No dia 16 de Agosto, foram inauguradas na Miuzela as instalações definitivas da Associação de Cultura Prof. Dr. José Pinto Peixoto, insigne cientista natural dessa freguesia do concelho de Almeida. Coube ao escritor e investigador Célio Rolinho Pires, natural de Pêga proferir no acto uma conferência, que nos transmitiu que publicamos na integra, embora, dada a sua extensão, dividida em três textos que publicamos em dias sucessivos.

Deixem ainda que, a título de hipótese, ou de exercício meramente académico, (penso não ser proibido!), e com base em três nomes de rios (hidrónimos) declaradamente romanos, em alguns topónimos bem conhecidos, complementados pela cultura popular no que, ainda, ao Cancioneiro do Alto-Coa se refere, me atenha ao que considero ser uma unidade espacial importante, espécie de pequeno país lusitano, a que nós beirões do Alto-Coa pertencemos, e aferir assim de hipotéticos avanços, faseados no tempo, de forças invasoras, provavelmente romanas. Vejamos.
O Rio Zêzere, a poente, que começa por definir o vale da Amesendinha a partir de Belmonte, mais não é, em termos etimológicos (José Pedro Machado) que o rio de César, querendo talvez significar que o espaço para além dele (adentro da hipótese que coloco – o lado poente…) é romano. Mas mais a norte, próximo de Famalicão da Serra, temos também a Ribeira do Quêcere, um afluente do Mondego, que é também o nome de César com pronúncia clássica, ou seja, o C a valer Q. Os entendidos sabem disso. Em termos delimitativos penso que o Rio Noémi, cujo significado desconheço, e que vos é aqui bem próximo, bem poderá ser o prolongamento da ribeira do Quêcere até ao Coa, a fechar o quadrilátero a norte. Mas, certo, certo, é que do lado leste temos um outro nome romano – o rio Cesarão – igualmente um rio de César, cujo aumentativo, poderia ter, tal como hoje, um sentido depreciativo ou pejorativo. Este rio, vindo de Aldeia da Ponte, a que se junta a ribeira das Chulreiras (ou Churras – ovelhas) de Aldeia Velha, fecha do lado leste o polígono ao desembocar no Coa entre Porto de Ovelha e Badamalos, como vocês sabem. A Sul, e mais uma vez, o Cancioneiro do Alto-Coa, a propósito do topónimo Malcata, seja a povoação seja a serra, diz-nos que «aí tocam armas ou caixas nem que seja para espantar os pardais». Este verso condiz, reparem bem, com o étimo de Malcata que é Male Capta, ou seja, espaço mal conquistado, querendo significar que aí, por esse lado sul, as populações do polígono em análise resistiram por largo tempo ao inimigo invasor de modo a que o fenómeno ficasse registado na linguagem. Mas há mais: o termo Coa, de um ponto de vista semântico, é francamente indígena, autóctone, a contrastar com os nomes romanos anteriores, quer considerado como cuda ou coda, com o significado de crina ou cauda de cavalo, quer seja cola – serpente. Ainda hoje o verbo colear, de cola, significa exactamente isso – serpear, serpentear. Portanto o rio Coa é pertença de povos que, entre eles, teriam o rito ou o culto da Serpente, e isto condiz ainda com o que consta do Ora Maritima de Avieno (século IV AC) ao falar dos Sefes e dos Draganes, adoradores da Serpente e do Dragão, eventualmente do Lagarto. Mas mais ainda: os dois topónimos – sabugal velho, nas imediações de Aldeia Velha e o sabugal novo (o actual) não terão nada a ver com os sabugueiros, penso, mas sim com a passagem dos sabujos em dois momentos históricos diferentes. Interessante de referir que o ponto exacto do sabugal velho não é no castro da Senhora dos Prazeres, junto da capela, mas em baixo, na ribeira das Chulreiras onde aliás existe uma cruz gravada numa pedra. Sabugal, em termos etimológicos, será assim um composto de sabujos + callis. Callis é o mesmo que a calle espanhola e significa rua, quelha, passagem estreita…Temos por aí muitos topónimos com esse nome… Sabujo, segundo o Dicionário da Língua portuguesa, significa “cão de montaria”, o que condiz com a cultura lusitana em que os perros ou cães estão em relação com os malfeitores, os prevaricadores, os traidores, os inimigos, como tenho proposto nos meus trabalhos. Portanto, estes cães, ou perros, ou sabujos, serão assim, originariamente, os romanos, os invasores, vindos de leste pelas Calçadas da Guinea, Dalmacia, e até de algumas derivações da Colimbriana que, segundo o Dr. Eurico Palos, passaria no alto do Barreiro aqui na Miuzela. Mas também pela via romana que ia de Mérida a Braga passando pela Idanha-a-Velha, Vale da Senhora da Póvoa e Centum Cellas de Belmonte… Isto converge, ainda, com os «cães de fila» do Cancioneiro do Alto-Coa que não terão nada a ver com a bondade ou maldade dos habitantes do Sabugal mas sim com os invasores de outras eras. Demasiadas coincidências! Não acham? Nada de extravagante quanto a esta minha interpretação para o étimo do Sabugal! Portugal não deriva também de portus-calle, ou seja, a passagem do porto?
