O milénio pasado foi o tempo das nações-estado que, de resto, já se haviam começado a desenhar na segunda metade do antecedente por reflexo da grande crise provocada pela queda de Roma e consequente desagregação do seu império.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaO reino dos francos, antecâmara da actual França, foi o primeiro.
Naquilo que nós, hoje, chamamos de Europa Central e Europa de Leste, fervilharam então os gérmenes que cissiparizando-se, deram as centenas de principados, ducados e guelfas que, pelo fenómeno oposto viriam a dar os grandes impérios… O de Otão, antecessor do Sacro e do bismárquico, dos margraves de Viena de Austria, consubstanciado nos Habbsburgos, do de Pedro, o Grande, fundador de São Petersburgo, centralizador dos canatos que o seu ceptro unificou, o dos turcos-otomanos que as quezílias de Bizâncio deixaram passar aquém Danúbio.
Aqui, na Península Ibérica iam sucedendo os godos, visigodos, ostrogodos, suevos, alanos e vandaluzes, precursores das monarquias neogóticas que, por seu turno, vieram a gerar a Espanha dos condados, mãe de reinos.
E assim surgiu o reino de Portugal o país mais antigo e estável em fronteiras de todo o velho Continente.
O resto da península foi até mil e quinhentos um mosaico de reinos, dificilmente unificado por Fernando e Isabel, soberanos cada um seu trono, contendor um do outro até á cruzada contra Boadbil que expulsaram de Granada.
A França é de registo mais antigo. Mas não tem conseguido manter a integridade territorial, baldeada segundo os sucessos e insucessos das guerras com a Alemanha.
E ainda de mil novecentos e quarenta a mil novecentos e quarenta e cinco esteve partida em duas, só a de Vichi, gozando de independência aliás relativa.
Terrivelmente oscilantes em todas as direcções tem sido as fronteiras da Alemanha, dividida até ao tutano em duas durante metade do século passado.
A Itália foi durante milénio e meio uma autêntica manta de retalhos… com os reinos do Piemonte, de Nápoles e as Duas Sicilias, os ducados de Parma e de Veneza, as repúblicas de Piza e de Florença…
E das partilhas, levantamentos, cissiparizaçoes e fenónemos inversos é testemumho o que foram as partes europeias, primeiro, do Império Bizantino, depois, do otomano.
O segundo milénio foi o da dança das nacionalidades, agredindo-se reciprocamente.
O Milanado oscilava servindo alternadamente duas cortes em guerra endémica, a Casa de Áustria e a Monarquia Francesa. De tal modo que os seus militares tinham uma farda de dupla cor. Bastava virar a casaca
O Imperio Russo, czariano primeiro, comunista depois, entra em maré cheia ou vazia, ao sabor de preiamares e baixamares.
Unificado sob mão ferrea, cissipariza-se quando o centralismo abranda e no momento presente são às dezenas as repúblicas minúsculas que apareceram no xadrez.
Até a Geórgia, pátria de Estaline, entra na contradança em que também figuram os pequenos estados bálticos – Estónia, Letónia e Lituânia.
Ainda no Báltico, a Suécia, ora assume dignidade imperial, ora se reduz a uma pequena coroa.
De modo que a Europa das Pátrias e Nações e das regiões mais ou menos autónomas, no nosso milénio tem de ser a Europa das Pequenas Comunidades.
E nesta cabem as Terras do Charro…
«O concelho», história e etnografia das terras sabugalenses, por Manuel Leal Freire

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