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Todos os anos o ciclo das touradas com forcão na raia sabugalense tem o seu ocaso com a realização da tradicional capeia arraiana de Aldeia Velha, no dia 25 de Agosto. Este ano estivemos na festa brava, palco de todos os encontros.

Desde 6 de Agosto na Lajeosa da Raia até 25 em Aldeia Velha, correm 19 dias de intensa vida na Raia Sabugalense, em que a tourada com o forcão é a demonstração festiva essencial. A tourada de Aldeia Velha, por ser a derradeira em cada ano, colhe atenções especiais e junta sempre um mar de gente.
Neste Agosto de 2012 não foi diferente. Aconteceu a um sábado, o que facilitou a mobilização geral.
O imenso público assistiu pela manhã ao encerro dos magníficos toiros do ganadeiro Zé Nói. Dezenas de cavaleiros encarregaram-se de conduzir os animais bravos ao curro, após o que se seguiu o almoço, que para os forasteiros constituiu um animado convívio, degustando frangos assados ou outros petiscos, sob frondosas sombras das árvores, nos restaurantes da redondeza ou nas roulottes dos que ali «acamparam» para ver a capeia.
De tarde, às 5 horas em ponto, teve início a capeia, precedida pela cerimónia protocolar do «passeio dos rapazes». Os toiros saíram endiabrados dos curros e investiram fortemente no forcão, bem seguro e dirigido pelos capeadores da terra. As pessoas apinharam-se nas calampeiras, para assistir ao espectáculo. A praça improvisada no largo da aldeia não era porém suficiente para albergar a grande quantidade de gente, que se espalhava pelas ruas e largos fronteiros, bebendo e convivendo.
Após a tourada fez-se o «desencerro», com os cavaleiros conduzindo os toiros de volta para o campo, enquanto a festa continuou a animar Aldeia Velha pela noite dentro.
Para o ano haverá mais capeias na raia sabugalense e Aldeia Velha marcará de novo o fim da época taurina com igual, ou até maior, enchente de povo.
plb

No dia 16 de Agosto, foram inauguradas na Miuzela as instalações definitivas da Associação de Cultura Prof. Dr. José Pinto Peixoto, insigne cientista natural dessa freguesia do concelho de Almeida. Coube ao escritor e investigador Célio Rolinho Pires, natural de Pêga, proferir no acto uma conferência, que nos transmitiu e que publicamos na integra, embora, dada a sua extensão, dividida em três textos que publicamos em dias sucessivos.

