Naquele fim de manhã de Março de 1995 estava no Banco onde eu trabalhava e entra a Cristina, filha do meu colega Luciano e pespega-se à minha frente, dizendo: «Ó Zé Jorge, queres ir fazer um cruzeiro num grande paquete durante 12 dias? Tudo pago, comes e bebes, só tens que ir ao porto de Lisboa e entrar no barco…»

José Jorge CameiraFoi o mote para eu me rir. Fechado naquele banco sete horas por dia, contando o dinheiro dos outros e com pouco dele nas algibeiras, só aquela proposta me faria rir…
Também por que não estava a ver a Cristina convidar-me para fazer um Cruzeiro COM ELA, ou então se me enganava neste raciocínio herege, nem tão pouco fazer uma férias «à grande e à francesa» num desses barcos de luxo, tal como na famosa série televisiva «O Barco do Amor»… Loves in the air, bla-bla-bla…
– É assim – esclareceu ela – dás uma pequena entrada, pagas todos os meses um tanto, fazes o Cruzeiro nas férias de Agosto e depois continuas a pagar todos os meses um tanto até ficar tudo saldado…
Sentindo o corpo aquecer só com a visão das coisas boas que via na tal série televisiva, decidi logo:
– É lá… Assim o caso muda de figura! Põe aí já o meu nome e quanto dinheiro é que tenho de te dar agora…
Nesses dias subsequentes, a minha imaginação ficou mais fértil: rememorizando «O Barco do Amor», aquilo seria só dolce-farniente diário. Gajas boas, de todo o Mundo, lindas, esguias, benfeitonas de todas as cores e idades, sempre em biquinis caidiços ou trajes com rasgões provocantes nos vestidos de soirées, festas loucas, comida farta, estirado ao sol nas espreguiçadeiras contando as gaivotas no ar, os golfinhos em competição com o boat e principalmente olhando as fêmeas na piscina soltando gritinhos com aqueles decibéis que só elas usam nas traqueias…
Que mais podia ambicionar um pobre empregado bancário como eu, do que sentir-se MILIONÁRIO no meio da grã-finagem internacional durante apenas 12 dias do ano?
Lá fui até Lisboa cheio de nervo por tão grande aventura que ia viver. Meus netos e bisnetos irão dizer, olhando as fotos em kodakcolor: tivemos um antepassado ricaço que até fez um Cruzeiro num Transatlântico! Ora bem!
Outra sedução deste passeio seria o facto de porventura eu não conhecer ninguém e ninguém me conhecer naquela Ilha de Ferro Flutuante… Bolas, seria algo incrível eu encontrar alguém conhecido, quando todas as pessoas que conheço no Mundo deverão andar por outros milhões de locais igualmente atraentes e nem todos serão «MILIONÁRIOS» como eu…
Foi no porto de Lisboa que eu fiquei a saber qual era o Paquete Transatlântico no qual eu ia gozar o tal Cruzeiro: era o Paquete Funchal, um montão de ferro velho esticado construído em 1961, embelezado e modernizado para levar turistas papalvos como eu, fazendo de conta serem ricalhaços, a dar uma volta por essas águas mornas espreitando o Mediterrâneo junto às Colunas de Hércules e junto à Costa de África!
Estava eu preparado para subir o escaler do navio com as sacolas, então não é que vejo um casal amigo e cliente do banco descendo com as maletas? Mau… agora lá na cidade já vão saber que afinal um bancário ganha balúrdios de cacau e por isso fui fazer um Cruzeiro! Bem, o que me causou algum engulho foi eles, após saudarmo-nos, olharem para mim e rirem-se com discrição das bermudas que eu tinha vestido: tinham umas flores e umas palmeiras desenhadas!
Um tripulante fardado à polícia-sinaleiro de outros tempos conduziu-me ao meu quarto, um camarote-suite situado ABAIXO da linha de água do barco, por isso era mais barato. Disse-me ele com ar de gozo, apontando a vigia, uma janelinha redonda com vista para o fundo do mar:
– Enquanto viajamos, o senhor pode ver os peixinhos, já viu a sorte que teve?
Pois. Preferiria uma suite mais acima onde se vê o Sol e a vastidão do Oceano. Mas seria o dobro do encargo.
No quarto, sobre uma escrivaninha, estava um Manual de Instruções do Passeio Marítimo. Fui de imediato ver o Calendário das Refeições:
Pequeno-almoço – Lanche – Almoço – Lanche – Jantar – Ceia.
Senti-me feliz, porque comer é um dos meus desportos preferidos!
(Continua)

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
mailto:jjorgepaxjulia4@hotmail.com

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