Artista é quem domina uma arte. Artista é quem vive uma arte. Artista é quem vive de uma arte. Hoje quando dizemos artista falamos de palcos, telas pintadas, pedras esculpidas. Há 40 anos, artista era essencialmente alguém do cinema.

Mas nem sempre foi assim: dantes, no Casteleiro, artistas eram os profissionais que iam às casas das pessoas resolver problemas bem concretos: um cano, uma parede, uma porta… E também havia outros artistas, os da «troupe» Delfim Pedro Paixão – que nos deliciavam de quando em vez.

«É preciso arranjar a parede. Temos de cá chamar um artista». Ou então: «É melhor chamar cá o artista para arranjar a mesa». Este tipo de frases era uma constante naqueles idos de 50. O artista era o profissional que sabia reparar aquelas coisas e que a troco de quase nada dava um jeito no que funcionava mal.

Mas havia artistas de vários ramos:
– latoaria,
– serralharia,
– vidros e companhia,
– portas, soalhos, escadas («o balcão»),
– pinturas de paredes,
– impermeabilizações contra a água e contra o frio…
Sei lá.
O pedreiro vinha tapar algum buraco. O taneiro (hoje sei que é assim que se chama aquele artista e que ao seu ofício devo chamar tanoaria) arranjava tudo o que era dorna, pipo ou barrico.
O artista é aquele que se chama para remendos, para pequenas obras, pequenas reparações.
Usa ferramentas muito apropriadas às suas tarefas. O verdadeiro artista tem as suas ferramentas específicas, adequadas à sua arte. Por exemplo, o carpinteiro: quem mais tem aquela maravilha de trado, aquele operacional serrote ou aqueles martelos feitos de madeira, para já não falar daquela magnífica plaina?
Momento importante: o artista chega ao local da obra e tem toda a autonomia. Põe e dispõe. Faz o que precisa de fazer e tem carta branca. Traz a maleta da ferramenta, se a sua profissão assim o recomenda.
Tira cada apetrecho necessário, mexe-se com prontidão e com exactidão. Em serviço, conversa menos do que é habitual.
Tem todo o espaço por sua conta. Toda a gente se afasta. Ninguém dá palpites. Por definição, a arte é uma espécie de mundo à parte, algo de superior. Quase etéreo. Só o artista é que domina esse mundo. As outras pessoas, mesmo que estejam mesmo a ver como é que a coisa se deve resolver, fazem aquele alarido meio disfarçado de quem nada sabe e toda a gente mostra surpresa e não há quem não fique muito admirado porque o problema está em vias de solução. É um ambiente típico. O artista é um dos habitantes do Olimpo: sabe da poda e os mortais admiram a arte, a habilidade, a eficácia.
O artista é o artista – e fica tudo dito.

Progresso traz novos artistas
Mais tarde, seguramente depois de 1955/56 aparece, por imposição do progresso, outro ramo de «artistas». Nessa altura foi inaugurada a electricidade nas ruas. A pouco e pouco, as casas foram sendo dotadas desse benefício. Aí, começaram a surgir as novas avarias decorrentes… e surge uma nova casta de «artistas»: os que mexiam naquele misterioso complexo chamado «quadro» e nas suas derivações, designadamente naquela coisa chamado fio que parece perfeitamente inócuo e inofensivo mas que dava cá cada coice, mal se lhe tocava…
O artista «eléctrico», esse, tinha outra aura ainda mais mítica, se era possível: percebia de coisas perigosas e mexia nelas sem levar sapatada nem formigueiro. E ao fim de alguns minutos, onde não havia luz passava a haver. Milagre caseiro. Tudo da responsabilidade e por obra e graça do «artista».

O circo e seus artistas
Esta é uma fotografia muito forte na minha memória. Trata-se de um grupo de artistas de rua que vinham divertir-nos a todos no Casteleiro dos mesmos anos 50. Não era bem um circo: era mais uma mescla de várias artes circenses. Um pouco de música, um pouco de trapézio, umas piadas, muita expectativa de todos – e uma grande noitada de correrias dos pequenos pelo meio daquela multidão de mais de 30 pessoas em volta dos artistas.
Eram outros artistas que apareciam no Casteleiro três ou quatro vezes por ano, uma «troupe» de sete ou oito pessoas, cada qual com sua arte – todos dirigidos e organizados pelo patriarca (jovem, talvez 40 anos): Delfim Pedro Paixão.
Uma carrinha muito velha transportava-os a todos e fazia parte da encenação.
As comédias arrancavam, as cenas seguiam-se, a mulher de Delfim (Maria Estrela) a todos impressionava com as suas peripécias no trapézio.
Fosse no Terreiro (de São Francisco), fosse nos «Italianos», um edifício construído no tempo da II Guerra para separadora de minério, mas que não chegou a sê-lo.
De todas estas coisas já escrevi aqui. Porque são imagens de primeiro plano da nossa meninice.
No intervalo da actuação, uma caixa recolhia os contributos de cada um – dávamos o que queríamos / podíamos…
Vidas complicadas, todas elas: os artistas e os espectadores…

Nota de actualidade
Há no Casteleiro uma prestigiada instituição, o Lar de São Salvador, que, além de prestar um serviço essencial de apoio à terceira idade, tem outras actividades de louvar. A última delas foi um passeio dos idosos a Sortelha, no âmbito do projecto «Muralhas com História». Dirão: «Oh, tão pertinho». Mas eu respondo que isso não interessa. Para quem está ali internado ou isolado, nada melhor do que dar de comer aos olhos. Não é a viagem ser grande ou pequena que importa. É, sim, ir lá fora, a outra terra, ver mais mundo. Parabéns. Não desistam nunca, por favor.

«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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