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Quando se aproxima o tempo das matanças e da degustação do saboroso bucho, publicamos o texto da oração de sapiência proferida pelo Professor Fernando Carvalho Rodrigues na cerimónia do Terceiro Capítulo da Confraria do Bucho Raiano, sucedido no Sabugal, no dia 18 de Fevereiro de 2012. O Professor fala do bucho, centrando-se em Creado, a sua terra de nascimento, que pertence à freguesia de Casal de Cinza e ao concelho da Guarda.

Quando no Império era Imperador Barack Obama, Sumo Pontífice Bento XVI e na Lusitânia era Pró-Consul Cavaco Silva, foi, em Creado, Mordoma da festa de Santo Antão uma filha do José Braz casada com um rapaz de Carpinteiro filho do Fausto Raposo. Em 2013, será a Lúcia, filha de Zé Aires, e mais o marido.
Há uns milhares de anos que é assim: A Festa de Creado é no dia de Santo Antão. É a festa do Padroeiro. Em cada ano, a 17 de Janeiro, o Povo reúne-se para nomear o Mordomo do ano seguinte. Santo Antão é o Santo Padroeiro de Creado. De lá, vêm, por muitas gerações, meus antepassados. Em cada ano ter proteínas dependia um pouco de caça, mas sobretudo do marrano. E todos os anos compravam os porcos para cevar durante o ano e iam e recebiam quem vinha para pedirem a protecção de Santo Antão na capela do seu orago em Creado.
No dia seguinte da Festa, depois de celebrada a missa, oferecem um pé vindo da matança de Dezembro ao Santo para que lhe guardar o bácoro próspero e com saúde. Seguia-se animada a arrematação dos donativos. O leilão, como é público, incita vaidades. Não tem mal. Num dia, não tem mal. A vaidade deixa mais uns dinheiros porque leva o pé quem mais oferecer. Em tempos de oscilações da bolsa. O pé pode render vinte euros. Pode até, como se tem visto ultimamente, chegar aos cinquenta euros. Sim, porque os marranos da nossa Beira Alta foram classificados pelas agências de notação em triplo AAA com prospectiva positiva. Espera-se que o pé de porco salve a classificação da dívida soberana logo que a produção se intensifique. Pelo menos, a capela de Santo Antão, em Creado, beneficia. O dinheiro das arrematações, em bolsa, reverte a favor da Igreja. É que o Mordomo é quem faz as arrematações e ninguém e tem ordem para arredar pé enquanto houver ofertas para arrematar. E, para cada pedaço quem oferece o pé é o primeiro a dizer quanto vale. Que isto de deixar cair o valor em bolsa é só para os banqueiros.
Ao Santo Antão em Creado vai o povo honesto. E mais a prece pelo marrano que viverá por aquele ano até Dezembro. Viverá em um T0 com esplanada. Chamam-lhe: o cortelho. Mas é o único animal a quem se oferece um estúdio enquanto vive. Casa de granito afagado e porta de cerne de carvalho. E um dia, libertado do peso de viver, só o fará se Santo Antão o proteger. Partes, todas as partes do marrano passarão por nós, Homo Sapiens Sapiens, e todos aqueles bocados terão o privilégio de reconhecer que existem, terão a alegria de contemplar e estudar o Universo de que são parte e a parte que faz ao mundo perguntar. É este o milagre, renovado, de Santo Antão do Egipto.
Terá nascido pelo ano 251 D.C.. Inventou como ser Monge. Mas como todos aqueles que fazem trabalho solitário solta-se-lhes a imaginação, a compreensão e têm a tentação da soberba que vem da Soberania sobre os Saberes. E tentação, esta e outras, teve Santo Antão do Egipto como todos os que contemplam mistérios. A humildade de uma via simples livrou-o sempre. Mas houve quem as imortalizasse.
