fruto de um desígnio divino.
O ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus, mais ainda, está chamado a uma relação de comunhão com Deus. Seu destino é eterno, e por isso não está simplesmente sujeito às leis deste mundo que passa. O ser humano é a única criatura que Deus quis para si mesmo, é fim em si, e não pode ser tratado como meio para alcançar nenhum outro fim, ou muito nobre que possa ser ou parecer.
Portanto nada existe de contraditório entre a teoria evolucionista que contrarie os princípios fundamentais da fé.
É que Deus permanece sempre Ser imutável, «Aquele que é» (Ex. III, 12), independentemente do relativismo da teoria evolucionista.
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

O evolucionismo é um dos «dogmas» da mentalidade moderna relativista, e de que este ano muito se fala, porque nasceu há exactamente 150 anos com o lançamento do livro «A Origem das Espécies» do biólogo e naturalista Inglês Charles Darwin e que tem abalado o mundo científico e religioso no último século e meio.

João ValenteNos séculos XVII e XVIII, com o recrudescer do gnosticismo, que se alimentou no cabalismo gnóstico de Jacob Boehme, espalhou-se nos meios místicos e esotéricos, a ideia de evolução universal. Para essas seitas cabalistas e gnósticas, o processo de auto-manifestação de Deus incluiria não só o universo, mas também a História e contagiou até a Teologia com alguns pensadores da Igreja como Teilhard de Chardin que defendeu ser a evolução «uma condição geral à qual se devem dobrar todas as teorias, todas as hipóteses, todos os sistemas; uma condição a que devem satisfação doravante para que possam ser tomadas em consideração e para que possam ser certas.» (in O fenómeno Humano, p. 245).
Julian Huxley, por sua vez, mostra como o dogma da evolução se impôs como o fundamento do moderno relativismo:
«No tipo de pensamento evolucionista, não há lugar para seres sobrenaturais (espirituais) capazes de afectar o curso dos acontecimentos humanos, nem há necessidade deles. A terra não foi criada. Formou-se por evolução. O corpo humano, a mente, a alma, e tudo o que se produziu, incluindo as leis, a moral, as religiões, os deuses, etc., é inteiramente resultado da evolução, mediante a seleção natural.» (Cfr. Huxley, J. Evolution after Darwin, p. 246, apud Ossandòn Valdès, Juan Carlos, En torno al concepto de evolución, artigo na revista Philosophica, de Santiago do Chile, Suplemento doutrinário da revista Jesus Christus, número 50, de Buenos Aires).
Cremos que estas afirmações de Teilhard de Chardin e de Huxley sejam suficientes – além do exame do que ocorre hoje – para confirmar o que dissemos acima: o evolucionismo tornou-se o dogma fundamental do relativismo moderno.
Mas o evolucionismo tem suscitado debates não só entre ateus e crentes, mas inclusive entre os próprios cientistas. Portanto, o debate não é simplesmente entre fé e razão – o que é um falso dilema –, como é colocado pela mídia, mas discute-se mais profundamente se a teoria da evolução é uma ciência verdadeira.
A respeito disso, veja-se o que diz, L. Harrison Matthews, importante geólogo evolucionista:
«O facto de que a evolução é a espinha dorsal da Biologia e que a Biologia está então na posição particular de uma ciência fundamentada numa teoria não comprovada, – é ela então uma ciência ou uma fé? Crer na evolução é então o paralelo exacto do crer numa especial criação – ambos são conceitos cujos crentes crêem como verdade, mas que nem um nem outros, até o presente, foi capaz de provar.» (L.H. Matthews, Introdução para a «The Origin of Species», de Charles Darwin, Dent and Sons, London, 1971,p. XI, apud Duane T. Gish, «Evolution: the Challenge of the Fossil Record», Creation-Life Publishers, El Cajon, 7a. ed. 1992,p. 15).
E ainda, Norman Macbeth, textualmente diz que «o Darwinismo não é ciência» (in American Biology Teacher Novembro de 1976, p. 496, apud Duane T. Gish, op. cit.,p.14).
Hoje, esse dogma, que até alguns cientistas não aceita sem reservas é impingido por repetição contínua e por embebimento a todos, já que toda a sociedade o respira continuamente.
No supra citado artigo do professor Ossandón Valdés, encontramos uma citação de J.C. Mansfield na qual ele pede que: «os estudantes secundários sejam embebidos do pensamento da evolução de tal modo que se acostumem a tudo pensar em termos de processo, e não em termos de situação estática.»
Evidentemente é o que se tem praticado em escala mundial, para criar nos jovens uma mentalidade relativista.
Para os cristãos, o maior problema de muitos evolucionistas está na sua postura filosófica – o naturalismo – que nega a priori qualquer lugar para Deus nos fenómenos estudados pela ciência. Esses cientistas afirmam dogmaticamente que questões de fé e questões de ciência são compartimentos estanques, incomunicáveis.
O autor Phillip E. Johnson, que é um respeitado crítico das pretensões filosóficas das teorias darwinistas e neodarwinistas, demonstra que os defensores da evolução naturalista são tão condicionados por pressuposições sobre a realidade e o conhecimento quanto os seus opositores. Dois bons livros de Johnson que abordam esses temas são «Darwin no Banco dos Réus (Cultura Cristã)» e «Ciência, Intolerância e Fé (Ultimato)».
Este e outros estudiosos teístas argumentam que existem questões cruciais para as quais a abordagem naturalista não tem uma resposta convincente, a começar da origem da vida e das leis precisas e universais que regem toda a realidade. Alguns deles, não necessariamente religiosos, têm proposto o conceito de «projecto inteligente» (Intelligent Design).
Este artigo já vai mais extenso do que pretendíamos. Não podemos pormenorizar mais, mas queremos referir que no âmbito do cristianismo, tem existido uma variedade de posições em relação ao evolucionismo.
Uma abordagem é o «evolucionismo teísta», segundo o qual Deus criou de maneira directa no início do processo e desde então actua somente através de causas secundárias por meio da evolução biológica. Um exemplo clássico desse enfoque é o teólogo e antropólogo católico Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955), que reinterpretou toda a mensagem cristã em termos evolucionistas.
Outra perspectiva, o «criacionismo progressivo», entende que as actuais variedades de organismos são resultantes do processo de diversificação por meio da micro evolução, a partir dos protótipos criados originalmente por Deus.
Por fim, há o criacionismo clássico, segundo o qual cada espécie foi criada directamente por Deus. Essa posição inclui o entendimento literal dos dias da criação (24 horas), de uma terra jovem (cerca de dez mil anos) e de um dilúvio universal que explicaria os depósitos sedimentares e os fósseis de hoje.
(Continua na próxima semana.)
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

