You are currently browsing the daily archive for Quarta-feira, 12 Setembro, 2012.

«AS TERRAS SÃO TODAS IGUAIS. AS GENTES É QUE SÃO DIFERENTES!» Esta abertura vem a propósito da minha ida ao encerro da Freineda, na passada sexta-feira, dia 8, do corrente mês de Setembro.

(Clique nas imagens para ampliar.)

José Manuel Campos - Presidente Junta Freguesia Fóios - Capeia ArraianaQuando pela zona da Raia só já vive de saudade em relação às festas do mês de Agosto, com particular destaque para os encerros e capeias, eis que é anunciado um encerro que deixa deslumbrados todos quantos se dignam ir até à Freineda, essa simpática localidade, também raiana, mas já do concelho de Almeida.
Fui lá, pela primeira vez, no passado ano – 2011 – e já fiz promessa de ir todos os anos.
Na passada sexta feira fui com o meu amigo Chico Lei, num carro de dois lugares, mas logo atrás de nós seguia o jipe do Lei Chão com mais quatro ou cinco fojeiros. Alguns iam pela primeira vez mas já com algumas boas referências.
Quando chegámos ao local do Taco, também conhecido pelo «Mata Bicho», fomos cumprimentados por alguns amigos que por lá temos e logo nos puseram completamente à vontade. «O que está aqui é para todos!» E o que lá havia. Quantidade e qualidade tanto de comida como de bebida.
«Ó pessoal, toca a aproximar. Isto é para todos. Então já provaram a sangria? E o branquinho? Mas o tinto também não é mau.»
Nas mesas abundava o presunto e o chouriço, entre outras especialidades, mas o leitão acabou por ser rei.
Entretanto iam chegando muitos cavaleiros, carrinhas, tractores e motas que, após uma passagem pelo local do Taco, davam uma arrancada até ao sítio onde se encontravam os toiros prontos para as mais diversas faenas do encerro.
A febre, tanto dos humanos, especialmente dos cavaleiros, como dos bichos era, de tal ordem, que arrancaram todos numa barafunda e correria louca a ponto de me fazerem lembrar as guerras nos desertos de alguns países e que a televisão, infelizmente, nos vai mostrando.
Como o terreno é muito plano também dá para tractores, motas, jipes e carrinhas, correrem na perseguição dos bichos.
Os participantes, numa gritaria infernal, faziam-se ouvir dizendo: «O amarelo já fugiu, os cabrestos também já andam longe mas já lá vêm outra vez. Toca gente a subir para os respectivos veículos para se aproximarem o mais possível dos animais.»
Por fim lá os aproximaram do caminho e em marcha lenta fizeram dois ou três quilómetros até que acabaram por chegar próximo do povoado onde entraram já em grande correria, como é habitual, tendo acabado por entrar na praça com sucesso.
Confesso que gostei de tudo mas, de sobre maneira, da simpatia dos freinedenses que não deixam os créditos por mãos alheias.
Um especial carinho e agradecimento para o amigo Tó Reis, Gonçalves, Mário Rocha e Zé Manel-prof. (entre muitos outros) que fazem questão de servir bem todas as pessoas a ponto de as fazerem sentir igual ou melhor que na sua própria terra.
Um grande Bem-Haja e viva a Freineda por ser um exemplo!
«Nascente do Côa», opinião de José Manuel Campos

(Presidente da Junta de Freguesia de Foios)
jmncampos@gmail.com

Naquele fim de manhã de Março de 1995 estava no Banco onde eu trabalhava e entra a Cristina, filha do meu colega Luciano e pespega-se à minha frente, dizendo: «Ó Zé Jorge, queres ir fazer um cruzeiro num grande paquete durante 12 dias? Tudo pago, comes e bebes, só tens que ir ao porto de Lisboa e entrar no barco…»