Penso que a investigação, ao nível da História, pois é disso que se trata, terá abusado do método analítico e desprezado a síntese que pressupõe uma visão global, abrangente e multidisciplinar para a descoberta da verdade. Não me parece que o microscópio seja o aparelho indicado para a investigação histórica. Ao fim e ao cabo, tudo funciona como um puzzle em que as peças que não encaixam sobram necessariamente.
Finalmente, contextualizado que está, penso, o tema que aqui me trouxe, será tempo de vos falar do Porto Mancal que não pode, de modo algum, ser analisado fora da temática das Pedras que tratei nos meus três livros já publicados sobre o assunto. Não faria sentido, todavia, não sei se vocês teriam paciência para ouvir, mesmo que resumidamente, tudo o que ao tempo escrevi (1995, 2001, 2011) respectivamente em Os Cabeços das Maias, O País das Pedras e Na Rota das Pedras.
Grosso modo, e de forma sucinta, com estes meus livros, pretendi demonstrar, e penso tê-lo conseguido, que as Pedras, ou algumas Pedras, seja no tocante às muitas formas que apresentam, seja no que respeita às marcas nelas gravadas, não são um fruto da erosão provocada por ventos, mares que nunca existiram, chuvas, líquenes, como alguns pretendem, mas sim um resultado da acção do homem pela via do martelo e do escopro e do pistolo, pertencendo por isso à época e à cultura do ferro. Mais, ao inserirem-se em um contexto espacial de um determinado tipo de povoamento, no geral disperso, e de cultura (lusitana, penso), essas formas, essas marcas, têm um determinado significado que propus nos meus livros atrás referidos. E é aqui, neste tipo de interpretação proposta por mim que residirá porventura, alguma novidade, algum atrevimento, talvez pioneirismo, como lhe queiram chamar. Não há ninguém aqui, penso, que por esses barrocais fora, não tenha já tropeçado com o que parecem ser cabeças, cágados, figuras antropomórficas, zoomórficas, sulcos, poças, umas maiores, outras menores, etc, etc. No tocante à detecção do fenómeno são muitos os autores que a ele se referem. Entre outros, o nosso quase conterrâneo (da Ruvina), Dr. Joaquim Manuel Correia, já no século XIX, nas suas «Memórias sobre o Concelho do Sabugal», um grande livro, escrevia: «No limite da Ruvina cujo solo é todo granítico, existem grandes rochedos, a que chamam barrocos, que dão à paisagem um aspecto áspero e rude, mas onde há muito que observar porque nalguns existem vestígios incontestáveis de em tempos remotos o homem ter neles assinalado a sua passagem…Referimo-nos às fossas ou pias existentes nos barrocos, algumas denominadas cúpulas pelos especialistas». Leite de Vasconcelos chama-lhes covas ou covinhas. Eu chamo-lhes tão simplesmente poças, como toda a gente, por aqui, lhes chama!. Mas também as constituições dos bispados, o próprio S. Martinho de Dume (Século VI) a estas Pedras se referem ao proibirem certos cultos, por sinal bem tardios, por parte dos cristãos, que tarde ou nunca deixaram de venerar e honrar. Daí, e ainda, as muitas cruzes que por aí existem nos barrocais com vista à sua cristianização. Tratei disso abundantemente nos meus livros.
Uma das conclusões a que cheguei nos meus trabalhos, e a que já atrás aludi, é a relação directa e intrínseca dos nomes dos terrenos em que certas Pedras se situam, ou seja, os topónimos rústicos, com a função que essas Pedras tiveram em determinado momento histórico, certamente antes do advento do Cristianismo e da dita romanização. E é aqui que começa, ou melhor, continua, para mim, a história do vosso Porto Mancal que passarei a contar-vos pois, como disse no início, foi esta a principal razão que aqui me trouxe.
