Fez há pouco 38 anos. Era o dia 2 de Outubro de 1974. O «meu» avião veio de Luanda e aterrou em Lisboa. Era um dos dois Boeings 744 da tropa. Tinha acabado o pesadelo. O maior pesadelo de sempre. Do Casteleiro a Buco Zau. Nada de muitos pormenores: só um cheirinho. Esta é uma parte não despicienda do património psicológico de cada uma das nossas aldeias.

Por uma vez, e sem exemplo, por causa da efeméride do meu regresso da guerra, hoje saio da rotina desta rubrica e falo «de mim», mas sobretudo de nós, os que por lá passámos. Claro que o meu caso é igual a muitos. Mas é do meu que sei falar. Das marcas, dos traumas, das dores de espírito eternas e fundas. Tão fundas que ainda duram e durarão em mim e em todos nós.
Eu, como tantos jovens da minha terra, tínhamos ido à guerra colonial.
No meu caso, o destino foi uma vilória no meio da floresta virgem do Maiombe, em Cabinda, a 14 km do Congo Brazzaville e a 21 do Congo Kinshasa.
Não vou contar desgraças da guerra. Isso, já está tudo espremido. Foram dias do diabo. 27 meses. Sempre a pensar que podia ser o último segundo. G3, granadas, bazookas, HK 21, lança-granadas-foguete… de tudo. E sempre tudo a rebentar, a disparar, a lembrar que não era treino mas coisa séria. Tudo marcadinho na memória até agora.
Mas não é por aí que quero ir, hoje.
Vou fixar o leitor e prendê-lo a dois ou três pormenores – menores, uma ova, são mas é «pormaiores», melhor: «pormáximos»: também cá estão até hoje.

Esta palavra Mendes
Há coisas que fora daquele contexto não têm qualquer importância. Mas ali tudo ganhou de repente tanto peso psicológico…
Por exemplo – e só para começar este desvio inabitual em quem fala da sua guerra, dos seus traumas de guerra –, a questão de como me chamo e de como me chamam.
O meu nome de baptismo é assim: josé carlos mendes. Pus em minúsculas de propósito, para dizer que aqui se trata apenas de palavras, cada uma por si, sem reportarem à pessoa.
Antes da tropa, em todo o lado, o meu nome era apenas duas palavras. E assim voltou a ser depois daqueles malditos 37 meses. Zé Carlos.
Mas na tropa o meu nome não era esse, não, senhores: era Mendes.
Mendes.
Que estranho.
Aquilo na tropa não é (pelo menos não era) a brincar. Sim, para todos menos para mim, eu era agora Mendes.
Eu ouvia:
– … Mendes.
Ouvia «Mendes», mas não reagia logo.
Só depois é que o meu cérebro traduzia:
– Eh, pá, agora Mendes é igual a Zé Carlos.
E era então que respondia.
Ora aqueles décimos de segundo de atraso na resposta do cérebro foram tão importantes que me marcaram para o resto da vida: é uma situação que me incomodou sempre. Quando me lembro, essa memória ainda me arrasta outra vez para os cenários da tropa.
Muitos e cada um mais complexo que o outro.
Primeiro em Mafra em Julho de 1971, depois em Lamego, na Amadora (á espera de embarque), viagem para Luanda em 2 de Agosto de 1972 (nove horas de avião com o batalhão todo), por fim em Cabinda, junto do Rio Luáli (o que significa rio do ouro – e onde de facto havia, diziam, pepitas de ouro, e onde, sintomaticamente, fui encontrar um fazendeiro de Penamacor, Viriato de seu nome).
Claro que a questão do nome pelo qual me chamavam, visto no conjunto, não tem qualquer gravidade, se comparada com as emboscadas, os tiros, o fogo de reconhecimento, a defesa imediata ou a Curva da Morte, a caminho de Sangamongo e do Chimbete.
… Poupo os leitores a esses momentos horríveis…
Mas chamarem-me Mendes foi tão diferente que acabou por me marcar de forma surpreendente. Estranhamente, isso acabou por ganhar força dentro de mim.

Anotações finais
O Casteleiro e as nossas aldeias estão seguramente cheias de pessoas com memórias destas. Mas poucos falam delas. E menos ainda têm um local onde exprimir essas «mágoas» da vida real. Nesse aspecto, esta é uma história do Casteleiro mas é mais do que isso: é uma história do País todo.
Vejam como simplesmente o nosso nome, uma coisa que ao leitor parece tão simples, no meio das conhecidas misérias daquela desgraçada guerra, acabou por me marcar para sempre. Claro que tudo ali ganhava uma dimensão enorme porque corríamos perigo de vida e isso é que marcava cada segundo.
E, milagre dos milagres, passados estes anos todos, tudo está tão nítido cá dentro. Tudo, em cada pormenor.

… Desculpem ter trazido isto para aqui, mas não pude evitar, por uma vez. É que tudo aquilo ainda dói muito. Basta-me ouvir aqui passar um Puma (é um heli pesado da tropa) e volta tudo ao de cima. E passam aqui tanta vez…
Estive 20 anos sem falar do assunto, tal era o trauma. Um dia, a pedido, escrevi umas crónicas no «Notícias da Amadora». Depois, de forma esparsa, contei coisas destas há uns tempos aqui, aqui, aqui e aqui.
Se tiver algum interesse, dê um olhinho.
E nunca esqueça o mais importante: o meu caso é apenas um em muuuuuitos milhares.

Nota
O ‘Capeia’ tem muitas visitas
– Quero deixar aqui um registo sobre as estatísticas deste blogue, porque vale a pena chamar a atenção do leitor. Trata-se das estatísticas principais de leitura e de popularidade. Registei-as no dia 25 de Outubro, às 10.30 h, e são as seguintes: 1- ESTATÍSTICAS: Visitas únicas – 1 885 159; Páginas lidas – 2 797 800. 2 – VISITANTES: On-line – 12 (em simultâneo naquele momento). 3 – ENTRADAS MAIS POPULARES: 1 – A casa onde nasceu Manuel António Pina; 2 – Praça Manuel António Pina; 3 – Casteleiro: o cultivo do linho; 4 – Sabugal tem fábrica de caldeiras a biomassa; 5 – Palace Hotel de Penamacor já está a funcionar.

«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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