A Banca rebelou-se sempre contra o poder espiritual personificado em Roma. Mais vincadamente em dois actos históricos. Primeiro nas guerras púnicas. Quase dois milénios depois na pregação de Lutero.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaCom as vitória de Anibal, o peno aspérrimo, que nunca teve um projecto imperial, em Canas e no Lago Transimeno, era o triunfo do capital anónimo, vagabundo e apátrida, em luta contra um poder territorialmente fixado, centrado numa cidade que havia de firmar-se como eterna e baseado em lares, manes e penates.
Com a afixação das teses do monge augustiniano,volvido herege, porque rasgava a túnica inconsútil de Cristo era de novo a matéria a rebelar-se contra o espírito e o enfoque no poder enigmático do capital.
De raiz primeiro semítica e depois protestante, a Banca nunca mais pode redimir-se desses dois pecados originais que, bem pelo contrário, toma até como divisa, afirmando-se como poder dos poderes, liberto de peias materiais ou convenção imposta pelo espírito.
E é assim que todos os demais poderes tem de lidar com ela.
É assim que todos se lhe rendem. Todos a considerando como o coração ou mesmo o aparelho circulatório das sociedades modernas.
Veja-se a acolitada solicitude com que os governos, particularmente o nosso, acorrem a injectar-lhe capitais, mesmo em somas monstruosamente volumosas.
Ora a mim, liberto de peias, afigura-se-me que seria socialmente mais justo e economicamente mais relevante, injectar tais somas na sociedade civil, verbi gratia, através de uma distribuição per capita.
A todos por igual… possidentes e endividados, dissipadores e fomes-negras, dos que ainda guardam as notas debaixo do colchão aos que engendram logo mil formas de as lançar nos mercados bolsistas ou obrigacionistas ou nas ínvias vias da agiotagem.
Dir-me-ão que o caminho é o mesmo, só tendo este da distribuição pela sociedade civil mais uma etapa, passada a qual, todo o dinheiro já estaria na Banca, que o atrai por uma forte bateria de imânes.
Os endividados e somos quase todos, acorreriamos logo a libertarmo-nos do cargo e encargo e lá estava a nossa quota no sítio.
Os endinheirados, poucos mas extremamente sensíveis ao apelo, não deteriam mais tempo o que lhes houvesse caído em sorte.
Nos dissipadores o intervalo seria pouco mais do que um relâmpago…
De modo ou de sorte, que afora o dos colchões, todo o produto do ensaio em semanas já teria chegado aos bancos.
«Caso da Semana», opinião de Manuel Leal Freire

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