Chama-se Hieronymus Bosch, o espírito medieval vivido de uma forma única. Nas tentações de Santo Antão que deixou no Museu Nacional de Arte Antiga em Lisboa . Estão as extravagâncias de monstros escarnecendo gárgulas. Sentou monstros nas cadeiras do coro. Pôs demónios olhando de soslaio para as margens dos manuscritos. Distorceu, horrivelmente, humanos lançados com forquilhas para o inferno. São o esconjuro pela arte. Pela pintura. Com Bosch sente-se o cerco diabólico a Santo Antão. Representa o mundo como um prolífico formigueiro. Os quadros de Hieronymus Bosch têm que ser interpretados símbolo a símbolo. Ele e a sua pintura mostram a intromissão do demónio na vida humana. Os elementos da fantasia na sua obra dão-lhe um inesgotável fascínio. E, num dos vários quadros das tentações do Santo Antão. No que está em Madrid. Ao lado e protegido pela paz de Santo Antão está o marrano. Ambos serenos, em Paz, com Deus no reequilíbrio do nervosismo da fantástica imaginação. Na aceitação que cada classe de vida alimenta outra classe de vida até que possa contemplar Deus. Mas a vida da pintura de Hieronymus Bosch não é só tentação e descrição. Descrição mordaz da percepção da vida como hoje em dia atravessamos. É colhida em fonte popular na Nave dos Loucos. O quadro da «A Nave dos Loucos» é uma fonte inesperada do retracto da vida de hoje. Inesgotável para os modernos psiquiatras, sociólogos, economistas, retratados suponho, por um discípulo de estilo, Pieter Breughel, o velho, na condução pelos cegos deste novo e actual Mundo. Mas voltando a Hieronymus Bosch é no pormenor, no detalhe. Numa espécie de extensão da beleza, do talento e da técnica dos iluministas tão atentos ao pormenor que nos fazem aparecer tentações de Santo Antão e o marrano a seus pés.
E é essa mesma atenção ao detalhe que faz do Bucho, o enchido delicioso, o ultimo dos manjares para o Intróito. Também lhe chamam o Entrudo.
Para o Bucho, em Creado, num alguidar de barro colocam-se as carnes partidas em pedaços: orelhas, carnes que tenham cartilagem, pontas das costelas, couratos e o rabo. Temperam com alho, sal, pimentão doce e picante e um bom vinho. Cinco dias. Reparem bem. Cinco dias em vinha de alho. Vai-se provando, a suprema medida da ciência, para ver se está temperado suficiente. E mais vos digo: se não for bem temperado: Olhai! Estraga-se. Mas se fizerdes como vos digo a bexiga do porco que se guardou bem com o palaio encheu-se com as tais carnes temperadas. Vai ao fumeiro durante algumas semanas e guarda-se para o Carnaval. Com a Família, mais batatas cozidas e grelos de nabo (bem se não houver pode ser acompanhado por couve Portuguesa). Pinga e por fim o arroz doce.. Acho, que corta a gordura. Bem é arroz doce. Acabou-se. Sempre foi assim. E no fim, está-se de novo pronto a embarcar nesta «Nave de Loucos», pilotada pelos cegos Breughel e livres das tentações mas com a protecção de Santo Antão. Até porque de todos os porcos que nos dão hoje o Bucho um pé ser-lhe-á oferecido para o ano que vem. Sim, que com os Mordomos já nomeados em Creado não há crise, que as agências de notação não se estrevem, ou mesmo atrevem, a meter-se. O Bucho lá estará em 2013.
Só a faz parar de o apreciar o dia das Cinzas. Por causa da Lua que determina o dia de Páscoa, o Dia das Cinzas, calha sempre a meio da semana. É sempre numa quarta-feira este Dia das Cinzas. E nesse dia, durante milénios os Homens da Ordem Militar do Hospital marcavam-no, com uma Cruz de Cinza, na fronte, numa cerca da Freguesia de que Creado é parte: a Freguesia de Casal de Cinza. Passa por lá o eixo da Terra e nela se faz o melhor Bucho do Mundo e tudo isto é o maior dos Milagres de Santo Antão de Creado de Casal de Cinza, que também foi, em outros tempos, do Egipto.

