Pinhel era uma cidade de enigmas e distâncias situada a quinze extensos quilómetros. Depois da escola, e se a tarde o permitisse, eu ia espreitar a mancha clara do seu casario, lá do cimo do Monte de Santa Bárbara.

Fernando Capelo - «Terras do Jarmelo»Deslocava-me a Pinhel apenas quando houvesse forte justificação e, desta vez, havia. Segui, então, com meu pai escarranchado na parte traseira da mota «Saches» de cor cinzenta, cujo andamento se relacionava diretamente com as três velocidades engrenadas a partir de uma manzeira colocada na extrema direita do guiador.
Segundo ordens expressas de meu pai eu deveria viajar bem agarrado a ele, para não cair. Durante a viagem, observei sucessivamente meia dúzia de aldeias. Algumas cruzei-as ou vi-as de perto. Outras apenas as vi de longe.
A estrada que ligava Pínzio a Pinhel era, nessa altura, de um empedrado esbranquiçado demasiado irregular. Nem sequer tinha alcatrão e desembocava na cidade ao cimo da avenida do Tribunal que era a rua mais larga que eu conhecia. O Edifício do tribunal ainda cheirava a novo e as estátuas, à entrada, serviriam para qualquer coisa que eu não percebia.
Descendo a avenida e após breve curva à direita encontrava-se, do mesmo lado, a sapataria do Sr Pardaleijo, sítio carismático onde foram comprados a totalidade dos sapatos que usei de criança.
Ora, foi precisamente aí, à porta dessa sapataria, que naquela manhã de outono desci da mota apoiando a biqueira numa peça lateral a que chamavam poisa-pés.
Na loja, atrás do balcão, era visível um homem entroncado, vestido de escuro cuja imagem era encimada por um chapéu pequeno e preto. Era o senhor Pardaleijo que nos recebeu, aos dois, como sempre recebia toda a gente, com um breve sorriso e uma leve vénia afagando a aba do chapéu mais que levantando-a da cabeça. Foi ele a soltar a primeira pergunta:
– Ora muito bons dias senhor Capelo. Então hoje por cá? Em que posso servi-lo?
Meu pai ia-me segurando pela mão e tossia para aclarar o cumprimento. Face à pregunta respondeu:
– Bons dias Sr Pardalejo. Venho aqui ver de umas botas para este machacaz.
Ao entrar na loja, segui á frente e fui levantando o olhar para as prateleiras de madeira apreciando o calçado exposto. Havia dezenas de botas e sapatos de tamanhos variados para homem, senhora e criança. O cheiro a cabedal era intenso e fazia-me recordar todas as ocasiões anteriores em que me tinham comprado calçado. Meu pai esclareceu apontando para os meus pés:
– Ainda no início do verão lhe comprei estes sapatos. Mas não há nada que lhe resista. Tem lá o diabo da bola e olhe em que estado já estão!
Tal desabafo obrigou-me a reparar nos meus próprios sapatos que, de facto, estavam bastante desbiqueirados. Senti um quase arrependimento por os ter estragado em tão curto espaço de tempo. Mas que lhe haveria de fazer? Jogar à bola era uma tentação que me transcendia. E meu pai continuava:
– A ver se lhe arranjamos umas botas. Vem aí o inverno e o garoto não pode andar com os pés encharcados.
Enquanto estes comentários o senhor Pardalejo já se lançava na procura de meia dúzia de caixas de cartão branco. Destapava-as e colocava-as em cima do balcão expondo diversas espécies de botas ao mesmo tempo que explicava:
– Olhe aqui estas amarelinhas. Isto é do bom e do barato.
Virando-se para mim inquiriu:
– Não são bonitas? Gostas delas ou não?
Eu, meio encavacado com a apresentação que meu pai havia feito, não pronunciei palavra. Apenas fiz que sim com a cabeça. De facto eram muito bonitas. Eram amareladas de ouro e guarnecidas de preto na biqueira. O senhor Pardaleijo avançou então:
– Vamos lá experimentá-las?
De imediato deitou-me a mão ao pé, descalçou-me um sapato velho e calçou-me uma bota nova. Cada vez eu gostava mais das botas mas meu pai já ia aclarando:
– Não lhe ficam mal, não senhor. Mas isto é um ver se te havias. Daqui a quinze dias estão desfeitas. Não sei que fazer a este garoto depois que lhe comprei a bola!!
O Senhor Pardalejo pôs a cara mais séria que conseguiu, empertigou-se para traz e vaticinou:
– Ó senhor Capelo, você não tire a bola ao rapaz… Eu vou dar-lhe uma solução. O senhor leva este preguinho fininho. Se o garoto continuar a chutar na bola, pega num martelo e espeta o prego na biqueira da bota, para o lado de dentro. Vai ver que ele passa a chutar mais devagar.
Meu pai não evitou uma sonora gargalhada e, a mim, começou a doer-me o dedo grande do pé direito. Por fim, dei comigo a pensar:
– É desta… É desta que vou jogar descalço.
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

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