Conto hoje uma estória curiosa do Alentejo – Aconteceu mesmo! (Não digo o nome da aldeia, senão quando for lá, «mamo-as»!).

José Jorge CameiraHá uns 80 ou mesmo 90 anos a Aldeia dos Alguidares (nome fictício) tinha muita fama de ser comunista. É que refilavam muito com os donos dos latifúndios de centenas ou mesmo milhares de hectares de terras existentes à volta da Povoação. No tempo da Outra Senhora era coisa grave. Por isso a Diocese não mandava para lá nenhum Padre. Ou não fosse ele ficar também comunista ou era por castigo desse povo ser herege. Mas um dia um sacerdote mais afoito ofereceu-se ao Bispo para «cristianizar» essas gentes desencaminhadas do Divino Redil. E lá foi ele para o sertão…
Encontrou uma Igreja limpa e a brilhar. Por aqui as Gentes do Sul costumam caiar as casas uma vez por ano. Isso então não falha!
Mas faltava-lhe o sino. A Diocese não forneceu nenhum, porque não havia Padre para chamar os fiéis e também porque era parte do castigo para aquelas Almas desavindas. Não era preciso, nem mereciam!
Este Senhor Prior lá se foi aguentando e o horário da Missa, Terço era por passa-palavra. Casamentos havia poucos ou nenhuns, porque aqui o costume era ajuntarem-se, assim não se gastava dinheiro em bodas e festanças de um dia!
As mulheres gostavam de se ir confessar. Desabafavam as suas diabruras de fêmeas, havia confiança absoluta porque o que diziam na Confissão não podia ser divulgado e… tem de se dizer, o Senhor Prior era para elas um belo pedaço de homem, sendo bem olhado pelos buraquinhos do confessionário! Sempre lavadinho e penteado, unhas limpas. Nada parecido com os respectivos companheiros, sempre tresandando a suadouro do trabalho dos campos, quando não era também os cheiros mijalosos das vacas, ovelhas, cabritos e suínos!
Desse modo o Reverendo foi sabendo os pecados da Freguesia e à força do tempo, foi conhecendo o ambiente da aldeia.
Um dia uma Comissão de Moradores foi falar com o Padre, manifestando-lhe o desejo de terem um sino no alto do campanário, tal como todas as aldeias em redor. Desconfio eu, à distância do tempo, que a intenção não era lá muito pela fé, mas sim para os trabalhadores do campo ouvirem de longe o toque de recolher a casa…
– O Senhor Bispo diz que não tem dinheiro para dar um sino. Assim sendo, a única solução é o Povo fazer uma subscrição e eu mesmo me encarrego de ir a Lisboa comprar um sino de bronze, um bem bonito, com uma cruz e nome da nossa Aldeia.
Assim foi. Passados uns meses, essa tal Comissão de Moradores foi entregar ao Senhor Padre uma boa mão cheia de notas a fim de ele comprar o tal sino.
E lá foi o Ministro de Deus até Lisboa com o bolso da batina atafulhado das notas…
Passou-se um mês, dois meses…e nada de sino nem de padre.
Já o Povo desconfiava de marosca, quando numa bela manhã de domingo, ali junto ao Largo da Aldeia pára uma camioneta e o chauffeur pergunta ao primeiro aldeão:
– Aqui é que á a Aldeia dos Alguidares? Trago aqui um caixote pesado com ordens para deixar aqui na Aldeia…
Depressa se espalhou a notícia pela Aldeia e gritaram uns para os outros:
– Chegou o nosso sino!
Aquilo foi uma correria de todo o Povo para verem o seu sino. Ninguém quis ficar em casa. Todos queriam assistir ao abrir do pesado caixote.
Não havia maneira de abrir o caixote, tão bem pregado ele estava. Mas diziam: «isto abana muito…»
Com uma alavanca conseguiram tirar as tábuas cimeiras e após removerem o papelão protector, eis que fica destapada a mercadoria:
Então não é que o caixote estava completamente cheio de cornos! Isso mesmo: cornos de carneiros, de bodes, de bois…às dezenas, qual deles o mais torcido!
Bem. Nunca nenhuma pessoa do Mundo foi tão injuriada e difamada como esse Padre. Era filho disto, filho daquilo, cabrão, filho de uma folha de alface, paneleiro…
Até o ameaçaram com juras que se voltasse à Aldeia seria capado das partes inúteis!
O caixote cheio de cornos ali ficou especado ao sol uma porção de dias, à vista de todos. E o pior era que os carros e camionetas que passavam pela Aldeia eram obrigadas a olhar o caixote, estava rente à estrada…
Depressa o Povo converteu o acontecimento em brincadeira.
As mulheres, durante a semana, passavam pelo caixote e diziam umas às outras:
– Olha… aqueles ali parecem os do teu homem!
– Pelo menos é o mais bonito par de cornos, os do teu nem cabem no caixote…
Ainda hoje, volvidos quase cem anos, se alguém passa pela aldeia e pergunta pelo sino a algum habitante, de certeza que é corrido à pedrada!

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
mailto:jjorgepaxjulia4@hotmail.com

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