Em homenagem ao escritor sabugalense Manuel António Pina, falecido esta sexta-feira, 19 de Outubro, transcrevemos, com a devida vénia, um excerto da entrevista que em 2009 Pedro Dias de Almeida, editor de cultura da revista Visão fez ao escritor sabugalense, dias antes do mesmo se deslocar ao Sabugal, onde foi homenageado pela Junta de Freguesia, descerrando uma placa na casa onde nasceu. A entrevista seria depois publicada na revista cultural Praça Velha, editada pela Câmara Municipal da Guarda.

«- Há vários temas recorrentes no teu discurso poético. Um deles é a infância. E, às vezes, associada à infância aquela ideia do regresso…
– A casa. É engraçado, e agora vou lá ao Sabugal, à primeira casa de todas…
E perguntava-te se quando falas nisso há uma casa concreta na tua cabeça, uma casa a que sempre voltas…
– Lá do Sabugal pediram-me um verso para pôr lá na placa, na casa. Encontrei vários versos que falam nisso mas nenhum que servisse para pôr lá, eram todos muito grandes. Em alternativa propus-me ler alguns poemas que falam da casa, do regresso a casa. Mas… Não há nenhuma casa concreta, de facto. A casa é a origem, é a morte. Tenho um livrinho pequenino que se chama Um Sítio Onde Pousar a Cabeça, e a casa é também isso, o sítio onde pousar a cabeça. Isso em termos mais gerais. Agora, em termos mais particulares: eu tive uma vida… saí de lá do Sabugal, descobriram agora, com seis anos… eu não me lembro. O meu pai tinha uma profissão – era chefe de finanças, que acumulava com juíz das execuções fiscais – que estava abrangida pela lei do sexanato, só podia estar seis anos em cada terra. A ideia era mesmo não deixar criar raízes, amigos, influências, essas coisas. Como na altura não havia escolas e liceus em todo o lado, o meu pai começava a pensar mudar logo ao fim de três ou quatro anos para sítios onde houvesse ensino para mim e para o meu irmão… No sítio onde gostou mais de estar, que foi na Sertã, a situação arrastou-se, arrastou-se, e ao fim de seis anos foi mandado para os Açores, para Santa Cruz da Graciosa, mas como eu sofria dos pulmões conseguiu mudar… Para mim, tudo isto teve uma consequência: era uma situação quase de Sísifo, estava sempre a fazer amigos e a desfazê-los, e a fazê-los de novo com a consciência que eram para ser desfeitos, a estabelecer relações sabendo que iam acabar ao fim de três ou quatro anos. Os amigos mais antigos que eu tenho são aqui do Porto, de quando cheguei, aos 17 anos. E aqui, como havia vários bairros fiscais, o meu pai ia mudando de bairro.
Mas quando falas de casa nos teus poemas da infância, nunca é essa casa do Sabugal? Não tens nenhuma recordação dela?
– Tenho… Mas agora confundo porque já lá voltei uma vez. A senhora que comprou a casa dos meus pais convidou-me uma vez a entrar. Tinha umas memórias assim muito obscuras. Ainda tenho uma espécie de melancolia por andar sempre assim a mudar de casa… Mas tenho memórias, claro. Lembro-me de alguns nomes de miúdos, mas não tenho amigos da escola primária. Fiz a primeira classe em Castelo Branco, a 2ª, 3ª e 4ª na Sertã, o 1 º ano de Liceu em Cernache do Bom Jardim, depois Santarém, o 3º outra vez em Cernache, o 4º em Oliveira do Bairro, o 5º e 6º em Aveiro, e o 7º é que já fiz aqui no Porto. Eu detesto viajar. Uma vez estava em Bordéus, fizeram-me uma entrevista e a jornalista disse-me “se calhar não gosta de viajar por ter andado tanto de terra em terra”, e eu tomei consciência disso, que se calhar é verdade… O melhor das viagens, para mim, é o regresso. Quando chego ao Porto, quando sei que atravessei a fronteira… Digo num poema meu: “O ideal é não nos afastarmos da casa mais do que nos permite metade das nossas forças”, que é para regressarmos. E falo também de “ver sempre ao longe a cor do nosso telhado”. O meu percurso biográfico sublinhou essa melancolia em relação às origens, à casa… Esta homenagem no Sabugal até me permite o reencontro com uma casa concreta, com raízes concretas… Na verdade, nunca tive raízes em parte nenhuma.
Mas nasceste ali, naquela casa.
