Segundo um artigo de Manuel António Pina, publicado no Jornal de Notícias em 23 de Julho passado, parece que um dos «homens de negro» que nos visita de tantos em tantos meses «sugerindo» ao governo o caminho que a economia e a política portuguesas devem seguir, para «bem» dos portugueses, disse que em Portugal «as pessoas são boas». Também Sua Excelência o Senhor Presidente da República afirmou que a «imprensa é muito suave». Estas as razões pelas quais os portugueses não se revoltam devido á actual situação económica.

António EmidioUma coisa é certa, devíamos protestar mais porque nos tiraram a soberania e estão a empobrecer-nos. Os protestos são débeis, tudo não passa de uma manifestação da CGTP de tantos em tantos meses, e de uma greve geral, que de geral tem pouco. Porquê só isto?
Em primeiro lugar tudo se deve a uma «sonolência» da sociedade portuguesa, causada por uma manipulação mental e psicológica, a televisão lixo, o futebol, as novelas e o consumismo desenfreado que a leva a comprar e a acumular mercadorias. Essa manipulação mental vê-se nisto, tenho visto quase todos os dias (propositadamente) quais são as notícias mais lidas num jornal nacional de grande tiragem, aí estão: «Filha de Alexandra Lencastre já namora» – «Mourinho ameaçou e insultou casal espanhol» – «Ronaldo quer Paris Hilton na inauguração da sua discoteca» – «A saia transparente da princesa Letizia». Mais palavras para quê?
Em segundo lugar vem o maniqueísmo político, resultante um pouco da ignorância e muito de uma «orientação» da comunicação social, leva isto a ver as anomalias do partido que está a governar, mas não as causas dessas anomalias, sendo assim, o partido que está na oposição faz o mesmo quando chegar ao poder, sendo depois criticado pelo que de lá saíu por fazer as mesmas coisas que este. Estabelece-se um ciclo infernal que leva as pessoas a afastarem-se da política e até das urnas. Este alheamento afasta da revolta, deixando o caminho livre aos governantes para entregarem a soberania económica e política de Portugal às potências estrangeiras. Leva este maniqueísmo também ao clientelismo político, este clientelismo arruinou Portugal, e continua a arruiná-lo.
Em terceiro lugar vem o medo, medo íntimo deixado por quarenta anos de ditadura. Este medo íntimo está a tomar grandes proporções na medida em que o Estado Neoliberal que presentemente temos, mas que já vem de alguns anos, possui cada vez mais dados sobre a nossa vida, as nossas conversas telefónicas, as nossas amizades, e as nossas ideias políticas e religiosas, já tudo sabe da nossa privacidade. Isto causa medo porque faz lembrar o Estado Policial. A Razão Democrática está anulada pela Razão de Estado! E a Razão de Estado é uma coisa muito elástica, chega a maior parte das vezes onde não deve…Chega ao emprego, e isso causa medo. As leis laborais também servem para afastar as pessoas das revoltas, mas pode ser que tenham um efeito contrário ao que eles pensam…
Estas as razões que eu vejo para a nossa «bondade». A Espanha, a Grécia e a Itália passam pelo mesmo, mas são realidades sociais, culturais e políticas diferentes de nós.
Como dizia Sua Excelência, «A imprensa é muito suave», pudera! Está do lado dos que têm depositado em Paraísos fiscais 21 biliões de dolares!!! (este dinheiro todo, como é natural não corresponde só aos exilados fiscais portugueses, era dinheiro a mais…).

Termino com o que li num cartaz durante uma manifestação em Espanha: «Um cidadão f… a quem não podem f… mais, é um cidadão muito f.. de controlar».
«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

ant.emidio@gmail.com

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