Agora, que a época das capeias arraianas terminou, parece-me oportuno reflectir sobre o que ela foi.

Este era o primeiro ano em que a capeia arraiana se apresentava ostentando a classificação de património cultural imaterial nacional. Alguém se lembrou disto? Creio, até, que a maioria dos arraianos nem sabe de tal título atribuído à sua maior manifestação cultural. Pois bem, a primeira questão desta reflexão, prende-se precisamente, com o título desta crónica: chamar os bois pelo nome. Uma capeia arraiana não é uma garraiada, uma garraiada não é uma largada e uma largada não é um touro á corda. Um touro e um forcão não é uma capeia arraiana! Uma capeia arraiana é composta por três momentos: encerro (ir a buscar os touros a pé, repito, a pé – cavalos e pessoas – e encerrá-los); esperar os touros ao forcão (afoliá-los*) e desencerro (levar os touros de volta a pé). São estes os momentos que compõem uma capeia arraiana. Sem o cumprimento testes três momentos, portanto, com a falta de algum deles, não se cumpre a capeia arraiana. Será somente uma garraiada com forcão. Ora, esta época houve acontecimentos que feriram o cumprimento destes momentos, não cumprindo, assim, a tradição da capeia arraiana. Neste ano (e sempre) era importante que a matriz da tradição fosse e seja cumprida. O que candidatámos a património e nos foi concedido foi a capeia arraiana com todos os seus rituais. Não foi isso que aconteceu. Houve falhas que não podem acontecer, sob o risco de estarmos a entregar argumentos que funcionam contra nós. Prepara-se para Setembro a entrega de um Projecto lei contra as touradas. É bom que estejamos atentos. Por isso, não consigo perceber por que motivo, e é a segunda questão desta reflexão, não existe uma espécie de entidade reguladora que preserve oficialmente o conceito da capeia arraiana. Onde está o pelouro da cultura? O que foi feito neste ano para a divulgação da capeia arraiana como património cultural? E não me refiro á divulgação nacional, mas aqui, na raia? Se queremos valer-nos desta tradição, se a queremos preservar e rentabilizar como um valor cultural e económico, temos que fazer muito mais. As capeias arraianas não podem continuar a ser tratadas desta forma. É preciso um maior rigor no cumprimento dos rituais, na seriedade dos encerros, na apresentação e cuidado dos animais (a presença oficial de um veterinário é imprescindível) e na assistência médica.
Como primeiro ano de património demos uma má imagem das capeias arraianas. Se tudo deixarmos como está, corremos o risco de deteriorar-mos a capeia arraiana. E esta, não é somente um espectáculo com touros. É muito mais. É a maior manifestação social e cultural comunitária.

* Significa correr os touros, tourear.
«A Quinta Quina», crónica de Fernando Lopes

fernandolopus@gmail.com

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