O evolucionismo é um dos «dogmas» da mentalidade moderna relativista, e de que este ano muito se fala, porque nasceu há exactamente 150 anos com o lançamento do livro «A Origem das Espécies» do biólogo e naturalista Inglês Charles Darwin e que tem abalado o mundo científico e religioso no último século e meio.

João ValenteSegundo a famosa teoria de Darwin, todas as espécies de seres vivos hoje existentes, inclusive o ser humano, evoluíram a partir de um ancestral comum por meio de mutações graduais (variações espontâneas) e da selecção natural (sobrevivência dos mais aptos). Assim, ao longo de um imenso período de tempo organismos vivos simples deram origem a outros mais complexos meramente através de leis naturais intrínsecas, sem intervenção externa sobrenatural.
Rapidamente esta teoria alcançou notoriedade e crescente aceitação. Um dos principais responsáveis por isso foi T. H. Huxley, o indivíduo que cunhou o termo «agnóstico», que utilizou para descrever sua própria posição. Curiosamente, muitos líderes religiosos foram simpáticos à nova teoria. Entre eles, podem ser mencionados Frederick Temple, futuro arcebispo de Cantuária, Lyman Abbott, influente clérigo americano, e Henry Drummond, biólogo e pastor escocês. Para eles, a evolução era um sinal da providência de Deus e de seu contínuo trabalho em sua criação.
Na verdade, se repararmos bem, a teoria de Darwin afirma que o ser mais apto é aquele que sobrevive, e que os que sobrevivem são os que possuem variações favoráveis, ou seja, os mais aptos. Trocando em miúdos, o ser mais apto é aquele que sobrevive, porque aquele que sobrevive é o mais apto! Portanto, como disse certa vez Karl Popper, o famoso filósofo da ciência, a selecção natural é uma tautologia.
Neste sentido, a crença no evolucionismo pode ser apontada como uma das causas do relativismo triunfante em nossos dias, a ponto de Richard Lewontin, um eminente geneticista da Universidade de Harvard e ardoroso defensor do evolucionismo ter chegado a defender que o darwinismo é uma ideologia, um conjunto de ideias às quais a realidade deve se adaptar:
«Nós ficamos do lado da ciência, apesar do patente absurdo de algumas de suas construções, apesar de seu fracasso para cumprir muitas de suas extravagantes promessas em relação à saúde e à vida, apesar da tolerância da comunidade científica em prol de teorias certamente não comprovadas, porque nós temos um compromisso prévio, um compromisso com o materialismo. Não é que os métodos e instituições da ciência de algum modo compelem-nos a aceitar uma explicação material dos fenómenos do mundo, mas, ao contrário, somos forçados por nossa prévia adesão à concepção materialista do universo a criar um aparato de investigação e um conjunto de conceitos que produzam explicações materialistas, não importa quão contraditórias, quão enganosas e quão mitificadas para os não iniciados. Além disso, para nós o materialismo é absoluto, não podemos permitir que o Pé Divino entre por nossa porta.» (Phillip E. Johnson, «Objections sustained», InterVarsity Press, Illinois, 1998, p. 71).
A consequência última disto é que nenhum valor seria absoluto. Nem verdade, nem moral, nem beleza, nem religião, nem dogmas, nada teria estabilidade, pois que tudo estaria sob a lei da evolução, esta sim, tomada como sendo absoluta.
Portanto, o evolucionismo actual, levado à última consequência e sem reservas, é mais do que uma teoria biológica: é um princípio absoluto – um dogma religioso – de uma metafísica relativista. E eis aí uma contradição sintomática e reveladora: o relativismo fundamenta-se num princípio absoluto, que é o da relatividade da selecção natural!
Outros, porém, como o pregador calvinista inglês Charles H. Spurgeon, manifestaram a sua oposição à teoria evolucionista desde o início. Na comunidade científica, com o passar dos anos a teoria evolucionista tornou-se a doutrina universalmente aceite, a posição consagrada pela academia e hoje já extrapolou o campo puramente biológico e é aplicado a tudo: nada mais é considerado estável, pois que se crê que tudo evolui.
O pior é que este conceito de evolução, ao que li algures, nada tem a ver com o de Darwin, pois este não fazia qualquer referência à selecção natural e só foi definido, tal como o conhecemos hoje, no Congresso de Chicago de 1959 sobre o centenário da obra de Darwin, como «um processo unidireccional e irreversível que, no transcurso do tempo, gera novidade, diversidade e níveis de organização mais elevados». (Apud Ossandòn Valdès, Juan Carlos, En torno al concepto de evolución, artigo na revista «Philosophica», de Santiago do Chile, Suplemento doutrinário da revista Jesus Christus, número 50, de Buenos Aires p. 7).
E o mais curioso é que toda a sua teoria parece uma transferência para a biologia do argumento básico de Adam Smith a favor de uma economia racional segundo o qual o equilíbrio e a ordem da natureza não surgem de um controle externo mais elevado (divino) ou da existência de leis operando directamente sobre o todo, mas sim a partir da luta entre indivíduos pelos seus próprios benefícios (em termos darwinistas, pela transmissão de seus genes a gerações futuras através do êxito diferencial na reprodução). (Jay Gould, O Polegar do Panda. p. 56). Resumindo; uma aplicação analógica à biologia de uma teoria social!
Aliás o conceito de evolucionismo, nem foi Darwin que o inventou. Na Antiguidade, a filosofia de Anaximandro e Heráclito – tipicamente gnóstica – já negava a existência de sujeito nas mudanças, afirmando que a única realidade era o mudar, o «vir a ser».
Todas as seitas gnósticas de todos os tempos acreditavam que a divindade era um perpétuo fluir, e que, por isso, toda realidade era mutável. Para os gnósticos o Deus que se apresentou a Moisés – o Deus que se dizia imutável – era o demiurgo criador do mundo material e do mal. Esse Demiurgo mau seria o defensor de falsos valores imutáveis.
(Continua na próxima semana.)
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

Neste pequeno artigo, gostaria de versar muito superficialmente, porque a característica de um post não dá para mais, a simbologia da capeia e do forcão, deixando algumas pistas para decifrar o seu sentido mais profundo, que, na minha opinião, é religioso e ligado à gnose iniciática.

