O meu estimado parente e confrade nesta irmandade dos cultores do Regionalismo Sabugalense , de que já seu pai foi denodado lutador, vem dando público testemunho do seu amor à Terra Patrum, de uma entranhada vivência da nossa vida comunitária e de um apurado sentido da História numa série de crónicas reveladoras dum domínio da dificil língua portuguesa a atestar a sua passagem por essas excelentes casas de formação intelectual que foram e continuam a ser os seminários.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaNuma exaustiva análise do ciclo dos cereais panificáveis, um dos pilares da economia de subsistência que caracterizou a vida das famílias da zona antes do grande surto migratório, tratou exemplarmente e de forma absolutamente exaustiva como se aproveitavam até os campos mais sáfaros e difíceis de agricultar, pois só a enxada ali podia penetrar, por vezes até com precedência da picareta e do ferro pistolo, utilizado para remover pedregulhos.
Era a prefiguração do poema de Correia de Oliveira:
Quando a preguiça morrer
Até o monte maninho
Até as penhas da serra
Darão rosas, pão e vinho

As terras centeeiras, assim chamadas por não terem aptidão para qualquer outra cultura eram objecto de permanente atenção.
Até quando estavam de pousio.
Repare-se que era este que determinava a existência de folhas ou terras afolhadas
A fraca fertilidade natural da generalidade das tapadas – nome dado aos agros onde se cultivava o pão – vocábulo identificado com o centeio – levava a que se dividisse o limite das freguesias em zonas – normalmente três.
As terras integradas em cada uma dessas áreas – as folhas – só davam cereal de três em três anos. E, mesmo assim, com baixos índices de produção. A menos que o lavrador possuisse rebanho que as estrumasse. Ou lhes reforçasse o tónus de rentabilidade, através de químicos. Mas estes eram caros e o dinheiro pouco. Além de que nem sempre atingiam compensatório índice de produção.
E as pastorícias de gado sempre foram apanágio de poucos.
Remover o solo pelo arado com a decrua e uma ou duas estravessas, antes da sementeira e depois com a aricagem permitiam uma azotagem natural e quanto mais vezes a relha passasse mais o ar entraria.
E mais se converteriam em matéria orgânica os corpos parasitários.
Mas até nisto se tinha de ser comedido, que o ferro era caro e aguçar as pontas, mau grado a modicidade dos ferreiros, também pesava.
Ao esforço do lavrador e das reses de jugo não se faziam contas. De outro modo, bem caras ficariam palhas e paveias.
Nos anos de pousio, as courelas eram abertas aos rebanhos.
E das restolhadas subsequentes às ceifas até às sementeiras trinta e seis meses depois, cresciam pequenos arbustos, nomeadamente giestas e bela-luz que bom jeito davam para a cozinha, o forno, a cama dos gados, a tapetagem das ruas.
No entrementes, os moços de lavoura não esqueciam nem desdenhavam da rabiça, vaidosos da sua condição.
Alfaiates não são homens
Sapateiros também não
Homens sim são os ganhões
Que enchem as arcas de pão.

«O concelho», história e etnografia das terras sabugalenses, por Manuel Leal Freire

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