José Jorge CameiraFoi o mote para eu me rir. Fechado naquele banco sete horas por dia, contando o dinheiro dos outros e com pouco dele nas algibeiras, só aquela proposta me faria rir…
Também por que não estava a ver a Cristina convidar-me para fazer um Cruzeiro COM ELA, ou então se me enganava neste raciocínio herege, nem tão pouco fazer uma férias «à grande e à francesa» num desses barcos de luxo, tal como na famosa série televisiva «O Barco do Amor»… Loves in the air, bla-bla-bla…
– É assim – esclareceu ela – dás uma pequena entrada, pagas todos os meses um tanto, fazes o Cruzeiro nas férias de Agosto e depois continuas a pagar todos os meses um tanto até ficar tudo saldado…
Sentindo o corpo aquecer só com a visão das coisas boas que via na tal série televisiva, decidi logo:
– É lá… Assim o caso muda de figura! Põe aí já o meu nome e quanto dinheiro é que tenho de te dar agora…
Nesses dias subsequentes, a minha imaginação ficou mais fértil: rememorizando «O Barco do Amor», aquilo seria só dolce-farniente diário. Gajas boas, de todo o Mundo, lindas, esguias, benfeitonas de todas as cores e idades, sempre em biquinis caidiços ou trajes com rasgões provocantes nos vestidos de soirées, festas loucas, comida farta, estirado ao sol nas espreguiçadeiras contando as gaivotas no ar, os golfinhos em competição com o boat e principalmente olhando as fêmeas na piscina soltando gritinhos com aqueles decibéis que só elas usam nas traqueias…
Que mais podia ambicionar um pobre empregado bancário como eu, do que sentir-se MILIONÁRIO no meio da grã-finagem internacional durante apenas 12 dias do ano?
Lá fui até Lisboa cheio de nervo por tão grande aventura que ia viver. Meus netos e bisnetos irão dizer, olhando as fotos em kodakcolor: tivemos um antepassado ricaço que até fez um Cruzeiro num Transatlântico! Ora bem!
Outra sedução deste passeio seria o facto de porventura eu não conhecer ninguém e ninguém me conhecer naquela Ilha de Ferro Flutuante… Bolas, seria algo incrível eu encontrar alguém conhecido, quando todas as pessoas que conheço no Mundo deverão andar por outros milhões de locais igualmente atraentes e nem todos serão «MILIONÁRIOS» como eu…
Foi no porto de Lisboa que eu fiquei a saber qual era o Paquete Transatlântico no qual eu ia gozar o tal Cruzeiro: era o Paquete Funchal, um montão de ferro velho esticado construído em 1961, embelezado e modernizado para levar turistas papalvos como eu, fazendo de conta serem ricalhaços, a dar uma volta por essas águas mornas espreitando o Mediterrâneo junto às Colunas de Hércules e junto à Costa de África!
Estava eu preparado para subir o escaler do navio com as sacolas, então não é que vejo um casal amigo e cliente do banco descendo com as maletas? Mau… agora lá na cidade já vão saber que afinal um bancário ganha balúrdios de cacau e por isso fui fazer um Cruzeiro! Bem, o que me causou algum engulho foi eles, após saudarmo-nos, olharem para mim e rirem-se com discrição das bermudas que eu tinha vestido: tinham umas flores e umas palmeiras desenhadas!
Um tripulante fardado à polícia-sinaleiro de outros tempos conduziu-me ao meu quarto, um camarote-suite situado ABAIXO da linha de água do barco, por isso era mais barato. Disse-me ele com ar de gozo, apontando a vigia, uma janelinha redonda com vista para o fundo do mar:
– Enquanto viajamos, o senhor pode ver os peixinhos, já viu a sorte que teve?
Pois. Preferiria uma suite mais acima onde se vê o Sol e a vastidão do Oceano. Mas seria o dobro do encargo.
No quarto, sobre uma escrivaninha, estava um Manual de Instruções do Passeio Marítimo. Fui de imediato ver o Calendário das Refeições:
Pequeno-almoço – Lanche – Almoço – Lanche – Jantar – Ceia.
Senti-me feliz, porque comer é um dos meus desportos preferidos!
(Continua)

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
mailto:jjorgepaxjulia4@hotmail.com

Os presidentes das juntas de freguesia a agregar, nos termos da legislação aprovada pelo governo, pretendem pronunciar-se contra qualquer solução integradora das respectivas juntas, posição que tomarão na Assembleia Municipal do Sabugal, que se vai realizar no dia 28 de Setembro.