João ValenteEsta tradição, que nos nossos dias está já bastante simplificada, consiste na selecção de uma árvore da floresta, seu abate, descasque e secagem. Nesta tarefa os jovens solteiros embrenham-se na mata acompanhados de uma pessoa mais experiente que os orienta na escolha. Posteriormente constrói-se uma estrutura em madeira de forma de triângulo regular (forcão) em que o eixo é formado pelo tronco da referida árvore. A estrutura é posteriormente manuseada numa prova de destreza colectiva.
«Este ritual é em tudo idêntico aos rituais da puberdade destinados a fazer a passagem de uma classe de idade para outra com a iniciação dos neófitos na cosmogonia dos Tempos Primordiais. Há vários estudiosos deste assunto, entre os quais Heinrich Schurtz in Altersklassem Männerbünde e Hutton Webester in Primitive Secret Societies»?
Estes rituais consistiam basicamente no isolamento do grupo na floresta ou no interior de uma cabana e na morte simbólica através do silêncio, abstinência alimentar, exercícios físicos ou tortura, provas de destreza e a ressurreição e regeneração espiritual como homem gnóstico, que faziam parte dos Männerbünde pré-cristãos e se prolongaram nas organizações mais ou menos militares da juventude, com os seus símbolos, tradições secretas, ritos de entrada e danças.
Muitos ritos de iniciação xamânica, desenvolviam-se também em torno do mito da árvore cósmica. A árvore era o centro do mundo (imago mundi), ligando como um eixo as três zonas cósmicas – a terra o ar e o mundo subterrâneo – e contendo por tal motivo, simbolicamente o universo inteiro. A árvore cósmica era nos ritos de iniciação um meio de acesso ao centro do mundo, ou seja, ao coração da realidade, da vida e da sacralidade.
Um exemplo (Citado por Mircea Elíade in Ritos de Iniciação e sociedades secreta) destes rituais iniciáticos em que encontramos aqueles dois aspectos, só para o leitor fazer uma ideia do que falamos, encontramo-lo ainda entre os Bâd, uma tribo Australiana, em que os velhos preparam a iniciação dos jovens retirando para a floresta e procuram uma árvore ganbor «sob a qual Djamar» – o Ser supremo – «descansou nos tempos antigos». Um mágico caminha à frente, com a missão de descobrir a árvore. Assim que a encontram, os homens rodeiam-na a cantar e cortam-na com as suas facas de sílex. Por este ritual, a árvore mítica do Tempo original, aquando da criação do mundo, é tornada presente e através dela os homens participam na plenitude desse tempo sagrado, primordial, regenerando toda a vida religiosa da comunidade.
Capeia Arraiana - Foto TutatuxÉ curioso como o ritual das capeias começa com este costume de afastamento para a floresta e da escolha de uma árvore, e uma prova de destreza que mantém toda a estrutura de um rito iniciático. Interessante é ver como essa árvore serve de eixo a uma armação triangular, com tantos lados quantos os elementos do universo cósmico.
O Triunfo do cristianismo pôs fim a estes mistérios e às gnoses iniciáticas, mas adaptando-os bem como à filosofia grega à explicação dos novos sacramentos e atribuindo-lhe novos significados cristológicos. Foi esta adaptação da linguagem universalmente inteligível dos símbolos e da filosofia platónica, que permitiu que o cristianismo primitivo, interdependente de uma história local (a salvação do povo de Israel), se tornasse uma história santa e universal (de salvação de toda a humanidade). Damos só três exemplos desta linguagem adaptada: A liturgia síria explica o rito do baptismo recorrendo àquela concepção pré-cristã do universo: «Assim, oh Pai, Jesus viveu ainda pela Tua vontade e a vontade do Espírito Santo nas três moradas terrestres: na matriz da carne, na matriz da água baptismal e nas cavernas sombrias do mundo subterrâneo» (citando Jacób da Sarug in Consécration de l’eau baptismale); O símbolo da Árvore Cósmica e do centro do mundo são , por sua vez, integrados pelos pais da Igreja no símbolo da Cruz, que é descrita como «árvore que sobe da terra aos céus» ou a árvore que «saindo das profundezas da Terra, se ergueu para o Céu santificada, até aos confins do universo» (Mircea Elíade in images et symbole). Por último, Clemente de Alexandria, padre da Igreja, dirigindo-se aos pagãos, adoptando os motivos iniciáticos do neoplatonismo, dizia: «Oh mistérios verdadeiramente santos! Oh luz sem mistura! As tochas iluminam-me para contemplar o céu de Deus, torno-me santo pela iniciação.» (in Protrepticus, XII, 119, 3; 120 1)
Mas alguns motivos iniciáticos, os mais conhecidos dos quais são cerimónias da puberdade, sobreviveram até à idade moderna, conservando razoavelmente a sua estrutura iniciática, apesar da forte pressão eclesiástica em ordem à sua cristianização.
Este exemplo da capeia e do seu forcão ilustra, na minha opinião, uma das modalidades de sobrevivência destes ritos iniciáticos no Portugal cristão. Pela sua dessacralização e simplificação já não pode ser considerado como um rito, porque embora implicando provas e uma instrução especial (escolha da arvore, abate, construção do forcão e manuseamento numa prova de destreza) já não contempla o segredo.
É contudo, seguramente um costume popular de aspecto misterioso que deriva de cenários iniciáticos pré-cristãos, cuja significação original se perdeu no tempo, tal como as mascaradas e as dramáticas que acompanham as festas cristãs de Inverno e que decorrem entre o Natal e o Carnaval.
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

