O Padreca era um habitante enigmático e sui generis do meu imaginário infantil. Nunca o pude observar pessoalmente. Apenas dele ouvi falar em criança.

Fernando Capelo - «Terras do Jarmelo»Certo dia estaria o Padreca sentado à luz de um sol amaciado por leve neblina, numa manhã de Outono, na margem esquerda do ribeiro passando os olhos descuidados pelos campos, olhando-os sem os fixar. Seria capaz de jurar que eu próprio o teria visto, tão fortemente se cumularam a minha crença com a minha imaginação.
Das águas do ribeiro ainda hoje se avizinham freixos e choupos frondosos. Ainda hoje, por aí, poisam pássaros irrequietos, a refazerem-se dos voos mais pesados.
A paisagem era uma linha de solidão e silêncio apenas pintalgada pelo piar de alguma ave ou levemente sonorizada pelo empurrar mais impetuoso da brisa pouco atrevida.
Há dias de Outono que são assim, herdeiros de madrugadas húmidas e manhãs pouco claras, muito silenciosos e carregados de melancolia. Os dias assim nascidos parecem conter algo de sagrado. Há décadas atrás, tais dias, mostravam, desde a madrugada, homens e mulheres a denunciar sacrifícios. Iniciavam-se, nessa época, àquela hora, as fainas agrícolas, à hora mágica em que a luz ainda não consegue revelar as cores.
O homem de que me falaram deveria ter cinquenta e alguns anos, um vago perfil de pássaro soberbo e uns olhos invictos, implantados num rosto marcado de rugas. Era assim que eu o imaginava. Chamavam-lhe «Padreca» e era uma espécie de versão mais recente do Zé do Telhado. Roubava, apenas, aos ricos muito embora não conseguisse entregar nada aos pobres porque o que furtava mal lhe bastava para saciar a sua própria fome.
Foi, portanto, numa manhã assim, numa manhã de Outono que tudo passou por um grito:
– Olha o Padreca!!
Á hora do grito a aldeia parecia cansada de si mesma. Descia pela colina abaixo, até ao sopé onde se estendiam as velhíssimas casas térreas. Os rostos das gentes permaneciam mal acordados, quase tão pálidos quanto a própria manhã e as pessoas trabalhavam mais do que falavam. Ao grito de «olha o Padreca» o homem ter-se-ia sentido observado e, no seu olhar, terá nascido uma compreensão fatigada. Terá baixado a cabeça e, como num cumprimento, terá aberto um curto sorriso. Depois examinaria o redor e ter-se-á ficado entre a curiosidade e a preocupação antes de cumprir a vontade de fugir.
Após o alarme criou-se, na manhã da aldeia, uma atmosfera densa e barulhenta, quase perigosa, que fez seguir, à frente e em busca do Padreca, alguns rapazes mais novos.
Correram como quem entra num terreno de jogo. Todas as caras do grupo eram minhas conhecidas e ostentavam a gravidade de quem quisesse aprisionar um homem perigoso. Partiram da aldeia, a correr, como uma tribo de guerreiros com gritos e estratégias a tentar intervir na liberdade do Padreca. No entanto, mantinham-se íntimos e programados, calculados, condicionados por eles próprios, quase hostis entre si embora formando uma banda que não precisava de falar para se entender. Entendiam-se por gestos, por olhares enquanto tomavam a direção do riacho.
Ainda hoje não sei se a esse conhecimento entre eles se poderá chamar amizade!
Mas, nada. Nada disso acabou por valer a pena porque se a principal personagem desta história alguma vez esteve na margem do ribeiro, terá desaparecido como a mais volátil imagem. Consta, até, que, logo a seguir, teria retirado de um cesto de merendas o tacho de caldo que uma patroa, abastada, transportava para os seus assalariados rurais. Logo ali, no meio do caminho e na presença da dona, terá deglutido tanto caldo quanto teria sido capaz. O resto, o que não conseguia comer, que o levasse a dona aos trabalhadores que também haveriam de ter precisão de sustento.
Nesta história, que hoje conto, garanto o reboliço da aldeia não sabendo até onde vai a veracidade no que respeita à presença e à fuga do Padreca. Não sei mesmo se ele esteve ou não na ribeira, se durante a fuga roubou o caldo ou se a sua presença naquele dia foi, apenas, fruto de férteis imaginações.
Contudo, o Padreca de que me falaram foi muito além do meu acreditar de criança e desenhou-se na minha memória como um singular e assustador assaltante de caldos.
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

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