Ao ser convidado pelo Sr. Major General Augusto José Monteiro Valente para uma sessão de «apresentação da minha obra e de esclarecimento sobre as sepulturas do Porto Mancal e das Eiras Velhas, seu valor histórico e interpretação», «no âmbito do programa de actividades respeitantes à inauguração das instalações definitivas da Casa de Cultura Pinto Peixoto e celebração do 90-º aniversário do nascimento do seu patrono…», devo confessar-vos, com toda a franqueza, o que na altura senti: surpresa, porventura alguma perplexidade e até, porque não dizê-lo, um certo embaraço. É que, se o convite me honra, e honra com certeza, aceitá-lo, assumi-lo, responsabiliza e compromete. E isso mexe por dentro! Afinal, e por pouco, já que aceitei o convite, que agradeço, a situação em que eu me encontro neste momento, se pensarem bem, não é nada cómoda porque embora vosso vizinho e quase conterrâneo, pois sou de Pêga, eu não sou de cá, e todavia, mercê das circunstâncias, vejam bem, aceitei vir aqui para vos falar de coisas que vocês conhecem, estou em crer, muito melhor que eu, seja, o Porto Mancal, as Eiras Velhas, o caminho dos Mortórios, o Barreiro, a ribeira do Noémi, etc, etc. Chama-se a isso meter a foice em seara alheia e isso não vale! Talvez, no entanto, assim o espero, eu possa sair um pouco redimido, se atendermos à maneira como eu, a partir de certa altura, comecei a olhar para estas coisas… Mas isso já não é comigo.
Como já disse, eu sou de Pêga e a Miuzela, como referência, faz ainda hoje parte das minhas memórias antigas! É que, junto ao Carvalho milenar que ainda hoje lá está no largo do mercado de Pêga, havia sempre uma taberneira, acho que era a Ti Lourdes, que assentava arraiais em um caracão de pedra onde os lavradores conversavam, discutiam e bebiam e o cheirinho do trigo de quartos da Miuzela a «rescender», como diria Eça de Queiroz, e que dispensava bem qualquer tipo de peguilho, foi coisa que me ficou para sempre. Verdade! Coisas tão simples, vejam bem, como uma noz, uma castanha fora de época, um figo seco, um rebuçado, uma bola mal finta… A escolha do local pela Ti Lourdes não era ocasional: estava-se a meio do mercado do gado e, como é sabido, negócio fechado, alboroque celebrado… Mas também, e ao longo da minha vida, consegui e tenho aqui ainda bons amigos que aproveito para cumprimentar. Evoco também, se me dão licença, a memória do meu amigo César Falcão que já não está entre nós.
Posto assim perante o facto consumado de ter aceite, e ainda antes de entrar na ordem do dia pelo que a mim diz directamente respeito, deixem que eu de forma sucinta e despretensiosa, preste a minha homenagem muito sincera ao vosso conterrâneo, Prof. Dr. José Pinto Peixoto, que dá o nome à vossa Associação de Cultura, que não cheguei a conhecer, mas de quem muito ouvia falar já nos meus tempos de Faculdade, aí pela década de 60, altura em que terá sido, penso, vice-reitor da Universidade de Lisboa. Já ao tempo era sem dúvida motivo de honra e de orgulho não só para os miuzelenses, mas também para todos os beirões confinantes e vizinhos deste espaço étnico-culturalmente homogéneo na margem esquerda do Rio Coa, que «grosso modo» se desenha desde o Rio Noémi até às nascentes do Coa, e que as vicissitudes da História ajudaram a construir e a cimentar. As qualidades humanas do Prof. Pinto Peixoto, tais sejam, a simplicidade, a popularidade, a simpatia, o bairrismo, o amor à sua terra, de que muito tenho ouvido falar, juntamente com os seus predicados ao nível da ciência que fizeram dele um dos mais conceituados geofísicos e meteorologistas, sendo mesmo pioneiro ao nível do estudo do ciclo da água à escala global, fizeram dele um verdadeiro modelo e paradigma a imitar sobretudo pelos mais novos e a merecer a estima e o respeito de todos nós. Esta é assim uma reunião de beirões que aqui se juntaram, na Miuzela, para homenagear um dos seus pares, porventura o mais ilustre e representativo da sua terra em sentido lato.
O beirão, como diz Miguel Torga, no seu livro «Portugal», é um ser muito especial capaz de lá longe, América, Canadá, França…dirigir os destinos da sua terra como presidente ou secretário da junta de freguesia, para não falar, acrescentaria eu, dos que, à distância, orientam e coordenam as Irmandades dos Mortos e as mordomias do orago e de outros santos do lugar. A Beira, esta nossa Beira, é uma terra vera, verdadeira, autêntica, vestida de luto na paisagem e nas roupas dos homens e das mulheres que a habitaram e habitam. O fato do casamento haveria de ser guardado religiosamente para a mortalha, como sabemos. Não será por acaso que, por aqui, ao cemitério se chama ainda a «terra da verdade». E nós sabemos que é! Foram, sem dúvida, as vicissitudes da História, as dificuldades, as lutas com o invasor, a morte, para não falar da avareza do solo povoado de pedras enigmáticas, austeras e sombrias que fizeram desta gente o que ela é na verdade – uma gente sóbria, de poucas falas, amiga do seu amigo, pouco dada a fanfarronices ao jeito dos arraiais minhotos, com o devido respeito…
Guardarei a temática das Pedras e do Porto Mancal lá mais para o fim, se me dão licença. Deixem então que vos fale de outras coisas que me parece terem sido igualmente importantes, mesmo decisivas, para a formação da nacionalidade, ainda antes do acerto das fronteiras por D. Dinis em 1297, com o Tratado de Alcanizes. Só que talvez menos badaladas… É que, se Guimarães foi o berço da nação, as terras de Beira-Coa foram sem dúvida esquife para muitos dos nossos antepassados…
Chamei há pouco a atenção para as afinidades de ordem étnico-cultural e de boa vizinhança sobretudo entre os povos da margem esquerda do Coa, seja, Miuzela, Cerdeira, Peroficós, Marmeleiro, Rapoula, Pêga, Pousafoles, Vila do Touro, Malcata…mas também com os povos do lado de lá, embora em momentos diferentes da nossa história. Que mais não seja, a título de curiosidade, vejam no vosso livro «Miuzela, a Terra e as Gentes» da autoria do homenageado, Prof. Pinto Peixoto, página 208, a série de castelos, redutos, atalaias, vigias, castros, etc, que povoavam todo este nosso espaço com vista à defesa do território e das populações! Alguns exemplos apenas: Miuzela, para começar, Vila Fernando, Cerdeira, Águas Belas, Sortelha, Vila do Touro, Rapoula, etc, do lado de cá…mas também Caria Talaia, em frente à Rapoula, Ruvina, Sabugal, Vilar Maior, Bismula, Alfaiates, do lado de lá… Só que, e até 1297, por razões óbvias, estas fortificações, de um e do outro lado do Coa, eram, evidente, de sinal contrário, já que os de cá defendiam-se dos de lá, e os de lá dos de cá… Mesmo assim, o Cancioneiro do Alto-Coa cujas quadras, muito antigas, da idade dos étimos, estou em crer, os tocadores cantavam e tocavam nos mercados e à Ronda, aí está ainda a denunciar o que foi a unidade e o movimento solidário das populações que através do lúdico e do humor, revelam bem o que terá sido assunto bem sério em termos de história, de luto e de luta, e de sofrimento…
Apenas alguns versos:
Lagartixos os de Sortelha
Carrapatos os da Bendada
Borrachões os de Pousafoles
Falupos os de Penalobo
Cornudos os do Monte Novo
Espreita-ratos os do Ruivós,
Ceboleiros os de Peroficós
Cerdeira curtos de vista
Tocam armas em Malcata
Cães de fila os do Sabugal…
Etc, etc, etc….