Não gosto do senhor engenheiro por ser arrogante, medíocre e ter um conceito absolutista e ditatorial de poder. Mas não sou dos que se influenciam pelas histórias nunca suficientemente apuradas que a comunicação social conta do senhor.

João ValenteAcompanho com preocupação o caso Freeport e os seus últimos desenvolvimentos, designadamente o visionamento do vídeo em que o inglês Charles Smith cataloga o senhor engenheiro de corrupto.
O caso agora é mais grave e não pode ficar na simples insinuação, como as outras histórias acerca do senhor engenheiro, porque se trata de uma imputação séria a um governante de Portugal. Já não é a honra do senhor engenheiro, mas a nossa que está em causa.
Mas também não podemos acusar nem fazer juízos de valor com base em simples notícias em jornais, porque é aos tribunais que compete apurar a verdade dos factos, acusar e julgar; não aos jornais.
Muitos já formularam uma sentença de condenação do senhor engenheiro com base nas notícias; outros absolveram-no porque não há nenhuma prova contra ele passada no crivo da justiça.
A paixão nunca foi boa conselheira nestas matérias e leva a posições extremas, como a de Mário Crespo e Fernanda Câncio sobre o escândalo, com esta a pôr as «mãos no fogo» pelo senhor engenheiro e a acusar aquele de jornalismo de qualidade duvidosa.
Se compreendemos a ironia da Fernanda Câncio quando diz que devemos fingir que o Mário Crespo é Jornalista, quando acusa sem provas o senhor engenheiro; também sabemos que aquela é uma jornalista com um interesse especial no caso: Dorme com o suspeito. E isto não é ironia; é um facto!
Vamos pois abster-nos de julgar na praça pública e aguardar com a paciência do caçador furtivo, que o furão faça o seu trabalho e o coelho saia da toca por um dos dois buracos; o da rede ou o da liberdade.
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

João ValenteDesta vez um poema de sabor popular, inspirado nas brincadeiras infantis.

 

 

«Amouxa» a Gracinda à porta da Ti Olinda

– Um, dois, três…
Quem está, está…
Quem não está
Que se esconda!

Foge o Chico,
foge o Miguel,
foge Zé,
foge o Daniel.

– Um, dois, três…
Quem está, está…
Quem não está
Que se esconda!

Esconde-se também a Maria.

-Um, dois, três, Miguel!
Um, dois, três, Zé!
Um, dois, três, Daniel!
Bate a Gracinda no muro da Ti Olinda.

-Um dois três…
Salva todos!
Bate a seguir a Maria.

Ao sinal das almas
-Onde se escondeu o Chico?

