Na passada sexta-feira 7, vi um homem cabisbaixo dirigir-se para um palanque. As folhas tremiam-lhe nas mãos e, não sei se pela tv ou na realidade, quando levantou a cabeça, o rosto apresentava-se branco. O primeiro-ministro de Portugal ia falar ao país.

Todo este cenário não podia augurar nada de bom. O primeiro-ministro apresentava um rol de medidas de austeridade pura e dura. Se tal passou, quase, a ser a banalidade do discurso deste governo, quer na forma quer na essência, esta comunicação encerra alguns aspectos que convém sublinhar. A essência política, sabemo-lo, deste governo é a prática puramente académica de uma doutrina financeira ultraliberal. Acredita na auto-regulação dos mercados e numa liberalização absoluta destes. Não é uma doutrina nova. A actual crise é consequência dessa crença. Até aqui, nada de novo. Mas o discurso de Passos Coelho resume, em si, tudo isto, mas muito mais. É uma confissão, ainda que escondida, mas uma confissão. Primeiro, porque mentiu ao país antes das eleições e durante todo este ano que leva de governo. Antes, porque garantiu que não aumentava impostos. Durante todo este tempo em que, verdadeiramente, assaltou os portugueses, corrijo, assaltou os trabalhadores, não dizendo para onde foi o dinheiro que nos tirou do bolso. Poderá argumentar que não conhecia a realidade das finanças do estado. Então, é pura incompetência. Não se pode aspirar a ser primeiro-ministro sendo incompetente. Mas o facto é que, em todas as matérias, este primeiro-ministro e este governo, demonstram uma incompetência em toda a linha. Este discurso é feito minutos antes de um jogo de futebol da selecção nacional. O discurso não explica absolutamente nada quanto ao uso do sacrifício dos trabalhadores, quando nos foi dito que era para garantir o tal défice de 4,5%. Nada. Agora, de novo, um discurso em que nos anuncia mais um roubo sem explicar para quê ou qual fim. Mais, fá-lo falando do assalto aos que trabalham, calando sacrifícios para os que mais têm. O aumento da taxa para a Segurança Social (lá estou eu!), não é taxa, é um imposto puro e duro. Puro porque cobra sem a prestação de serviço (é isto uma taxa) e duro, porque cobra a todos por igual, como se o vencimento fosse igual! É a mesma coisa tirar 7% a quem ganha 10 000 mil euros ou a quem ganha 500 euros? E enquanto aumenta os trabalhadores na cobrança de impostos, alivia as empresas, cortando 5%. A razão, diz o governo, incentivo à criação de emprego. Esta é de rebolar pelo chão e rir à gargalhada! Criar emprego? Estão loucos? Como? Se quem consome os produtos fabricados nas empresas não tem dinheiro para o fazer? Não sou eu que o digo, são os empresários que o dizem à boca aberta. Depois, uma comunicação antes da avaliação da troika e três dias antes do ministro das finanças vir falar, também, ao país, para anunciar uma série de medidas intencionais para cobrar aos que mais possuem. Escrevi intencionais, porque o senhor ministro das olheiras limitou-se a anunciar intenções. A intenção de cobrar nos bens de luxo. A intenção de acabar com institutos públicos e fundações. A intenção de rever os contratos das PPP’s. A intenção… Quanto à economia, a palavra usada foi “eu creio” que irá reagir. A questão já não é científica, é do campo da metafísica, do religioso. É uma questão de fé! A desculpa até aqui era o tal memorando. Mas eis que a troika vem imediatamente descolar-se de tais medidas. Afinal, qual o programa que estamos a seguir? Quando, até aqui, todas as medidas eram escuradas pela troika e a essa âncora de memorando, descobre-se, também, mais esta mentira. Mentira que serviu durante um ano para esconder a incompetência e legitimar o roubo. Não foi feita nenhuma reforma estrutural, em nenhuma matéria se avançou com um plano exequível. O único serviço foi despedir, aumentar imposto e agonizar o estado social. Já agora, onde está o parceiro de coligação no governo? Onde anda o seu líder, que não o vejo junto à fronteira a reclamar com o preço dos combustíveis? Não o vejo pelas feiras? Não o vi ao lado primeiro-ministro? Vejam lá se saem dos gabinetes e vêm conhecer o país. Ou então, vão embora.
«A Quinta Quina», crónica de Fernando Lopes

fernandolopus@gmail.com

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