Todos adoramos a nossa terra. Para cada um, a sua é a melhor, a mais bonita. Mas o Casteleiro é mesmo terra de encanto. «Em toda a Beira não há igual / É a mais bela de Portugal, / Mais pitoresca de todo o mundo.».

Hoje trago-lhe três momentos da vivência da minha aldeia em tempos idos. Por aí se vê quão bela e diversificada era a vida na minha terra há umas décadas. Num dos temas, o Casteleiro aparece mesmo como «terra de encanto». Leia: vai gostar – e depois tenha a disponibilidade de contar também coisas da sua terra, de antanho.
Estas referências às festas e à sabedoria popular em matéria também de medicina, as restantes histórias de hoje já foram por mim abordadas noutros portais digitais. Designadamente, no ‘Viver Casteleiro’.
Talvez conte as coisas de outro modo, mas respeitando sempre a veracidade do acontecido.

1 – O mesmo número
Há dias, em roda de amigos, contei esta cena como conto muitas vezes, porque na altura me impressionou bastante. Por mais que o diga, não me canso de repetir: esta história é para mim marcante, lembro-me dela constantemente e, mesmo que quisesse, nunca conseguiria esquecê-la. Nem a história nem o seu protagonista. Estávamos em Setembro de 1968. Como já se tornara habitual, o Dr. Rosa (‘Toninho Rosa’, era como lhe chamávamos ao falar dele) dispunha-se sempre, a seguir ao jantar, a dar o seu passeio acompanhado por alguns rapazes até lá acima à escola nova (feminina). Nessas caminhadas, era um vê se te avias de perguntas ao professor de História que ele era – não sobre História, mas sobre a vida real, o que se passava aqui e na França etc.. Éramos três ou quatro amigos à beira das faculdades e alguns até já no ensino superior. Ele adorava brilhar. E tinha tiradas do arco-da-velha. Maneiras simples e sofisticadas de comunicar connosco.
Pois bem.
Nesse Setembro, como se sabe, Salazar cai da cadeira e é substituído por Marcelo Caetano.
Claro que nessa noite isso foi logo tema.
Lembro-me como se fosse há bocado.
Eu ia daí a uns dias para Direito, para a Faculdade onde Marcelo era Director e catedrático ate aí.
Com a maior das naturalidades, perguntei-lhe:
– Ó Dr. Rosa, como é que vai ser o Marcelo no Governo? Vai ser muito diferente do Salazar?
Resposta pronta dele:
– Olha: calçam o mesmo número. É só outra fôrma…
Saiu tão certo, que esta sentença me ficou para sempre.
(Na palavra «forma» não devia pôr o acento circunflexo, porque de facto a palavra não o leva: mas quis pôr, para o leitor ler correctamente).

2 – Medicina popular
Há quem diga que nos encharcamos de químicos por tudo e por nada. Talvez. Exagerar é perigoso em todos os domínios. E neste caso dos medicamentos por tudo e por nada quando se tem uma constipaçãozeca (em teoria, esta palavra não devia levar o til, mas não consigo. Desculpem).
Ora bem: dantes não só não havia tanto químico à disposição, como não havia dinheiro para comprar. Assim, o Povo teve de se socorrer ao longo dos séculos de ervas e produtos da terra para minorar os efeitos das doenças.
Na minha terra, havia muitas soluções para isso.
Vamos então a duas ou três mezinhas simples que eram muito usadas no Casteleiro e que me foram relatadas por quem as conhecia bem:

Infecções graves por golpes profundos
Lavagem com borato (de sódio) – um pó branco como o bicarbonato, diz a minha fonte – e depois punha-se mel como se fosse uma pomada.

Dores de intestinos e dores menstruais
Chá de malvas e bredos mercuriais (parece erva cidreira e dá-se nas paredes. Tinha muitíssima fama há 50 anos).

Constipações e dores de garganta
Chá de sabugueiro misturado com leite. Era difícil de tomar. Tinha um sabor esquisito, diz a minha mãe.
Ou então: aguardente queimada, mel e chá de alecrim.

A propósito de ervas e poções: um dia escrevi que há ervas que não servem para nada: «Não têm utilidade: nem os cocilhos, nem as urtigas, nem as azedas». Pois bem, parece que em parte me enganei. Num «site» dedicado a estas coisas, encontrei uma pequena nota: «Da Ortiga faz-se o chorume que é uma maceração das plantas num recipiente com água e pode servir para adubar e prevenir doenças produto biológico por excelência. Se colocarmos Ortigas cortadas na cova onde se plantará a seguir os pés de tomates, serve de adubo e protege das doenças».
Mas o que é facto é que não conheço essa utilidade (nunca me foi relatada).

3 – Inauguração da luz eléctrica
Agora que a Junta, Câmara e EDP andam a melhorar a iluminação eléctrica das ruas principais da aldeia, vem bem a propósito recordar este episódio.
Vou lembrar o dia da inauguração da luz eléctrica.
Era assim mesmo que se dizia: a luz eléctrica. Foi em 1956. Meteu Governador Civil e tudo. Coisa séria. Coisa importante. Então era preciso receber a autoridade com pompa e circunstância. Aquilo foi uma farra, uma grande festa popular. Muita alegria, a electricidade era sem sombra de dúvida uma grande aquisição, mesmo com meia dúzia de lâmpadas na rua e de fraquíssima potência – muito sumidinhas, pareciam velas. Arranjou-se um grupo coral de jovens (rapazes e raparigas – coisa nem sempre aprovada, esta de misturar os sexos). Uma das responsáveis, Céu Mourinha, fez a letra e deve ter adaptado uma melodia, que ficou uma tal delícia que ainda hoje nos diverte quando a entoamos…
A letra era assim e foi depois usada noutras ocasiões:
Ó Casteleiro, terra de encanto,
Terra tão linda não há, não há.
É por ser bela que a amo tanto.
Nem que me paguem não vou de cá.

Quanto te deixo, ai que saudade…
Sinto os meus olhos brilhar de pranto,
Mas ao voltar que felicidade:
Sinto-me presa ao teu encanto

Em toda a Beira não há igual
Por isso a amo com amor profundo.
É a mais bela de Portugal,
Mais pitoresca de todo o mundo.

Nota sobre as imagens
Escolhi apenas imagens em que se vêem postes eléctricos por me parecer o tema mais importante.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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