Horas da ceia…
-Chico, aparece!

E o Chico… Silêncio!

-Chico, sai!

E o Chico… nada!

A criançada enfada-se
E o jogo acaba.
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

João ValenteO Miguel tem cinco anos e é filho de mãe solteira, que vive com muitas dificuldades. Ontem deram-lhe uma guloseima: Um grande ovo de chocolate, que é mimo raro naquela criança tão pobre. Não o comeu… Levou-o para o Jardim e pediu à educadora que o dividisse pelos vinte coleguinhas da sala. São momentos assim de luz, que redimem a humanidade!

Primavera
Ao chegar ao casario
o rio abranda o passo
para mais demoradamente
beijar as hortas
já semeadas.

– É Março –
Vê-se que tudo floresce,
as árvores ganham folhas;
Tudo nasce;
sobe das raízes um clamor;
a seiva aflora aos ramos
e o campo entra em delírio
numa orgia de cheiros
e de cores.
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

Há 2076 anos nasceu, perto de Mântua, um dos grandes poetas da Antiguidade, aquele que Paul Claudel chamou o maior génio produzido pela Humanidade e que mais do que um poeta, foi um profeta de Roma, um «vate», um poeta-profeta.

João ValenteChamava-se Virgílio e foi um profundo conhecedor da terra que ele exaltava, pois sendo filho de um pequeno proprietário rural, conhecia o Outono com a maturação das uvas; o odor da terra fendida pelos ganchos da charrua; o forte hálito dos animais; os tosões aquecidos durante o dia todo pelo calor do sol; o aroma do vinho doce e do mel destilado durante os quentes verões.
A sua obra mais conhecida foi a Eneida, mas a sua primeira obra, que publicou aos 29 anos, chama-se Eclogae, género literário que designava as poesias pastorais, as bucólicas, que tinham origem num passado longínquo, quando o homem ainda praticava a vida pastoril.
Daí o bucolismo traduzir a esperança de uma época de paz, um canto de saudade. O culto ao campo fazia parte desta vida pastoril greco-romana e tinha sido muito bem retratado, já antes de Virgílio, nos Idílios de Teócrito, onde pastores e camponeses figuravam com suas canções, amores e sentimentos.
Com a difusão do Cristianismo pelo mundo civilizado, a maior parte da poesia pagã foi esquecida ou perdeu-se.
Virgílio, conservou, porém, a sua posição de destaque, continuando a ser lido e estudado ao longo de dois mil anos, sendo modelo de importantes autores como Dante, servindo-lhe inclusive de guia através do Inferno e do Purgatório, bem como dos nossos Camões e João de Barros.
Tal deveu-se ao caso curioso de na IV Bucólica, o poeta falar de uma Idade de Ouro ligada ao nascimento de um menino, durante cuja vida a humanidade viveria uma nova época áurea e que os cristãos da época interpretaram como uma profecia do nascimento de Cristo, semelhante à profecia de Isaías:

…«magnus ab integro saeclorum nascitur ordo.
Iam redit et Virgo, redeunt Saturnia regna;
iam noua progenies caelo demittitur alto.
Tu modo nascenti puero, quo ferrea primum
desinet ac toto surget gens aurea mundo,
casta, faue, Lucina: tuus iam regnat Apollo.
Teque adeo decus hoc aeui ,te consule, inibit,
Pollio, et incipient magni procedere menses
te duce.»
Buc. IV, 5-12.

…«a grande série de séculos recomeça.
Já também retorna a Virgem, voltam os reinos de Saturno;
do alto céu já é enviada uma nova geração.
Tu somente, casta Lucina, favorece ao menino que nasce,
sob o qual primeiramente desaparecerá a raça de ferro
e surgirá no mundo inteiro a raça de ouro, já reina o teu Apolo.
E esta honra do tempo começará e os grandes meses começarão
a suceder-se primeiramente sob o teu consulado, ó Polião,
sob o teu comando».

