No dia 16 de Agosto, foram inauguradas na Miuzela as instalações definitivas da Associação de Cultura Prof. Dr. José Pinto Peixoto, insigne cientista natural dessa freguesia do concelho de Almeida. Coube ao escritor e investigador Célio Rolinho Pires, natural de Pêga, proferir no acto uma conferência, que nos transmitiu e que publicamos na integra, embora, dada a sua extensão, dividida em três textos que publicamos em dias sucessivos.

De referir ainda que, aquando da celebração do Tratado de Alcanizes em 1297, pelo rei D. Dinis, o espaço português até ao Algarve já estava definitivamente conquistado, o que aconteceu em 1249 com o rei D. Afonso III, como é sabido. Mesmo pelo que a nós diz respeito, neste espaço de aquém do Coa, também a fronteira a essa data estava já definida por esse rio e o território organizado e defendido pela Cidade da Guarda cujo concelho em termos de projecto ia até ao Tejo (1199) mas que, na prática, teve de repartir, dada a sua extensão, pelos concelhos de Vila do Touro e Sortelha (1228) que compreendiam uma boa parte das Terras do Estremo, até à Fatela, no sopé da Serra da Gata, incluindo terras hoje espanholas, seja, Valverde del Fresno, Eljas, S. Martinho de Trevejo, Hoyos, Vila Miel, etc, onde, aliás, ainda hoje se fala um dialecto galaico-português que Leite de Vasconcelos apelida de «Samartinhego», certamente uma fala residual dos tempos da presença portuguesa no Estremo (século XII a XIV). Mais ainda, e já que se trata de direito consuetudinário, os Costumes da Guarda, reduzidos a escrito apenas em 1217, no reinado de D. Afonso II, e com aplicação seguramente no território do seu concelho, que era a margem esquerda do Coa até ao Erges, na encosta da Serra da Xalma (Valverde), falam já, no seu art.º 117-º, dos «aveladores do monte», ou seja, os vigias ou sentinelas, espalhados pelo território, que tinham privilégios idênticos aos dos andadores (espécie de GNR), aos avinadeiros encarregados de levar as partes a acordo e aos saiões que aplicavam a justiça (algozes, carrascos…). Conheço duas dessas vigias naturais, entre fragas, uma na Vila do Touro, outra no S. Cornélio. Tratei de tudo isto no meu livro «A Guarda No Caminho do Estremo» (2001) em que me propus, e penso tê-lo conseguido, definir o papel da Guarda-Cidade, no alargamento do território até ao Tejo e na definição das fronteiras com o Reino de Leão pelo Coa e pelo Erges e ainda a organização das populações, de permeio, em concelhos, nomeadamente, como disse, Vila do Touro e Sortelha. Evidente que uma análise dos Costumes da Guarda e dos Forais destes concelhos teria de ser feita e foi-me muito gratificante e compensador verificar que muito do vocabulário e da cultura popular do Alto Coa têm raízes arcaicas bem profundas, no mínimo século XIII, ou mesmo antes, dado o cariz do direito consuetudinário predominantemente oral dos Costumes da Guarda que Alexandre Herculano classifica de os mais representativos do reino. Penso que alguns conflitos entre as populações de um e do outro lado da fronteira, pelo Coa e pela Ribeira do Boi, terão sido meramente episódicos e pouco duradouros, quase sempre, por razões de acerto dos limites e poderes dos concelhos ribeirinhos. Haja nomeadamente em vista o derrube do Castelo de Vila do Touro em 1221 pelos do concelho da Guarda e o diferendo acerca dos termos entre o concelho do Sabugal e o concelho de Sortelha, já depois do Tratado de Alcanizes, e resolvido pela Carta da Fatela (do Estremo e não de Penamacor!) em 1315, sob o alto patrocínio do Rei D. Dinis (Ver A Guarda no Caminho do Estremo).
Todavia, e antes dessa circunstância do alargamento dos vários reinos hispânicos, com o objectivo comum de recuperar o território aos mouros, penso que as populações de um e de outro lado do Coa reagiram sempre em bloco e solidárias perante inimigos comuns que, no geral, se apresentavam de leste, e não foram poucos ao longo da História. Vejamos.
