Hoje, nem se percebe como é que pode ser importante esse facto, a chegada da roupa já feita. Hoje notícia seria irmos outra vez ao alfaiate e à modista ou costureira. Mas como era há 50 anos?

Naqueles dias, era assim: nas grandes festas, de quando em vez, íamos ter umas calças novas, um vestido novo, uma blusa nova… Então o processo começava: primeiro: ida ao comércio, escolha das peças (espécie de rolos grandes) de tecidos e de fazendas. Depois: corte do comprimento necessário. O comerciante media com o seu metro feito de um pedaço de madeira «quadrada» castanha escura, com os números muito grandes.
Entretanto os pais tinham combinado com o alfaiate ou a modista / costureira e lá íamos tirar as medidas: altura da perna por fora, altura da perna por dentro, largura da calça em baixo, cintura, anca… sei lá: as medidas todas, tipo modelos das revistas cor-de-rosa de hoje…
As raparigas lá tirariam outras medidas. Eu não estava lá para ver. Mas o método não devia ser muito diferente.

Estranha variedade de tecidos
Num país tão pobre, eu sempre estranhei a grande diversidade de tecidos à escolha. Não na altura. Mas sobretudo quando cresci e tomei consciência da pobreza franciscana do Portugal desses tempos.
De facto, estranhamente, os tipos de tecidos que havia nesse tempo eram muito variados. Os vestidos, as saias e as blusas, as calças e os casacos, as combinações com a sua rendinha obrigatória ou os saiotes podiam feitos de (escrevo a grafia da pronúncia popular, claro – isso é que tem piada), por exemplo:
– riscado,
– crepe,
– organza,
– sarja,
– popeline,
– gargorina,
– flanela,
– vual de lã,
– jorgete,
– chita,
– cretone,
– piqué,
– sarrebeque,
– cotim,
– fazenda de lã,
– fazenda fina,
– tirilene,
– seda,
– nylon,
– fioco (mistura barata à base de lã),
– merino de algodão.
Etc. Etc..
Ah, e o afamado linho e a estopa, com o seu complexo ciclo de manufactura.
Resumindo: estes e outros tecidos eram comprados a metro nas lojas que havia (estabelecimentos comerciais).
A roupa era depois costurada pelos alfaiates e pelas costureiras.
Havia sempre duas provas, para que tudo ficasse bem.
E no dia da Festa era uma festa.
Só me incomoda uma coisa, hoje, quando olho para essas imagens de antanho: as cores usadas no vestuário eram em geral muito escuras. Azul-escuro, cinzento-escuro, preto. Com as raparigas era diferente. Aclaravam a esta imagem. Ainda bem.
Não foi fácil encontrar fotos que se aproximem da imagem que tenho dessas realidades. Mas tentei, para completar o quadro. Agradeço aos autores dos blogues de onde foram «sacadas».

E chega o pronto-a-vestir
Mas isso era o antes. Um dia, eis a revolução no vestuário: chega a notícia de que já há roupa feita e que ficava sempre bem, sem tantas questões de medidas individuais. Um milagre. Surpresa geral. Havia pessoas que nem acreditavam. Então já não era preciso ir à Senhora Maria Augusta tirar medidas?
E não, não era preciso.
Era tudo verdade: podia comprar-se roupa já pronta a usar na Festa de Flores.
Ali por alturas de 1960, o pronto-a-vestir chega á nossa região. Ainda que timidamente. Primeiro, nos grandes centros urbanos da zona: ia-se à Covilhã ou a Castelo Branco comprar uma saia plissada.
Mas a revolução vai chegar rapidamente ao Casteleiro: em dois ou três anos, os comércios do Casteleiro começaram também a ter casacos de malha, camisolas de malha, saias, batas.
Vestidos é que não. Isso ainda era cedo.
Para os rapazes, só um puloverzito de vez em quando.
O resto continuava tudo como dantes: compra o tecido, tira as medidas, vai provar, veste a roupa, faz a festa…
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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