O tempo passa depressa. Já lá vão três anos, que o Padre Francisco dos Santos Vaz deixou o mundo dos vivos. Neste terceiro aniversário o meu objetivo é relembrar, avivar a sua memória. Sabemos que há tendências para esquecer aqueles que nos são próximos, os nossos familiares, os nossos amigos, muitas vezes aqueles que nos ajudaram a crescer em todas as amplitudes humanas e sociais. Para combater essa vertente aqui estou novamente a escrever, porque há pessoas que pelo seu caminhar ao lado de comunidades, de sentirem e apontarem injustiças, não devem ficar nos baús do esquecimento. O Padre Francisco dos Santos Vaz não pode, não deve ser ignorado.

Com ele, partilhámos diversas atividades lúdicas na terra que nos viu nascer – A Bismula – Sabugal.
Com ele, partilhámos idas a Almedilha, terra fronteiriça de Castela, onde na casa «d´el Cura» tomávamos o pequeno-almoço. Ofertava-nos lindos selos que coleccionávamos em uso naquele país. Ainda nos ajudava para que as autoridades (os terríveis carabineiros franquistas), não nos «roubassem» uns pães, uns doces – as galhetas –, uma bola de borracha de futebol, umas sapatilhas e um ou outro livro religioso.
Com ele, partilhámos as idas e estadias no Rio Coa, nas margens de Badamalos, na propriedade de António Joaquim Morgado Leal. Com outros companheiros, pescávamos peixes, refrescávamo-nos, cozinhávamos, enfim, passávamos momentos maravilhosos de entretimento, fazendo parte deste grupo o actual Pároco do Sabugal – Padre Manuel Igrejas. Ainda no passado dia oito de Agosto, na renovada Igreja de Badamalos, na Celebração das Bodas de Oiro do Padre Agostinho Crespo Leal, e no Encontro Anual dos Sacerdotes da Diocese de Évora da Zona Raiana, te recordámos com saudade e rezámos.
Padre Francisco Santos VazCom ele, partilhámos na casa de seus pais, Albertino Vaz e Maria d’Ascensão Leal, o pão repartido, as refeições que fumegavam nas panelas de ferro, aquecidas à lareira, e alojamento à luz da candeia porque a luz elétrica ainda era uma miragem.
Com ele, partilhámos milhares de quilómetros à boleia quando éramos jovens estudantes, ficando mais conhecedores do património nacional.
Com ele, partilhámos cultura quando nos deslocávamos às ruinas romanas de Tróia, aproveitando para umas idas à praia com o mesmo nome, quando esses locais eram do Povo, as salgadeiras, onde os romanos guardavam o melhor peixe de Setúbal.
Com ele, partilhámos conhecimentos de línguas clássicas, grego e latim, onde era mestre, além de dominar o francês, o inglês e o alemão, sem esquecer a língua portuguesa com provas dadas no Ensino Secundário, no Jornal «O Nordeste» e nos livros de sua autoria.
Com ele, partilhámos a amizade dos meus pais e meus irmãos, que viam, no Francisco dos Santos Vaz um filho e irmão mais velho, culto e sabedor.
Francisco dos Santos Vaz, escrevi-te este pobre e simples texto, para que sejas recordado, para que ninguém afirme que já te não conhece na Bismula. Sabes que há muita gente que tem a memória muito curta. Esquecem-se facilmente aqueles que fizeram história, semearam e ensinaram cultura, apregoaram valores e foram sacerdotes ao serviço do amor e da proximidade, nas aldeias dos outros e na sua terra natal.
Francisco dos Santos Vaz, em tua homenagem e para que nunca sejas esquecido «cantarei sempre até que a voz me doa».
António Alves Fernandes – Aldeia de Joanes

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