Não deve haver terra nenhuma em Portugal em que os nomes que se davam dantes às crianças sejam matéria tão abstrusa como no Casteleiro. Tudo porque quer os padres, que dantes eram quem registava os nomes, como depois um delegado da Conservatória do Registo Civil com essa tarefa, seguiam caminhos ínvios. O resultado é o que se vê.

No Casteleiro, acho que ninguém jamais se preocupou verdadeiramente com isto, mas é matéria algo estranha para mim desde que me conheço.
Isso porque era até para mim fácil reconhecer grandes discrepâncias entre os nomes de irmãos em várias casas que conhecia.
Dou só um exemplo bem real:
Pai
Joaquim Augusto Catana.
Filhos
Vejam a disparidade e irregularidade de cada caso:
– José Augusto,
– Manuel Joaquim,
– António Catana,
– Augusto Catana.
(Sic: exactamente assim. Não inventei nada).
Como se vê, uns levam uma parte dos apelidos do pai, outros, nem isso. Manuel Joaquim é aquele que mais se afasta de todos os cânones, de qualquer regra. Uma pessoa receber apenas dois nomes próprios comuns e nenhum apelido de família é obra.
Isso deve ter-se passado há uns 80/90 e poucos anos (1920/30 e pouco).
E note que nenhum deles teve direito a qualquer nome de família da parte da mãe…

Nome próprio e apelido
Para nós hoje é fácil: “A escolha do nome próprio e dos apelidos do filho menor pertence aos pais; na falta de acordo decidirá o juiz, de harmonia com o interesse do filho” – artigo 1875.º, n.º 2 do Código Civil.
Mandam as boas normas que «os apelidos são escolhidos entre aqueles que os pais usem».
Mas noutros tempos como era?
Ao que sei, outra gente se metia nesse assunto: pelo menos o pároco e o tal delegado.
O resultado foi o que está à vista.
É rara a casa em que as regras foram seguidas.
E ninguém se preocupou nunca com isso.
Os miúdos ou levavam só o apelido da mãe ou só uma parte do apelido do pai.
O delegado chegava a impor que se a criança levava por exemplo o nome próprio José, igual ao do pai, então já não podia levar o apelido do pai pois «não podia ir duas vezes ao nome do pai». E aí ficava outro nome «coxo».
A minha geração deve ter sido a última mais «marcada» por estas anomalias.
A partir dali (1950) parece que as coisas entraram mais nos eixos.
Mas aí estamos hoje nós todos com estes fardos (nem leves nem pesados, mas que podiam bem ter-se evitado).
Se assim tivesse acontecido, o meu pai ter-se-ia chamado pelo menos José Augusto Catana e eu José Carlos Mendes Augusto Catana ou coisa no género – com ou sem o Augusto, admito, e ainda faltando o nome de família da minha avó, que não aparece no nome de ninguém lá de casa….

Nota
A pia baptismal que se publica não é a do Casteleiro – mas é idêntica.

Trouxe aqui apenas os exemplos do meu próprio nome e da minha família, pela via paterna, para que não haja dúvidas nem incómodos para ninguém.

PS 1
Era no baptismo que se fixava o nome das crianças. Conta-se até este diálogo já na pia baptismal do Casteleiro:
Padre:
– Que nome lhe pomos?
Mãe:
– Prantelhana, sr. Vigário.
Padre para o pai:
– O que é que ela disse?
Pai:
– Pescana, sr. Vigário.
Ana – era o nome que queriam. Só isso: Ana.

PS 2
Esta semana aprendi mais uma crendice popular da minha terra. Desconhecia por completo. Sei que há quem aprecie estas notas e por isso vou partilhar mais esta, que nunca tinha ouvido.
Já ouviram a expressão «bicho do ouvido»? Pois bem, soube agora que quando o bicho do ouvido mexe quer dizer que vai mudar o tempo. Isto foi-me contado depois de… uma mudança de tempo neste Agosto: o bicho do ouvido tinha mexido e zás: mudou o tempo…

«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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