– Nasci ali, sim, naquela casa. E a minha memória mais antiga que tenho é do Sabugal. Tenho duas memórias muito antigas. Uma é muito vaga… Estas memórias não sabemos se fomos nós que as construímos, ou… Como aquela frase do William James: “A memória é uma narrativa que nós vamos construir com aquilo que desejamos e com aquilo que tememos”…
E tu escreveste: “Por onde vens passado, pelo vivido ou pelo sonhado?”…
– Pois é. Anda tudo muito misturado. Não sei se foi a minha mãe que me contou… Como diz também o William James, nós não nos lembramos do passado, lembramo-nos da última vez que nos lembrámos. E quem se lembra de um conto, aumenta um ponto, ou diminui um ponto. Vamos construindo sempre uma narrativa… Mas esta eu sei que me lembro mesmo. A memória mais antiga que eu tenho é numa fonte de mergulho, eu devia ter uns três ou quatro anos – e ainda lá está essa fonte, eu já contei isto à senhora que está agora lá na casa, a Natália Bispo. Para mim essa fonte era muito grande, mas agora já verifiquei que é pequenina. Numa fonte de mergunho a água não corre, as pessoas apanhavam a água mergulhando um balde. Nesta minha memória estou com um chapéu de palha e há um miúdo qualquer que pega no meu chapéu de palha, atira-o à água, e vai-se embora. E eu não fui apanhar o chapéu, por orgulho, porque achava que era uma injustiça, ele é que devia ir… Ele não foi, e eu também não fui. Cheguei a casa sem o chapéu de palha e, deve ter sido muito traumatizante para ainda me lembrar, cheio de medo de ser castigado… E estava lá a minha mãe, com a melhor amiga dela, a Ti Céu. Lembro-me da minha mãe me ralhar e me dizer para ir lá buscar o chapéu, e eu dizer ‘não vou, não vou, não vou’, e a minha Ti Céu (que não era mesmo minha tia) é que acabou por ir lá buscar o chapéu. E deu-mo, molhado e tudo. Estava cheio de medo, mas não fui castigado. E tenho uma memória mais antiga, de que julgo que me lembro vagamente: estou sentado numa daquelas cadeiras altas, preso, porque era uma daquelas cadeiras para dar comida às crianças, e a casa está a arder. Isso aconteceu de facto. Tenho uma memória disso, foi aflitivo, pelos vistos. Não me lembro da casa a arder, na minha memória é fumo. E eu, ou esse de quem eu me lembro, está muito aflito, porque está amarrado, não consegue sair da cadeira… A minha mãe estava a dar-me de comer e, ao mesmo tempo estava a aquecer água num daqueles fogareiros a petróleo para dar banho ao meu irmão, 15 meses mais novo do que eu. O meu irmão começou a tentar dar à bomba do tal fogareiro e a água a ferver caiu para cima dele. Ele gritou e a minha mãe foi a correr para a cozinha, pensou que ele ia ficar cego. Pegou nele e desceu as escadas a correr, não sei para onde, para o hospital, para um médico qualquer… O fogareiro caiu e incendiou a casa, a cozinha começou a arder. Estes pormenores contou-me a minha mãe, depois. Eu estava lá sozinho, preso, e foi uma vizinha que viu a minha mãe a sair aos gritos de casa, e viu depois o fumo, que foi lá buscar-me. Só me lembro da parte do fumo e de ficar sozinho e cheio de medo, com a minha mãe a sair de casa aos gritos… As memórias que tenho dessa casa são essas. Depois tenho umas memórias obscuras de escadas, talvez por isso é que falo tanto de escadas, de corredores…
Um portão velho…
– O portão velho de que falo mistura-se com outras casas, com a de Oliveira do Bairro, provavelmente… Havia o tal portão em ruínas, nas traseiras, por onde eu saía para ir apanhar o comboio para Aveiro, tinha uma ameixieira, e o tal portão velho de madeira… Mas misturam-se umas casas com as outras, a verdade é essa.
