Aqui há um par de meses, a imprensa espanhola e europeia em geral «crucificou» o rei Juan Carlos I devido a um acidente que ele sofreu durante a participação numa caçada aos elefantes. Todavia, se as razões de ordem ecológica eram óbvias, existia por trás uma outra questão, esta de ordem ética: o rei encontrava-se acompanhado por uma alegada amante. Uma das muitas que a imprensa «cor-de-rosa» lhe costuma atribuir.

D. João V, rei de Portugal (1706-1750). Foram bem conhecidos dos seus contemporâneos os amores do Rei Magnânimo por uma freira de Odivelas, a Madre Paula, a quem instalou, com os três filhos bastardos que dela teve, no Palácio de Palhavã

Adérito Tavares - Na Raia da MemóriaMuitos dos meus leitores lembrar-se-ão, por certo, de um caso semelhante, que envolveu o antigo presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton e uma jovem estagiária da Casa Branca, caso que chegou às mais altas instâncias do Poder americano. O bom-senso acabou por levar os senadores americanos a pôr um ponto final no folhetim. Na sociedade romana, os «senatores» eram os cidadãos nobres mais velhos e conceituados, supostamente os mais avisados, prudentes, sábios e sensatos. Infelizmente, antes como hoje, nem sempre isso acontecia. Muitos senadores romanos eram o protótipo antecipado do Frei Tomás: «Fazei o que ele diz, mas não o que ele faz.» E as denúncias sensacionalistas do jornalismo tablóide têm mostrado que alguns dos julgadores americanos também têm telhados de vidro. As pedras que, hipocritamente, atiravam sobre a Casa Branca, fizeram ricochete e estilhaçaram os seus próprios telhados.
Ninguém veja nas minhas palavras a desculpabilização do comportamento do Presidente Clinton e, do mesmo modo, do rei de Espanha. Na minha modestíssima opinião, eles agiram mal antes, durante e depois dos factos. Mas isso é uma questão, e o aproveitamento político e jornalístico do caso é outra.
Ao tempo da «lewinskyzação» da política americana, o histerismo sobre a vida privada dos políticos mostrava um sinal exterior de uma mentalidade puritana, que aparecia, aos olhos de qualquer europeu com milhares de anos de civilização às costas, como que um infantilismo histórico. Vejamos apenas alguns exemplos tirados dessa história europeia secular, cheia de casos tão ou mais explícitos que os de Clinton ou de Juan Carlos I.
Poderíamos falar de César e Cleópatra, ou de Calígula e as suas bacanais, ou da imperatriz Messalina, que parece ter hospedado no seu leito mais homens do que os que cabiam na arena do Coliseu; ou de Luís XV e a Pompadour. Ou de muitas rainhas e princesas que também não deixaram os seus créditos por mãos alheias: Catarina da Rússia, que preferia cossacos espadaúdos cheirando a vodka; ou Paulina Bonaparte, irmã de Napoleão, que, depois de se divorciar do general Leclerc, casou com o Príncipe Borghese, membro da mais alta aristocracia italiana, mas que vivia separada do marido porque este se envergonhava do seu comportamento libertino e licencioso. Poderíamos começar por tudo isso, mas comecemos antes pela nossa própria História.
São muito raros os reis de Portugal que não tiveram amantes. Abundam os bastardos e alguns deles até se tornaram reis, como acontece com D. João I, filho ilegítimo de D. Pedro I. Os casamentos régios eram geralmente uniões políticas, combinadas entre as casas reinantes da Europa, e só por sorte a um príncipe podia calhar uma princesa por quem viesse a sentir verdadeiro amor. Tanto lhe podia calhar em sorte uma mulher bela, sensível e bondosa (como parece ter acontecido com D. Dinis e D. Isabel, a futura Rainha Santa), como lhe podia sair uma mulher agreste e de pêlo na venta (como aconteceu com D. João VI e D. Carlota Joaquina). Portanto, nada de admirar que, cumprida a obrigação de assegurar descendência legítima, os monarcas procurassem outros leitos. É verdade que a religião condenava o adultério, mas havia sempre um confessor disponível para aliviar as consciências. E os reis sempre trataram bem os seus bastardinhos, nobilitando-os e doando-lhes vastas propriedades. O já citado D. João I, apesar de casado com a virtuosa e culta D. Filipa de Lencastre, não deixou de ter as suas aventuras extra-conjugais. De uma delas nasceu D. Afonso, que ele faria conde de Barcelos e duque de Bragança. Este D. Afonso, que casou com D. Brites Pereira, filha de D. Nuno Álvares Pereira, encontra-se ainda na raiz de outra das mais antigas famílias aristocráticas portuguesas, a Casa de Cadaval. E, para além disso, está também na origem da dinastia de Bragança. Duas das dinastias portuguesas tiveram, portanto, origem bastarda. E, se virmos bem, até a primeira: D. Afonso Henriques era filho de D. Teresa, ilegítima de Afonso VI de Leão e Castela. E isso que importância tem? Nenhuma.
