No Sabugal, ao que consigo apurar, houve três jornais no início do século XX e foram os primeiros a existir na nossa zona. Um deles foi criado, dirigido e impulsionado por um abastado lavrador do Casteleiro e aqui sempre sediado e activo: o Dr. Guerra.

A peça que vai ler foi-me suscitada por um brilhante artigo, mesmo ao meu gosto, escrito há uns dias aqui no ‘Capeia’ por António Emídio – e que pode recordar aqui., e onde a dado passo se refere: «(…) já em 1926 os colaboradores do jornal «Gazeta do Sabugal», jornal do político integralista do Casteleiro, Joaquim Mendes Guerra, se queixavam do abandono do Concelho e davam a sua opinião para o melhorar».
Já em tempos me dispus a investigar um pouco sobre esse jornal de 1926, o «Gazeta do Sabugal».
Por questões de proximidade, foi agora a altura de poder trazer aos leitores alguns dados sobre os primórdios da imprensa no Concelho.
Os periódicos chegam aqui muito tarde. No século XVIII já havia jornais em Portugal.
Mas, no Sabugal, isso só vai acontecer no século XX e em câmara lenta e com pouco sucesso. Mas foi assim e vale a pena enaltecer essas iniciativas.

Primeiros passos da imprensa «bairrista»
Quais os primeiros jornais do Concelho e quando «viveram»? Foram poucos, tardios e de vida curta, ao que parece – o que não se pode estranhar. Afinal, o Sabugal fica cá nos confins de um país pouco dado ao desenvolvimento regional e que já desde os dias do ouro do Brasil vivia centrado na sua costa e nas zonas litorais em geral.
Não admira pois que as questões ligadas à comunicação, à divulgação, à informação e aos valores da cultura em geral tenham ficado para o mais tarde possível na nossa zona. É por isso também que os atrasos se repetem em várias áreas naqueles tempos e infelizmente também nestes agora.
Há dois anos, o Dr. Francisco Manso escreveu no ‘Cinco Quinas’ em artigo sobre «O Sabugal, a Republica e a Maçonaria» uma pequena mas importante referência aos três primeiros títulos existentes no Sabugal: «O primeiro jornal de que há notícia, “A Estrella do Côa”, foi publicado já nos alvores do séc. XX, e, mesmo assim, não há conhecimento de nenhum exemplar. Os jornais que se lhe seguiram, “O Sabugal” e a “Gazeta do Sabugal”, são já muito posteriores, pois foram publicados em 1925 e 1926, respectivamente».
Já este ano, o Dr. Júlio Marques, de Vilar Maior, escrevia algo parecido no seu blog ‘Vilar Maior’ acerca dos órgãos da imprensa regional do Sabugal: «O primeiro foi a ‘Estrella do Côa’, mais cometa do que estrela, porque de efémera existência, ou então a ser estrela seria cadente. Foi seu proprietário, director e editor Luis José Capello Barreiros, datando do ano de mil e novecentos. (…) em 1925, aparece o ‘Sabugal’, semanário regionalista, de propriedade, direcção e edição de um outro Capelo, José Capelo Martins.(…) Neste nosso mundo de efemérides, surgiu logo um outro semanário – bairrista e nacionalista – ao estilo tradicionalista. Foi a ‘Gazeta do Sabugal’ (…)».
Resta acrescentar que enquanto o ‘Sabugal’ era um jornal republicano, o ‘Gazeta do Sabugal’ era partidário do Integralismo Lusitano (ou seja, da monarquia tradicional), tal como o seu director, financiador e criador: o Dr. Joaquim Mendes Guerra, do Casteleiro.

1926/28: ‘Gazeta do Sabugal’
O ‘Gazeta do Sabugal’ foi um semanário regionalista, bairrista, de defesa dos interesses dos lavradores e da região. O jornal teve vida curta.
Nasceu em 1926, penso que em Abril. Note que o golpe de Estado militar de direita é de Maio desse ano. Saberá também que Salazar só vai chegar ao Governo, como titular da pasta das Finanças, em 1928 (já o ‘Gazeta’ tinha acabado, julgo).

