«Serve-te, Pátria minha, das minhas acções sem a minha presença. Eu, que fui para ti causa da Liberdade serei agora a prova que a tens. Vou-me porque já me distingui mais do que convém».

António EmídioNinguém fez caso nem se comoveu com estas palavras de Cipião o Africano, nem o Povo! Cipião o Africano foi um general e um estadista romano, mas o Senado com inveja dele e também desconfiado, devido às suas excepcionais virtudes, acusou-o de querer converter-se em ditador. Isto é uma prova, e já vem de há séculos, de que a honestidade de um governante causa inveja e desconfiança naqueles que a não têm. A história dá-nos conta do assassínio e do exílio de muitos governantes honestos, defensores dos seus povos e da sua liberdade, homens e mulheres de elevado nível humano, moral, cívico e cultural. Alguns vieram de classes sociais elevadas, outros vieram do povo, vieram de sindicatos e fábricas, por isso sempre os guiou a defesa dos direitos dos trabalhadores. Estes governantes eram aqueles em que o Povo acreditava, eram os melhores, lutavam e davam a vida pelos seus ideais. Nessa altura a política não estava aberta a qualquer cidadão, não que houvesse um entrave à sua entrada, mas a maioria dos cidadãos tinha a noção de que a política era uma missão nobre, reservada aos capacitados, eles, os cidadãos, tinham os seus empregos e deles viviam. Até que a democratização da sociedade abriu a política a um qualquer cidadão, isto só por si não é negativo, mas quais são os níveis humanos e éticos de uma sociedade orientada pela comunicação social, pelo consumismo e pelo lucro? Baixíssimos! Deu-se portanto uma democratização negativa, ou seja, uma democratização contra a própria Democracia, isto é uma das causas da política presentemente estar despojada da sua dimensão ética da sua missão e sentido originais, não passando de negócio, corrupção, privilégios e proveito material. Alguém já viu algum político destes numa cadeia? Onde estão aqueles que gastaram dinheiro mal gasto em coisas inúteis, e que agora culpam o Povo Português da crise? Algum já se demitiu? Nem os erros reconhecem! É ou não verdade que nós cidadãos temos a convicção de que os políticos que elegemos, os nossos legítimos representantes são incapazes de se enfrentar com os poderes não democráticos? Muitos de nós ao depositar o voto, pensamos que ganhe quem ganhar, governe quem governar, as decisões importantes para as nossas condições de vida são tomadas por instituições não democráticas, como os mercados financeiros, os directores das grandes empresas multinacionais e os tecnocratas/burocratas de Bruxelas e Berlim.
Tenho muito respeito e consideração pelos políticos íntegros, que os Há! Homens e mulheres que têm a coragem cívica de seguir o nobre caminho que elegeram, vivem no meio da indiferença e são motivo de escárnio. Jamais esquecerei um caso passado há muitos anos na Assembleia Municipal da então Vila do Sabugal, vi ridicularizar, ser motivo de chacota e de escárnio, um homem bom, um democrata e humanista, um íntegro. Quem os ridicularizou? Um «deputado» para quem a política sempre foi negócio, prebendas, privilégios e proveito material, um oportunista partidário.

O desprezo pela política é profundamente reaccionário. A solução para esta crise não está em renegar a política, mas encontrar homens e mulheres entregues à política que consigam mudar todo este cenário político actual, tendo como paradigma um grande respeito pela Democracia e pela ética. Há muitos!
«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

ant.emidio@gmail.com

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