A capeia raiana deriva do culto de Mitra? Entendemos que não… pondo, antes, o acento tónico no aspecto lúdico.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaEntre os numerosíssimos estudiosos que se têm debruçado sobre a origem e a essência da capeia raiana e do seu símbolo maior – o forcão – não podemos deixar de considerar os que têm pretendido religá-la ao culto de Mitra.
As ligações de Aníbal, o Barca, filho de Amilcar e neto de Asdrubal, a Mitríades, rei do Ponto e sumo sacerdote daquele antiquísssimo rito, podem servir de base para o estudo.
Anibal, o grande chefe cartaginês que não soube aproveitar o choque vivido em Roma com as derrotas de Canas e do Lago Transimeno, deixando-se ficar em doce far niente com as moças da Apulia, tinha para com a Ibéria Interior profundos laços de vivência.
Aqui recrutara os tércios e tiufados que o acompanhariam nas travessias dos Pirinéus e dos Alpes.
Daqui teria levado as cabras que municiaram de leite e carne os seus famosos esquadrões – rezes que enfeitadas nos chifres com luzentes archotes disseminaram o terror por entre as legiões, de Cipião.
Aqui se abasteceu com municiosos carregamentos de queijo velho de ovelha que forneceu aos seus homens um suplemento alimentar que lhes permitiu enfrentar os gelos na travessia dos dois maiores colossos orográficos da Europa.
Como todos os colonizadores deixou também entre nós sinais materiais e espirituais.
E, dentre estes, os cultos, um dos quais foi certamente o de Mitra, o do Minotauro e o de Zeus – touro divino responsável pelo rapto da Europa.
Tanto mais quanto é certo que os cartagineses eram os herdeiros e depositários das civilizações fenícia e cretense.
Aliás foi essa característica marcadamente mercantilista e nauta a principal responsável pelo fracasso de Cartago ante Roma – que extremando os campos fez desta a cidade eterna enquanto daquela só restam umas vagas ruínas na foz do Rio Bragadas, algures na Costa Tunísina.
E quanto à capeia raiana, como, de resto, à tourada em geral, embora lhe reconheçamos um aspecto cultual, de religiosidade profunda, pensamos nada ter a ver com o púnico culto de Mitra.
Mas sendo essencialmente uma manifestação lúdica da valentia dos vergalhudos da Raia, comporta e transporta fé.
«O concelho», história e etnografia das terras sabugalenses, por Manuel Leal Freire

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