A Comissão Permanente da Assembleia Municipal reuniu na passada sexta-feira, dia 7 de Setembro, no Sabugal, a fim de preparar a próxima sessão, na qual os eleitos locais se pronunciarão quanto ao projecto de redução de juntas de freguesia.
Na reunião, orientada pelo presidente da Assembleia Municipal, Ramiro Matos, estiveram presentes os representantes dos diferentes grupos políticos que têm assento na Assembleia, bem como os presidentes das juntas de freguesias do concelho que, nos termos dos critérios legalmente definidos, terão que ser agregadas.
O Capeia Arraiana apurou que no decurso da reunião apenas três presidentes de junta declaram, peremptoriamente, não aceitar qualquer agregação, sendo frontalmente contra o processo político e legislativo em curso, que visa diminuir o número de freguesias. Tratou-se dos presidentes das juntas da Moita, Valongo do Côa e Penalobo.
Outros presidentes de junta afirmaram que se forem obrigados a agregar-se, aceitarão essa situação. Assim, o presidente da Junta de Freguesia da Lomba, disse aceitar reunir-se a Pousafoles. Outra agregação possível, defendida pelos respectivos presidentes, é a de Aldeia da Ribeira, Badamalos e Vilar Maior, ficando a sede da junta agregada nesta última. Por sua vez também estão dispostos a aceitar associar-se as juntas de Ruivós, Vale das Éguas e Ruvina, ficando a respectiva sede nesta última localidade.
A discussão levou porém a uma tomada conjunta de posição que aponta para a não pronuncia da Assembleia nesta fase, alegando que não aceitar qualquer integração. Na ausência de pronúncia, caberá à comissão criada pelo governo elaborar uma proposta de agregação, a qual terá depois que ser discutida e votada na Assembleia Municipal, altura em que os eleitos locais se pronunciarão sobre o projecto, podendo alterá-lo em função dos interesses das freguesias, desde que se cumpram os critérios legalmente estabelecidos.
A Assembleia Municipal do Sabugal reunirá em 28 de Setembro, sendo expectável que opte pela não pronúncia, manifestando oposição a qualquer agregação das freguesias do concelho.
plb

O manejo do forcão só pode ter êxito assente naquelas quatro virtudes que servem de epígrafe a este texto. A inteligência do rabejador, a destreza dos capinhas que puxam a rez para a lide, a valentia dos laterais e a heroicidade dos fronteiros.

Tourada com forcão

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaComo sabe qualquer iniciado na terminologia do toureio, o responsável pela corrida tem o titulo profissional de inteligente.
Do latim – raízes em inter e legere – é o que lê por sinais, nos dizemos o que é capaz de ler nas entrelinhas, como que discreteando o texto.
A inteligência é fonte de virtudes, até de força, a darmos crédito ao aforismo – nunca faltou força onde sobeja a inteligência, sendo, pelo contrário, a ignorância mãe de todas as derrotas, impotências e franquezas.
Numa corrida, o inteligente tem de saber ler, tanto a feridade o toiro, como a estrelinha do bandarileiro, ou a argúcia do par cavalo-cavaleiro ou ainda a temeridade dos moços de forcado. Para decidir a prossecução ou suspensão da lide, a natureza da pega ou denegar até que seja tentada.
Na capeia raiana, o verdadeiro inteligente é o rabejador, capaz de entrar na psique do touro, adivinhar-lhe os movimentos, perscrutar-lhe as hesitações.
E ao saber das suas leituras ou cognições fazer dançar toda a triangulação, impondo-lhe rota e compasso.
Lembro na Aldeia da Ponte dos meus verdes anos, a inegualável técnica de dois mestres.
Primeiro, o Senhor Quitério e, depois, o Senhor Pausidro, de ascendência espanhola… Albergaria de Arganhã, sendo o nome pelo qual era conhecido provavelmeme um crase sincopada de Paulo Isidro.
Mas que soberbas lições de rabejamento.
E que intuiçao não demonstravam os capinhas. Sem outras armas que uma boina e uma saca a desviarem a rez da sua crença natural e levando-a a investir contra o forcão, onde o esperava o garbo dos laterais e a força hercúlea dos fronteiros.
Destes seja-me permitido destacar os dois que em Aldeia da Ponte marcaram na minha meninice… o Manuel Marcos e o Zé Barreiras. Dois autênticos hércules que faziam afocinhar qualquer toiro.
Rogo também trinta segundos de atenção para dois que foram modelo de capinhas, igualmente em Aldeia da Ponte, o Zefo, que morreu no Brasil, onde se firmava como empresário, e o Manuel Gusmão, conhecido pelo Forcalheiro por o pai ter vivido nos Forcalhos, onde comandou a guarnição fiscal. Ele próprio foi também elemento aliás muito qualificado daquela polícia aduaneira, pois tratava-se pessoa muito inteligente, séria e de bom trato…
«O concelho», história e etnografia das terras sabugalenses, por Manuel Leal Freire

E da Antiguidade aos nossos dias, o touro continuou animal de culto, porque na Península Ibérica sempre foi um animal abundante e todos os povos terão tido uma relação próxima com o animal ao longo dos séculos.