O teu lugar da infância são lugares, vários lugares, não o associas ao Sabugal…
– São lugares, sim. Essa coisa do regresso a casa é tão importante para mim, que um dos meus pesadelos infantis era eu ir para a escola – nessa casa da Sertã, em que eu tinha que atravessar a rua para ir para a escola – e a certa altura começava a passar um comboio na rua que não me deixava voltar para casa… Esse comboio era um comboio eterno, sempre a passar, a passar, a passar; eu estava do lado de cá e havia esse comboio entre mim e a casa… Por isto tudo é que a casa aparece muito nos meus poemas. Casa. Mãe. Muito associada à infância, sim…
Também falaste logo de morte, há pouco, a propósito da casa…
– Tem que ver, tem que ver… A morte também é uma mãe, é maternal, é um sossego. Sai-se do ventre da mãe e entra-se no ventre da terra, não é? Tem essa coisa de acolhimento, de serenidade, de tranquilidade. De regresso. É uma coisa engraçada: desde miúdo sempre tive uma noção circular de tudo. Concebia o mundo sempre numa estrutura circular. Havia uma frase engraçada que a minha mãe me dizia, e sei onde foi, foi em Castelo Branco, tinha eu 6 ou 7 anos, ou menos… Lembro-me de querer ir para a rua e a minha mãe não me deixar… [Pausa] Acho que eles estão enganados, eu devo ter saído do Sabugal com 4 anos, não foi com 6, porque ainda não dizia ‘érre’ dizia ‘éle’… Vivíamos nessa altura na casa do Bairro do Cansado e antes tinhamos vivido no bairro do quartel. Os meus pais viviam com bastantes dificuldades económicas, até arrendavam quartos, na primeira casa esteve lá um sargento, do quartel em frente. Tenho duas memórias dessa casa, também… E acho que é a primeira vez que estou a contar isso a alguém, normalmente ocorrem-me quando estou sozinho. Uma: um dia o sargento trouxe-me um pássaro que ele achou; eu andava excitadíssimo com o pássaro mas ele fugiu, deixei fugir o pássaro e fiz uma gritaria, queria o pássaro… Ali fiquei à janela com uma grande raiva ao pássaro por me ter abandonado. E lembro-me da frase do sargento: ‘Não te preocupes, logo te trago outro’ e de eu responder ‘não quero outro, quero aquele! Vamos lá buscá-lo de avião!’. Queria ir apanhá-lo de avião… Essa é uma. A outra memória tem a ver com a tal noção circular do universo. Lembro-me de a minha mãe não me deixar ir para a rua, para a ‘lua’, como eu dizia, e de eu dizer assim: “Ai, não deixas? Vais ver que quando tu fores filha e eu for mãe, também não te vou deixar!” A vida circular, lá está. Afinal ainda tenho outra memória, traumatizante… Os meus pais viviam com muitas dificuldades económicas, num andar, e um dia fui a casa da vizinha de cima e vi uma nota de 20 escudos, que em 1947 ou 1948 era muito dinheiro, em cima da mesinha de cabeceira. E roubei-os. Nunca falei disto, também…
Então é uma grande confissão, agora…
– Não faz mal, já prescreveu… [risos]. Roubei-os para os dar aos meus pais, porque estava sempre a vê-los a discutirem por causa das despesas, porque não havia dinheiro… Aquilo afligia-me muito. Peguei nos 20 escudos e levei-os à minha mãe. Ela perguntou-me onde é que eu os tinha arranjado, e eu lá acabei por contar… E ela então obrigou-me a ir pôr o dinheiro outra vez lá em cima. Eu, claro, não queria ir, com medo de ser apanhado, encontrar a vizinha. Castigaram-me, e eu já estava a chorar desesperado, quando a minha mãe me disse “vai lá descansado que eu tenho a certeza que ela não está, nunca saberá”. Lá fui pôr o dinheiro no sítio onde estava e voltei para casa a correr. Soube depois que ela disse à vizinha para sair dali, para se esconder, para ir lá eu e aprender a lição. São estas as minhas primeiras memórias. As coisas mais traumatizantes que tive…
(…)»

A Câmara Municipal da Guarda aprovou na reunião desta segunda-feira, dia 22 de Outubro, um voto de pesar pela morte do escritor sabugalense Manuel António Pina.
O texto aprovado considera o poeta «um dos nomes maiores da Poesia e da Cultura em Portugal» e «grande intérprete da realidade social e interventor crítico e lúcido».
«Manuel António Pina deixou-nos uma obra vasta, que se reveste de sensibilidade, emoção e ironia. Enquanto pessoa e enquanto beirão, mereceu-nos a maior admiração e deixa-nos um sentimento de perda e de enorme saudade», lê-se ainda na deliberação aprovada pela Câmara.
A Guarda homenageara Manuel António Pina no final de 2009, através de um ciclo de iniciativas a que deu o nome do escritor. ainda em sua homenagem criou, nesse ano de 2009, um prémio literário, que todos os anos galardoa um trabalho de poesia e de prosa, alternadamente.

plb

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