Conheci as sepulturas do Porto Mancal (6) aí pelos fins da década de 90 por intermédio do meu amigo, Sr. António Fernando, ao tempo penso que secretário da Junta de Freguesia da Miuzela, que fez o favor de me levar até lá, que observei e fotografei com a ideia de virem a integrar o meu livro «O País das Pedras», o que aconteceu, e que viria a ser publicado em 2001. Propus ao tempo, e mantenho, que essas sepulturas, como no geral as que se encontram abandonadas pelos nossos campos, quase sempre descontextualizadas, serviriam para expor o defunto, honrá-lo, venerá-lo, perfumá-lo, consoante o seu estatuto social ou guerreiro, antes da cremação – à semelhança, aliás, do que aconteceu com os funerais de Viriato, segundo os textos. Sabendo eu, no entanto, da relação dos topónimos com o fenómeno cultural do que aí se passava, ou à volta, dei em reflectir sobre o étimo de Mancal e proceder a outro tipo de observações, certo de que iria encontrar outros elementos, para além das sepulturas, em convergência com o seu significado. E não me enganei. Mancal vem de manco (mancus,a,um – lat.). Manco, como toda a gente sabe, é aquele que coxeia, a quem eventualmente falta uma perna; mas, na origem, manco era aquele a quem faltava qualquer coisa, fosse uma perna, um braço, uma das mãos, o nariz, ou até outras coisas em sentido ético e moral que eu agora não digo. Nesse sentido, o termo francês, «manquer», que muitos de vocês conhecem melhor que eu, estará mais próximo da sua verdadeira origem semântica pois significa tão somente faltar (seja o que for). O texto de Estrabão acerca da justiça lusitana também ajudou: «Os lusitanos cortam as mãos dos prisioneiros e consagram as direitas aos deuses; aos condenados à morte precipitam-nos e os parricidas são apedrejados e expulsos para além das montanhas e dos rios». Uma fotografia aérea do local gentilmente cedida pelo Sr. Dr. Eurico Palos, que ampliei, foi-me decisiva no sentido de poder reconstruir a área em que se situam as sepulturas, de formato ostensivamente fálico, eventualmente dividida em duas partes: uma afecta ao poder civil e militar (digamos) e a outra que seria o campo dos mortos, separados os dois espaços por uma divisória ou parede assinalada ainda hoje por um montão de pedras de que faz parte a da entrada com olhal para varal. Quanto às sepulturas, uma poça para trave mestra, mais ou menos ao meio do conjunto fúnebre, diz-nos que se tratava de uma área coberta, o que é natural. Um escudo derrubado, próximo e a sul, com o valor de sentido proibido, significa que o espaço das sepulturas era uma área interdita, o que também é natural. Um portado a norte sugere a saída dos despojos fúnebres rumo às aras crematórias, masculina e feminina, no barroco contíguo ao caminho velho e que corre junto ao muro norte do campo dos mortos. Na cabeça do acampamento, a poente, restos de muros de pedra solta atestam da existência de eventuais habitações, pelo menos duas, a justificar, no futuro, trabalhos de escavações arqueológicas.
Extra-muros, ou seja, fora da área vedada pelas paredes e alguns cavalos de frisa intervalados, na crença de que os condenados manchavam com o sangue a «civitas» ou o acampamento, tinham vez as execuções pela decapitação ou aplicação de outro tipo de penas, eventualmente a amputação de membros, a cegueira, e outras, bem em consonância com o significado e a semântica do termo Mancal. Daí os patíbulos executórios – o feminino a poente, e mais alto no terreno, assinalado por uma cabeça de mulher e com um símbolo feminino a meio de espécie de terreiro. O masculino situa-se lá ao fundo, a nascente, junto das aras crematórias. Um símbolo vélico, espécie de triângulo rectângulo, a nascente, e bem visível do fundo da ladeira, dos lados da ribeira do Noémi, atesta do grupo social e militar dominante – os vélites – a quem estaria confiado aquele espaço. As Eiras Velhas, o caminho dos Mortórios, surgem já na parte final do meu trabalho, como um complemento e como que por exclusão de partes, a justificar e a confirmar toda a semântica e todo o contexto fúnebre e sacrificial do Porto Mancal
Mas o texto do meu livro «Na Rota das Pedras», as fotos, e, seguramente, uma visita ao local, falarão muito mais do que aquilo que eu vos disse ou possa dizer.

Célio Rolinho Pires

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