Pode dizer-se que o toureiro vai à praça para ganhar dinheiro, posição social, glória, aplausos, mas não é verdade.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaO toureiro vai á praça para se encontrar com o touro, ao qual tem muito que dizer e a que, a um mesmo tempo, teme e adora.
É certo que os aplausos do público o incitam, lisonjeiam e animam. Mas ele está embevecido no seu rito e vê e ouve o público como se estivesse noutro mundo.
E, efectivamente, está. Está num mundo de criação e de abstracção.
Como os expectadores, cada um dos quais imaginariamente toureia o touro, com um capote imaginário e de modo diferente do que está vendo.
Assim o toureiro transforma-se num mito diferente para cada um dos expectadores e o touro passa a ser a única realidade e o primeiro actor.
É que todos sentem intimamente o desejo de tourear, sem pensar que o toureio é uma arte dificílima, que reclama génio individual, impõe escolas e tem modas.
Mas esta vontade lateja imanente em todos os espanhóis. Por isso, todos se sentem actores, actuando na praça com o toureiro.
Achando natural e não incrivel uma verónica de Belmonte ou um farol do inimitável Rafael, El Gallo.
E este desejo profundo de enfrentar o touro baila profundamente no ânimo de qualquer jovem espanhol.
São, aliás em número incontável os que se arrojam à praça, saltando dos tendidos,
con un trapito rojo y una caña en vez de espada, como verdaderos ecce homos de la fiesta… o se desnudan para pasar el rio y torear desnudos á la luz de la luna.
La Fortis Salamantina, torre que se reflecte no espelho do Tormes e a Giralda de Sevilha, alcandorada sobre o Guadalquivir são os dois minaretes simbólicos sob os quais se vive a aficion.
Claro que tudo vem do Sul.
O passodoble ressuma a sangue andaluz e toda a escola e ciência do toureio brotam da Serra Nevada para baixo. Mas, hoje, o Campo Charro tem bravas ganaderias que brilham nos redondéis de todo o mundo.
E assim o mérito divide-se entre os sinos da torre salamantina, carregada da universitária cultura renascentista e as badaladas da Giralda ressonantes ao mais belo arabismo em que há todo um rosário de ressonâncias e um gigantesco touro negro decantado já pelos poetas e que excita todos os ânimos.
«O concelho», história e etnografia das terras sabugalenses, por Manuel Leal Freire

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