O segundo rei de Portugal, D. Sancho I, teve 19 filhos, 11 legítimos, da rainha D. Dulce, e 8 bastardos, de várias mulheres. O próprio D. Dinis (casado com uma santa, como acima se diz!), também teve os seus amores mais ou menos clandestinos, dos quais nasceram 6 bastardos. Quanto a D. Pedro I, é bem conhecida a sua paixão extra-conjugal, avassaladora e trágica. Casado com D. Constança, viria a tomar-se de amores por uma das suas damas de companhia, a castelhana Inês de Castro, de quem teve três filhos. Já depois do assassinato de D. Inês (em 1355), D. Pedro teria ainda, de uma dama chamada Teresa Lourenço, mais dois bastardos – o já referido D. João, Mestre de Avis e futuro rei D. João I, e uma menina, D. Brites ou Beatriz. E consta até que este nosso rei D. Pedro, chamado o Cru ou o Cruel, demonstrou igualmente o seu apreço por alguns dos jovens pajens que o rodeavam.
Poderíamos multiplicar os exemplos. Ainda na história de Portugal, demos apenas mais um, o de D. João V. A rainha que lhe destinaram era uma austríaca frígida e friorenta, D. Maria Ana de Áustria, que, segundo conta José Saramago no Memorial do Convento, o fazia suar abundantemente debaixo de edredons de penas, enquanto se esforçava por garantir a sucessão ao trono. Logo que Nosso Senhor lhe deu descendência suficiente (e pela qual construiu, em troca, o próprio Convento), D. João V tratou de procurar amores mais ardentes. (Por alguma razão, no Palácio-Convento de Mafra, o quarto do rei e o quarto da rainha estão separados por um corredor com mais de 200 metros de comprimento!) Esses amores encontrou-os o Rei Magnânimo nos braços de uma freira de Odivelas, a célebre Madre Paula, de quem teve três bastardinhos. Instalou-os, juntamente com a mãe, no Palácio de Palhavã, em Lisboa, onde hoje fica a Embaixada de Espanha. Por isso, os infantes eram chamados os «meninos de Palhavã». Um deles viria a ser arcebispo de Braga e o outro Inquisidor-Mor do Reino. Como vê, leitor, em Portugal a bastardia régia nunca impediu ninguém de voar bem alto.
Na aristocrática e tradicionalista Grã-Bretanha não faltam também exemplos de amores ilícitos ao mais alto nível. Sem ser preciso recuar às tragédias históricas shakespeareanas, basta lembrarmos dois ou três casos relativamente recentes, a começar pela moralista rainha Vitória (1819-1901). Tendo subido ao trono muito jovem, com apenas 18 anos, casou em 1840 com um homem que muito amou, o Príncipe Alberto de Saxe Coburgo-Gotha. Teve um indiscutível e enorme desgosto quando enviuvou precocemente, em 1861. Durante alguns anos encerrou-se num luto puritano e obcecado, quase exigindo que o Reino inteiro partilhasse com ela esse luto. Era tão intransigente e rigorosa com os comportamentos e as aparências que ainda hoje aplicamos o adjectivo «vitoriano» a uma pessoa moralista e recatada. Pois bem: a moderna história da vida privada ainda não esclareceu suficientemente as relações que a rainha Vitória manteve com um inseparável mordomo escocês e, mais tarde, com um criado de origem indiana, com o qual viajava para onde quer que fosse. Mas tudo leva a crer que o comportamento da viúva rainha Vitória não seria lá muito «vitoriano».
Também o seu herdeiro, Eduardo, príncipe de Gales e futuro rei Eduardo VII, teve uma vida recheada de aventuras galantes, que já deram lugar a filmes e séries televisivas. Eduardo VII passou uma eternidade à espera do trono (como está a acontecer, aliás, com o actual príncipe de Gales). A rainha Vitória morreu com 82 anos e Eduardo VII já tinha 60 quando subiu ao trono, em 1901. Entretanto, enquanto esperava, foi aproveitando bem o tempo. Embora casado com a princesa Alexandra da Dinamarca, teve sempre amantes mais ou menos oficiais ou oficiosas, tendo uma especial predilecção por actrizes (o nosso rei D. Luís também tinha um fraquinho por bailarinas e cantoras espanholas). Um dos amigos íntimos de Eduardo VII foi o marquês de Soveral, diplomata português em Londres. Sabe-se que o marquês de Soveral era muito discreto e eficiente na forma diplomática como preparava os encontros amorosos do príncipe de Gales. Era, se quiséssemos usar uma linguagem vicentina, uma espécie de alcoviteiro-mor do herdeiro do trono britânico.
Não falemos, porque seria pouco «caridoso», dos amores e desamores do actual herdeiro do trono de Inglaterra. Lembremos apenas que, bem perto de nós, François Miterrand manteve, em todo o tempo em que foi Presidente da República francesa, duas mulheres e duas casas, uma a oficial e outra a secreta, situação que só assumiu publicamente quando se encontrava próximo da morte.
A vida privada dos políticos, particularmente a sua vida sexual, na Europa, raramente foi motivo para a sua exclusão do poder. E até mesmo o rei Eduardo VIII de Inglaterra, que foi forçado a abdicar do trono em 1936, quando se apaixonou pela americana divorciada Sra. Simpson, sabe-se hoje que foi mais devido às suas simpatias pró-nazis do que ao seu casamento. Ao contrário do que se passa na América, a velha sabedoria dos europeus tem-nos levado a relativizar as fraquezas humanas, sobretudo as fraquezas da carne, e a valorizar as capacidades políticas, intelectuais e humanas dos governantes. Foi talvez por isso que o antigo chanceler conservador alemão Helmut Kohl declarou aos jornalistas que a novela Clinton-Lewinsky apenas lhe «dava vómitos».
Concluamos esta crónica com uma citação de «O Príncipe», de Nicolau Maquiavel: «Não é necessário a um príncipe possuir todas as qualidades, mas sim parecer possuí-las.»
«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares

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