Há quinze dias, trouxe aqui algumas palavras cujo sentido foi corrompido pelo uso popular. Por sugestões várias, hoje trago, sem organização nem sistematização, expressões onde palavras aparecem fora do seu significado de origem. Chamei-lhes palavras mutantes, só para brincar às expressões.

Por exemplo:
– Aquele anda sempre com macacadas.
Quer dizer que ora diz uma coisa, ora diz outra; ora se comporta de uma maneira, ora de outra. Não se pode confiar muito no que ele diz e faz. Ou então que é pouco firme nas suas atitudes para com os outros.
Sendo macacada, em princípio, um conjunto de macacos, parece-me que a palavra aparece naquela expressão de algum modo abastardada também.

– Ah, cão de água!
Uma mãe, já farta das tropelias do filho, chama-o para vir para casa e comportar-se com juízo. Como ele não deixa de fazer asneiras, vai de rotulá-lo como cão-de-água. Como se o animal não fosse em si mesmo tão bem educado e tão meigo. Então os cães-de-água (como o da foto), coitadinho… Repare que, no apelo da mãe, não usei os traços que uso no nome da raça do animal. Porque para a mãe, não de trata de facto de chamar animal ao filho mas antes de o rotular como um grande rufia.

– Aquilo é um cepo.
Isto significa que a pessoa mal de mexe. Ou também que não tem grande habilidade manual.

– Estás um bom agoniado.
Ou:
– Aquela anda sempre agoniada.
Significado: a pessoa em causa anda sempre mal disposta, trombuda.

– Saíste-me um bom amigo da onça.
Isso significa que a pessoa se portou mal e que faltou aos deveres da amizade.

– Hoje dormi que nem um prego.
Dormi profundamente, não dei conta de nada. Podia passar-me um camião por cima que eu não acordava.

– Aquilo é que é um águia…
Quer dizer que é bom no que faz, que tem boas notas nos estudos ou que surpreende pela agilidade no discurso ou até no que transmite. «É um águia», como também «É um ás?», em geral quer dizer que é muito bom na sua área, ou muito esperto. «É um rato» significa que é mesmo rápido a perceber as coisas: que é muito vivaço.

– É um pato.
Deixa-se enganar com facilidade.

– Caiu que nem um patinho.
Deixou-se enganar e nem deu por ela.

Há muitas, mas muitas outras palavras com significado mutante. Por todas, recordo ao leitor estas:
Porco, bácoro, bacorada, reco – para significar pouca limpeza. Mas a palavra «bacorada» em geral é usada para falar de uma grande asneira. Note que a própria palavra «asneira» aparece aqui corrompida (que culpa têm os desgraçados dos asnos, os burros, que até nem fazem mal a ninguém?).

Nota:
Célio Rolinho Pires, nesta belíssima crónica (primeira de uma série de três – todas já publicadas e lidas com avidez, pelo menos no que me toca), chama à colação, no final do texto alguns versos de um Cancioneiro do Alto-Coa. Chama a nossa atenção para a ironia, o humor e a malícia com que cada terra trata as suas vizinhas.
Por isso, veio-me logo à mente, e não quero deixar de partilhar aqui com os leitores uma quadra popular da minha meninice sobre as terras em volta do Casteleiro.
Dizia assim:
Sortelha só tem barrocos;
A Moita, casarões;
Casteleiro, lindas moças;
Vale de Lobo, paspalhões.

Que perdoem os meus amigos destas terras, mas isto era mesmo assim: no Casteleiro diziam-se estes versinhos de brincar às rivalidades regionais.

«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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