A Beira Interior mais próxima da Raia é, sem dúvida, uma zona de escassos recursos a que se aliam diversos abandonos e esquecimentos.

Fernando Capelo - «Terras do Jarmelo»Os montes e as aflorações graníticas que a pontoam caracterizam a imagem de uma parcela de território notoriamente empobrecida que, progressivamente, desertifica.
São múltiplos os factores que concorrem para a fraca rentabilidade das actividades desenvolvidas nesta zona, prioritariamente agrícola embora sejam inegáveis algumas harmonias, algumas compensações e equilíbrios. Mas, o que mais me assedia é a beleza natural que não me parece ser alheia a sensibilidades.
Teria Augusto Gil escrito a Balada da Neve se nunca tivesse experimentado o frio gélido e branco que ajuda a construir os Invernos do Interior? Refiro-me a esse frio que corre entre montanhas e se explana, lá no alto, envolvendo tudo. Quando esse frio desce das nuvens, cobre tudo de um branco imaculado.
De que outra raia montanhosa, de que cores amalgamadas, de que pastos e matagais verdes, de que montes azuis, de que searas amarelas, de que manhãs laranjas e de que entardeceres encarnados poderia ter falado Nuno de Montemor? Que outros quadrazenhos poderia ele ter retratado? Com que outra mentalidade, com que outra moral, com que outra tenacidade, com que dialecto, com que outro contrabandear?
Que outras terras tão quentes e tão frias, tão esquecidas e de tamanho carisma poderia Aquilino Ribeiro ter chamado «Terras do Demo»?
Que outros «Cabeços das Maias» poderia ter escolhido Célio Rolinho Pires ou que outras «Rosas de Santa Maria» poderia ele ter descrito para além destas rosas, plantadas em chãos verdes, florindo em enormes campos primaveris? De que outros chilreares, de que outra passarada tão diversa, de que outros regatos a transbordar de limos, de que outras rãs cantantes poderia ele ter falado?
Como retrataria Paulo Leitão Batista a vida aldeana em «Retractos da Vida Aldeana» se não fosse a especificidade dos hábitos, as culturas e as tradições das terras do interior raiano e como descreveria ele, fora das margens do Rio Côa, as «Rotas Batidas» até aos confins codanos caracterizando gentes, divulgando monumentos, comentando religiosidades, aconselhando gastronomias?
Que dizer, ainda, da variedade da música popular? Refiro os cânticos de Natal, os cantares das Janeiras, as cantigas do Entrudo, os cânticos da Quaresma, os alegres cantos do mês de Maio (mês de Maria) as cantigas dos ranchos de ceifeiras e ceifeiros, dos malhadores, das vindimadeiras e vindimadores e as lengalengas dos homens nos lagares a esmagar as uvas.
Que dizer, também, da vivacidade das desgarradas alegres e picantes?
Onde poderiam ter sido engendrados os «Dramas» e tantas outras formas de representação popular?
Serão, então, estas terras, apenas pobres? Não, certamente, se houver o cuidado de preservar e, até, de rentabilizar as suas riquezas! E parece-me, a mim, que muita desta criatividade interior é susceptível de ter motivação em condições específicas sedeadas na beleza natural e intemporal que alimenta sensibilidades. Acredito, ainda, que tais sensibilidades, mesmo vestidas de silêncios, se deslocam como sombras intranquilas nestes territórios interiores. Mas quando vêm à luz do dia, constituem um verdadeiro conforto.
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

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