Célio Rolinho Pires

O «milagre económico» da China passou por milhões de prisioneiros tanto de delito comum, como políticos, enormes Gulags onde esses prisioneiros trabalharam de sol a sol e sem salário, contribuíram para o aumento das exportações chinesas.

António EmidioE donde veio a maior parte dos empresários chineses? Eram os directores desses campos de concentração! No tempo de Mao Tsé-Tung os campos de concentração serviam para os dissidentes aceitarem o sistema ou morrerem. Actualmente são empresas que se pagam a elas próprias exportanto produtos manufacturados pelos presos, não é por acaso que a maior parte das prisões e campos de concentração se encontram numa província do Sul da China, zona onde começou a Revolução Industrial Chinesa.
As autoridades chinesas mantêm a maior discrição no papel económico desempenhado pelas prisões, porque o seu principal importador, os Estados Unidos, proíbem a importação de produtos manufacturados por prisioneiros. Alguns destes campos de concentração têm mais de sessenta mil prisioneiros, tanto de delito comum como políticos. O leitor(a) já viu o que é uma fábrica com sessenta mil operários trabalhando catorze horas por dia, sete dias por semana e sem ter de pagar salários? E todo aquele, que devem ser centenas, que não consegue os objectivos é condenado a trabalho extra às horas das refeições.
Uma empresa ocidental, produtora de vinho, tem enormes vinhas na China onde trabalham prisioneiros chineses, e todo aquele prisioneiro que por qualquer motivo desobedeça minimamente aos guardas é amarrado nu a um poste no meio de uma vinha ao anoitecer. Em pouco tempo está coberto de mosquitos, a única coisa que consegue fazer é gritar… Os directores dos campos de concentração são treinados nas celebérrimas técnicas do Marketing do Ocidente, para as exportações terem sucesso. E os corifeus da comunicação social chinesa não se coíbem de dizer: «temos uma vantagem comparativa. Graças à nossa grande população prisional temos acesso ao grande potencial que representa uma fonte de trabalho muito barata».
A União Europeia ainda há bem pouco tempo não tinha legislação que proibisse a importação de produtos fabricados em campos de prisioneiros, não sei se já tem, mas uma coisa é certa, tenha ou não tenha, muitos desses produtos, para não dizer a maior parte, são vendidos em lojas chinesas nas nossas cidades e nos bairros onde habitamos.
Os grandes capitalistas conhecem as condições laborais infra-humanas que existem na China, mas isso não impede que muitas multinacionais transfiram para lá uma parte considerável dos seus produtos com o único objectivo de reduzir gastos e poder competir melhor nos mercados. Ganância! Só ganância…

Querido leitor(a), a diminuição no valor dos salários dos trabalhadores europeus tem a ver com a concorrência dos «escravos» chineses. Receio que a Europa se transforme num enorme Gulag debaixo das ordens da Alemanha.
«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

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