A partir deste texto, os primeiros cristãos decidiram que Virgílio era um dos poetas pagãos virtuosos, que fora recompensado com uma antevisão da época messiânica.
Desde então, a poesia de Virgílio ganhou um ar de santidade religiosa e foi reverenciada quase em pé de igualdade com a bíblia e outros textos cristãos, sendo enaltecido como o maior dos poetas e modelo para os novos autores.
Dante, diz na sua Divina Comédia que Virgílio foi o mestre onde buscou toda a técnica e arte.
Chaucer considerou-o como o «mestre perfeito, um escritor que todos os poetas deveriam respeitar e igualar».
Mas eu, que o li na minha juventude, penso que a sua maior obra, porque revela a sua verdadeira natureza e relação com o universo, foi aquele epitáfio em hexâmetro dactílico e pentâmetro dactílico que ele próprio redigiu para o seu túmulo junto à estrada que ligava Nápoles a Puzzuoli, e que nos chegou por transmissão indirecta.
Este epitáfio revela bem a simplicidade vocabular e modéstia de Virgílio; omite qualquer juízo de valor e tem, além disso, uma alusão mitológica que era muito ao seu gosto:

«Mantua me genuit; Calabri rapuere, tenet nunc
Parthenope: cecini pascua, rura, duces.»

«Mântua gerou-me; a Calábria arrebatou-me; agora possui-me
Partenope (Nápoles): cantei as pastagens, os campos, os heróis.»

Virgílio é de facto, como diz Chaucer, um mestre perfeito; um poeta cuja simplicidade e modéstia, os poetas de hoje nem de longe conseguem imitar!
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

JOAQUIM SAPINHO

DESTE LADO DA RESSURREIÇÃO
Em exibição nos cinemas UCI

Deste Lado da Ressurreição - Joaquim Sapinho - 2012 Clique para ampliar

Indique o seu endereço de email para subscrever este blog e receber notificações de novos posts por email.

Junte-se a 836 outros seguidores

PUBLICIDADE

CARACOL REAL
Produtos Alimentares


Caracol Real - Produtos Alimentares - Cerdeira - Sabugal - Portugal Clique para visitar a Caracol Real


PUBLICIDADE

DOISPONTOCINCO
Vinhos de Belmonte


doispontocinco - vinhos de belmonte Clique para visitar Vinhos de Belmonte


CAPEIA ARRAIANA

PRÉMIO LITERÁRIO 2011
Blogue Capeia Arraiana
Agrupamento Escolas Sabugal

Prémio Literário Capeia Arraiana / Agrupamento Escolas Sabugal - 2011 Clique para ampliar

BIG MAT SABUGAL

BigMat - Sabugal

ELECTROCÔA

Electrocôa - Sabugal

TALHO MINIPREÇO

Talho Minipreço - Sabugal



FACEBOOK – CAPEIA ARRAIANA

Blogue Capeia Arraiana no Facebook Clique para ver a página

Já estamos no Facebook


31 Maio 2011: 5000 Amigos.


ASSOCIAÇÃO FUTEBOL GUARDA

ASSOCIAÇÃO FUTEBOL GUARDA

ESCOLHAS CAPEIA ARRAIANA

Livros em Destaque - Escolha Capeia Arraiana
Memórias do Rock Português - 2.º Volume - João Aristides Duarte

Autor: João Aristides Duarte
Edição: Autor
Venda: Casa do Castelo (Sabugal)
e: akapunkrural@gmail.com
Apoio: Capeia Arraiana



Guia Turístico Aldeias Históricas de Portugal

Autor: Susana Falhas
Edição: Olho de Turista
Venda: Casa do Castelo (Sabugal)



Música em Destaque - Escolha Capeia Arraiana
Cicatrizando

Autor: Américo Rodrigues
Capa: Cicatrizando
Tema: Acção Poética e Sonora
Venda: Casa do Castelo (Sabugal)



SABUGAL – BARES

BRAVO'S BAR
Tó de Ruivós

Bravo's Bar - Sabugal - Tó de Ruivós

LA CABAÑA
Bino de Alfaiates

La Cabaña - Alfaiates - Sabugal


AGÊNCIA VIAGENS ON-LINE

CERCAL – MILFONTES



FPCG – ACTIVIDADES

FEDERAÇÃO PORTUGUESA
CONFRARIAS GASTRONÓMICAS


FPCG-Federação Portuguesa Confrarias Gastronómicas - Destaques
FPCG-Federação Portuguesa Confrarias Gastronómicas Clique para visitar