53 números – Ao todo, foram publicados 53 números, ao que se sabe, entre Abril de 1926 e início de 1928 – ano em que são publicados apenas dois números.
Se era semanário, isso, 53 números, corresponde a pouco mais de um ano se saísse todas as semanas – mas espalhados então por quase três anos.
Três anos – Foi a seguinte a distribuição das edições, de acordo com a «hemeroteca» da Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço, da Guarda (com base nas «existências»): 1926 (nºs. 3, 5 a 32); 1927 (nºs. 33 a 47, 49, 50, 51); 1928 (nº. 52). Mas sabemos que há um número final, o 53. A informação é dada pela Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, que qualifica o jornal da seguinte forma: «semanário bairrista» e «órgão dos lavradores do concelho».
Colaboradores – E quem colaborou no ‘Gazeta do Sabugal’?
Segundo o atrás referido Júlio Marques, «A nata do escol concelhio, triplamente filtrada – porque regionalista, descentralizadora e nacionalista, segundo o credo do integralismo – acorreu a colaborar. Casos, entre outros, dos futuros presidentes de câmara, o advogado Carlos Frazão e o médico Francisco Manso, do etnógrafo Lopes Dias, do pedagogo Reis Chorão, do político Martins Engrácia».

Joaquim Mendes Guerra
Uma nota final sobre a participação política do Dr. Joaquim Mendes Guerra nos assuntos regionais dos anos 20.
São elementos recolhidos no próprio ‘Capeia’.
De facto, aprendi agora, há 32 anos, Pinharanda Gomes escreveu e a Casa do Sabugal publicou um opusculozinho intitulado «O Motim do Aguilhão no Sabugal».
Estas notas foram-nos proporcionadas numa curta recensão muito oportuna feita no ‘Capeia Arraiana’ há cinco anos por Paulo Leitão Baptista, que pode ler aqui.
O livro, diz PLB, «evoca aquele que porventura foi o mais relevante acto de revolta do povo do concelho raiano face às injustiças de que era alvo por parte do governo». Foi o caso que, a 10 de Fevereiro de 1926, «cerca de mil e 500 manifestantes invadiram a Praça da República, onde se situa a Câmara Municipal do Sabugal, gritando palavras de ordem contra os impostos recentemente lançados, contra a licença dos cães e contra a licença para se ter vara com aguilhão». Houve carga séria da GNR.
Segundo PLB, Pinharanda Gomes, no livrinho, «analisa com profundidade as razões dos protestos. Mostra que pessoas gradas estiveram do lado do povo, como o deputado Joaquim Dinis da Fonseca e o lavrador abastado Joaquim Mendes Guerra», do Casteleiro e dono e director do tal jornal, o «Gazeta do Sabugal».
O atrás citado «motim do aguilhão», é preciso dizê-lo, foi também designado como «revolução dos nabos». Essa nota é-nos trazida num livro de 2009, da autoria de Regina Gouveia, publicado pela Universidade da Beira Interior. Trata-se do título «A Interacção entre o Universo Político e o campo da Comunicação / A imprensa e as elites beirãs (1900-1930)». Aí, nas últimas páginas, Regina Louro divulga uma interessante cronologia sintética onde, designadamente, podemos ler: «1926, Fevereiro, 10 – ocorre no Sabugal a «revolução dos nabos», ou motim do aguilhão, contra os impostos».

Nota para os meus conterrâneos – Este director do jornal, o Dr. Guerra, era o marido da D. Maria do Céu (Mendes Guerra), dona da Quinta das Mimosas.

Post Scriptum
I. ‘Gazeta do Sabugal’, como muitos saberão, é também o nome de um blogue «actual», embora não actualizado desde há ano e meio. Foi criado em Novembro de 2010 e viveu meio ano. Será sina das gazetas do Sabugal, esta de terem curta vida? II. Sobre as imagens desta peça: para além da imagem do ‘Gazeta’, procurei outras. Assim: 1 – Houve em Portugal muitos jornais chamados ‘Gazeta’. O mais antigo deles, talvez inspirador de muitos, foi a ‘Gazeta de Lisboa’, de 1715 (numa das imagens). Repare: 1715. Mais de dois séculos antes do ‘Gazeta do sabugal’. Foto da Hemeroteca de Lisboa, no portal Hemeroteca Digital. 2 – Mas publicamos também a primeira página de outro periódico bem nosso conhecido: ‘A Guarda’, fundado em 1904 e, na altura, chamado «Boletim Quinzenal» (de inspiração católica). Foto da Biblioteca Municipal da Guarda.

«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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