Dizia-me um amigo meu que as melhores histórias são as histórias de vida, as histórias contadas na primeira pessoa.

O livro que acaba de publicar a editora Verso da Kapa, de Patricia Lopes, tem por título Missão – diário de uma médica em Moçambique. É um livro enternecedor e apaixonante. Lê-se de um fôlego. Quando se começa, dificilmente se larga. Está salpicado de histórias comoventes e coloridas, eivadas de um verdadeiro ambiente africano, e estou convencido que cada um dos leitores não se importaria de ter acompanhado a Dra. Patrícia Lopes nas suas viagens de voluntariado ao norte de Moçambique, para partilhar o entusiasmo desta jovem pediatra que se empenhava de tal modo no tratamento das crianças e jovens doentes, a ponto de ter feito uma transfusão de sangue de si próprio para salvar a vida de um menino que estava condenado a morrer. Nota-se uma grande paixão pelo povo macua, tão cheio de tradições ancestrais que o protegem, mas que também o subjugam.
Na sua redoma lisboeta, sentia-se sufocada pelo ram-ram de um curso de medicina demasiado distante das pessoas doentes. Jovem e intuitiva, pressentia ser a África o melhor terreno para pôr em prática o saber acumulado dos estudos de pediatria. A medicina tropical iria estudá-la no terreno, com o seu olhar clínico sempre atento, corroborado com o saber acumulado das irmãs da congregação religiosa de S. João de Deus, em cujo convento a Dra. Patrícia se alojou durante o seu trabalho de voluntária num hospital pediátrico em Iapala.
Entre ir para a prestigiada universidade de Harvard, onde tinha sido selecionada e anuir a um apelo humanitário em África, que a atraía num desejo de servir e de curar crianças necessitadas e, ao mesmo tempo a repelia pelo seu imaginário de florestas atravancadas de animais selvagens, de insetos repelentes, de cobras venenosas, em cima dos cajueiros, e de perigos em todos os cantos, preferiu lançar-se generosa e abertamente à escuta de uma outra cultura, dar do seu melhor a um país que quase a enfeitiçou, aprendendo mais nas suas estadas de voluntariado do que em qualquer curso da melhor universidade americana.
É que o diagnóstico médico na África, e mais concretamente na civilização macua, não é apenas ciência médica, é também antropologia, semântica, sociologia, psicologia, uma autêntica abordagem multidisciplinar. E a Dra. Patrícia não iria aprender isso em Harvard. Inteligente como é, depressa percebeu que o diagnóstico não é só olho clínico, baseado no saber da medicina. É também antropologia, conhecimento das tradições. E nesta civilização têm um peso tremendo. Felizmente que lá estava a irmã Lurdes, com a experiência de largos anos em África – um autêntico livro aberto junto de quem a Dra. Patrícia tentava obter as explicações para compreender os comportamentos menos inteligíveis das pessoas que a vinham consultar. Claude Levi Strauss não saberia mais que aquela competente e boa irmã.
Com este livro, Patrícia Lopes recria um estilo literário muito intimista – o do Diário, que nos atrai e nos empolga, sem conseguirmos retirar os olhos de uma leitura apressada e viva, a fervilhar de imagens. Estamos ao lado da Patrícia, no hospital de Iapala, no norte de Moçambique, em plena savana, a muitas horas de viagem de Nampula, e não queremos sair de lá. Terminando o tratamento de um doente, temos logo vontade de acompanhá-la para partilhamos os sentimentos, as angústias em frente de outros doentes que só vêm ao hospital em último recurso.
São textos saborosos onde se ri ás gargalhadas, como aquele sobre uma jovem mamã que foi a Nampula fazer o registo de um filho recém-nascido e que não lhe aceitaram o nome. Disseram-lhe que não era um nome normal. Veio lamuriar-se às irmãs que a ouviam um pouco distraidamente. Curiosa, a Patrícia perguntou-lhe.
– Mas, afinal, qual era o nome que lhe queria dar?
– Padre Arlindo

Com esta, também nós nos escancarámos às gargalhadas com a Patrícia que, morta de riso, para não chocar a jovem mamã, deixou cair um brinco no chão para esconder a cara debaixo da mesa. Depois compreendera que o padre Arlindo tinha sido um missionário – categoria de pessoas muito importantes – que tinha ficado amigo do papá do bebé, quando trabalhava em Nampula.
Ou aquele em que descreve o calvário para reparar a prótese dentária que uma irmã tinha partido. Habituada ao desenrasque africano, a irmã acreditou que alguém lhe poderia valer, mesmo se o velho estomatologista indiano, a viver em Nampula há trinta anos, não dispunha do equipamento adequado. Por conselhos de uns e de outros, as irmãs e a Patrícia dirigiram-se em vão à garagem em frente do mercado, que dispunha de material para soldar e ao latoeiro que executava trabalhos minuciosos. Por fim, e em desespero de causa, aceitaram ir ao reparador de bicicletas e das câmaras-de-ar, ao senhor Castelo Branco, que a consertou com uma cola milagreira e a poliu de seguida com um pano de flanela mais negro que um tição ardido.
– Já está. Experimentar, irmã.
Gostava mesmo de lá estar para ver a cara da irmã que, depois de a ter limpo com a ponta dos dedos, sujeitou-se a metê-la na boca, mesmo em frente do senhor Castelo Branco. Trabalho perfeito pelas mãos de artista moçambicano que Deus dotou com tanto engenho, aprovado e elogiado pelo velho estomatologista indiano.
Neste livro, ri-se às gargalhadas, mas também se chora ao lado das mães desconsoladas que fazem quilómetros a pé com os filhos doentes embrulhados nas capulanas sobre as costas, depositando toda a esperança nesta jovem voluntária e dedicada que de vez em quando decidia interromper os estudos de pediatria, em Lisboa, para acudir à miséria infantil moçambicana.
Está de parabéns a Dra. Patrícia Lopes por este lindo livro onde se espelha a sua inteligência e dedicação pelos outros e a sua generosidade, a tal ponto de ter decidido entregar todo o produto dos direitos de autor à APARF – Associação Portuguesa Amigos de Raoul Follereau, que tem lutado contra a erradicação da lepra – flagelo de mutilação física e sobretudo moral, pois as pessoas afetadas por esta doença são degradadas da família e da comunidade em que vivem, consideradas como autênticas párias da sociedade.
Por isso e por tudo o mais, vale a pena ler e comprar o livro da Patrícia Lopes: Missão – diário de uma médica em Moçambique.
Joaquim Tenreira Martins

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