No passado fim de semana, realizaram-se as Jornadas Parlamentares conjuntas do PSD e do CDS-PP. Sendo um acto normal da nossa democracia, as televisões mostraram umas jornadas em que os ministros foram desfilar e onde cada ministro desfiou a sua actividade enquanto ministro.

A minha análise destas jornadas e de todas é que, em vez de se ouvir e de se discutir a actividade parlamentar, acertar estratégias e modos de intervenção política comum, elas serviram para que os ministros se mostrassem e justificassem a sua actividade. Falo destas jornadas, sabendo que as outras são a mesma coisa. É uma espécie de folclore da nossa política. Contudo estas, as da maioria, acontecem depois de mais uma desavença no governo e na maioria. Depois de ser criada uma comissão (especialidade cá do burgo) para acompanhar a coligação. Desta feita, foi uma espécie de declaração de amor, tipo as bodas de prata, ouro ou diamante de um casamento. As jornadas parlamentares desta maioria não discutiu o Orçamento de Estado que ia ser apresentado dois depois, nem acrescentou nada à política desastrada deste governo. Foram um desperdício de tempo e de dinheiro. Dinheiro este que vem do estado e, portanto, de todos nós. Era fundamental que, na actual crise que se vive, houvesse a coragem e o bom senso de terminar com o financiamento dos partidos através de dinheiros públicos. Um partido é uma instituição privada, não deve receber dinheiros públicos. Seria uma medida em que, para além de cortar despesa, era, também, uma medida higiénica politicamente. Dir-me-ão que a democracia vive dos partidos. Sem dúvida. Mas a democracia exige que os participantes nela não sejam os seus «chulos». Assim, quer os partidos, quer as pessoas, devem entender que a participação política e pública é uma actividade que se reveste de dever, direito, e da liberdade de escolha, no sentido de ser uma opção de cada um. Acontece que os partidos e as pessoas que se envolvem na política fazem-no para proveito próprio, desvirtuando a res publicae. Desta forma se vendem os princípios, a ideologia, a moral, a personalidade. Transformando a democracia numa amálgama de interesses obscuros e perniciosos. Contribuindo para a descrença na política e, principalmente, nos políticos.
O debate do Orçamento de Estado é a prova da opaca nuvem que move o parlamento. Por um lado, a ingenuidade do governo ou a sua manifesta má fé, na apresentação do seu modelo económico. Apresentando uma lei de orçamento e, ao mesmo tempo, apresentando desde já um plano B. Declarando, logo ali, que o orçamento que apresenta não vai ser cumprido. Por outro, a discussão do orçamento foi passada no enredo da “refundação”. Conceito que o sr. Primeiro Ministro trouxe para a ribalta nas jornadas parlamentares. A refundação do memorando, não é revê-lo, é refundar. Na refundação do estado. Não é acabar comas funções do estado, não é acabar com as suas funções, é… As reticências são propositadas. Não sei o que é refundar o estado. O sr. Primeiro Ministro não explicou. É acabar com as funções sociais? Reduzi-lo à mera recolha de impostos? As perguntas são mais que muitas. As respostas foram e são nulas. Aliás, uma verdadeira especialidade deste governo! E o debate lá foi prosseguindo, até terminar com uma intervenção final do sr. Ministro dos Negócios Estrangeiros. E esta intervenção, em vez de falar do orçamento, das suas virtudes (o que se esperava de um ministro e do líder de um dos partidos da coligação governamental), não, vem falar da Europa! Como que querendo fazer de conta que não se estava a discutir um orçamento que assalta quem trabalha, que estrangula a economia, que propõe a miséria a milhares de pessoas, que ostraciza a sua população, deteriora os cuidados de saúde e de educação… mas que mantém os privilégios de classe aos magistrados, não corta nas mordomias dos estado, melhor, de quem o representa, não arrepia caminho quanto às privatizações ao desbarato e com muitas dúvidas nos processos negociais (vejam o caso BIC, foi vendido com desconto de 60% aos angolanos e ao seu testa de ferro, Mira Amaral), privilegiando amigos, não reduz e não corta no que é acessório (é possível a Assembleia da República ter um orçamento de 100 milhões de euros?!) e não cumprindo com o que efectivamente a troika dizia. Sabemos que este governo foi sempre muito mais longe do que aquilo que era exigido pelo memorando. O mesmo que tem sido usado pelo governo como pedra de arremesso. O problema tem sido a incompetência do governo. Alguém acredita nas contas do governo? Não. Depois de um ano em que todas, repito, todas, as contas do governo saíram erradas, ninguém acredita. Nem eles! E por isso o plano B. E o que é o Plano B? è um plano que tem como único objectivo um assalto anunciado aos bolsos dos funcionários públicos e aos trabalhadores. Aliás, e, também, a única actividade desenvolvida por este governo e, pelos vistos, a única ideia saída da brilhantíssima cabeça do génio Gaspar! Contudo, parece-me que este país, infelizmente, é meramente um plano B. Até no slogan mais ouvido pelas ruas é o B de «Basta».
«A Quinta Quina», crónica de Fernando Lopes

fernandolopus@gmail.com

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