Passei a primeira quinzena de junho a pensar na viagem de fim de ano. A véspera já foi, para mim, um dia eufórico. Mal dormi a última noite. Acordei, no dia da saída, muito mais cedo do que era preciso. Viajar da serra ao mar era um acontecimento demasiado importante para poder ser calmo.

Praia Figueira da Foz

Fernando Capelo - «Terras do Jarmelo»Ainda hoje consigo descrever o meu vestuário daquele longínquo dia. Vestia uns calções verdes. A camisa era de manga curta e muito mais verde que os calções. As sandálias eram castanhas assim como eram acastanhadas as meias que me afagavam os joelhos. O boné que encimava a minha frágil silhueta infantil era também, em tom castanho e, sobre a pala, na parte frontal, mostrava bordada, uma estrela cor de ouro.
No dia da excursão não iria vestir a bata branca que levava diariamente para a escola. Aliás, nunca gostei de usar tal bata. Ela impedia-me não sei bem de quê. Inibia-me os movimentos. Via-me preso e estranho dentro dela. Adorava os domingos por diversos motivos mas, principalmente, por não ser obrigado a usar bata. No dia da visita de fim de ano não vestiria bata apesar de não ser domingo.
Em casa ficaria a pasta castanha, afivelada de amarelo dourado. Essa sim, adorava levá-la para a escola. Ninguém tinha uma pasta igual à minha. Meu pai tinha-ma oferecido após uma das suas viagens ao Porto. Meu pai negociava em madeiras e deslocava-se mensalmente ao Porto transportando, em camionetas pesadas e lentas, enormes troncos de carvalho. Dizia-me que dos troncos se faziam pipas para o Vinho do Porto e eu achava que devia ser fácil fazê-las porque os troncos já quase pareciam pipas. Mas, naquele dia, em vez da pasta das fivelas douradas levei uma sacola de alça cuja origem se perdeu na minha memória. Deitei-a ao ombro. Dentro ia o lanche. Levei pão com queijo, uma garrafa de refrigerante que sabia a laranja e várias bolachas embrulhadas num guardanapo de pano azul. Levei também uma daquelas bananas tão amarelas que pareciam torradas. Minha mãe comprava-as ao merceeiro ambulante. Numa minúscula carteira, feita de um cartão que imitava muito mal o cabedal, guardei algumas moedas que meu pai me deu. Somadas, perfariam a quantia de vinte e cinco tostões.
Quando cheguei à escola, de manhã, pela mão da minha mãe, já o motor do autocarro rufava em frente à porta expelindo fumo negro. Muitos dos meus colegas já observavam e rodeavam a camioneta. A senhora professora já tinha chegado e quando deu ordem de entrada empurrámo-nos uns aos outros. Depois corremos por dentro do autocarro em busca de um lugar à frente ou, pelo menos, junto à janela como se essa procura fosse a coisa mais importante daquele dia.
Era quase Verão e, fora da camioneta, cheirava a fumo e a gasóleo queimado. Por dentro havia um cheiro quente e enjoativo. Julgo que cheirava a bancos de napa.
Durante o caminho a senhora professora fez muitas explicações, contou-nos muitas histórias e nós também cantámos muitas canções até chegar à Figueira da Foz, frente ao mar.
À chegada saímos atabalhoadamente do autocarro e corremos todos para a praia. A extensão ondulante e o azul marinho inebriavam-me. Depois, segundo as orientações da senhora professora, que a custo se conseguia impor, caminhámos na areia fininha juntinho à água. O mar tinha um odor novo, fresco, húmido e agradável. De mãos dadas, seguimos, na longa praia, mais de quinhentos metros junto à espuma das ondas. A água e a cor azul, o som, o movimento, a brisa e a humidade transcendiam-me.
Ouvi tudo quanto a senhora professora nos explicou. Ela falava-nos, na entoação que muito bem lhe conhecíamos, do mar, de sal, de lágrimas salgadas, de descobertas e também de peixes e pescadores. Acreditei, piamente, em tudo o que ela disse.
Eram precisas mais de mil palavras para descrever o que significou, para mim, estar ali, naquele lugar, solenemente, perante o mar.
O meio dia apanhou-me de surpresa mas, logo junto à água, sacámos das merendas e almoçámos. A seguir, despedi-me do mar, emocionado e tive, talvez pela primeira vez na vida, saudades do presente.
Iniciámos o regresso. Recordo o caminho do retorno. Com espanto e com emoção passei por Coimbra. A professora disse-nos, enigmaticamente, que era a cidade dos doutores. Admirei o movimento de peões e automóveis, estranhei os elétricos a rolar nas calhas, observei estudantes de capa e batina e vi, apenas por fora, a universidade.
Regressei a casa transportando comigo um mar que guardei até hoje na memória e… também na alma.
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

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