No último fim-de-semana de Agosto chegou a notícia do falecimento do Bispo Emérito de Angra do Heroísmo – Açores.

Nasceu há noventa e dois anos em Alcains – Castelo Branco. Frequentou os Seminários do Gavião, Alcains e Olivais. Em 1943 foi ordenado Padre em Portalegre e fez um percurso em diversas paróquias; foi professor no Seminário do Gavião, em alguns colégios e no ex-Liceu de Nuno Álvares em Castelo Branco. Foi um grande dinamizador da Ação Católica.
Em 1974 foi nomeado Bispo de Angra, onde se mantém até 1996. Tem na sua Diocese dois atos que os açorianos não esquecem: foi o grande impulsionador do Culto do Senhor Santo Cristo dos Milagres e colaborou intensamente no processo de reconstrução das Ilhas Terceira, Graciosa e S. Jorge, depois de o sismo que as abalou em Janeiro de 1980.
Feita esta apresentação biográfica, vou à gaveta dos apontamentos, e lá encontro resquícios de um longo encontro com D. Aurélio Escudeiro em Castelo Branco. A edilidade albicastrense quis prestar homenagem a todos os sacerdotes do seu concelho. Pelas funções dirigentes que desempenhei e pelas ações cívicas que efetivei na Cidade de Amato Lusitano, fui convidado para essa Cerimónia de reconhecimento público a todos os agentes pastorais, na pessoa dos Párocos.
A seguir a um ato religioso fomos almoçar num restaurante local. Na mesa para onde fui encaminhado incluía-se D. Aurélio Granada Escudeiro, atualmente a residir em Alcains. Na troca de cumprimentos informo-o que trabalho em Castelo Branco e que casei em Aldeia de Joanes – Fundão.
Esta Freguesia era-lhe muito familiar e dizia-lhe algo. Numa longa conversa adiantou-me que o pai – João Lourenço Escudeiro – desempenhou durante muitos anos a tarefa de Feitor na Casa do Outeiro. Trabalho de muita responsabilidade. Por ele passava toda a estrutura rural, a funcionar ainda em moldes feudais, dado tratar-se de gente de sangue azul. Nas suas funções contavam-se: recrutamento de pessoal agrícola, pagamento dos seus soldos, distribuição de tarefas, o uso da disciplina e da justiça.
Também a sua mãe – Maria Belarmina Pinheiro – teve um papel importante naquela casa, colaborando com o marido.
D. Aurélio teve um irmão – Padre José – que desenvolveu um trabalho pastoral muito importante em prol das comunidades de emigrantes, principalmente na Alemanha. Da sua família, duas irmãs também se destacaram. Uma delas, de nome Evangelina, é Professora-Regente em Aldeia de Joanes, ensinando alunos até à terceira classe. A Escola funcionava numa das salas da casa do Joaquim de Almeida, que chegou a ter uma Taberna. A sua especialidade era vender a carne das rezes, que vendia diariamente e fazia os enchidos muito gostosos. Alguns chegaram à mesa do Papa João Paulo II, em Roma, através do Embaixador de Portugal que tinha raízes no Fundão.
Esta professora-regente casou com Joaquim Francisco Xavier, natural de Aldeia de Joanes, que abraçou a carreira militar na antiga Polícia de Viação e Trânsito, mudando a residência para Coimbra.
Com os pais cristãos praticantes, D. Aurélio deslocava-se à histórica Igreja Matriz de Aldeia de Joanes, a fim de assistir aos mais diversos cultos, tendo bem viva na sua memória a riqueza dos diversos altares e os cânticos religiosos entoados pelo povo.
Também me falou da festa do Espírito Santo, na Casa do Outeiro, sempre que a família Trigueiros assim entendia, chamando as gentes de Aldeia de Joanes para a prepararem. Esta realizava-se no recinto da Quinta. Aqui falou-me com muita vivacidade, lembrando-se das festividades nos Açores.
Recorda-se de ali receber as Boas Festas, o Compasso, a visita do Pároco de Aldeia de Joanes, anunciando Jesus Cristo Ressuscitado.
Com tantas ligações a Aldeia de Joanes, informei-o que hoje já não conhece estas paragens, onde os seus pais estiveram durante mais de uma década. Nos últimos anos Aldeia de Joanes tem bairros novos, uma fábrica de confeções, oficinas. Há um misto do rural com o urbano. É um dormitório do Fundão e está a crescer em termos demográficos e urbanísticos.
Assim convidei-o para uma romagem de saudade a estas terras que o acolheram na sua juventude, das quais tem boas recordações, oferecendo-lhe total disponibilidade para o transportar de Alcains a Aldeia de Joanes e vice-versa. Aderiu à ideia, dando-me todos os contatos para se concretizar este objetivo.
Apesar de diversos telefonemas, não se realizou a vinda, umas vezes porque já tinha compromissos e outras porque a débil saúde não lhe permitia viagens nem estadias alongadas.
Descanse em Paz a sua Alma…
António Alves Fernandes – Aldeia de Joanes

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