João Valente - Arroz com Todos - Capeia ArraianaProva-se pela universalidade do ódio do cristianismo ao touro e cultos mitraicos, que arrasou templos, estatuária e ritos, substituindo-os por outros como o de aspergir com água benta, procissão do «Corpo de Deus» ou no «Sagrado Lausperene», figuração do demónio (conotado com Mitra).
Contudo, os rituais, mais ou menos escondidos, nunca deixaram de ser realizados, assim se provando que a religião derrotada sempre permanece. Para ESPÍRITO SANTO (1995), as touradas portuguesas, nomeadamente as chamadas populares, têm a sua origem «nestas corridas populares do fim das ceifas, do solstício ou do fim dos trabalhos agrícolas, em Setembro» dos cultos mitaricos em que as festas do final das colheitas e da partilha incluíam sempre touradas seguidas de abate e comida.
Em conclusão, o touro tem sido, além do símbolo de deus, vítima de expiação e repasto colectivo, o elemento central da «festa» e da sua função redentora no Social. Por seu lado, FERREIRA (2007), afirma que «para muitas religiões e mesmo povos o tourear é como homenagear um deus que se encontra na figura do touro».
Este culto permanece ainda hoje nas touradas, as quais celebram a força, potência e fecundidade, porque o touro, possuindo um arreigado sentido de territorialidade, possui coragem e força bruta, é manancial de abundância, estruma as terras e quando domesticado, era um auxiliar dos trabalhos agrícolas.
A capeia é por isso também, como as restantes manifestações tauromáticas, celebração da força, potência, fecundidade, força bruta do touro da manada e força tranquila, manancial de abundância do boi agrícola;.
E assim sendo, além de reminiscência de um culto sagrado, é, neste tempo em que a vertigem da vida moderna e o barulho ensurdecedor das máquinas impedem o homem de ouvir a sua voz interior, um retorno de cada um que nela participa, ao caminho do campo, onde respira o ar variável das estações, da irrupção turbulenta da primavera e o ocaso tranquilo do outono, o cheiro das árvores da floresta, e revive a serenidade melancólica e sabedoria madura do camponês que de madrugada, no tempo certo do ano, sai com os bois para a arada, farnel na cestinha, seguido do grande cão de guarda.
O carvalho do forcão, recordando a árvore mais alta do paraíso, aberta à amplidão do céu, cujas raízes mergulham na fertilidade da terra primordial, resume esta espécie de «Gaia Ciência» da vida em que o homem só é verdadeiro e genuíno se for como o carvalho: disponível ao apelo mais do mais alto e sensível à proteção da terra que sustenta e produz.
A Capeia é, por tudo isto, a celebração de uma liturgia colectiva em nome da natureza, em nome da liberdade absoluta, em nome da amplidão, que contrastam com a liberdade e a cultura das cidades.
E sendo uma liturgia, compõe-se de um conjunto de actividades, gestos, símbolos, linguagem e comportamento, cuja origem, perdendo-se no tempo, que lhe dão um significado próprio.
Obedece a uma lógica, tem uma finalidade, estrutura e causa, e acrescenta um resultado real aos participantes.
No caso da capeia, os símbolos utilizados são o touro e o forcão e o carvalho, que têm a ver com o culto da fertilidade, como já observamos, associados ao mitraísmo e culto de dionísio.
A sequência do seu ritual é a preparação do forcão, o encerro, o desfile, a lide do touro, e o desincerro.
A simbologia do forcão e a lide do touro já os tratamos aqui num texto anterior, para o qual remetemos; o encerro e desincerro, têm semelhanças, e talvez a sua origem longínqua esteja nas procissões dionisíacas e mitraicas; e o desfile com as alabardas no desfile de falos nestas festividades.
É este o ritual que tem caracterizado a capeia e lhe tem dado um sentido coerente. Realiza-la sem qualquer uma destas etapas é desvalorizá-la e empobrecer o seu significado de culto de regeneração e fertilidade.
Um significado coerente com toda a triologia festiva de Cima-Côa, cristã e também pagã, que é constituída pela missa matinal com sermão e procissão, a capeia pela tarde e o arraial ou adega pelo fim do dia.
O primeiro invocando o favor propiciatório do céu, o segundo celebrando a força geradora da natureza, e o último consagração ao sémen fertilizador do homem e libação à seiva frutificante da videira.
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

JOAQUIM SAPINHO

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