P.S. O Autor escreve de acordo com a ortografia da Dona Laura. Três reguadas por cada erro no ditado chegaram para lhe acabar com todas as veleidades. Quer as passadas, quer as presentes, ou mesmo as futuras.
Fernando Carvalho Rodrigues

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Artista é quem domina uma arte. Artista é quem vive uma arte. Artista é quem vive de uma arte. Hoje quando dizemos artista falamos de palcos, telas pintadas, pedras esculpidas. Há 40 anos, artista era essencialmente alguém do cinema.

Mas nem sempre foi assim: dantes, no Casteleiro, artistas eram os profissionais que iam às casas das pessoas resolver problemas bem concretos: um cano, uma parede, uma porta… E também havia outros artistas, os da «troupe» Delfim Pedro Paixão – que nos deliciavam de quando em vez.

«É preciso arranjar a parede. Temos de cá chamar um artista». Ou então: «É melhor chamar cá o artista para arranjar a mesa». Este tipo de frases era uma constante naqueles idos de 50. O artista era o profissional que sabia reparar aquelas coisas e que a troco de quase nada dava um jeito no que funcionava mal.

Mas havia artistas de vários ramos:
– latoaria,
– serralharia,
– vidros e companhia,
– portas, soalhos, escadas («o balcão»),
– pinturas de paredes,
– impermeabilizações contra a água e contra o frio…
Sei lá.
O pedreiro vinha tapar algum buraco. O taneiro (hoje sei que é assim que se chama aquele artista e que ao seu ofício devo chamar tanoaria) arranjava tudo o que era dorna, pipo ou barrico.
O artista é aquele que se chama para remendos, para pequenas obras, pequenas reparações.
Usa ferramentas muito apropriadas às suas tarefas. O verdadeiro artista tem as suas ferramentas específicas, adequadas à sua arte. Por exemplo, o carpinteiro: quem mais tem aquela maravilha de trado, aquele operacional serrote ou aqueles martelos feitos de madeira, para já não falar daquela magnífica plaina?
Momento importante: o artista chega ao local da obra e tem toda a autonomia. Põe e dispõe. Faz o que precisa de fazer e tem carta branca. Traz a maleta da ferramenta, se a sua profissão assim o recomenda.
Tira cada apetrecho necessário, mexe-se com prontidão e com exactidão. Em serviço, conversa menos do que é habitual.
Tem todo o espaço por sua conta. Toda a gente se afasta. Ninguém dá palpites. Por definição, a arte é uma espécie de mundo à parte, algo de superior. Quase etéreo. Só o artista é que domina esse mundo. As outras pessoas, mesmo que estejam mesmo a ver como é que a coisa se deve resolver, fazem aquele alarido meio disfarçado de quem nada sabe e toda a gente mostra surpresa e não há quem não fique muito admirado porque o problema está em vias de solução. É um ambiente típico. O artista é um dos habitantes do Olimpo: sabe da poda e os mortais admiram a arte, a habilidade, a eficácia.
O artista é o artista – e fica tudo dito.

Progresso traz novos artistas
Mais tarde, seguramente depois de 1955/56 aparece, por imposição do progresso, outro ramo de «artistas». Nessa altura foi inaugurada a electricidade nas ruas. A pouco e pouco, as casas foram sendo dotadas desse benefício. Aí, começaram a surgir as novas avarias decorrentes… e surge uma nova casta de «artistas»: os que mexiam naquele misterioso complexo chamado «quadro» e nas suas derivações, designadamente naquela coisa chamado fio que parece perfeitamente inócuo e inofensivo mas que dava cá cada coice, mal se lhe tocava…
O artista «eléctrico», esse, tinha outra aura ainda mais mítica, se era possível: percebia de coisas perigosas e mexia nelas sem levar sapatada nem formigueiro. E ao fim de alguns minutos, onde não havia luz passava a haver. Milagre caseiro. Tudo da responsabilidade e por obra e graça do «artista».

O circo e seus artistas
Esta é uma fotografia muito forte na minha memória. Trata-se de um grupo de artistas de rua que vinham divertir-nos a todos no Casteleiro dos mesmos anos 50. Não era bem um circo: era mais uma mescla de várias artes circenses. Um pouco de música, um pouco de trapézio, umas piadas, muita expectativa de todos – e uma grande noitada de correrias dos pequenos pelo meio daquela multidão de mais de 30 pessoas em volta dos artistas.
Eram outros artistas que apareciam no Casteleiro três ou quatro vezes por ano, uma «troupe» de sete ou oito pessoas, cada qual com sua arte – todos dirigidos e organizados pelo patriarca (jovem, talvez 40 anos): Delfim Pedro Paixão.
Uma carrinha muito velha transportava-os a todos e fazia parte da encenação.
As comédias arrancavam, as cenas seguiam-se, a mulher de Delfim (Maria Estrela) a todos impressionava com as suas peripécias no trapézio.
Fosse no Terreiro (de São Francisco), fosse nos «Italianos», um edifício construído no tempo da II Guerra para separadora de minério, mas que não chegou a sê-lo.
De todas estas coisas já escrevi aqui. Porque são imagens de primeiro plano da nossa meninice.
No intervalo da actuação, uma caixa recolhia os contributos de cada um – dávamos o que queríamos / podíamos…
Vidas complicadas, todas elas: os artistas e os espectadores…

Nota de actualidade
Há no Casteleiro uma prestigiada instituição, o Lar de São Salvador, que, além de prestar um serviço essencial de apoio à terceira idade, tem outras actividades de louvar. A última delas foi um passeio dos idosos a Sortelha, no âmbito do projecto «Muralhas com História». Dirão: «Oh, tão pertinho». Mas eu respondo que isso não interessa. Para quem está ali internado ou isolado, nada melhor do que dar de comer aos olhos. Não é a viagem ser grande ou pequena que importa. É, sim, ir lá fora, a outra terra, ver mais mundo. Parabéns. Não desistam nunca, por favor.

«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

JOAQUIM SAPINHO

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