Santos roubados de uma terra para outra, de certeza? O Santo Antão era do Casteleiro? Era nosso? Roubaram-no os de Sortelha no princípio do século XVIII? E nestes mais de 200 anos ninguém nunca foi lá buscá-lo? Oh, diabo! E a Senhora da Póvoa também não era do Vale, mas sim da Póvoa, ao pé do Meimão e também foi roubado na mesma altura?

As rivalidades entre terras eram indiscutíveis. Eram eternas, metiam malícia nos versos, mas metiam mais do que isso: metiam porrada de criar bicho quando a malta se juntava nas romarias, por exemplo.
O Povo é terrível. Tão depressa se juntavam todos a beber uns copos, como se enfrentavam a doer na Festa da Senhora do Bom Parto, no Terreiro das Bruxas. E era cá cada arrochada! Quem contra quem? Basicamente, todos contra todos. Aliás, as romarias anuais, essencialmente, serviam para isso. Incluindo a Senhora da Póvoa.
Os do Casteleiro iam já naquela de poder haver gambérria. Porquê? Porque era assim todos os anos, há muitos anos.
Mas o que nessa altura nunca ouvi foi que os santos e as imagens deles não eram de onde se dizia. Que tivessem sido roubados.
Recentemente fui alertado para essas histórias – umas mais antigas, outras mais recentes.
Histórias de roubos de imagens da devoção do Povo há muitas. Umas são reais, outras são contos de fadas.

O Senhor Roubado
Nunca ouviu essa designação «O Senhor Roubado»? Parece que é um exemplo tão grande que até deu para mudar o nome à imagem e ficar mesmo como roubada. E isso já aconteceu em 1671, dizem: vários artigos religiosos foram roubados, dando azo a uma perseguição louca dos cristãos-novos (leia-se: judeus convertidos, quase todos por medo da Inquisição). Teve de intervir o Papa e tudo.
Mais tarde apareceram naquela que hoje é a Calçada de Carriche alguns dos objectos roubados e lá foi construído o Padrão do Senhor Roubado – objectos que tinham sido tirados da Matriz de Odivelas, entenda-se.


Casos recentes
Na nossa zona, há registos recentes de roubos de objectos religiosos que ficaram para contar também. Alguns casos:
– Em 2009, no Vale da Senhora da Póvoa, a «veneranda e antiga imagem» foi «roubada do seu santuário». Foi depois encontrada por um pastor num silvado, debaixo de uma oliveira, segundo informou um membro do clero;
– Em 2008, «desapareceu a imagem da Sr.ª da Boa Viagem e duas pedras do cemitério» (…) isso, após «o roubo de duas pedras trabalhadas do cemitério da Rebolosa. Desta vez foi-nos comunicado que do cemitério de Vila Boa mais duas desapareceram bem como a imagem da Sr.ª da Boa Viagem (ou Sr.ª dos Caminhos)», lia-se no ‘Jornal Cinco Quinas’.
E, mais longe, uma história houve que foi muito badalada há três anos também:
– A imagem de Santo António roubada «por encomenda», em 2009, na Igreja do Cabo Espichel, perto de Sesimbra.
Não admira pois que, por umas razões ou por outras, haja histórias contadas de outras épocas e de roubos bem mais importantes de imagens de santos da devoção dos povos.
Conto duas só, daqui mesmo da nossa região, que podem ter mudado tudo em matéria de romarias – movimentos importantes de população sempre bons para o comércio e para a religiosidade popular, claro.

E o roubo das imagens dos santos?
Será mesmo verdade? O Santo Antão, tão celebrado em Sortelha, santo de festa anual e tudo, foi mesmo roubado ao Casteleiro? Aqueles malandros atreveram-se a isso?
E a Senhora da Póvoa, a da grande romaria anual no Vale de Lobo (hoje também da Senhora da Póvoa) foi mesmo roubada de uma capela perto do Meimão?
Ou são tudo contos de velha ao sol – que é como quem diz: estórias da Carochinha?

Santo Antão
Começo pela minha aldeia, o Casteleiro.
Disseram-me que no século XVIII, antes das respostas do Cura Padre Leal ao Marquês, o Santo Antão era o orago da minha freguesia. Mas a sua imagem terá sido roubada e levada para Sortelha onde ficou até hoje (ver a imagem do andor).
Não acho que isso tenha sido assim.
Se não, por que diabo as respostas do Cura iam omitir uma informação dessas? Mas posso admitir que o Cura estava a responder por ser obrigado (isso sabe-se da História que foi assim) e por isso despachou a coisa sem mais aquelas…
Mas se o Santo Antão era do Casteleiro, então por que carga-de-água os meus antepassados não foram lá buscá-lo, mesmo que fosse precisa uma escaramuça local? No século XX vi e ouvi falar de tantas bernardas com as terras vizinhas, como é que 200 e tal anos antes eram tão molezinhos?
Ná, não me parece… A verdade é que o Santo Antão transformou-se numa romaria regional da minha zona e muitas pessoas iam ao Santo Antão quando eu era miúdo. E nunca ouvi falar deste roubo. Mas há quem tenha uma vaga ideia de essa história ser contada na época.
Veja aqui as imagens da romaria anual, uma semana depois da Páscoa (há um pouco de publicidade antes: não desanime…). Dizem que esta festa é feita «em agradecimento dos lavradores, pelas boas colheitas e pela guarda dos animais contra as doenças». Até levavam os animais para serem benzidos na missa «campal», lá em Sortelha.

Senhora da Póvoa
A Senhora da Póvoa (numa das fotos que se publicam) é muito conhecida? É das romarias mais afamadas da região? Pois bem. Outra história, para mim ainda mais mirabolante, é a que conta que a imagem da Senhora da Póvoa não era originariamente do Vale de Lobo e sim da Póvoa, na Serra de Santo Estêvão, no caminho para o Meimão (pelo lado da estrada do Sabugal, digamos).
Foi-me garantido há tempos por uma amiga de Santo Estêvão que a imagem era dali e que há mais de 250 anos «foi roubada pelos do Vale e nunca mais voltou à Póvoa», como já referi antes.
Também acho estranha a moleza dos da Póvoa – mas enfim.
O cura Olival também diz ao Marquês, calmamente, que no Vale há uma Irmandade da Senhora da Póvoa. Nada de roubos. Mas refere a romaria.
E, curiosamente, do Santo Antão o cura do Casteleiro nem falou mas o do Vale «disse» ao Marquês: (O Vale de Lobo) «tem duas ermidas e uma Igreja caída que foi matriz, e uma capela de Nossa Senhora da Póvoa, e tem mais a imagem de Santa Sabina, está fora do lugar meia légua; e outra de S. Sebastião e tem mais a imagem de Santo Antão».
Portanto dá a ideia de que o Santo Antão ali era venerado, mas na capela de São Sebastião. Será?
Fica mais este registo.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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