Logo no início do século VIII AC, com origem no Danúbio e na Anatólia, foram as invasões indo-europeias que, segundo Manuel Gorbea Almagro, professor da Universidade de Madrid, terão trazido consigo a língua, a religião, a cultura do ferro e o culto da incineração dos mortos. Serão porventura estes povos que estão na origem da cultura ibérica que os romanos vieram encontrar no século II AC, aí incluída certamente a cultura lusitana..
Depois, aí pelo século III AC, foram os cartagineses que abriram as portas aos romanos e a cujo general, Aníbal Barca, e a propósito da ferocidade dos lusitanos, se atribui a ironia da seguinte frase: «andei por lá (na Lusitânia) e o que de mais feroz encontrei foram os rebanhos que tive de afastar a pontapé para poder passar com os meus soldados».
Depois (século II AC) foram os romanos cuja luta se prolongou por cerca de dois séculos. E a luta de guerrilha desencadeada pelos povos autóctones, nomeadamente lusitanos e vetões, não foi pera doce para eles.
A seguir foram os povos bárbaros (século V DC) – vândalos, alanos, suevos, visigodos que retalharam entre si o Império Romano e estarão na origem dos vários reinos ibéricos com destaque, no início, para o Reino dos Suevos (Braga) e o Reino dos Visigodos (Toledo).
No século VIII (711) chegaram os árabes que, em pouco tempo, ocuparam a Península, à excepção das Astúrias, dando origem ao movimento de sinal contrário – a Reconquista Cristã – que terminará apenas em 1492 com a conquista do Reino de Granada.
Quanto a leoneses e castelhanos não foram poucas as vezes que as populações fronteiriças tiveram de os enfrentar, quase sempre em relação com as várias crises dinásticas, nomeadamente a de 1383/85 e aquela que se seguiu à morte de D. Sebastião em Alcácer Quibir (fins do século XVI). Quer isto dizer que a independência e a liberdade de Portugal que alguns povos ibéricos separatistas ainda hoje pedem a Madrid, não foi uma dádiva dos nossos «hermanos» do tipo do «tostão manuelino» que o alcaide do Sabugal dava todos os anos em uma salva de prata ao alcaide de Sortelha por despacho de Filipe II, em 1615, segundo o tombo desta vila.
Finalmente (princípios do século XIX) foram os franceses de que o Prof. Pinto Peixoto no seu livro sobre a Miuzela nos conta tantas histórias ouvidas à sua avó, ao abordar também a questão das milícias, das ordenanças e até da Ronda, em sentido próprio, quando os tambores anunciavam o perigo pelas ruas das aldeias.
De todos estes povos, não há dúvida que aqueles que mais marcas terão deixado na nossa cultura terão sido os romanos – é pelo menos o que consta! Basta pensar na rede viária, na organização e na unidade política e administrativa das populações, no direito, aquedutos, teatros, anfiteatros, pontes, etc. Já quanto à romanização linguística e à introdução, pela primeira vez, do latim como língua mãe e base das várias línguas românicas, não me parece que isso seja tão linear assim… É francamente perturbador, pelo menos, no tocante às inscrições das Fráguas e de Lamas de Moledo, consideradas do século I AC, e até a muitos dos topónimos que fazem ainda hoje muitas das matrizes das Finanças dos vários concelhos, constatar que muitos desses nomes pertencem ao denominado português popular, seja latim, seja grego, seja céltico, seja de origem obscura, todavia português, e anterior à chegada dos romanos. É que, muitas dessas palavras, sobretudo os topónimos têm a ver com a cultura das Pedras e com a função que elas tiveram antes da romanização. Sirvam, a todos os títulos de exemplo, topónimos como a Cornusela (santuário lusitano), as Carapitas, a Maçaperra, o Peneducho, o Barroco Empinado, o Tamanco, a Laje da Lancha, a Sangrinheira, as Panchorras, o Porto Mancal, etc, etc, muitos deles tratados no meu livro «Na Rota das Pedras». É que, não faria sentido, seria mesmo um absurdo, as Pedras, nomeadamente as que integram os patíbulos executórios, de que apresento vários modelos nos meus trabalhos, incluindo o vosso Porto Mancal, terem funcionado como tal em determinado momento histórico (séculos I, II AC?) e virem a ser baptizadas pelos romanos 300 ou 400 anos mais tarde. Mas essa questão ficará para os eruditos, ou tidos como tal, resolverem.

Célio Rolinho Pires

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