Soube da ausência (não da morte porque os poetas não morrem) de Manuel António Pina, na tarde de dezanove de Outubro. Foi um dia de Outono triste e cinzento. O céu chorava pequenas lágrimas de chuva nos breves instantes em que o dia se abraçava à noite.

Fernando Capelo - «Terras do Jarmelo»Fiquei incrédulo com a notícia perante a ameaça de uma ausência que me fez fixar a imagem do poeta antes de buscar, no meu íntimo, o esforço suficiente para me convencer. Levantei, depois, o olhar ao céu, um céu frio e angustiado retalhado de nuvens de algodão sujo que, com a chegada da noite, se fazia mais escuro. Dir-se-ia que o luto se queria impor embrulhado na cor da noite. Vi, então, uma imensidão de sombras. Juraria que muitas delas eram sombras de livros que se espalhavam dispersos, desordenados entre as nuvens, como se tivessem caído de uma gigantesca estante. A poesia andava à solta no céu cinzento e o poeta teria partido em busca dela.
Não sei da razão pela qual preferi afastar-me desse momento para só agora tecer este comentário.
Não tive a sorte de conhecer pessoalmente Manuel António Pina embora a sua condição de sabugalense e de beirão/raiano provoque em mim sentimentos amalgamados e misticismos que se situam algures, lá entre o orgulho e o regozijo.
Leio e releio, com a frequência possível, Manuel António Pina. Li-o algumas vezes sofregamente. E sei, sim, que foi dramaturgo, cronista, jornalista e muito mais mas permitam-me que, para mim, ele seja sobretudo poeta, um poeta que desenhou casas com poesia e que me explicou que um livro nos fala com a nossa voz.
Nunca privei com ele, portanto, mas parece-me, neste momento em que escrevo, que o conheci muito bem. Sinto-me como se tivesse por ele (e tenho) uma imensa amizade.
Claro que não sei nem nunca soube explicar a amizade. Não a explico mas entendo-a e sei, absolutamente, o que ela é e quando existe.
O que seria do nosso mundo, tão adensado de estorvos, se não existisse a amizade e se o coração pudesse ser, tão só, um logro? O que seria de nós se a beleza pudesse ser, apenas, ilusão? Ora, a poesia de Manuel António Pina era, é e será eternamente bela. Eis, portanto, a razão pela qual o poeta não morreu nem morrerá. Apenas se ausentou.
Poderemos sempre sentir nos dedos o prazer de tatear as páginas dos seus livros. Poderemos sempre consultá-los antes e quando pretendermos interpretar mistérios. A sua poesia continuará a iluminar as nossas vidas. As suas palavras serão sempre armas com as quais lutaremos contra os escuros das nossas existências e serão, também, a promessa de um final valido nos nossos percursos.
Após a sua ausência, ainda que a noite caia, ainda que o escuro nos envolva e mesmo que o desânimo nos aflore significativamente a poesia de António Pina sempre nos alentará porque ela é e será inseparável das nossas vidas.
Escureceu, então, nesse final de tarde chorosa e outonal mas, apesar de indesejável, a notícia não foi definitiva. Nunca diremos adeus a Manuel António Pina. Será sempre um até à próxima leitura.
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

Anúncios