Os dicionários dão ao vocábulo o sentido de utilidade ou proveito ou mais especificamente de ser animado ou inanimado, de que se possam extrair quaisquer benefícios.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaDe tudo o que serve para alguma coisa de útil se poderá, assim, esperar serviços.
E tão amplo é o conceito que os autores lhe conferem páginas e páginas para o especificar.

Depois, nascem as dissidências.

Há os que servem e os que se servem, esquecendo que o serviço não é só para eles, que, servindo-se, se esquecem de que também têm de servir.

Por isso, intervêm o poeta, assinalando:

Que vai de servir a servil
Distância que muito importa
Servir é vara direita
Que é servil quando se entorta.

Ou que:
A servir ninguém se oponha
Que é obrigação sagrada
Vergonha, três vezes, vergonha
É não servir para nada…

Ora,se o conceito já é assim tão extenso e confuso em si mesmo, o que não será aditando-lhe o atributo, que não é acessório, mas essencial, de público – que os mesmos dicionaristas, referenciando-lhe a etimologia (do latim publicus) sintetizam dizendo que público é o que pertence a todo um povo, ou seja o que é de todos.
Mas no caso ora em apreço, a não refreada extensão daquele dupla de conceito, ganha ainda do alargamento que lhe impõe o determinativo «de televisão», ou mesmo «de telefonia».
Daí a enorme extensão do conceito – ínsito e paradoxalmente também expresso – nas siglas de «Serviço Nacional de Televisão» ou «de Radiodifusão», que para além da imensidade ligada ao «Tele» vão para além do infinito.
E daí também o extremo cuidado com que os poderes – todos os poderes – têm de agir, ao lidar com o tema, seja para o que for.
E muito mais quando se trate de abordar uma experiência logicamente impossível, dado que público e privado sao expressões logomáquicas, isto é impossiveis de coexistir na mesma realidade.
Como não há rectas curvas ou pretos brancos também não pode haver serviços privados que sejam públicos, sendo por seu turno óbvio que um público, ao passar a privado perde ipso facto aquela qualificação.
Seria bom que assim não fosse…
O Diabo, diz povo, não é tão feio como o pintam.
Mas, mesmo com aquela limitação,não deixa de evocar e revocar o horrendo em todas as suas possiveis gradações.
A expressão atribuída ao pessimista Hobbes – homo hominis lupus – não significará, só por ela, que o mundo não é um mundo, mas um inferno, onde os homens ou são anjinhos atormentados ou demónios atormentadores.
Mas a verdade é que o combate pela vida nos torna a todos ou quase todos em adversários uns dos outros, ou quando muito em indiferentes pela sorte alheia, pondo a ênfase no nosso interesse, quase sempre mesquinho, mas a que tudo sacrificamos.
Queixamo-nos dos outros, os outros queixam-se nós, esquecendo-nos todos de que o nosso maior inimigo não são os outros, mas está dentro de nós.
A alma humana é um enorme campo de batalha onde a nossa metade boa é muitas vezes submersa, pela nossa metade má.
O poeta intuiu-o:
Pelo caminho que eu sigo
Quando eu quisesse matar
O meu maior inimigo
Tinha de me suicidar.

Para inimigos, bastamos nós.
O que não significa, que não deparemos no dia-a-dia com uma tremenda súcia da mais despudorada fauna. Na vida pública e privada
O poeta popular intuiu-o por igual:
A vida é filha da puta
A puta é filha da vida
Há tanto filho da puta
Na puta da minha vida.

E são efectivamente tantos que os encontramos em toda a parte, ou como se diz em linguagem popular, ao virar de cada esquina, na vida privada e na vida pública.
Com particular incidência, temos propensão a afirmar, na carreira política…
Mas não é que sejam quantitativamente ali mais abundantes, ou qualificativamente mais refinados.
O que estão é mais expostos, para a população em geral, que gostaria de os ter por modelos e por isso facilmente se escandaliza com os seus pecados e até simples pecadilhos, desculpaveis no homem comum.
Despertam também particular atenção perante os adversários de partido, o que se achará normal.
E, todavia, mesmo assim e apesar de tudo, são os camaradas de partido que mais lhe ratam na consideração.
O que seria paradoxal, se não fosse com estes que tivesse de disputar os lugares de acesso e ascenso e sobretudo as conesias…
«Caso da Semana», opinião de Manuel Leal Freire

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