Quer salvar o País? Ligue o 760 xxx xxx. Quer mandar a Troika embora? Ligue o 760 xxx xxx. Quer… ? Ligue o 760 xxx xxx. Como cantam os Xutos e Pontapés «A vida vai torta. Jamais se endireita. O azar persegue. Esconde-se à espreita! […]». A verdade é que o azar se instalou em Portugal e é cada vez mais curta a perspetiva de um futuro melhor. Talvez umas chamadas de valor acrescentado ajudem o Governo a resolver o défice.

Prefere políticos limpos? Ligue 760 xxx xxx. Prefere ‘fruta podre’? Ligue 760 xxx xxx

António Pissarra - Raia e Coriscos - Capeia ArraianaTenho andado para aqui a magicar, como diz o Povo, naquilo que motiva as televisões a promover tanta caridade para os telespectadores. É nos programas da manhã, é nos programas da tarde, é para «ganhar o carro», é conseguir uma maquia que quase dava para tirar o país da miséria, é para «pôr os patins ao Hélio do skate», é para manter no programa o obeso que não perdeu tanto peso quanto devia, é para o outro a quem o Paulo Futre não deu nota 10 e continua com a «banha», é para saber se o Sporting vai descer de divisão ou o Benfica ser campeão, etc., etc. Ora, é tal a profusão de números e de propostas para exercer o voto que esta prática deve adivinhar-se muito rentável para os promotores.
Enquanto o Povo se distrai com estes programas de elevado valor cultural e de extrema importância para a resolução dos problemas do País, a crise segue de degrau em degrau, fazendo-nos a cada passo descer um pouco mais baixo na qualidade de vida e na esperança num futuro melhor. É certo que vem a senhora Merkel e os amigos da Troika elogiar os nossos avanços nas reformas e na consolidação orçamental, mas, que raios, andamos tão distraídos a ver as telenovelas e a ligar para os números de valor acrescentado que nem temos noção do quanto estão a fazer bem pelo nosso futuro coletivo. Para aqueles que, de um dos lados da barricada, criticam/criticavam «os amanhãs que cantam», não vemos onde está a diferença de todas estas «balelas», daquilo que poderíamos chamar «fait-divers» não fora as consequências trágicas que se observam na sociedade portuguesa: cada vez mais pobres, crianças com fome, idosos sem dinheiro para medicamentos, pessoas sem emprego e sem prestações sociais, estudantes a abandonar o ensino superior porque os pais não têm meios para assumir as despesas inerentes à sua frequência, etc., etc.
Como aquilo que se houve falar é de cada vez mais impostos sobre os que menos têm, sem se vislumbrar um efetivo corte nas gorduras e mordomias do Estado, com o Povo a ser cada vez mais esmifrado, ao ponto de lhe pedirem para baixar as calças e apertar o cinto ao mesmo tempo, talvez não seja má ideia, uma vez que a prática parece surtir efeito, criar uns números de valor acrescentado para que o Povo possa opinar. Assim, andava toda a gente contente e talvez se resolvesse o problema do défice. Quer que s(c)aia o Governo? Ligue o número tal. Quer que o Governo permaneça? Ligue o número tal. Certamente iria ser um entupimento de chamadas e alguns, os que vêm vivendo, há décadas, alambazando-se com os dinheiros públicos, devolvessem «algum» em chamadas para manter o «tacho». Esta metodologia poderia seguir-se para uma série de situações que inquietam os portugueses.
Pensem nisso!
«Raia e Coriscos», opinião de António Pissarra