SABUGAL

CONFRARIA DO BUCHO RAIANO
II Capítulo
e Cerimónia de Entronização
5 de Março de 2011


Confraria do Bucho Raiano  Sabugal Clique aqui
para ler os artigos relacionados

Contacto
confrariabuchoraiano@gmail.com


VILA NOVA DE POIARES

CONFRARIA DA CHANFANA

Confraria da Chanfana - Vila Nova de Poiares Clique para visitar



OLIVEIRA DO HOSPITAL

CONFRARIA DO QUEIJO
SERRA DA ESTRELA


Confraria do Queijo Serra da Estrela - Oliveira do Hospital - Coimbra Clique para visitar



CÃO RAÇA SERRA DA ESTRELA

APCSE
Associação Cão Serra da Estrela

Clique para visitar a página oficial


SORTELHA
Confraria Cão Serra da Estrela

Confraria do Cão da Serra da Estrela - Sortelha - Guarda Clique para ampliar



SABUGAL

CASA DO CASTELO
Largo do Castelo do Sabugal


Casa do Castelo


CALENDÁRIO

Outubro 2019
S T Q Q S S D
« Fev    
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031  

Arquivos

CATEGORIAS

VISITANTES ON-LINE

Hits - Estatísticas

  • 3.152.148 páginas lidas

PAGERANK – CAPEIA ARRAIANA

BLOGOSFERA

CALENDÁRIO CAPEIAS 2012

BLOGUES – BANDAS MÚSICA

SOC. FILARM. BENDADENSE
Bendada - Sabugal

BANDA FILARM. CASEGUENSE
Casegas - Covilhã


BLOGUES – DESPORTO

SPORTING CLUBE SABUGAL
Presidente: Carlos Janela

CICLISMO SERRA ESTRELA
Sérgio Gomes

KARATE GUARDA
Rui Jerónimo

BLOGUES RECOMENDADOS

A DONA DE CASA PERFEITA
Mónica Duarte

31 DA ARMADA
Rodrigo Moita de Deus

A PÁGINA DO ZÉ DA GUARDA
Crespo de Carvalho

ALVEITE GRANDE
Luís Ferreira

ARRASTÃO
Daniel Oliveira

CAFÉ PORTUGAL
Rui Dias José

CICLISMO SERRA ESTRELA
Sérgio Paulo Gomes

FANFARRA SACABUXA
Castanheira (Guarda)

GENTES DE BELMONTE
Investigador J.P.

CAFÉ MONDEGO
Américo Rodrigues

CCSR BAIRRO DA LUZ
Alexandre Pires

CORREIO DA GUARDA
Hélder Sequeira

CRÓNICAS DO ROCHEDO
Carlos Barbosa de Oliveira

GUARDA NOCTURNA
António Godinho Gil

JOGO DE SOMBRAS
Rui Isidro

MARMELEIRO
Francisco Barbeira

NA ROTA DAS PEDRAS
Célio Rolinho

O EGITANIENSE
Manuel Ramos (vários)

PADRE CÉSAR CRUZ
Religião Raiana

PEDRO AFONSO
Fotografia

PENAMACOR... SEMPRE!
Júlio Romão Machado

POR TERRAS DE RIBACÔA
Paulo Damasceno

PORTUGAL E OS JUDEUS
Jorge Martins

PORTUGAL NOTÁVEL
Carlos Castela

REGIONALIZAÇÃO
António Felizes/Afonso Miguel

ROCK EM PORTUGAL
Aristides Duarte

SOBRE O RISCO
Manuel Poppe

TMG
Teatro Municipal da Guarda

TUTATUX
Joaquim Tomé (fotografia)

ROTA DO CONTRABANDO
Vale da Mula


ENCONTRO DE BLOGUES NA BEIRA

ALDEIA DA MINHA VIDA
Susana Falhas

ALDEIA DE CABEÇA - SEIA
José Pinto

CARVALHAL DO SAPO
Acácio Moreira

CORTECEGA
Eugénia Santa Cruz

DOUROFOTOS
Fernando Peneiras

O ESPAÇO DO PINHAS
Nuno Pinheiro

OCEANO DE PALAVRAS
Luís Silva

PASSADO DE PEDRA
Graça Ferreira



FACEBOOK – BLOGUES

Anúncios